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A propósito da condenação de uma governanta inocente: corrupção e corrupções

26/08/2016

          A presidenta Dilma está sendo condenada mediante um tribunal de exceção por um Congresso Nacional no qual 60% dos membros enfrentam acusações criminais. O Senado que a julga não possui nenhuma moral pois mais da metade dele, 49 senadores, estão sob acusação por distintos crimes.     Contra Dilma não se conseguiu provar nenhum crime. Por isso inventam-se outras razões como pelo “conjunto da obra”, coisa que contradiz a matéria do processo vindo da Câmara: alguns atos governamentais somente do ano 2015.

O economista Luiz Gonzaga Belluzzo bem resumiu a tônica geral deste processo perverso:”Trata-se de uma reação conservadora, retrógrada que se exprime em tentativas autoritárias de impedir o avanço da sociedade. Somos uma sociedade profundamente antidemocrática, preconceituosa e mais que isso, culturalmente deformada. Estamos assistindo hoje uma degeneração do que já é degenerado. Aqui não prosperaram os ideais de democracia e o Estado de Direito. Tudo é feito com truculência, com arbitrariedade, mesmo aquilo que pretensamente é feito em nome da lei”(em Carta Maior 27/06/2016).

Uma outra crítica contundente nos vem do sociólogo, ex-presidente do IPEA, que escreveu um instigante livro: A tolice da inteligência brasileira (Leya 2015): “O golpe foi contra a democracia como princípio de organização da vida social. Esse foi um golpe comandado pela ínfima elite do dinheiro que nos domina sem ruptura importante desde nosso passado escravocrata. Desde então o Brasil é palco de uma disputa entre esses dois projetos: o sonho de um país grande e pujante para a maioria; e a realidade de uma elite da rapina que quer drenar o trabalho de todos e saquear as riquezas do país para o bolso de meia dúzia”(Quem deu o golpe e contra quem, em FSP,04/2016).

O que estamos assistindo é a retomada deste segundo projeto, socialmente perverso e negador de nossa soberania. Basta observar a truculência do ministro das relações exteriores que de diplomata não possui nada. É um agente das privatizações e do alinhamento do Brasil à lógica do neoliberalismo dos países centrais, rompendo com nossos aliados vizinhos, do Mercosul e traindo os ideais de uma diplomacia “ativa e altiva”em diálogo com todos os povos e tendências ideológicas.

Há muitas formas de corrupção. Comecemos pela palavra corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor)  rompido (ruptus) e pervertido. O filósofo Kant fazia a mesma constatação:“somos um lenho tão torto que dele não se podem tirar tábuas retas”. Em outras palavras: há a força do Negativo em nós que nos incita ao desvio. A corrupção é uma das mais fortes.

Antes de tudo, o capitalismo aqui e no mundo é corrupto em sua lógica, embora aceito socialmente. Ele simplesmente impõe a dominação do capital sobre o trabalho, criando riqueza com a exploração do trabalhador e com a devastação da natureza. Gera desigualdades sociais que, eticamente, são injustiças, o que origina permanentes conflitos  de classe. Por isso, o capitalismo é por natureza antidemocrático, pois  a democracia supõe uma igualdade básica dos cidadãos e direitos garantidos, aqui violados pela cultura capitalista.

Pensando no Brasil podemos dizer que a maior corrupção de nossa história é o fato de as oligarquias haverem mantido grande parte da população, durante quase 500 anos, na marginalidade e terem empreendido um processo de acumulação de riqueza dos mais altos do mundo, a ponto de 0,05% da população(71 mil pessoas) controlarem grande parte da renda nacional.

Temos exemplos escandalosos de corrupção, denunciados ultimamente pelo “Petrolão”, pelo Zelotes e pelo Panamá Papers. Mas não nos enganemos. Há coisa pior. O Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional, em seu “Sonegrômetro” denunciaram que em 2015 somente em cinco meses houve uma sonegação de 200 bilhões de reais (Antônio Lassance, em Carta Maior 02/05/2015). Isso é muito mais do que o “Petrolão” em apenas 5 meses. Atrás desse dados, se escondem os grandes corruptores e corruptos que procuram sempre se esconder.

Bem dizia Roberto Pompeu de Toledo em 1994 na Revista Veja: “Hoje sabemos que a corrupção faz parte de nosso sistema de poder tanto quanto o arroz e o feijão de nossas refeições”.

A condenação da Presidenta Dilma se inscreve nesta lógica da corrupção que tomou conta de grande parte da casta politica. O que se faz contra ela é uma injustiça sem tamano perpretada pelos senadores: condenar uma inocente e uma governante honesta.

A história não os perdoará. Carregam em suas biografias o estigma de golpistas, merecedores de uma soberana repulsa dos que buscam caminhos transparentes e éticos para o nosso país.

Leonardo Boff é professor emérito de Ética da UERJ e escritor.

 

Uma governanta digna e inocente é condenada por um bando de corruptos da mente e das finanças

25/08/2016

Usando o estilo medieval do tempo de Sâo Francisco dos Fioretti reconto o processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff: Em de que se narra que uma governanta digna e inocente foi condenada por um bando de corruptos da mente e das finanças.

Era uma vez uma nação grande por sua extensão e por seu povo alegre embora injustiçado. Em sua maioria sofria na miséria, nas grandes periferias das cidades e no interior profundo. Por séculos era governado por uma pequena elite do dinheiro que nunca se interessou pelo destino do povo pobre. No dizer de um historiador mulato, ele foi socialmente “capado e recapado, sangrado e ressangrado”.

Mas lentamente esses pobres foram se organizando em movimentos de todo tipo, acumulando poder social e alimentando um sonho de outro Brasil. Conseguiram transformar o poder social num poder político. Ajudaram a fundar o Partido dos Trabalhadores. Um de seus membros, sobrevivente da grande tribulação e torneiro mecânico, chegou a ser presidente. Apesar das pressões e concessões que sofreu dos endinheirados nacionais e transnacionais, conseguiu abrir uma significativa brecha no sistema de dominação permitindo-lhe fazer políticas socias humanizadoras. Uma Argentina inteira saíu da miséria e da fome. Milhares conseguiram sua casinha, com luz e energia. Negros e pobres tiveram acesso, antes impossível, ao ensino técnico e superior. Mais que tudo, porém, sentiram resgatada sua dignidade sempre negada. Viram-se parte da sociedade. Até podiam, em prestações, comprar um carrinho e tomar até o avião para visitar parentes distantes. Isso irritou a classe media, pois via seus espaços ocupados. Daí nasceu a discriminação e o ódio contra eles.

Ocorreu que, naqueles tempos, ao todo 13 anos de governo Lula-Dilma o Brasil ganhou respeitabilidade mundial. Mas a crise da economia e das financias, por ser sistêmica, nos atingiu, provocando dificuldades econômicas e desemprego que obrigou o governo a tomar medidas severas. A corrupção endêmica no país densificou-se na Petrobrás, envolvendo altos estratos do PT mas também dos principais partidos. Um juiz parcial, com traços de justiceiro, focou, praticamente, apenas o PT.

Especialmente a mídia empressarial conservadora conseguiu criar o esteriótipo do PT como sinônimo de corrupção. O que não é verdade, pois confunde a pequena parcela com o todo correto. Mas a corrupção condenável serviu de pretexto às elites endinheiras e seus aliados históricos, para tramar um golpe parlamentar, pois mediante as eleições jamais trinfariam. Temendo que esse curso voltado aos mais pobres se consolidasse, decidiram liquidá-lo. O método usado antes, com Vargas e Jango, foi agora retomado com o mesmo pretexto “de combater a corrupção”, na verdade, para ocultar a própria corrupção. Os golpistas usaram o Parlamento no qual 60% estão sob acusações criminais e desrespeitaram os 54 milhões de votos que elegeram Dilma Rousseff.

Importa deixar claro que atrás desse golpe parlamentar se aninham os interesses mesquinhos e anti-sociais dos donos do poder, mancomunados com a imprensa que distorce os fatos e sempre se fez sócia de todos os golpes, juntamente com os partidos conservadores, com parte do Ministério Público e da Polícia Militar (que substitui os tanques) e uma parcela da Corte Suprema que, indignamente, não guarda imparcialidade. O golpe não é só contra a governanta, mas contra a democracia com viés participativo e social.

Intenta-se voltar ao neoliberalismo mais descarado, atribuindo quase tudo ao mercado que é sempre competitivo e nada cooperativo (por isso conflitivo e anti-social). Para isso decidiu-se demolir as políticas sociais, privatizar a saúde e educação e o petróleo e atacar as conquistas sociais dos trabalhadores.

Contra a Presidenta não se identificou nenhum crime. De erros administrativos toleráveis, também feitos pelos governos anteriores, derivou-se a irresponsabilidade governamental contra a qual aplicou-se um impeachment. Por um pequeno acidente de bicicleta, se condena a Presidenta à morte, castigo totalmente desproporcional. Dos 81 senadores que vão julgá-la mais de 40 são réus ou investigados por outros crimes. Obrigam-na a sentar-se no banco dos réus, onde seus algozes deveriam estar. Entre eles se encontram 5 ex-ministros.

A corrupção não é só monetária. A pior é a corrupção das mentes e dos corações, cheios de ódio. Os senadores pro impeachment têm a mente corrompida, pois sabem que estão justificiando uma inocente. Mas a cegueira e os interesses corporativos prevalecem sobre os interesses de todo um povo.

Aqui vale a dura sentença do Apóstolo Paulo:”eles aprisionam a verdade na injustiça. É o que atrái a ira de Deus”(Romanos 1,18). Os golpistas levarão na testa, pela vida afora, o sinal de Caim que assaninou seu irmão Abel. Eles assassinaram a democracia. Sua memória será maldita pelo crime que cometeram. E a ira divina pesará sobre eles.

Leonardo Boff é ex-professor de Ética da UERJ e escritor.

Gelegentlich probieren die Superreichen einen Putsch

24/08/2016

Die brasilianische Plutokratie (laut der IPEA sind dies 71 tausend Multimillionäre) hat wenig Phantasie. Sie bedient sich derselben Methoden, derselben Sprache, derselben pharisäischen Zuflucht zum Moralismus und zur Bekämpfung der Korruption, um ihre eigene Korruption zu verbergen und einen Coup gegen die Demokratie zu landen, mit dem Ziel, ihre Privilegien zu schützen. Jedesmal, wenn eine Demokratie auftrat, die sich für soziale Fragen öffnet, erfüllt dies die Oberen Zehntausend mit Angst. Sie bündeln dann Kräfte, die den politischen Sektor einschließt, die Staatsanwaltschaft, die Bundespolizei und vor allem die konservative und reaktionäre Presse wie im Fall des Konglomerats O Globo. Das Gleiche geschah bei Getulio Vargas, Joao (Jango) Goulart und nun mit Lula da Silva und mit Dilma Rousseff.

In einem Interview mit La Folha de São Paulo (24.04.2016) schrieb Jesse Souza ganz richtig: „Unserer wohlhabende Elite lag das Geschick unseres Landes nie am Herzen. Brasilien ist eine Bühne für die Streits dieser beiden Projekte: dem Traum eines großen und machtvollen Landes für die Mehrheit einerseits – und die Realität einer habgierigen Elite andererseits, die das Geld von jedermanns Arbeit aufsaugen will und den Reichtum des Landes plündern, um damit die Taschen der Reichen zu füllen. Die wohlhabende Elite ist nur deshalb an der Macht, weil sie in der Lage ist, alle anderen Eliten zu ‚kaufen‘.“ (Wer landete den Putsch gegen wen).

Im aktuellen Prozess zur Amtsenthebung, der Entfernung von Präsidentin Dilma Rousseff, hatten sie einen machtvollen Verbündeten: den staatlichen Komplex aus Gerichtsbarkeit und Polizei, der die Bajonetten ersetzt. Der Vizepräsident eignete sich widerrechtlich den Titel des Präsidenten an und stellte ein Schatten-Ministerium aus mehreren korrupten Ministern zusammen, schwächte die Ministerien für Kultur und Kommunikation sowie die Menschenrechte der Schwarzen und der Frauen, kürzte auf kriminelle Weise die Budgets für Gesundheit und Bildung, die Rechte der Arbeiter, das Mindesteinkommen, die Rechte bezüglich Arbeit, Rente und anderer sozialer Vorteile, die von den vergangenen zwei Regierungen geschaffen worden waren.

Hinter dem parlamentarischen Coup stecken zwei Kräfte, die Jesse Souza erwähnt. Papst Franziskus sagte dies sehr richtig vor zwei Monaten zu Leticia Sabatelle, als diese und andere bekannte Juristen eine Audienz mit dem Papst in Rom hatten, und sie teilten mit Papst Franziskus ihre Sorge über die Bedrohung der brasilianischen Demokratie. Papst Franziskus kommentierte dies mit den Worten: „Dieser Putsch stammt von den Kapitalisten.“

Tatsache ist, dass wir alle müde sind von so viel Korruption, die ganz richtig angeprangert wird, und von den Verzögerungen im Prozess der Amtsenthebung.

Niemand weiß, wohin der Weg uns führt. Eines scheint klar: Das gesellschaftliche Gerüst, das seit Kolonialisierung und Sklaverei mit der reichen Klasse in der Regierung geschaffen wurde, sei es in Gesellschaft oder in der Staatsstruktur, geht seinem Ende zu.

In so düsteren Zeiten wie der jetzigen brauchen wir ein Minimum an theoretischem Konzept, das uns Licht und etwas Hoffnung bringt. Ich lasse mich darin vom bereits verstorbenen Arnold Toynbee leiten. Er war der britische Historiker, der zehn Bände über die Geschichte der Zivilisationen schrieb. Um Entstehung, Entwicklung, Reifung und Niedergang einer Zivilisation zu erklären, benutzt Toynbee einen völlig simplen, aber aufschlussreichen Test: „Herausforderung und Antwort“.

Toynbee sagt: Innerhalb von Zivilisationen gibt es immer wieder fundamentale Krisen. Sie sind Herausforderungen, die eine Antwort erfordern. Ist die Antwort auf die Herausforderung exzessiv, so kommt es zu Arroganz und Machtmissbrauch. Das Ideal besteht darin, die Gleichung für ein Gleichgewicht zwischen Herausforderung und Antwort zu finden, sodass die Zivilisation ihren Zusammenhalt wahrt, neue Herausforderungen positiv angeht und erblüht.

Um auf Brasiliens zurückzukommen: Die Wohlhabenden und Mächtigen können nicht auf die Herausforderung antworten, die von der Basis kommt, welche in den vergangenen Jahren enorm an Bewusstsein gewann und ihre Rechte mehr und mehr einklagte. Gleichgültig, wie sehr die Wohlhabenden und Mächtigen die Zahlen auch manipulieren, sie wissen, dass es schwer für sie sein wird, durch Wahlen zurück an die Macht zu kommen. Daher landeten sie diesen Coup. Demoralisiert wie sie sind, können sie einem neuen Brasilien, das sich ihrer Kontrolle entzogen hat, nichts bieten.

Das Erbe der gegenwärtigen Krise wird sich vermutlich zeigen im Entstehen einer neuen Art Brasiliens, seiner Demokratie, seines Staates und anderer Formen von Mitbestimmung des Volkes.

Die Schmerzen der Gegenwart sind nicht die eines Sterbenden am Tor zum Tode, sondern die Geburtswehen eines anderen Brasiliens: demokratischer, mit mehr Mitbestimmung für das Volk und mehr Sensibilität gegenüber der schlimmsten Wunde, die uns mit Scham erfüllt: die abgrundtiefe soziale Ungleichheit. Schließlich wird es ein humaneres Brasilien geben, in dem wir einfach nur glücklich sein können.

Leonardo Boff ist Theologe, Philosoph und Schriftsteller.

Los Juegos Olímpicos: metáfora de la humanidad humanizada

23/08/2016

Desde el día 5 de este mes de agosto Río de Janeiro es la sede de los Juegos Olímpicos de 2016. Se ha creado una inmensa infraestructura de arenas, estadios, nuevas avenidas y túneles que dejarán un legado inolvidable a la población carioca.

La apertura y la clausura son ocasión de grandes celebraciones, en las cuales el país que hospeda intenta mostrar lo mejor de su arte y singularidad. La apertura esta vez fue de un esplendor inigualable, a semejanza de los grandes desfiles de las escuelas de samba.

Los efectos de luces y de imágenes proyectadas en pantallas enormes creaban una atmósfera de mágica y casi surrealista, provocando en muchos lágrimas de emoción.
El momento principal fue el desfile de las delegaciones de 206 países, un número mayor que el de los países representados en la ONU, que son 193. Cada delegación desfilaba con trajes típicos de sus pueblos, destacándose por sus colores vistosos y elegantes, los trajes africanos y asiáticos.

Sabemos que en todas las relaciones sociales e internacionales subyacen intereses y maniobras de poder. Pero aquí, en los Juegos Olímpicos, si existieron, fueron prácticamente invisibles. Predominaba el espíritu deportivo y olímpico por encima de las diferencias nacionales, ideológicas y religiosas. Aquí todos estaban representados, hasta un grupo, muy aplaudido, de refugiados que hoy inundan especialmente Europa. Tal vez este evento sea uno de los pocos espacios en los cuales la humanidad se encuentra consigo misma, como una única familia, anticipando una humanización siempre buscada pero nunca definitivamente mantenida porque todavía no hemos avanzado en la conciencia de que somos una especie, la humana, y tenemos un único destino común junto con nuestra Casa Común, la Tierra.

Este tal vez sea el mensaje simbólico más importante que un evento como este envía a todos los pueblos. Más allá de los conflictos, diferencias y problemas de todo tipo, podemos vivir anticipadamente y, por un momento, la humanidad que finalmente se humanizó y encontró su ritmo en consonancia con el ritmo del propio universo. Este es uno y complejo, hecho de redes incontables de relaciones de todos con todos, constituyendo un cosmos en cosmogénesis, gestándose continuamente a medida que se expande y se complejiza. A este ritmo no escapa tampoco la humanidad.

Los Juegos Olímpicos nos invitan a reflexionar sobre la importancia antropológica y social del juego. No pienso aquí en el juego que se volvió profesión y gran comercio internacional como el futbol, el baloncesto y otros, que son más bien deportes que juegos. El juego, como dimensión humana, se revela mejor en los medios populares, en la calle o en la playa o en algún espacio con hierba o con arena. Este tipo de juego no tiene ninguna finalidad práctica, pero lleva en sí mismo un profundo sentido como expresión de alegría de divertirse juntos.

En los Juegos Olímpicos impera otra lógica, diferente de la cotidiana de nuestra cultura capitalista, cuye eje articulador es la competición excluyente: el más fuerte triunfa y, en el mercado, si puede, se come a su concurrente. Aquí hay competición, pero es incluyente, pues participan todos. La competición es para el mejor, apreciando y respetando las cualidades y el virtuosismo del otro.

La tradición cristiana desarrolló toda una reflexión sobre el significado transcendente del juego. Quiero concentrarme un poco sobre ella. Las dos Iglesias hermanas, la latina y la griega, se refieren al Deus ludens, al homo ludens e incluso a la eccclesia ludens (Dios, el hombre y la Iglesia lúdicos).

Veían la creación como un gran juego de Dios lúdico: hacia un lado lanzó las estrellas, hacia otro el sol, más abajo puso los planetas y con cariño colocó la Tierra, equidistante del Sol, para que pudiese tener vida. La creación expresa la alegría desbordante de Dios, una especie de teatro en el cual desfilan todos los seres y muestran su belleza y grandeur. Se hablaba entonces de la creación como un theatrum gloriae Dei (un teatro de la gloria de Dios).

En un bello poema dice el gran teólogo de la Iglesia ortodoxa Gregorio Nacianceno (+390): «El Logos sublime juega. Engalana con las más variadas imágenes y por puro gusto y por todos los modos, el cosmos entero». En efecto, el juguete es obra de la fantasía creadora, como lo muestran los niños: expresión de una libertad sin coacción, creando un mundo sin finalidad práctica, libre del lucro y de beneficios individuales.

«Porque Dios es vere ludens (verdaderamente lúdico) cada uno debe ser también vere ludens, aconsejaba, ya mayor, uno de los más finos teólogos del siglo XX, Hugo Rahner, hermano de otro eminente teólogo, que fue profesor mío en Alemania, Karl Rahner.

Estas consideraciones sirven para mostrar cómo puede ser sin nubarrones y sin angustia nuestra existencia aquí en la Tierra, al menos por un momento, especialmente cuando se vislumbra en la belleza de las diferentes modalidades de juegos la misteriosa presencia de un Dios lúdico. Entonces no hay que temer. Lo que nos bloquea la libertad y la creatividad es el miedo.

Lo opuesto a la fe no es tanto el ateísmo sino el miedo, especialmente el miedo a la soledad. Tener fe, más que adherirse a un conjunto de verdades, es poder decir, siguiendo a Nietzsche, “sí y amén a toda la realidad”. En lo profundo, la realidad no es traicionera, sino buena y bonita, alegre acogedora. Alegrarse por formar parte de ella lo expresamos en el juego, y, de forma universal, en los Juegos Olímpicos.

Tal vez éste sea su sentido secreto.

Leonardo Boff es teólogo, filósofo y escritor

The Olympic Games: A Metaphor for a Humanized Humanity

21/08/2016

Since this past August 5th, Rio de Janeiro has been home to the 2016 Olympic Games. An immense infrastructure of arenas, stadiums, new avenues and tunnels has been created, that will leave an unforgettable legacy to the Carioca people.

The opening and closing ceremonies are occasions of great celebration, when the host country attempts to show the best of its art and uniqueness. This time the opening ceremony was of unimaginable splendor, with a great parade of the samba schools.

The effect of the lights and images projected on enormous screens created a magical and almost surrealistic atmosphere, provoking tears of elation in many.

The principal moment was the parade of delegations from 206 countries, more than are represented at the United Nations, of which there are 193. Each delegation paraded in the typical costume of their country, the best showing for being colorful and elegant being the African and Asian ensembles.

We know that interests and power maneuverings underlie all social and international relations. But here, in the Olympic Games, if they existed, they were practically invisible. The sports and Olympic spirit predominated over national, ideological and religious differences. All were represented here, even a group from the refugees that are now particularly inundating Europe, who received well deserved applause. Perhaps this event is one of the few places where humanity finds herself, as a unique family, anticipating a humanization that is always sought after, but never definitively maintained, because we still have not advanced in the awareness that we are one species, the human species, and that together we have a single common destiny with our Common Home, Mother Earth.

This is perhaps the most important symbolic message that an event such as this sends to all the peoples of the world. Beyond the conflicts, differences and problems of all types, we can live, for an instant, the future of a humanity that finally has become human, and found her rhythm in consonance with the rhythm of the very universe. This is a single unit and a complex, made of innumerable networks of relationships among everything, constituting a cosmos in cosmogenesis, continuously recreating itself as it expands and becomes more complex. Humanity cannot escape this rhythm.

The Olympic Games invite us to reflect on the anthropological and social importance of play. I am not thinking here of play, such as that which has been turned into a profession and a great international business, such as football, basketball and others. They are better called sports than play. Play, as a human dimension, reveals itself better in popular environments, in the streets or on the beach or in any space with grass or sand. This type of play has no practical end, but carries within itself a profound meaning as an expression of the joy of having a good time together.

In the Olympic Games another logic prevails, different from the daily logic of our capitalist culture, whose articulating axis is an excluding competition: the stronger triumphs and, in the market, if it can, devours its counterpart. In the Olympic Games there is competition, but it is an inclusive competition, because everyone participates. The competition is to be the best, while appreciating and respecting the qualities and virtuosity of the other.

The Christian tradition developed a whole reflection on the transcendental meaning of play. I want to concentrate a little on that. The two sister Churches, the Latin and the Greek, refer to the Deus ludens, the homo ludens and even the eccclesia ludens (The playful God, the playful man and the playful Church).

They saw creation as a great game of the playful God: to one side God launched the stars, to another, the Sun, and far below, God placed the planets. And with tenderness God located the Earth at just the right distance from the Sun that the Earth could have life. This creation expresses the boundless joy of God, a sort of theater where all beings parade and show their beauty and grandeur. At that time, creation was spoken of as a theatrum gloriae Dei (a theater of the glory of God).

Gregory Nazianzen (+390), the great theologian of the Ortodox Church, says in a beautiful poem: «The sublime Logos plays. Just for pure pleasure and by all means, He adorns the entire cosmos with the most varied images». In effect, play is the work of the creative fantasy, as little children show: play is an expression of a freedom without coercion, creating a world without a practical end, free from greed and from individual benefits.

«Because God is vere ludens (truly playful) each one of us should also be vere ludens», counseled, when he was already an elder, Hugo Rahner, one of the finest theologians of the XX Century, and brother of Karl Rahner, another eminent theologian, who was my professor in Germany. .

These considerations serve to show how our existence here in the Earth can be without dark clouds and without anguish, at least for a moment. Especially when we glimpse the beauty of the different modalities of the games, we can see the mysterious presence of a playful God. Then we must not be afraid. What blocks liberty and creativity is fear.

Atheism is not so much the opposite of faith, as it is fear, especially fear of loneliness. To have faith, more than adherence to a set of truths, is the ability to say, following Friedrich Nietzsche, “Yes and amen to all reality”. In the profound, reality does not betray, but is good and beautiful, joyful and welcoming. Playing we express happiness for being part of that reality, and, in a universal form, of the Olympic Games.

Perhaps this is its secret meaning.

Leonardo Boff is Theologian and Philosopher

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

Como enfrentar o fundamentalismo

21/08/2016

Atualmente em todo mundo, se verifica um aumento crescente do conservadorismo e de fenômenos fundamentalistas que se expressam pela homofobia, xenofobia, anti-feminismo, racismo e toda sorte de discriminações.

O fundamentalista está convencido de que a sua verdade é a única e que todos os demais ou são desviantes ou fora da verdade. Isso é recorrente nos programas televisivos das várias igrejas pentecostais, incluindo setores da Igreja Católica. Mas também no pensamento único de setores politicos. Pensam que só a verdade tem direito, a deles. O erro deve ser combatido. Eis a origem dos conflitos religosos e politicos. O fascimo começa com esse modo fechado de ver as coisas.

Como vamos enfrentar esse tipo de radicalismo? Além de muitas outras formas, creio que uma delas consiste no resgate do conceito bom do relativismo, palavra que muitos nem querem ouvir. Mas nele há muita verdade.

Ele deve ser pensado em duas direções: Em primeiro lugar, o relativo quer expressar o fato de que todos estão de alguma forma relacionados. Na esteira da física quântica, insiste a encíclica do Papa Francisco “sobre como cuidar da Casa Comum”:“tudo está intimamente relacionad; todas as criaturas existem na dependência uma das outras”(n.137;86). Por esta inter-relação todos são portadores da mesma humanidade. Somos uma espécie entre tantas, uma família.

Em segundo lugar, importa compreender que cada um é diferente e possui um valor em si mesmo. Mas está sempre em relação com outros e seus modos de ser. Dai ser importante relativizar todos os modos de ser; nenhum deles é absoluto a ponto de invalidar os demais; impõe-se também a atitude de respeito e de acolhida da diferença porque, pelo simples fato de estar-aí, goza de direito de existir e de co-existir

Quer dizer, nosso modo de ser, de habitar o mundo, de pensar, de valorar e de comer não é absoluto. Há mil outras formas diferentes de sermos humanos, desde a forma dos esquimós siberianos, passando pelos yanomamis do Brasil, até chegarmos aos moradores das comunidades da periferia e aos moradores de sofisticados Alphavilles, onde moram as elites opulentas e amedrontadas. O mesmo vale para as diferenças de cultura, de língua, de religião, de ética e de lazer.

Devemos alargar a compreensão do humano para além de nossa concretização. Vivemos na fase da geo-sociedade, socidade mundial, una, múltipla e diferente.

Todas estas manifestações humanas são portadoras de valor e de verdade. Mas são um valor e uma verdade relativos, vale dizer, relacionados uns aos outros, inter-relacionados, sendo que nenhum deles, tomado em si, é absoluto.

Então não há verdade absoluta? Vale o “everything goes” de alguns pós-modernos? Traduzindo: “vale tudo”? Não há o vale tudo. Tudo vale na medida em que mantem relação com os outros, respeitando-os em sua diferença e não prejudicando-os.

Cada um é portador de verdade mas ninguém pode ter o monopólio dela, nem uma religião, nem uma filosofia, nem um partido politico,nem uma ciência. Todos, de alguma forma, participam da verdade. Mas podem crescer para uma compreensão mais plena da verdade, na medida em que se relacionam.

Bem dizia o poeta espanhol António Machado: “Não a tua verdade. A verdade. Vem comigo buscá-la. A tua, guarde-a”. Se a buscarmos juntos, no diálogo e na recíproca relacionalidade, então mais e mais desaparece a minha verdade para dar lugar à nossa Verdade, comungada por todos.

A ilusão do Ocidente, dos USA e da Europa, é de imaginarem que a única janela que dá acesso à verdade, à religião verdadeira, à autêntica cultura e ao saber crítico é o seu modo de ver e de viver. As demais janelas apenas mostram paisagens distorcidas.

Pensando assim, se condenam a um fundamentalismo visceral que os fez, outrora, organizar massacres ao impor a sua religião na América Latina e na Áfica e, hoje, fazendo guerras com grande mortandade de civis, para impor a democracia no Iraque, no Afeganistão, na Síria e em todo o Norte da África. Aqui se dá também o fundamentalismo, de tipo occidental.

Devemos fazer o bom uso do relativismo, inspirados, por exemplo, na culinária. Há uma só culinária, a que prepara os alimentos humanos. Mas ela se concretiza em muitas formas e as várias cozinhas: a mineira, a nordestina, a japonesa, a chinesa, a mexicana e outras.

Ninguém pode dizer que só uma é a verdadeira e gostosa, por exemplo, a mineira ou a francesa, e as outras não. Todas são gostosas do seu jeito e todas mostram a extraordinária versatilidade da arte culinária.

Por que com a verdade deveria ser diferente? A base do fundamentalismo é essa arrogância que de que o seu modo de ser, sua ideia, a sua religião e a sua forma de governo é a melhor e a única válida no mundo.

Leonardo Boff é filósofo,teólogo, professor emérito de Etica da UERJ e escrritor.

La agroecología como antídoto a la producción transgénica

21/08/2016

El actual sistema político y económico parece obedecer a la lógica de las bacterias dentro de una “placa de Petri”. Esta es un recipiente achatado de vidrio con nutrientes para bacterias. Algunas especies cuando presienten que los nutrientes se van a acabar, se multiplican enormemente y después mueren.

Algo parecido, a mi modo de ver, está ocurriendo con el sistema del capital. Se está dando cuenta de que, debido a los límites infranqueables de los recursos naturales y de haber sobrepasado la huella ecológica de la Tierra, pues ya ahora necesitamos un poco más de un planeta y medio (1,6) para atender las demandas humanas, no tendrá en el futuro condiciones de reproducirse. Y no hay otra alternativa, como advirtió el Papa en su encíclica Laudato Si, que cambiar de modo de producción y de consumo y cuidar de la Casa Común, la Tierra.

¿Cuál ha sido la reacción de los capitales productivos y especulativos ante este escenario? A semejanza de las bacterias de la “placa de Petri” multiplican exponencialmente las formas de lucro, acumulando cada vez más y concentrándose de manera espantosa. Según los datos publicados por el economista L. Dowbor en su sitio (dowbor.org de 15/12/2015: La red del poder corporativo mundial), «solamente 737 actores principales (top-holders) controlan el 80% del valor de todas las empresas transnacionales».

El poder económico, político e ideológico que se esconde detrás de estos datos es enorme. Adorador del ídolo-dinero, este sistema se vuelve, como decía el Papa en el avión de regreso de Polonia, «un verdadero terrorismo contra la humanidad».

¿No será que el sistema, inconscientemente, presiente, como las mencionadas bacterias, que puede desaparecer si no cambia? ¿E intenta cambiar?

No piensen los lectores/as que esta situación no afecta a la séptima economía mundial, Brasil. Es propio de la «estupidez de la inteligencia brasilera», al decir de Jessé Souza, no incluir este dato geopolítico en los debates sobre el impeachment y sobre la economía nacional, como por ejemplo se viene haciendo desde hace años en el programa Panel de la Globonews. Ahí domina soberanamente el neoliberalismo. La ecología y los movimientos sociales no existen para ese programa.

El problema real es este: con el PT, Lula y Dilma, el sistema mundial no consigue encuadrar a Brasil en la lógica concentradora del capital globalizado. El pueblo y los pobres, se dice, ganan demasiado en perjuicio del mercado y de las grandes corporaciones nacionales articuladas con las transnacionales. Por eso hay que dar un golpe a la democracia, de la manera que sea, para liberar así el camino a la acumulación de los adinerados. Las políticas del vice-presidente Temer se orientan hacia el completo desmonte de las políticas sociales del gobierno Lula-Dilma. El Ministerio de Desarrollo Agrario ha desaparecido. La Secretaría de Economía Solidaria es un departamento dirigido por un policía.

Pero donde hay poder, surge también un contra-poder. Por todas partes en el mundo se están reforzando las resistencias al capitalismo insostenible que no consigue resultar bien ni siquiera en los países centrales.

En este contexto, como antídoto, entra la agroecología, la producción orgánica y surgen cooperativas agrícolas sin pesticidas ni transgénicos.

Entre el 27 y 30 de julio de 2016 se celebraron en Lapa-Paraná las 15º Jornadas de Agroecología, con más de tres mil participantes de diferentes regiones de Brasil y de siete países más. El tema central era la preservación de las semillas criollas, creando bancos y casas de semillas contra el asalto de las grandes corporaciones, como Monsanto y Syngenta, entre otras. Estas buscan volver estériles las nativas para obligar a los campesinos a comprar sus semillas genéticamente modificadas, que no se pueden volver a plantar.

Sabemos que las semillas son un bien común de la humanidad y no pueden ser apropiadas por grupos privados. El acceso a las semillas establece un derecho humano básico, herido por las pocas transnacionales que controlan prácticamente todas las semillas. Para que la vida se siga reproduciendo es fundamental defender la riqueza ecológica, patrimonial y cultural de las semillas. Curiosamente, Cuba ocupa el primer lugar en el mundo en agroecología y en la creación de cooperativas en todas las esferas. Es la forma por la cual el socialismo evita ser absorbido por el capitalismo individualista y concentrador.

Era conmovedor asistir en la “mística” final de la Jornada, al intercambio de semillas y de pequeñas plantas entre todos los presentes. Había muchos niños, jóvenes, indígenas, hombres y mujeres que luchan por la vida sana para todos, contra un sistema anti-vida. Ellos son portadores de la esperanza de que el mundo puede ser sano y mejor.

*Leonardo Boff es articulista del JB online y ha escrito Sostenibilidad: que es y qué no es, Vozes 2012.

Traducción de MJ Gavito Milano

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