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A dimensão do profundo: o espírito e a espiritualidade

27/08/2012

 

O ser humano não possui apenas exterioridade que é sua expressão corporal. Nem só interioriadade que é seu universo psíquico interior. Ele vem dotado também de profundidade que é sua dimensão espiritual.

O espírito não é uma parte do ser humano ao lado de outras. É  o ser humano inteiro que por sua consciência se percebe partencendo ao Todo e como porção integrante dele. Pelo espírito temos a capacidade de ir além das meras aparências, do que vemos, escutamos, pensamos e amamos.  Podemos apreender o outro lado das coisas, o seu profundo.  As coisas não são apenas ‘coisas’. O espírito capta nelas símbolos e metáforas de uma outra realidade, presente nelas mas que não está circunscrita a elas, pois as desborda por todos os lados. Elas recordam, apontam e remetem à outra dimensão a que  chamamos de profundidade.

Assim, uma montanha não é apenas uma montanha.  Pelo fato de ser montanha, transmite o sentido da majestade.  O mar evoca a grandiosidade, o céu estrelado, a imensidão, os vincos profundos do rosto de um ancião, à dura luta  da vida e os olhos brilhantes de uma criança, o mistério da vida.

É próprio do ser humano, portador de espírito, perceber valores e significados e não apenas elencar fatos e ações.  Com efeito, o que realmente conta para as pessoas, não são tanto as coisas que lhes acontecem mas o que elas significam para suas vidas e que tipo de experiências marcantes lhes proporcionaram.

Tudo que acontece carrega, existencialmente, um caráter simbólico, ou podemos dizer até sacramental. Já observava finamente Goethe:”tudo o que é passageiro não é senão  um sinal”(Alles Vergängliche ist nur ein Zeichen”). É da natureza do sinal-sacramento tornar presente um sentido maior, transcendente, realizá-lo na pessoa e faze-lo objeto de experiência. Neste sentido, todo evento nos relembra aquilo que vivenciamos e nutre nossa profundidade, vale dizer, nossa espiritualidade.

É por isso que enchemos nossos lares com fotos e objetos amados de nossos pais, avós, familiares e amigos; de todos aqueles que entram em nossas vidas e que tem significado para nós.  Pode ser a última camisa usada pelo pai que morreu de um enfarte fulminante com apenas 54 anos, o pente de madeira da avó querida que faleceu já há anos ou a folha seca dentro de um livro, enviada pelo namorado cheio de saudades. Estas coisas não são apenas objetos;  são sacramentos que nos falam para o nosso profundo, nos lembram pessoas amadas ou acontecimentos significativos para nossas vidas

O espírito nos permite fazer uma experiência de não-dualidade, tão bem descrita pelo zenbudismo. “Você é o mundo, é o todo” dizem os Upanishads  da Índia enquanto o guru aponta para o universo.  Ou “Você é tudo” como muitos yogis dizem.  O Reino de Deus (Malkuta d’Alaha ou ‘os Princípios Guias do Todo) estão dentro de vós” proclamou Jesus.  Estas afirmações nos remetem a uma experiência viva ao invés de uma simples doutrina.

A experiência de base é que estamos ligados e religados (a raiz da palavra ‘religião’) uns aos outros e todos com a Fonte Originária.  Um fio de energia, de vida e de sentido passa por todos os seres tornando-os um cosmos ao invés de caos, uma sinfonia ao invés de cacofonia. Blaise Pascal que além de genial matemático era também místico, disse incisivamente; “é o coração que sente Deus, não a razão” (Pensées, frag. 277).  Este tipo de experiência transfigura tudo.  Tudo se torna permeado de veneração e unção.

As religiões vivem desta experiência espiritual. Elas são posteriores a ela. Articulam-na em doutrinas, ritos, celebrações e caminhos éticos e espirituais.  Sua função primordial é criar e oferecer as condições necessárias para permitir a todas as pessoas e comunidades de mergulharem na realidade divina e atingir uma experiência pessoal do Espírito Criador. Infelizmente muitas delas se tornaram doentes de fundamentalismo e de doutrinalismo que dificultam a experiência espiritual.

Esta experiência, precisamente por ser experiência e não doutrina, irradia serenidade e profunda paz, acompanhada pela ausência do medo.  Sentimo-nos amados, abraçados e acolhidos pelo Seio Divino.  O que nos  acontece, acontece no seu amor.  Mesmo a morte não nos mete medo; é assumida como parte da vida, como o grande momento alquímico da transformação que nos permite estar verdadeiramente no Todo, no coração de Deus. Precisamos passar pela morte para viver mais e melhor

Leonardo Boff é autor de Espiritualidade: caminho de realização. Vozes 2003.

 

12 Comentários leave one →
  1. 27/08/2012 0:41

    Maravilha de texto!!! Falar da dimensão do ser humano é falar da complexidade!

  2. Alexandre E. S. Visconti Link Permanente
    27/08/2012 5:35

    Texto maravilhoso do Leonardo Boff, pois consegue descrever em palavras algo difícil de ser definido, o espírito. Mas, o que me causa espécie e espanto é como que, após uma descrição dessas, alguém possa ainda restringir a transcendência espiritual a apenas uma vida carnal que, inúmeras vezes, é muito passageira, muito rápida mesmo.
    Não há dúvida nenhuma que nossas experiências como encarnados são várias, exatamente para que possamos adquirir a resistência da experiência vital, este é obviamente o sentido de nossas vidas quando aqui encarnados. Atualmente, somos simplesmente o somatório dessas experiências pretéritas, o que conseguimos construir até agora e que, sem dúvida nenhuma, iremos continuar a construir.
    Boff afirma com muita propriedade: “as religiões vivem desta experiência espiritual…sua função primordial é criar e oferecer as condições necessárias para permitir a todas as pessoas e comunidades…” Sim, ele diz claramente, todas, pois é para todas mesmo. Mas aí eu pergunto: isto ocorre ocorre numa só existência? Claro que não; milhares de pessoas que vêm nesta vida logo se vão sem terem tido a oportunidade de vivenciar isto. Outras, até vivem mais e até têm oportunidades, porém não se chegam a nenhum culto espiritual, pois logo são envolvidas no pragmatismo necessário da sobrevivência, ou mesmo, se recusam a vivenciar o espírito devido aos mais variados motivos. Então, podemos concluir facilmente que nada disso faz sentido se não incluirmos também a possibilidade da volta e, se há uma volta, certamente, muitas outras existirão.

  3. 27/08/2012 10:54

    Excelente reflexão professor.
    Nossa profundidade está diretamente relacionada a sensibilidade diante das circunstâncias cotidianas a que enfrentamos todos os dias. Perceber neste “todo”, nossas limitações e intervenções possíveis, nos aproxima da proposta vivencial do Cristo e nos direciona a uma sociedade mais igual.

    Saudações,

  4. Gilson Alves Barbosa Link Permanente
    27/08/2012 11:29

    Experienciar o profundo é vivenciar Deus!

    Abraços

  5. 27/08/2012 12:15

    Quanta verdade!Texto belíssimo que muito me emocionou.Obrigada por tudo que recebo e engrandece meu espírito.

  6. 27/08/2012 17:23

    Muito bonito!
    Como descrever a presença do Espírito Santo?
    Meu maior desejo seria que os sentimentos bem-aventurados do Espírito de Deus permanecessem em meu coração todos os dias de minha vida.

  7. 28/08/2012 12:54

    Texto lindo e com grande fundamentação. Me sinto espiritualizado apesar de não possuir religião. Um grande abrço

  8. Carlos Silva Link Permanente
    29/08/2012 10:50

    Boff continua a nos levar a reflexões incríveis sobre nós e a nossa relação com a vida.

  9. 30/08/2012 17:30

    Busco em seus artigos a compreensão para chegar à “experiência espiritual”.

  10. 04/09/2012 21:40

    Ecumênico! Muito bom!

  11. 15/09/2012 21:03

    Texto belíssimo, verdadeiro, de uma sensibilidade tocante. Sua essência refinada nos leva à profunda reflexão, ao melhor de nós mesmos, à luz amorosa que habita em tudo e em todos.

  12. Ana Maria de Saes Riotinto Link Permanente
    17/11/2012 23:11

    Texto excelente, de grande profundidade. Parabéns!
    Ana Maria

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