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Oração de Nietzsche: Ao Deus desconhecido

01/04/2011

Muitos só conhecem de Nitzsche a frase “Deus está morto”. Não se trata do Deus vivo que é imortal. Mas do Deus da metafísica, das representações religiosas e culturais, feitas apenas para acalmar as pessoas e impedir que se confrontem com os desafios da condição humana. Esse Deus é somente uma representação e uma imagem. É bom que morra para liberar o Deus vivo. Mas não devemos confundir imagem de Deus com Deus como realidade essencial. Nietzsche estudou teologia. Eu pude dar uma palestra na Universidade de Basel na sala em que ele dava aulas, quando fui professor visitante em 1998 lá. Essa oração que aqui se publica é desconhecida por muitos, até por estudiosos do filósofo. Por isso no final indico as fontes em alemão de onde fiz a tradução. No original, com rimas, é de grande beleza. LB

Oração ao Deus desconhecido

Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.

        Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servi-Te.

u quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.

Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Lyrisches und Spruchhaftes (1858-1888). O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994.

29 Comentários leave one →
  1. Leonardo RCP Link Permanente
    01/04/2011 15:23

    Tem no youtube um audio do sr. intitulado de Tempo de Trancendência, muito bom, com a mesma oração, vale a dica;

    http://app.crea-rj.org.br/cme/CMS.fatto?idSecao=A51D9C54-D38B-0C49-81DD-7A9CEB984F5C&funcao=verVideo&idMateria=67042CF9-7498-2A8A-17DE-EF86D2023EE6

    Agradeço ao sr pela oportunidade…

  2. 01/04/2011 16:13

    Olá Sr. Leonardo Boff. Eu quase nem acredito neste blog. Nem acredito na possibilidade de escrever-lhe e saber que por ventura possa vir a ler. Que maravilha essa internet, quantas são as possibilidades que nos proporciona.
    Desde pequenininha ouço falar no Senhor, na “Teologia da Libertação” vivida pelos meus pais na igreja em que participaram um dia. O Senhor tem me renovado as esperanças e a fé. Muito Obrigada.

    • 01/04/2011 19:26

      Obrigado por suas palavras generosas. Todos os que nos metemos com questão da justiça social, a partir das vítimas e dai a libertação, formamos uma como que comunidade de destino. Mesmo longe estamos perto nos sonhos e na mesma caminhada.
      Caminhemos juntos, irmã, que o Crucificado e Ressuscitado vem conosco.
      um abraco com muita fraternura
      lboff

  3. ANA PAULA LOPES Link Permanente
    02/04/2011 8:18

    Compartilho o sentimento de Ana Célia.

    Obrigada por continuar publicando suas ideias!

  4. Alvin Gongora Link Permanente
    02/04/2011 21:30

    Nietzche, en este poema y otras palabras suyas, me hacer recordar un verso de Antonio Machado para quien la batalla ultima es la que la persona libra a solas. Es ahi cuando los vericuetos insondables del alma dan cuenta del misterio que nos habita. Los creyentes nos damos cita con Dios, pero quienes han luchado contra la institucionalizacion de Dios (i.e. Nietzche), sin duda son mas honestos puesto que le dan cabida al dialogo intimo con lo divino. No me sorprenderia descubrir que Dios encuentra palabras como las de Nietzche mas genuinas que las mias.

  5. Gilson Alves Barbosa Link Permanente
    02/04/2011 21:34

    Caro mestre Leonardo Boff.
    Permita curvar-me diante de você em sinal de respeito e reverência. Ainda jovem, na década de 80, através do contato com Irmã Júlia e Irmã Margarida (acho que esse era seus nomes), eu e alguns amigos fomos iniciados na Teologia da Libertação. Éramos todos idealistas e por força da TL que nos mostrou o Cristo Libertador nos tormamos questionadores e até hoje, especialmente no meu caso, na paróquia onde participo sou tachado de encrenqueiro quando questiono dogmas e posições cômodas do paróco e de muitos da comunidade, principalmente com relação à questões sociais.
    Tive a sorte de me encontrar com uma pessoa fantástica, que aliás conviveu com o senhor em São Paulo, Dona Marlene Machado, e que me fez aprofundar ainda mais na TL, só que em vez de teoria partimos para a prática. Para tanto montamos na paróquia a Pastoral da Saúde e uma associação sem fins lucrativos onde trabalhamos de acordo com a proposta crística de libertação. No início fomos bastante incompreendidos e até rechaçados por um padre que passou pela comunidade. Felizmente, apesar dos atropelos inciais, continuamos a caminhada. A Teologia da Libertação é um vírus para cuja infecção não há cura. Ensina a nos vermos no outro, notadamente os deserdados sociais, os leprosos hodiernos.
    Que bom ter encontrado este espaço.
    Toda paz e bem !
    Abraços Gilson Alves Barbosa

    • 03/04/2011 16:35

      Continue em sua luta pela libertação dos oprimidos. Quando Jesus anuncia o amor, não é qualquer amor. É o amor aos desprezados, aos ignorados e aos desprezados. Amar a quem nos ama, que graça tem, diz nos evangelho de São Lucas (cap. 6)? A maioria dos cristãos não ama, nem nunca subiu numa comunidade pobre, nem se deteve a conversar com um empobrecido. Esses não estão na herança de Jesus. Então entenda a incompreensão que recebe como parte do evangelho verdadeiro e do espírito da benaventuranças.
      A luta pelos oprimidos nunca terá fim. E são eles que na tarde da vida nos irão julgar. Deus não nos vai perguntr quantas vezes fmos a missa e comungamos e quanto sacramentos recebemos ou se acompanhamos os programas católicos de TV, a maioria de uma lamentável mediocridade. Mas nos vai apenas perguntar em que medida ouvimos os esquecidos, visitamos os oprimidos e estivemos junto dos famintos. Siga, pois, esse é o seguimento verdadeiro de Jesus e a forma como atualizamos sua mensagem no contexto atual.
      lboff

  6. Thiago Damato Link Permanente
    03/04/2011 1:18

    Mais uma vez, muito obrigado por compartilhar conosco toda essa mística.
    Fraternal abraço,
    Thiago

  7. Leonardo Link Permanente
    04/04/2011 14:21

    Caro Mestre LB, fico emocionado com suas palavras, pois compartilho das mesmas palavras da irmã Ana Célia, principalmente depois de ler o ultimo parágrafo de seu comentário logo acima…
    Agradeço a oportunidade SEMPRE…
    Um abraço fraterno a todos…

  8. 07/04/2011 1:26

    Sensacional! Certamente parte da minha confissão de fé. Eu, como leitor novato de Nietzsche (confesso que ainda estou começando a explorar nosso amigo), já havia ouvido sobre esse poema, mas nunca havia lido ou procurado.

    Gostaria de pedir sua permissão para colocar sua tradução no meu blog, escrevi um texto recentemente que “casa” um pouco com esse seu post, além de meu discurso no geral concordar com ele.

  9. 11/04/2011 16:10

    Lindo, lindo, lindo…… O senhor é um querido mesmo! Nunca desista de cuidar de todos nós, cuidadores da terra. Meus filhos terão seus escritos como uma referência para vida. Obrigada pela sua luta.

  10. 15/04/2011 15:28

    Infelizmente o filósofo não conseguiu nenhum de seus desejos representados no poema, não conheceu a Deus, e não o serviu… preferiu servir ao proprio umbigo…

  11. Ricardo Souza Link Permanente
    18/04/2011 20:11

    Querido Leonardo Boff,

    ao ler o texto que vc postpu sobre o massacre de Realengo, no Rio, me vem à memória uma passagem da sagrada escritura, que diz: “Javé dará força a seu povo, Javé abencoará seu povo com a paz.”(Sl 29,11), diante deste tragico episodio, podemos reflitir sobre a realidade de nosso pais, isto é, como podemos construir a paz na sociedade que vivemos? Já estamos fartos de tantas noticias realcionadas às criancas…so teremos a paz proposto por Jesus, quando de fato lutarmos pra termos uma sociedade justa, fraterna e igualitaria…

    Abraços,

    Ricardo Souza Guaira sp

  12. Wesley Conde Link Permanente
    18/05/2011 10:58

    Sr. Leonardo Boff o Senhor tem ai a data em que Nietzsche escreveu este poema? Poderia nos informar, a bem da VERDADE??????

  13. Cecília de Alencar Sobreira Link Permanente
    29/06/2011 22:54

    Amo você, querido irmão, Leonardo Boff. Você me fez conhecer o Deus verdadeiro através de seus livros, em especial, “O Senhor é meu Pastor” e por eles, tenho me tornado uma pessoa melhor, mais espiritual e muito, muito, comprometida com meus semelhantes, principalmente os mais necessitados. Sou feliz por conseguir “ver” todos os dias,aqueles que estão à minha espera nas esquinas, nos sinais e em todos os caminhos que faço. A escuridão sumiu. Agora aponto para o alto, para a luz. Para sempre!
    Graça e Paz!

    Cecilia Alencar (Fortaleza(CE)

  14. Rogério Bandos Link Permanente
    12/07/2011 23:49

    Wesley
    Se me permite(m), tenho a resposta: de acordo com seu biógrafo Curt Paul Janz, tomo 1, Nietzsche escrevera este poema em 1864, perto de completar 20 anos, quando terminou o ensino médio na escola de Pforta.
    Já havia passado (e voltaria a passar) por suas crises e contestações religiosas, o que não o impedia de tentar descobrir ou aproximar-se de (seu) Deus.
    Até mais!
    Rogério Bandos
    Franca – SP

  15. 29/09/2011 16:54

    Grato por compartilhar essa pérola, não somente a oração em si, mas todo este episódio, que é desconhecido de muitos, e me incluo com estes.

  16. Cleo Laíza Pinto de Paiva Nasser Link Permanente
    06/12/2011 16:23

    Boa tarde, sábio Leonardo Boff,

    Gostaria muito de uma opinião sua, enquanto conhecedor, teólogo, homem, observador. Já li inúmeros artigos e textos seus, os quais me enchem a mente, permitem enxergar além e antes, me dão respostas, me dão questões. Admiro muito quem é você e o que proporciona ao mundo através da sua obra e feitos.
    Queria saber a sua opinião sobre uma questão. Simples assim. Eu não tenho muito a oportunidade de expor ou falar sobre isso com alguém que realmente admiro pelo conhecimento e experiência em várias outras questões. Só peço desculpas se postei sem categoria específica… É que na verdade eu não soube classificar onde se encaixa a questão a qual me refiro e não queria que estivesse dentro de preceitos religiosos ou mesmo culturais. Eu queria uma elucidação sua, como pensador, o qual respeito inclusive pela franqueza de opinião.
    Sou uma moça intersexual, nasci numa cidade pequena e fui registrada com nome masculino e criada como menino até 7 anos de idade, quando houve a descoberta de um erro de diagnóstico, não pelo aparelho urogenital, que era defeituoso, mas atendia mais à estética do que seria um menino. Era meu jeito de ser, a maneira de pensar, de me relacionar, a natureza mesmo. E eu demorei bastante até me deixar convencer de que eu poderia ser uma menina e mulher praticamente normal, dada a minha criação como a meus dois irmãos e até mesmo uma barreira enorme social.
    Não estou aqui para ganhar ninguém pela pena, ou opiniões baseadas no receio de magoar alguém que faz parte de uma minoria das minorias; quero a sua opinião sincera e baseada num artigo seu, o qual li aqui mesmo, no blog, sobre o que é ser mulher, mãe, o antes e o depois do amor, da maternidade.
    Sempre aprendi que lutar contra as nossas verdades é o maior motivo do nosso sofrimento. Recentemente fui “desmascarada” por alguém que me fez enxergar todos os meus complexos e estou procurando um motivo para saber porque o amor sempre me puniu. Me sinto como se tivesse muita coisa, falta muito ainda… mas quanto mais conquisto minha liberdade física, espiritual e o direito de viver sem amarras, mais longe da plenitude eu me sinto. Vejo que minha mente é sagaz, sem falsa modéstia. Sou uma mulher que aprendeu a pensar demais, mesmo pela criação como um menino, no meio de dois irmãos homens e meus pais nos deram uma bagagem de conhecimento muito boa. Defeitos sempre tivemos e tenho muitos mesmo. Talvez o maior deles, meu orgulho. Mas sem ele, sinto que teria talvez ido por caminhos mais desprotegidos. Sempre enxerguei Deus como a minha consciência, que as vezes falha, quando me altero, por qualquer motivo: álcool, raiva, mágoa… já tive muitas. E nestes momentos sinto que fico “longe” Dele. Porém, normalmente a minha consciência grita em meus ouvidos, mesmo que eu não seja escrava dela e me sinto em paz com meu Deus.
    Mas o amor me feriu na alma. E me fez vir aqui pedir a você uma elucidação. Não posso ser mãe, nunca poderei. Não tenho genitália interna mais. Mas amar eu tenho certeza de que posso sim, quer dizer, pelo que eu acredito que seja o amor. Como fui criada no gênero errado, sinto um vazio enorme, é como se eu não tivesse tido vida enquanto criança e a adolescência foi um período apenas de cura. Depois, na fase adulta, vieram os questionamentos, vícios do ego, que, é claro, sempre tive e muitas vezes consegui combater. Mas estar apaixonada, pra mim, foi um momento maravilhoso para ser rejeitada logo em seguida. Sinto que neste ponto tenho mais bloqueios ainda, por ter sido criada na minha mente a idéia de que talvez só seria aproveitada momentaneamente, já que o don da maternidade não me cabe, o que me deixa muito triste. Quero muito adotar uma criança algum dia, me deixar descansar de dores fortes e minha questão, aqui, é simples: O que você teria a dizer para alguém como eu, para uma mulher que nasceu com essa disforia, mesmo que fisicamente indefinida, com tecidos gonadais não definidos, sendo impossibilitada de ser mãe. Seria eu incapaz também de ser plena como mulher? Ouvi dizer muito nesta vida que somos o que queremos ser. Que a nossa mente nos comanda, que o que importa é o que sentimos… mas eu sinto mais ainda que, apesar de ter um pensamento amplo e vivência em dois mundos, é além disso. Tenho a percepção clara de que vim aqui para ser mulher e mãe, ainda que a vida e as pessoas me digam o contrário. Até mesmo o homem que amei com verdade. E ele está certo em parte. Como posso ter este sonho tão enraizado na alma, se meu organismo nasceu despreparado? E já que minha essência é toda esta, porque minha mente me dá provas de que não? Como posso ter dúvidas a respeito da minha anima, se tenho a clara sensação de que vim a este mundo como mulher? As vezes sinto que o Universo não permitirá que eu avance, as vezes sinto que perco o rumo, a força. Mas consigo voltar, na dificuldade mas nunca na hipocrisia de ser coitada. Sou, acima de tudo, buscadora de algo maior e não desisto de buscar. Queria um parágrafo seu, prezado Leonardo. Um sincero… como todos… mas um para mim, de verdade e com verdade. Te agradeço muito e desejo o melhor. Grande abraço.

    • 02/01/2012 19:18

      Cara cleo, desculpa por intrometer neste assunto. O mistério da vida se apresenta com distinção para cada pessoa existente. Com você o mistério é distinto, porém a plenitude do amor é a mesma que transcende o cosmo, sem distinção. Gostaria de indicar uma pessoa que lida especificamente com essa área. Penso que nosso grande leonardo é um homem de profundo entendimento e pode te dar uma orientação. Se quiseres uma ajuda a mais nesta grande caminhada cósmica, você pode enviar um e-mail.

      • Cleo Laíza Pinto de Paiva Nasser Link Permanente
        10/01/2012 16:08

        Boa tarde, Nilton… Claro que aceito e preciso sim de elucidação e troca de idéias, ajuda e conforto. Para qual endereço de e-mail eu poderia escrever?

        Desde já obrigada pela atenção.

      • Cleo Nasser Link Permanente
        10/02/2012 2:41

        Nilton, bom dia. Até hoje aguardo um endereço de e-mail, que ano procurar por aqui não encontrei. Peço desculpas se está aqui em alguma guia do blog, mas não encontrei. Você poderia me passar o endereço? Agradecida.

  17. Benedito Rodrigues Link Permanente
    14/03/2012 15:39

    Prezada Cleo Nasser, pude atentamente ler seu comentário. O texto permite escapar o estado de angústia extravasada ao escrevê-lo. De fato, são tantos sentimentos aflorando a um só tempo, tantas coisas pra pensar a respeito dos conflitos de sua realidade físico-corpórea com os papéis que a cultura impõe. Acredito que você precisará ainda de um esforço maior e melhor localizado para a auto-aceitação e definição identitária.
    Nesse sentido, o encontro com Deus, que você tanto anseia, implica um encontro consigo mesma – tal labuta você já iniciara de longa data.
    Caso queria conversar mais a respeito, posso apresentar pessoas mais competentes que eu, ou eu mesmo me coloco a disposição para conversar sobre a vida, já que gosto muito de me aprofundar nesta fundamental temática. Meu e-mail é beneditogr@oi.com.br.
    Abraços!

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