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“Salve Jorge”: da Capadócia ou da Palestina?

19/01/2013

No Brasil e alhures são milhões que veem novelas. Atualmente uma, “Salve Jorge”, se desenrola na Capadócia, Turquia, onde teria  vivido São Jorge.

Entre os estudiosos há uma antiga discussão sobre o lugar de seu nascimento. Ela vem largamente discutida por Malga di Paulo, pesquisadora da vida do santo e que forneceu os dados para a atual novela. Um livro seu deverá sair brevemente. Para Malga que conhece a fundo a Capadócia, todos os indícios levam àquele lugar como a pátria natal deste famoso mártir. Outros o colocam em Lod na Palestina, hoje Israel, onde se construiu um santuário em sua homenagem.

É muito pouco o que podemos dizer de forma segura sobre o tema. A escola de historiadores críticos da vida dos santos e dos mártires, surgida a partir  do século XVII, os Bolandistas, e sua obra a Acta Sanctorum deixa a questão em aberto. Outro grupo, criado  ao redor de A. Buttler, baseando-se nos Bolandistas e acessível em portugues em 12 volumes, A Vida dos Santos (Vozes 1984) assevera: ”Há toda uma série de motivos para se acreditar que São Jorge foi um mártir verdadeiro e real que sofreu a morte em Lida na Palestina provavelmente na época anterior a Constantino (306-337). Fora disso, parece que nada mais se pode afirmar com segurança”( vol. IV, p. 188).

Minha tendência é afirmar a Palestina e não Capadócia como o lugar de seu nascimento. A razão se prende ao fato de que teria havido uma confusão de nomes. Com efeito, havia na Capadócia um bispo chamado Jorge da Capadócia, fato historicamente bem atestado. Entrou na história da teologia, em razão das polêmicas acerca da natureza de Cristo: seria só semelhante a de Deus (arianos) ou seria da mesma natureza (anti-arianos)? Tal discussão dividiu a Igreja.  O imperador Constâncio II (um de seus títulos era de Papa) queria assegurar a unidade do império mediante uma confissão  única, no caso, a ariana. Militarmente ocupou Alexandria, foco da resistência anti-ariana e impôs Jorge da Capadócia como bispo ariano (357-361), mais tarde assassinado. Isso consta até nos manuais de teologia.

Minha hipótese é que os primeiros compiladores da vida de São Jorge, já no século V e depois, no século XII, com o autor da Legenda Aurea, Jacobus de Veragine, confundiram São Jorge com esse conhecido Jorge da Capadócia e assim o fizeram nascer ai. Uma hipótese.

Deixando a discussão de lado, importa lembrar sua figura mais conhecida: um guerreiro, montado sobre um cavalo branco, vestido de couraça, com uma cruz vermelha num fundo branco, enfrentando terrível dragão com sua lança pontiaguda.

Por seu pai ter sido militar, seguiu essa carreira. Foi tão brilhante que o imperador Diocleciano o incorporou à sua guarda pessoal com a alta patente de Tribuno. Quando este imperador obrigou todos os soldados cristãos a renunciarem a fé cristã e adorarem os deuses romanos, sob pena de morte, Jorge se recusou e saiu em defesa de seus irmãos de fé. Preso e torturado, miraculosamente passou, diz a lenda, ileso do caldeirão de chumbo e de vários envenenamentos. Mas acabou sendo decapitado.

No início, no Ocidente, era venerado apenas como um simples mártir com sua palma típica. Com tempo e especialmente devido às cruzadas foi feito guerreiro com seus instrumentos próprios, especialmente associado ao enfrentamento com o dragão, símbolo do mal e do demônio. A lenda mais conhecida no Ocidente é a seguinte:

Certa feita, Jorge, como militar, passou pela Líbia no norte da África. Na pequena cidade de Silene o povo vivia apavorado. Num brejo vizinho reinava terrível dragão. Seu sopro era tão mortífero que ninguém podia se aproximar para matá-lo. Cobrava cada dia dois carneiros. Terminados estes, exigia vítimas humanas, escolhidas por sorteio. Um dia a sorte caiu sobre a filha do rei. Vestida de noiva foi ao encontro da morte. Eis senão quando, surge São Jorge com seu cavalo branco e com sua longa lança. Fere o dragão e domina-o. Amarra-lhe a boca com o cinto da princesa. Esta o conduz manso com um cordeiro até o centro da cidade. Todos, agradecidos, se converteram à fé crista.

É patrono da Inglaterra, já a  partir de 1222 mas oficialmente só em 1347 com Eduardo III com festa  solene (the St.George’s Day), da Rússia, de Portugal, da Bulgária, da Grécia, da província da Catunha e de muitas outras cidades.

Uma polêmica se instaurou quando o Vaticano em 1969 fez uma revisão da lista dos santos e retirou dela  o popular São Jorge, por motivos não totalmente claros. Houve uma grita geral, especialmente, por parte da Inglaterra, da Catalunha e também do time de futebol, o Corinthians de quem é patrono. O Card. Dom Paulo Evaristo Arns, corinthiano fervoroso, intercedeu junto ao Papa Paulo VI para que mantivesse a veneração de São Jorge, ao menos como  clebração optativa. Ao que o Papa respondeu: ”Não podemos prejudicar nem Inglaterra nem a Nação corinthiana; prossigam com a devoção”. Em 2000 João Paulo II, com senso pastoral, restabeleceu a festa. Ele está presente nas tradições afro: Ogum para a Umbanda e Oxossi para o candomblé-nagô. No Rio, o dia 23 de abril, sua festa, é feriado municipal, pois é o patrono de fato da cidade embora de direito seja São Sebastião.

No próximo artigo tentaremos decifrar o arquétipo de base que subjaz ao guerreiro São Jorge e ao dragão. Enquanto isso, fazemos nossa a oração popular: ”Andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos, não me peguem e tendo olhos não me enxerguem…E meus inimigos fiquem humildes e submissos a Vós. Amém”.

Leonardo Boff foi por muitos anos professor de história dos dogmas no Instituto Franciscano de Teologia  de Petrópolis Rio.

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14 Comentários leave one →
  1. Renan Teixeira permalink
    19/01/2013 22:44

    Muito interessante a explicação. Porém, não acho legal o fato de “Jorge”, se tornar Santo, apenas por pedidos de pessoas que já tinham uma afinidade com tal pessoa. Vejo isto, como algo mais complexo. Enfim..
    Sou Católico Apostólico Romano.
    Tenho 17 anos e moro em São Paulo, capital.
    Conheci os textos de Leonardo Boff, por indicação de um professor de história, Leon Ferraz, a rigor Ateu, mas pessoa de grande valor.
    Apesar de não conhecer pessoalmente, admiro o conhecimento de pessoas como, Boff e Mario Sergio Cortella.
    Gostaria de um dia poder trocar ideias com os mesmos.
    Abraço e a Paz.

  2. 19/01/2013 22:52

    Leonardo, gostei muito do texto!!! Em especial a parte que fala do Corinthians. Time do povo, dos que tem que domar (e às vezes até matar) um dragão todos os dias para seguir vivendo!

    Abraços,

    Silvio Munari

  3. Frederico Moreira Guimarães permalink
    19/01/2013 23:26

    É sempre bom aprender com quem sabe!

    De fato, São Jorge é um dos Santos mais populares do mundo, presente nas Igrejas Católica Romana, Ortodoxa e algumas igrejas da Comunhão Anglicana. O seu simbolismo é muito forte para nós brasileiros, como nos mostra a música de Jorge Ben.

    Muito obrigado pela excelente aula, Leonardo Boff.

  4. Sérgio Silva permalink
    20/01/2013 1:28

    Comentário pertinente com a simbologia do Santo conforme a novela se propõe a explorar. São Jorge é visto por muitos como o arquétipo da libertação do feminino. No caso da novela, parece ser este o propósito da autora ao colocar o tráfico internacional de mulheres o atual aspecto monstruoso que precisa ser destruído. Mas aguardemos pelos próximos capítulos para termos certeza disso. De qualquer forma é bom ver um comentário maduro e sem preconceitos como esse de Leonardo Boff, haja vista o caráter histérico que algumas denominações religiosas apresentaram ao criticar a novela demonizando-a justamente por utilizar a simbologia do conhecido santo católico que por sua vez tem grande presença na religiosidade afro-descendente.

  5. Vania Casagrande permalink
    20/01/2013 8:56

    Simplesmente esclarecedor!

  6. 20/01/2013 9:04

    Esse meu colega é mesmo eclético. Historiando um arquétipo importantíssimo do cristianismo antigo, passando pelo medieval, que permanece até os dias de hoje. Fico curioso, para o próximo artigo sobre o assunto: abordará os mitos pentecostalistas cultivados no século 21? Fará a analogia: dragão (capitalismo) x teologias políticas, como a TLb? O fato é que, bom junguiano que é, já matou o bicho e está fazendo uma viagem pela alma do cristao ocidental, católico ou protestante, e vai propondo um belo e saboroso churrasco de dragão. Bom apetite!

  7. maria natividade permalink
    20/01/2013 10:17

    Belíssimo texto.

  8. Genesio Venanci permalink
    20/01/2013 14:37

    Belo texto. E fica mais belo ao saber que é do Leonardo. Admirável Leonardo.

  9. Georgiane Garabely Vazquez permalink
    20/01/2013 21:29

    simplesmente maravilhoso.Sou historiadora e me deliciei ao ler esse belo exemplo de quao intrigante é a história!!! Parabens meu querido Leonardo….aguardo anciosa o proximo texto sobre o assunto, e, se puder, esclareça mais sobre os motivos da tentativa de tirar Sao Jorge do rol dos santos… atenciosamente, Georgiane

    • 21/01/2013 16:59

      Georgiana,
      Obrigado pelo seu reconhecimento. S.Jorge é patrono da Igreja Ortodoxa como o é São José da Católica. Na polêmica entre as duas igrejas, a nossa, latina e católica,para criar intriga e desmoralizar a igreja ortodoxa lhe “deletou” o santo patrono. Mas hoje ambas as Igreja estão se reconciliando, entendendo-se como os dois lados do mesmo pulmão.
      um abraço
      lboff

  10. 20/01/2013 22:29

    Grande Mestre! Que imenso prazer tenho ao ler seus textos esclarecedores!

  11. Marcus permalink
    22/01/2013 21:29

    O trecho que narra a passagem de São Jorge no exército Romano e a sua morte, no texto acima, não
    seria de São Sebastião?

  12. Ana Rita permalink
    26/01/2013 10:54

    Adorei a explicação! Ávida por aprender cada dia mais!!Muita paz e luz!!!

  13. Carmélia Silvestre permalink
    30/01/2013 22:15

    Muito escalrecedor. Estou aguardando o próximo texto.

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