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A legitimação da cultura da violência pela pregação de Bolsonaro

18/11/2018

A campanha eleitoral de Jair Bolsonaro para a presidência de República se caracterizou pela pregação de muito ódio, exaltação da violência a ponto de ter como herói um dos mais perversos torturadores, Brilhante Ustra e admirar a figura de Hitler. Fez ameaças aos opositores que não teriam outra alternativa senão a prisão ou o exílio. Pregou ódio a homoafetivos, aos negros e negras e aos indígenas. O Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto seriam considerados terroristas e como tal tratados. Os quilombolas nem serviriam para reprodução. Foram ofensas sobre ofensas a vários grupos de pessoas e minorias políticas. Talvez a maior desumanidade mostrou quando disse às mães chorosas que procuravam corpos e ossos de seus entes queridos desaparecidos pela repressão por parte dos órgãos de controle e repressão da ditadura militar: “quem procura ossos são os cães”, Bolsonaro disse.

Este foi o discurso da campanha. Outro está sendo o discurso como presidente eleito, dentro de um certo rito oficial. Mesmo assim continua com as distorções e com uma linguagem tosca fora da civilidade democrática. Tudo culminou com a saída de 8.500 médicos cubanos que atendiam as populações mais afastadas de nosso país. Era um protesto do governo cubano face às acusações de Bolsonaro à Cuba, pois é um obsessivo anti-comunista.
A atmosfera tóxica criada pela campanha eleitoral acabou por gestar uma cultura da violência nos seus seguidores, exaltando-o como “mito”. Vários do LGBT especialmente os homoafetivos, negros e indígenas sofreram já violência. Houve até mortes gratuitas aos gritos de “Viva Bolsonaro”.

Que quer sinalisar este fenômeno de violência? Bolsonaro mediante metáforas ponderosas como contra a corrução, o anti-Petismo, o comunismo, o tema da segurança pública e o da família e o lema fundamental “Brasil acima de tudo”(tomado do nazismo “Deutschland über alles”) e Deus acima de todos”, conseguiu desentranhar a dimensão perversa presente na “cordialidade do brasileiro”

Esta expressão “cordialidade do brasileiro”criada pelo escritor Ribeiro Couto e consagrada por Sérgio Buarque de Holanda (cf.V.capítulo de Raizes do Brasil de 1936) é bem explicada por ele e pode significar, por um lado, bondade e polidez e, por outro, também rancor e ódio. Ambas as dimensões provém do mesmo coração donde se deviva “cordialidade”. Sérgio Buarque exemplifica: “a inimizade bem pode ser cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107). Bolsonaro e seus mais próximos seguidores habilmente souberam tirar à tona este outro lado sombrio de nossa cordialidade. Recalcou o lado luminoso e deixou que o lado maligno inundasse a consciência de milhares de pessoas.

Esse lado nefasto estava escondido e reprimido na alma do brasileiro. Sempre houve ódio e maldade face aos antigos escravos negros cujos descententes são 55,4% de nossa população atual. Isso o mostrou brilhantemente Jessé Souza no seu livro já famoso “A elite do atraso: da escravidão ao Lava-Jato”(2018). Mas era de parte dos representantes antigos e atuais da Casa Grande. A maioria da imprensa empresarial e conservadora e particularmente as mídias sociais da internet universalizaram essa compreensão negativa.

Aconselho ao leitor/a que volte a reler meu artigo de 5/11/18:”A dimensão perversa da ‘cordialidade’ brasileira”. Ai, com mais recursos teóricos, procuro fazer entender esse lado sombrio de nossa tradição cultural.

Qual é o dado específico da atual hostilidade, o lado negativo de nossa cordialidade? É o fato de que ele, que sempre existia, agora se sente legitimado pela mais alta instância política do país, por Jair Bolsonaro. Ele despertou esse lado dia-bólico e reprimiu o lado sim-bólico em muitos de nosso povo que lhe deram a vitória eleitoral.

Não adianta o futuro presidente condenar os eventuais atos de violência, pois se desmoralizaria totalmente caso os tolerasse. Mas convenhamos: foi ele que criou as condições psico-sociais para que ela irrompesse. Ele está na origem e, historicamente, deve ser responsabilizado, por ter despertado esse ódio e violência. Ela prossegue nas midias sociais, nos twitters, blogs e facebooks.

Nenhuma sociedade se sustenta sobre essa dimensão desumana de nossa humanidade. Para conter esse impulso negativo que está em todos nós, existem a civilização, as religiões, os preceitos éticos, os contratos sociais, a constituição, as leis e o auto-controle. Existem também os órgãos que zelam pela ordem e pela contenção de formas criminosas de cordialidade.

Urgentemente precisamos de pessoas-sínteses, capazes de apaziguar os demônios e fazer prevalecer os anjos bons que nos protejam e nos apontem os caminhos da convivência pacífica. Não será Bolsonaro, a pessoa indicada. Mas as sombras existem porque há luz. E é esta que deve triunfar e fazer ditosa a nossa convivência nesse belo e imenso país.

Leonardo Boff escreveu: O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade,26.ed. Vozes,2015.

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Lurian,a filha de Lula: a dor, a indignação, a resistência

17/11/2018

                 Lurian: a dor, a indignação, a resistência

O comovente desabafo de filha de Lula depois do interrogatório agressivo a que ele foi submetido pela juíza substituta da Lava Jato.

16/11/2018 12:48
Publico este comovente testemunho da filha de Lula, Lurian, depois do interrogatório feroz em Curitiba por ocasião do sítio de Atibaia. Ficou claro que o sítio não pertence a ele nem as reformas foram consequência de favorecimentos ilícitos. Fol iniciativa do dono. No dia 12 de novembro, a pedido dele, o visitei na solitária a que está injustamente condenado. A primeira pergunta que lhe fiz foi:”Lula,como está a sua alma?” Ao que me respondeu:”Esta tranquila com a tranquilidade dos justos porque a consciência não me acusa de nada do que me acusam. Mas estou indignado pela injustiça, pela não apresentação de materialidade nas acusações que me assacam. A injustiça me fere profundamente. Mas não guardo rancor nem ódio. Não é virtude, é de meu caráter”, Lê muito, grandes calhamaços sobre petróleo, sobre políticas públicas,sobre a história do Brasil. Reflete sobre equívocos e acertos de seu governo. E como o PT deve melhorar a sua linguagem e renovar seu contacto orgânico com as bases de onde veio. E sustentar que o grande desafio que devemos enfrentar é a injustiça social  que castiga milhões de irmãos e irmãs, que chamam neutramente de desigualdade. Deixei-lhe uns 30 exemplares de literatura de cordel que, como nordestino, muito aprecia. E reza.Eu que fui consolá-lo sai consolado pois está calmo, sorridente, piadeiro e cheio de humor que encanta os guardas que se tornaram fãs dele. Chegará o dia – oxalá seja logo – em que a verdade virá à luz e se fará a justiça devida.Lboff
*************************************
Ontem eu via a imagem de um homem forte, mas triste, num embate com uma juíza e um promotor soberbos….

Ontem eu vi a justiça agir de forma cega e insensível perante um homem, de 73 anos, inocente, que luta todos os dias para que desfaçam o mínimo da maldade atentada contra ele e sua família.

Ontem eu vi uma jovem mulher que poderia entrar pra história como digna e justa, tratar um inocente com desrespeito, intolerância e total parcialidade.

Ontem eu vi a dor de um homem que injustamente está sendo privado do convívio dos seus amigos, do seu povo, mas principalmente da sua família, das pessoas que ama, dos seus filhos, netos e bisneta…

Ontem eu vi um olhar de tristeza.

Ontem eu vi um olhar de indignação.

Ontem eu ouvi uma súplica: “me leva com você”.

Ontem meu coração partiu em mais pedaços, meu corpo se sentiu mais cansado…

Meu pai, meu amor, TODOS sabem da sua inocência, inclusive os que te julgam, condenam e maltratam.

A história vai cobrar… não estaremos mais aqui pra ver, mas num futuro, a história mostrará quem é quem…

Continuo aqui, com fé, com amor e com esperança

#queremosLulaLivre

Lurian, a filha de Lula: a dor, a indignação, a resistênci

16/11/2018

Lurian: a dor, a indignação, a resistência

O comovente desabafo de filha de Lula depois do interrogatório agressivo a que ele foi submetido pela juíza substituta da Lava Jato.

16/11/2018 12:48
Publico este comovente testemunho da filha de Lula, Lurian, depois do interrogatório feroz em Curitiba por ocasião do sítio de Atibaia. Ficou claro que o sítio não pertence a ele nem as reformas foram consequência de favorecimentos ilícitos. Fol iniciativa do dono. No dia 12 de novembro, a pedido dele, o visitei na solitária a que está injustamente condenado. A primeira pergunta que lhe fiz foi:”Lula,como está a sua alma?” Ao que me respondeu:”Esta tranquila com a tranquilidade dos justos porque a consciência não me acusa de nada do que me acusam. Mas estou indignado pela injustiça, pela não apresentação de materialidade nas acusações que me assacam. A injustiça me fere profundamente. Mas não guardo rancor nem ódio. Não é virtude, é de meu caráter”, Lê muito, grandes calhamaços sobre petróleo, sobre políticas públicas,sobre a história do Brasil. Reflete sobre equívocos e acertos de seu governo. E como o PT deve melhorar a sua linguagem e renovar seu contacto orgânico com as bases de onde veio. E sustentar que o grande desafio que devemos enfrentar é a injustiça social  que castiga milhões de irmãos e irmãs, que chamam neutramente de desigualdade. Deixei-lhe uns 30 exemplares de literatura de cordel que, como nordestino, muito aprecia. E reza.Eu que fui consolá-lo sai consolado pois está calmo, sorridente, piadeiro e cheio de humor que encanta os guardas que se tornaram fãs dele. Chegará o dia – oxalá seja logo – em que a verdade virá à luz e se fará a justiça devida.Lboff
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Ontem eu via a imagem de um homem forte, mas triste, num embate com uma juíza e um promotor soberbos….

Ontem eu vi a justiça agir de forma cega e insensível perante um homem, de 73 anos, inocente, que luta todos os dias para que desfaçam o mínimo da maldade atentada contra ele e sua família.

Ontem eu vi uma jovem mulher que poderia entrar pra história como digna e justa, tratar um inocente com desrespeito, intolerância e total parcialidade.

Ontem eu vi a dor de um homem que injustamente está sendo privado do convívio dos seus amigos, do seu povo, mas principalmente da sua família, das pessoas que ama, dos seus filhos, netos e bisneta…

Ontem eu vi um olhar de tristeza.

Ontem eu vi um olhar de indignação.

Ontem eu ouvi uma súplica: “me leva com você”.

Ontem meu coração partiu em mais pedaços, meu corpo se sentiu mais cansado…

Meu pai, meu amor, TODOS sabem da sua inocência, inclusive os que te julgam, condenam e maltratam.

A história vai cobrar… não estaremos mais aqui pra ver, mas num futuro, a história mostrará quem é quem…

Continuo aqui, com fé, com amor e com esperança

#queremosLulaLivre

The great front of socio-ethical values

14/11/2018

We are living through dramatic socio-political times. Never in our history has there been such wide spread hate and rage, especially in the social mass media. A terrifying figure that embodies the dark dimension and everything that has been repressed in our history has been elected President. He has infected great part of his electors. This figure has managed to bring to light the dia-bolical (that which separates and divides) that always accompanies the sym-bolical (that which unifies and congregates), in such a devastating way that the diabolical has inundated the consciousness of many and weakened the symbolical to the point of dividing families, tearing friends apart and liberating violence, both verbal and physical.

This is directed particularly against the political minorities, who in fact are the numeric majorities, such as the Black population, plus the Indigenous, the quilombolas and those of different sexual orientation.

We need a leader or a few leaders with enough charisma to pacify, or to bring about peace and social harmony: a person of synthesis. The President-elect will not be that person, because he lacks those characteristics. To the contrary, he reinforces the dark dimension, which is present in all of us, but which we control through civility, ethics, morality and religion, through the dimension of light. Anthropologists teach us that we are all simultaneously sapiens and demens, or in Freud’s language, we are marked by the principle of life (eros) and the principle of death (thanatos).

The challenge of each person and of any society is to see that these two energies, that cannot be denied, are balanced, giving hegemony to the sapiens and the principle of life. Otherwise, we would wind up devouring each other.

At present this point of balance has been lost in our country. If we want to coexist and to build a society that is minimally human, we must strengthen the positive forces that are opposing the negative ones. Is urgent that we release the light, tolerance, solidarity, caring and love for truth that are rooted in our human essence. But how to do it?

The wise men and women of humanity, without forgetting the wisdom of the original peoples, bear witness that there is one and only one path. This path was well expressed by the poverello from Assisi, when he sang: where there is hate, may I bring love; where there is discord, may I bring union; where there is darkness, may I bring light and where there is error, may I bring truth.

Truth has been particularly withheld by the former captain who speaks in threats and hate, contrary to the spirit of Jesus, transforming truth into horrible falsehoods and insults. It is good to quote the verse of the great Spanish poet, Antonio Machado: “Your truth, no, the Truth. And come with me, let’s find it together. Your truth, keep it to yourself”. The genuine truth must unite rather than divide us, because no one owns the truth. We all participate in the truth, one way or another, without a spirit of ownership.

To defend democracy and social rights, in addition to a broad political front, we need another broad front, formed of all the political, ideological and spiritual tendencies with the values needed to take us out of the present crisis

This is important: we must employ the tools they will never be able to use, such as love, solidarity, fraternity and sisterhood, the right of everyone to be happy and for truth to be transparent, the right to a little corner of Land of the Common Home that God has destined for all, to a decent home, to practice compassion towards those who suffer, with respect and understanding, renouncing any spirit of revenge. It is worth mentioning Pope Francis’ three “t’s”: Tierra, (land), Techo, (home) and Trabajo (work), as fundamental rights.

Through these values, that are also Gospel values, we must attract the faithful of the Pentecostal Churches against the Pastors who are true wolves. On becoming aware of these values, that humanize them and bring them together to the true God who is above and within all, and whose true name is Love and Mercy, instead of threats of hell, the faithful will liberate themselves from servility to a discourse that reaches more into their pockets, than into the good of their souls.

Hate is not defeated by more hate, nor violence by even more violence. Only the hands that intertwine with other hands, shoulders that are offered to the weak, and unconditional love, will let us create, in the words of the unjustly hated Paulo Freire, a less evil society where it is not so hard to love.

This is the secret that would make Brazil a great nation of the tropics that, in the uncontrollable process of globalization, could help put forth a human face; jovial, happy, hospitable, tolerant, tender and fraternal..

Leonardo Boff Eco-Theologian-Philosopher Earthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

La dimensión perversa de la “cordialidad” brasilera

08/11/2018

El 31/10/2014 publiqué en el JB on line un artículo sobre lo que significa el brasilero como “hombre cordial”. Lo publico de nuevo, modificado, por su candente actualidad. Los dos últimos años hemos conocido una ola de odio y de discriminación sin precedentes en nuestra historia. Particularmente durante la campaña electoral para presidente. Ha habido injurias, calumnias, millones de fake news y todo tipo de palabras gruesas. Ahí se mostró el lado perverso del llamado “cordial” pueblo brasilero.

Decir que el brasilero es un “hombre cordial” viene del escritor Ribeiro Couto, expresión generalizada por Sérgio Buarque de Holanda en su conocido libro: “Raíces de Brasil”, de 1936, al que le dedica todo el capítulo V completo. Pero aclara, contrariando a Cassiano Ricardo que entendía la “cordialidad” como bondad y trato amable, que “nuestra forma ordinaria de convivencia social es en el fondo justamente lo contrario de un trato amable” (de la 21ª edición de 1989, p. 107).

Sergio Buarque asume la cordialidad en el sentido estrictamente etimológico: viene de corazón. El brasilero se orienta mucho más por el corazón que por la razón. Del corazón pueden provenir el amor y el odio. Bien lo dice el autor: “la enemistad bien puede ser tan cordial como la amistad, visto que una y otra nacen del corazón” (p.107). Yo diría que el brasilero es sentimental más que cordial, lo que me parece más adecuado.

Escribo todo esto para intentar entender los sentimientos “cordiales” que han irrumpido en la campaña presidencial de 2018. Ha habido por una parte declaraciones de entusiasmo hasta el fanatismo y por otra, de fascismo y de odios profundos y expresiones chulescas. Se verificó lo que Buarque de Holanda escribió: la falta de un trato amable en nuestra convivencia social.

Quien haya seguido las redes sociales, se habrá dado cuenta de los bajísimos niveles de educación, de la falta respeto mutua e incluso de la falta de sentido democrático como convivencia con las diferencias. Esta falta de respeto repercutió también en los programas de los partidos de la tv.

Para entender mejor esta nuestra “cordialidad” hay que referirse a dos herencias que pesan sobre nuestra ciudadanía: la colonización y la esclavitud. La colonización produjo en nosotros el sentimiento de sumisión, teniendo que asumir las formas políticas, la lengua, la religión y los hábitos del colonizador portugués. Como consecuencia se crearon la Casa Grande y la Senzala. Como bien lo mostró Gilberto Freyre no se trata de instituciones sociales exteriores. Ellas fueron internalizadas en forma de un dualismo perverso: de un lado el señor que posee todo y del otro el siervo o servidor que tiene poco y se somete. Se generó también la jerarquización social que se revela por la división entre ricos y pobres. Esta estructura que subsiste en la cabeza de importantes oligarcas y se ha vuelto un código de interpretación de la realidad, aparece claramente en la forma como las personas se tratan en las redes sociales.

Otra tradición muy perversa fue la esclavitud, tan bien descrita por Jessé Souza en su libro: “La élite del atraso: de la esclavitud al Lava-Jato” (2018). Cabe recordar que hubo una época, entre 1817-1818, en que más de la mitad de Brasil estaba compuesta por esclavos (50,6%). Hoy cerca del 60% tiene en su sangre algo de esclavos afrodescendientes. Son discriminados y empujados a las periferias, humillados hasta el punto de perder su propia autoestima.

La esclavitud fue internalizada en forma de discriminación y prejuicio contra el negro que debía servir siempre, porque antes hacía todo gratis y se cree que todo debe continuar así. Pues de esta forma se tratan, en muchos casos, a los empleados y empleadas domésticas o a los peones de las haciendas. Una madame de clase alta dijo en una ocasión: “los pobres ya reciben la bolsa-familia y además de eso creen que tienen derechos”. Esta es la mentalidad de la Casa Grande.

Las consecuencias de estas dos tradiciones están en el inconsciente colectivo brasilero en términos, no tanto en términos de conflicto de clase (que también existe) sino más bien de conflicto de status social. Se dice que el negro es perezoso cuando sabemos que fue él quien construyó casi todo en nuestras ciudades históricas. Que el nordestino es ignorante, cuando es un pueblo altamente creativo, despierto y trabajador. Del nordeste nos vienen grandes escritores, poetas, actores y actrices. Pero los prejuicios los castigan a la inferioridad.

Todas estas contradicciones de nuestra “cordialidad” aparecieron en los twitters, facebooks y otras redes sociales. Somos seres excesivamente contradictorios.

Añado todavía un argumento de orden antropológico-filosófico para comprender la irrupción de amores y odios en esta campaña electoral. Se trata de la ambigüedad fontal de la condición humana. Cada uno posee su dimensión de luz y de sombra, sim-bólica (que une) y dia-bólica (que divide). Los modernos dicen que somos simultáneamente dementes y sapientes (Morin), es decir, personas de racionalidad y bondad y al mismo tiempo de irracionalidad y maldad.

Esta situación no es un defecto de la creación sino una característica de la condition humaine. Cada uno tiene que saber equilibrar estas dos fuerzas y dar primacía a las dimensiones de luz sobre las de sombras y a las de sapiente sobre las de demente.

No debemos ni reír ni llorar, sino procurar entender, como decía Spinoza. Pero entender no es suficiente. Urge practicar formas civilizadas de la “cordialidad” en la cual predomine la voluntad de cooperación con vistas al bien común, se respeten a las minorías y se acojan las diferentes opciones políticas. Brasil necesita unirse para que todos juntos enfrentemos los graves problemas internos en un proyecto asumido por todos. Sólo así se gestará el Brasil al que se llamó “Tierra de la buena Esperanza” (Ignacy Sachs).

No será el presidente electo la persona de la reconciliación nacional, pues él, por su estilo, es factor de división y creador de una atmósfera social de violencia y discriminación.

*Leonardo Boff escribió “El despertar del águila: lo dia-bólico y lo sim-bólico en la construcción de la realidad”, 1998.

Traducción de Mª José Gavito Milano

La dimensione perversa della “cordialità Brasiliana

08/11/2018

Il 31 ottobre del 2014 ho pubblicato sul Jornal do Brasil online un articolo su cosa significa il Brasiliano come “uomo cordiale”. Lo ripubblico, modificato, per la sua profonda attualità. Negli ultimi due anni abbiamo conosciuto un’onda di odio e discriminazione senza precedenti nella nostra storia. Particolarmente durante la campagna elettorale presidenziale. Ci sono stati insulti, calunnie, milioni di fake news e ogni tipo di parola scurrile. Qui si è mostrato il lato perverso del cosiddetto popolo Brasiliano come “cordiale”.

Dire che il Brasiliano è un “uomo cordiale” viene dallo scrittore Ribeiro Couto, espressione diffusa dappertutto da Sergio Buarque de Holanda nel suo noto libro “Raizes do Brasil” del 1936 che gli dedica l’intero capitolo 5°. Ma chiarisce, contraddicendo Cassiano Ricardo, per il quale , “cordialità” va intesa come cortesia e umanità. Ma “la nostra tradizione ordinaria di convivere sociale è, in fondo, esattamente il contrario della gentilezza” (dalla XXI edizione del 1989 p.107).

Sergio Buarque assume la cordialità nel senso strettamente etimologico: viene dal cuore. Il Brasiliano si orienta molto più con il cuore che con la ragione. Dal cuore possono provenire l’amore e l’odio. Dice bene l’autore: “L’inimicizia può essere altrettanto cordiale come l’amicizia, visto che l’una e l’altra nascono dal cuore” (p.107). Io direi che il brasiliano è un sentimentale più che cordiale, il che mi pare più adeguato.

Scrivo tutto questo per tentare di capire i sentimenti “cordiali” che hanno fatto irruzione nella campagna elettorale del 2018. C’è stata da una parte dichiarazione di entusiasmo fino al fanatismo, e dall’altra, di fascismo e di odio profondi e espressioni volgari. Si è verificato ciò che Buarque de Holanda aveva scritto: la mancanza di urbanità nel nostro convivio sociale.

Chi avesse seguito le reti sociali, poteva rendersi con dei livelli bassissimi di educazione, di mancanza di rispetto e addirittura di mancanza di sentimenti democratici come convivenza con le differenze.

Questa mancanza di rispetto aveva la sua eco nei programmi TV riservati ai partiti.

Per intendere meglio questa nostra “cordialità” è opportuno riferire due eredità che pesano sulla nostra cittadinanza: la colonizzazione e la schiavitù. La colonizzazione ha prodotto in noi sentimenti di sottomissione, dovendo assumere le forme politiche, la lingua, la religione e le abitudini del colonizzatore portoghese. Di conseguenza si sono create la Casa Grande e la Senzala. Come bene ha dimostrato Gilberto Freyre non si tratta di istituzioni sociali esteriori. Esse sono state interiorizzate nella forma di un dualismo perverso: da una parte il signore che possiede tutto e comanda e dall’altra il servo o servitore che poco possiede e si sottomette. È nata pure la gerarchizzazione sociale che si osserva nei rapporti tra ricchi e poveri. Questa struttura sussiste nella testa di importanti grandi oligarchi e è diventata un codice di interpretazione della realtà e appare chiaramente nelle forme con cui sono trattate le persone nella reti sociali.

L’altra tradizione molto perversa è stata la schiavitù così ben descritta da Jessé Souza nel suo libro: “L’élite dell’arretratezza: dalla schiavitù à Lava-Jato” (2018). È opportuno ricordare che c’é stata un’epoca tra 1817-1818 in cui più di metà della popolazione brasiliana era composta da schiavi (50,6%). Oggi circa il 60 per cento possiede nel suo sangue tracce derivate da schiavi afrodiscendenti. Sono discriminati e confinati nelle periferie, umiliati al punto da perdere la propria autostima.

La schiavitù è stata interiorizzata in forma di discriminazione e preconcetto contro il nero che doveva sempre servire, perché prima faceva tutto gratuitamente e si crede che deve continuare cosi. Infatti in questo modo si trattano in molti casi, impiegati e impiegate domestici e pure i lavoratori delle Fazende. Una signora di alta classe ha detto una volta “i poveri già ricevono la bolsa-famìlia e, oltre a questo ora pretendono di avere dei diritti. Questa è la mentalità della Casa Grande.

Le conseguenze di queste due tradizioni stanno nell’inconscio collettivo brasiliano non tanto come di lotta di classe (che pure esiste) ma prima ancora di conflitti per lo stato sociale. Si dice che i neri sono pigri, mentre sappiamo benissimo che sono stati loro a costruire tutto nelle nostre città storiche. Dicono che il nordestino è ignorante. Invece è un popolo altamente creativo, sveglio, e lavoratore. Dal nordest provengono grandi scrittori, attori e attrici. Ma il preconcetto li punisce come inferiori.

Tutte queste contraddizioni della nostra “cordialità” apparivano nei Twitters, Facebook e altre reti sociali. Siamo esseri troppo contradittori.

Aggiungo un argomento di ordine antropologico-filosofico per comprendere le irruzioni di amore e di odio in questa campagna elettorale. Si tratta di ambiguità fontale della condizione umana. Ognuno possiede propria dotazione di luce e di ombra, di sim-bolico (che unisce) e di dia-bolico (che divide). I moderni dicono che siamo simultaneamente dementi e sapienti (Morin), cioè persone di razionalità e bontà e allo stesso tempo di irrazionalità e malvagità.

Questa situazione non è un difetto della creazione ma una caratteristica della condition humaine. Ognuno ha da sapere equilibrare queste due forze e dare il primato delle dimensione di luce o di ombra e quelle di sapiente e di demente.

Noi non dobbiamo né ridere né piangere ma cercare di capire come diceva Spinoza. Non è sufficiente capire. È urgente praticare forme civilizzate di “cordialità” nelle quale predomini la volontà, di cooperazione in vista del bene comune. Si rispettino le minoranze e si accolgano le differenti opzioni politiche. Il Brasile ha bisogno di essere unito affinché tutti insieme affrontiamo i gravi problemi interni in un progetto accettato da tutti. Solo così si gestisce quello che Ignacy Sachs chiamò Brasile “Terra di buona speranza”

Non sarà il presidente eletto la persona della riconciliazione nazionale, perché lui, secondo il suo stile, è produttore di divisione e creatore di una atmosfera sociale di violenza e di discriminazione.

*Leonardo Boff ha scritto “Il risveglio dell’aquila. Per essere uomini bisogna volare alto”, Sperling & Kupfer, 2002.

Traduzione di Romano Baraglia – Lidia Arato

“PT tem que visitar seus demônios”: Gilberto Carvalho

08/11/2018

Gilberto Carvalho foi o braço direito de Lula nos seus dois governos. É uma pessoa jamais metida em corrupção, pois é extremamente correto.Estudou filosofia e parte da teologia,foi da pastoral operária e é reconhecido como uma pessoa de síntese. Possui um atinado sentido analítico,mas despojado de justificativas que ocultam a verdade. Sempre cobrou do PT auto-crítica e sempre condenou malfeitos que lhe vinham ao conhecimento. Vale a pena ler a entrevista que deu à BBC News Brasil  no dia 6/11/18 e publicada pela Revista IHU on-line de 7 de novembro de 2018. Aqui segue a entrevista que excele pelo equilíbrio, pela busca da verdade e da sinceridade. Não é insignificante dizer que uma vez ao mês, quando podia, se recolhia ao mosteiro beneditino em Goiás Velho  para junto com o abade Dom Marcelo Barros entregar-se à meditação. É um amigo entranhável que nunca perdi: LBoff

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Após a derrota do PT na eleição presidencial para Jair Bolsonaro, o petista histórico e ex-ministro Gilberto Carvalho reconhece que o partido precisa “corrigir problemas” que “magoaram, ofenderam e decepcionaram a sociedade”.

Em entrevista à BBC News Brasil na sede nacional do PT, entrecortada pelos trovões típicos das chuvas de fim de ano em Brasília, ele afirma que o sentimento antipetista que contribuiu para a derrota de Fernando Haddad foi inflado nesta eleição por mentiras como a de que seu governo iria “venezuelizar o País” ou distribuir um “kit gay contra a família“.

Mas admite que as urnas trazem também um recado para o partido “visitar os demônios” da corrupção.

“A nossa convivência com a política tradicional, o financiamento empresarial de campanha, junto com isso veio corrupção, na forma de arrecadar dinheiro para campanha, até em alguns casos o enriquecimento de algumas pessoas, embora muito poucas, mas teve. Isso, sim, a gente tem que encarar, que eu chamo de a gente visitar os nossos demônios”, diz.

A entrevista é de Mariana Schreiber, publicada por BBC Brasil, 06-11-2018.

Eis a entrevista.

Bolsonaro venceu com forte discurso anti-PT. Qual recado o partido tira das urnas?

Tenho a impressão de que uma resposta mais definitiva dessa eleição, nós vamos levar um tempinho para digerir por conta da mudança profunda da natureza que se deu o processo eleitoral e, sobretudo, o processo de comunicação com o eleitor. Hoje, temos consciência de que grande parte da mobilização dos corações e mentes se deu através do manuseio das redes sociais particularmente, Facebook e WhatsApp, no submundo. É o envio de mensagem de um jeito muito qualificado com conteúdo psicossocial de captação do ânimo das pessoas, do interesse das pessoas, que dá um salto de qualidade em relação a tudo anteriormente.

Para nosso aprendizado e da democracia, a gente precisa aprofundar um pouco mais qual é a natureza desse processo que levou as pessoas a mandar esse recado. Porque, aparentemente, é um recado de aprovação de uma candidatura que se afirma forte, que afirma que vai resolver todos os problemas, que autoriza a violência, a discriminação racial, de orientação sexual etc. e tal. Quer dizer, é uma viragem muito brusca naquilo que tem sido o recado político e as mensagens que a gente recebe.

A ironia é que é uma (mensagem) antipolítica contra um tipo de política, porque os que estão com Bolsonaro não são novos na política, nenhum deles, tirando o Paulo Guedes, que vai ser ministro da Economia. Bolsonaro tem 26 anos de mandato (de deputado federal), Magno Malta não sei quanto, (Onyx) Lorenzoni não sei quanto (ambos iniciaram a carreira política nos anos 90). E da pior política.

Por quê?

Porque são todos eles praticantes do velho fisiologismo, da manipulação religiosa terrível no caso do Magno Malta. A nós, cabe de todo modo entender alguns recados. O primeiro deles é que de fato precisamos fortemente retomar contato com a nossa base, a periferia, com aqueles que foram beneficiários da nossa política social, acho que não foram conscientizados da natureza desses benefícios sociais, do que era nosso projeto.

Há um convite, de fato, para que o partido se repense do ponto de vista da sua prática profissional, a sua relação com a corrupção, a sua relação com os modos tradicionais de fazer governo, o fisiologismo do toma lá, dá cá.

Há um convite para a gente deixar a arrogância de lado e ter a humildade de reconhecer que essa primavera de novas energias que surgiram, sobretudo no segundo turno, não querem se enquadrar dentro de um partido e não querem ser hegemonizadas por um partido. É um convite para formação de uma frente que não seja apenas formal de partidos. Tem que haver a costura desse energia e a busca de encontrar caminhos e expressões que se adequem mais a essa (mobilização).

Há também, naturalmente, um desafio enorme de, junto com essa frente, se fazer uma resistência à toda forma de privação da liberdade. Então, eu acho que as urnas dão esse recado. Agora, insisto, tudo isso carece de uma análise mais profunda e também de um acompanhamento para gente poder ver no que vai dar.

Esse processo eleitoral me lembra muito Collor (presidente eleito) em 1989, pelas categorias manejadas, e acho que o futuro desse governo pode ter um destino, não vou dizer igual, mas semelhante ao do Collor, no sentido de uma grande promessa rapidamente frustrada.

Mas não um impeachment?

Não, eu não quero falar de impeachment. Não podemos funcionar como aqueles que querem um inferno para o País. Não cabe a nós desejar o pior, pois quem sofre muito é o povo pobre. Nós temos que ter responsabilidade. Cabe a nós fiscalizar, vigiar, alertar e buscar conscientizar a população daquilo que for acontecendo.

(Se houver) Uma imposição de um modelo liberal acoplado necessariamente de um modelo repressivo, nós temos que ir para rua, não podemos ter medo. Pode acontecer de tudo no governo Bolsonaro, pode até acontecer, o que é mais difícil, que seja um governo bem-sucedido com paz social. Para isso, teria que mudar muito esse programa que está aí. Pode acontecer de um governo fortemente liberal e fortemente repressivo, inclusive oficialmente e oficiosamente com forças paramilitares, porque as falas de Bolsonaro são de tamanha irresponsabilidade que elas estimulam uma ação paramilitar contra gays, contra sem terra, contra todos nós.

A manter esse programa (econômico liberal) do Guedes não há como dar certo, e o que vai dar é muito descontentamento rapidamente.

O PT esteve desde sempre orbitando em torno da liderança de Lula, mas nessa eleição isso não funcionou. O PT precisa agora superar a liderança de Lula?

Desculpe, mas eu vou ter que discordar da sua afirmação. Se você olhar o cenário, o PT foi o único partido que sobreviveu.

Sobreviveu no Nordeste, muito regionalizado.

É a maior bancada na Câmara Federal, tem o maior número de governadores (Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte). É verdade que está mais no Nordeste, mas os deputados são eleitos por outras regiões também. E nas condições que nós tivemos, com Lula preso. Então, eu não diria de maneira alguma que essa eleição diminui o valor que Lula tem eleitoralmente. Imagine se nós tivéssemos concorrido com Fernando Haddad ou quem quer que fosse sem a figura do Lula por trás. Nem de longe nós teríamos ido ao segundo turno, e muito menos tido essa votação que a gente teve.

Então, para nós é muito importante retomar a denúncia de que o Lula foi preso para não ganhar a eleição. Vamos relançar agora a campanha “Lula livre“, até porque nós morremos de medo. Quando esse cara tomar posse com Lula preso, não sabemos o que vai acontecer com Lula. Tudo que ele fala é no sentido de que o Lula morra de podre na cadeia, todas as palavras desrespeitosas.

Isso não quer dizer que temos que ficar Lulodependentes a vida inteira. E Lula nos deu uma grande contribuição agora nos ajudando a lançar uma nova figura, que é Fernando Haddad.

Tudo que nós esperamos é que o Fernando ocupe um papel muito importante justamente naquilo que eu chamei há pouco, com humildade, de formação de uma frente democrática popular, tem que ser popular, não só de partido. Porque uma das grandes vantagens nossas foi o surgimento (na eleição) de um engajamento dos movimentos sociais fortíssimo. Então, a gente tem um Haddad como uma nova liderança não para fazer esquecer do Lula, mas para se juntar ao Lula.

Além dos milhões de votos que Haddad obteve, ele é apontado como essa liderança porque tem uma cara de novo PT?

Eu não sei se posso chamar de novo PT, eu tenho muita dificuldade com essas categorias. Mas ele tem uma cara de quem foi aceito mais amplamente do que o PT. Muita gente que votou nele deixou claro que não gosta da PT, então ele pode sim galvanizar o apoio dessas pessoas, não para o PT, mas para essa frente. E é claro que caras novas sempre é bom. A Gleisi (Hoffmann, presidente do PT) foi uma cara nova, o Haddad é uma cara nova. E nessa síntese, que é natural dentro do partido, vai configurando a cara do partido: ela é múltipla, não tem uma cara só.

Voltando à pergunta anterior, a força do Lula colocou Haddad no segundo turno, mas o antipetismo e antilulismo também impediu Haddad de vencer. Há um dilema entre a necessidade de manter a importância do Lula e superá-lo?

De certa forma, quando eu falo que é uma frente além PT, ela é além Lula também, estou totalmente de acordo. Agora, um pouco de cuidado com esse história do antipetismo. Porque há um antipetismo absolutamente artificial que foi inflado agora na campanha, que não se baseia no antipetismo clássico, que as pesquisas sempre diziam que era de cerca de 30%, é baseado no negócio da corrupção, do mensalão, de certa arrogância do PT.

Esse antipetismo que surgiu aí, que para mim é uma pena que voa, é um antipetismo baseado na mentira. Mentira de que nós iríamos venezuelizar o país, a mentira de ter um kit gay contra família, toda essa multidão de fake news que não permanece.

Nós temos que olhar e procurar corrigir aquilo que de fato são problemas nossos. E que nós sabemos que magoaram, ofenderam, decepcionaram a sociedade. A nossa convivência com a política tradicional, o financiamento empresarial de campanha, junto com isso veio corrupção, na forma de arrecadar dinheiro para campanha, até em alguns casos o enriquecimento de algumas pessoas, embora muito poucas, mas teve. Isso sim a gente tem que encarar, que eu chamo de a gente visitar os nossos demônios. Nós temos que ter coragem de visitar, e, menos do que ficar fazendo uma autocrítica em praça pública, é fazer autocrítica na prática, mudar a nossa prática. Sair da burocracia e conviver mais com os pobres, fazer um trabalho de base novo de formação. Tudo isso OK, nós vamos fazer. Não querer agradar uma parte da sociedade que nós nunca vamos agradar, então isso é bobagem.

Noam Chomsky (linguista americano) disse que o PT deveria fazer uma Comissão da Verdade para analisar seus erros. Como o senhor vê essa sugestão, que tipo de trabalho poderia ser feito para visitar esses demônios?

Eu acho que a gente tem que ouvir com muito carinho o Chomsky. Quando eu falo em visitar e espantar esses demônios, ou repactuar eticamente internamente, eu estou de acordo. Nós precisamos fazer. É próprio de qualquer instituição humana ter erros, não tem problema nenhum.

O PT errou em não fazer isso antes?

Errou, podemos dizer que poderíamos ter feito de maneira mais clara isso antes. Mas eu quero dizer uma coisa: não é isso que mais afastaria a multidão. Nós não fizemos antes e vencemos eleição de 2006, 2010 e 2014. Essa exigência externa que se coloca pra nós, e que as pessoas dizem que não gostam e não votam no PT por causa disso, isso é bobagem. Não nos iludimos por ela, porque em geral isso é estribo para uma rejeição que é classista, que é de outra natureza.

Agora, independente disso, eu acho que, para o bem do partido, é importante fazer na prática essas mudanças. O que não é simples, porque nós convivemos numa cultura política profundamente marcada por essas posturas. O cara que ganhou a eleição agora, Bolsonaro, não é um cara honesto, a vida dele está cheia de compromissos e cumplicidade.

Os processos contra Lula do tríplex e do sítio de Atibaia indicam um relacionamento de compadrio com empreiteiras, em que ele pode ter obtido benefícios, ou quase obtido. Como olhar esses demônios se o discurso é de que o Lula é totalmente inocente?

Eu não vejo contradição nenhuma nisso porque eu conheço o Lula e Lula efetivamente é inocente. O Lula foi o presidente que tomou a iniciativa de estimular o desenvolvimento dos órgãos de controle, e nunca, isso eu posso testemunhar porque eu convivi com ele oito anos na Presidência, nunca ele pôs a mão na cabeça de ninguém. Ele sempre disse: “quem no meu governo errar será investigado, não peça para não ser investigado”. Tanto que ele viu cair (o ex-ministro Antônio) Palocci, cair Zé Dirceu (ex-ministro e ex-presidente do PT). Até diziam que ele era pouco solidário.

O Lula focou o governo dele na questão da mudança do país, desenvolvimento econômico e tal, e criou os mecanismos para que tudo fosse detectado. Muita coisa não foi detectada porque não havia como chegar à Presidência informações que não chegam tão rapidamente, como o caso da Petrobras.

O erro que o Lula cometeu, que nós cometemos, foi ter convivido com pessoas que foram governo com objetivo claro de se locupletar, e praticaram um monte de coisa que depois vieram pra nossa conta, como é o caso da Petrobras. Lula não conhecia Paulo Roberto, não conhecia (Renato) Duque (ex-diretores da estatal presos na Lava Jato).

E eu não concordo com afirmação de que teve compadrio. E o que ele fez, e aí sim se inclui no conjunto do PT, foi aceitar e tolerar o financiamento empresarial de campanha. Mas vamos lembrar que isso estava dentro da lei. Nunca o Lula se dirigiu a nenhum empresário, e falou “eu peço dinheiro para você”.

Mas tem as obras realizadas por empreiteiras no sítio de Atibaia (que não pertence a Lula formalmente, mas ele fazia uso), a própria questão do tríplex do Guarujá (que foi oferecido a Lula pela OAS e ele chegou a visitar antes de recusar)?

Elas se deram depois do governo dele, nunca durante o governo dele, na ciência dele.

Mas essas obras no sítio são um problema?

Não. Se fossem feitas durante o governo, seria um problema. Não foram feitas durante o governo dele, ao menos com a ciência dele não foram feitas. O caso do tríplex foi uma oferta que não foi aceita.

Não tenho dúvida nenhuma de que o processo contra o Lula foi um processo montado para tirá-lo do jogo. São absolutamente ridículas as acusações contra o Lula a ponto de um juiz do Supremo como o Gilmar Mendes dizer para mim pessoalmente: “o processo do tríplex não para de pé”. Não sou eu que falei isso. Qualquer juiz sabe disso. Só não agiram antes porque não queriam fazer interferência no processo eleitoral.

Sérgio Moro pode ocupar o cargo de ministro da Justiça no governo Bolsonaro (o que foi confirmado na quinta-feira um dia após a entrevista). Como o senhor recebe essa notícia?

Essa notícia é apenas a confirmação de tudo que nós tínhamos falado. Há um processo de um Judiciário que se tornou acusador. Um Judiciário que perdeu a imparcialidade e se tornou parte de um processo de destruição de um projeto. É só isso. Ele aceitando ou não, para mim não importa muito. O fato de o Bolsonaro convidá-lo é apenas a consolidação de que ele tem parte no processo e que eles conseguiram tirar (Lula da eleição), nos derrotaram desse ponto de vista.

Moro e uma parte importante do Judiciário, aí incluída a segunda instância, estão afundados até as botas nessa ação de destruir o nosso projeto, e não é pelos nossos erros, é pelos nossos acertos: em função de nossa autonomia em relação aos Estados Unidos, o ferimento dos interesses das petroleiras no pré-sal, o ferimento de interesses do sistema financeiro com as medidas que a Dilma tomou sobretudo (de tentar reduzir os spreads bancários). O resto foram argumentos que foram se acoplando para justificar perante a opinião pública uma ação criminosa, que, ao meu juízo, ao tentar destruir o PT, acabou destruindo o Brasil.

Tenho dificuldade de ver esse tipo de conexão entre a ação do Judiciário brasileiro e a suposta ação do governo contra interesses de multinacionais americanas.

Você desconhece toda a participação do Moro e do pessoal do Ministério Público nos Estados Unidos, os treinamentos nos cursos que eles fizeram? O acordo que foi feito de colaboração ilegal com o Ministério Público americano? Você desconhece isso? Passou dados para destruir a Petrobras para eles (o Ministério Público brasileiro colaborou com investigações nos Estados Unidos e a Petrobras depois firmou acordo de R$ 3,6 bilhões com o governo americano para encerrar investigações que enfrentava no país).

Eu te convido a fazer um estudo mais profundo dessa história, desde os financiamentos aos movimentos de 2013 pelos colleges americanos, MBL, etc., toda essa rede de WhatsApp agora.

Eu concordo com você, a gente não deve ter visões mecanicistas de causa e efeito, mas não podemos também deixar de analisar esses fios, essas ações, que não se explicam por si só. Por que o Emílio Odebrecht me disse, por exemplo, quando foi depor que só interessava aos promotores a questão do Lula e do PT? Por que as empresas brasileiras que foram atingidas pela Lava Jato foram sobretudo aquelas que têm uma concorrência estratégica na questão do petróleo, na questão do submarino atômico, na questão da concorrência com empresas americanas no controle da América Latina? Não convém a gente deixar de olhar.

Mas seriam mais indícios do que provas concretas dessa conexão?

É um pouco como (o golpe militar de) 1964, só depois nós soubemos das conexões (com interesses americanos). Eu prevejo que vai passar alguns anos para gente poder entender coisas que aparentemente não se explicam na Lava Jato. A grande pergunta “a quem beneficia?” é muito importante. Quem se beneficiou com tudo que eu vi até agora, desde a derrubada da Dilma à prisão do Lula? Quem está comprando petróleo na bacia das almas (quando algo é vendido barato, às pressas)? Quem estão sendo os beneficiários da internacionalização da economia brasileira por esses preços vis que estão aí? Alguém se beneficiou.

No passado, o senhor muitas vezes destacou a lealdade de Ciro a Lula. Ciro Gomes agora se diz traído por ele e faz duras críticas ao PT. A mágoa é justa?

Eu prefiro não responder ao Ciro. Essa minha atitude tem uma postura de respeitar o Ciro que eu conheço e o Ciro das atitudes, e não o Ciro das palavras. Se eu for levar em conta as ofensas que ele fez ao Leonardo Boff, ao Frei Betto e ao Lula, eu vou ficar com opinião tão ruim dele que eu prefiro não (levar em conta).

Eu mandei um zap ao Ciro entre o primeiro e o segundo turno pessoalmente pedindo a ele que nos apoiasse, que era importante inclusive para formação dessa frente. Então, eu quero dizer que nós vamos teimar em contar com Ciro. Nós precisamos tanto dele e de qualquer cidadão brasileiro nesse momento que não convém ficar estimulando divisão.

A imprensa brasileira diz que PDT, PSB e PC do B estariam tentando se articular em uma frente sem o PT. Vão também teimar em procurá-los?

Não há dúvida. Primeiro porque essas fofocas de corredor de Congresso, de coluna de jornal, elas não podem ser levadas a sério pela gente. Tudo é tão grave que eu tenho certeza nós vamos estar juntos. Eu prefiro não plantar nenhuma dificuldade agora. Evidentemente vamos procurar todos os partidos. Eles podem ficar tranquilos, nós temos autocrítica suficiente para não querer fazer a hegemonia, o hegemonismo.

Reconhecem que houve erro do PT nesse hegemonismo?

Claro, só que o seguinte: nós não temos culpa de ser o partido do tamanho que nós temos. Não temos culpa de ter construído uma história que, mesmo nessa voragem toda, nós tivemos esses votos. Nós temos um número grande de deputados, governadores, não é pela beleza dos nossos olhos ou por querer sermos hegemonistas, é porque temo uma proposta e com isso nós comparecemos à mesa e nos colocamos à disposição. Nós não queremos mandar em nada, mas também não vamos esconder essa força.

Eu diria que nessa eleição surgiram lideranças muito importantes, eu destaco o papel do (candidato do PSOL Guilherme) Boulos por exemplo, de muitas lideranças do mundo cultural, que nós queremos abraçar, sem nenhuma vontade de querer mandar nada em ninguém.

Algumas alas do PT defenderam o apoio ao Ciro na eleição. Foi um erro não tê-lo apoiado?

O Ciro não nos apoiou nessa tarefa. Nós há muito tempo nos aproximávamos do Ciro e pedíamos dele atitudes de solidariedade quando nós estávamos na pior, que facilitariam o caminho dele. Se quando Lula foi preso, em vez de declarar que não ia a São Bernardo porque não era capacho de ninguém, se tivesse no mínimo ficado em silêncio, ou emitido uma solidariedade ao Lula, ele teria pavimentado o caminho para a gente apoiá-lo.

As coisas não acontecem automaticamente. Se eu planto cebola, eu colho cebola. Ele fala que foi uma ofensa ser chamado para ser vice (de Lula, com a perspectiva de substituí-lo como ocorreu com Haddad), mas muito antes a gente procurou sinalizar para o Ciro: “oh, vamos ter uma política de bom (relacionamento)”. Mas ele de vez em quando dá umas pancadas que desequilibra todo mundo, entristece todo mundo.

Na carta que eu mandei para ele, eu disse: “Ciro, nós temos uma crise de liderança e você é uma das lideranças que nós queremos, mas ajude”. Bastava um gesto. Não é que o gesto dele ia salvar a eleição, não tinha essa ilusão, mas terminar o segundo turno com essa visão de uma frente de resistência junto era muito melhor para nós.

Mas, não tem problema, o Ciro está no nosso campo, e nós vamos continuar buscando o apoio dele, nós precisamos buscar todo mundo.

Em 2022, o PT pode não ter candidato e apoiar outro nome? Seria a primeira eleição presidencial desde a redemocratização sem candidato do PT.

É fácil eu te responder que sim, pode, claro que pode. Só que antes nós precisamos garantir a eleição em 22. Nós não sabemos nem se vai ter eleição. A primeira tarefa é garantir a democracia e o processo de 22. Até lá tem muita coisa que vai acontecer e é perfeitamente possível, está dentro do processo de maturidade a gente construir uma nova liderança de outro partido que possa disputar, tipo o Boulos, o próprio Ciro.

Agora, não dá pra pedir pra gente fazer isso em janeiro de 2022 se antes não tiver um caminho conjunto. Por isso que eu diria para você que a prioridade zero é a gente formar essa frente popular de resistência, de construção de um projeto alternativo, que aí as coisas têm que se dar naturalmente na política, e não com uma imposição.

Há muitos sinas de que a Venezuela se tornou uma ditadura, mas lideranças do partido seguem defendendo o governo Maduro, inclusive a presidente Gleisi. Por quê? O partido não vai mudar essa posição?

Não, não vai mudar nessa mudança artificial e superficial desconhecendo o que a Venezuela sofre como pressão do imperialismo contra o seu povo. Enquanto nós fomos governo, nós atuamos sempre para moderar as coisas na Venezuela. O Lula foi uma espécie de pai do velho Chávez e procuramos o tempo todo dizer a ele os caminhos que seriam melhores na linha da democracia.

É evidente que não apoiamos a perseguição da oposição, mas nós preferimos, antes de fazer uma crítica, conhecer melhor o que é a Venezuela e quais são as razões que levaram e que levam a isso, a sabotagem. Você sabe que os americanos provocam uma sabotagem interna na economia e uma falta de produtos artificialmente. Você sabe disso?

Como?

Uai, há uma aliança com os empresários. Eles são induzidos a investir no mercado financeiro e a sabotar o mercado interno. A fome na Venezuela é uma fome artificial, não é por falta de recursos. Há uma brutal sabotagem ao governo venezuelano. Eles estão isolados economicamente de um monte de países. O dia em que vier uma posição clara sobre isso, nós vamos nos posicionar. Mas nós queremos ter uma discussão séria por inteiro. Não é justo você condenar um governo sob cerco. Eu posso fazer críticas parciais, agora, estranhamente, tem eleição sempre na Venezuela. Ninguém provou que as eleições são sujas na Venezuela.

Mas a OEA (Organização dos Estados Americanos) não reconheceu a legitimidade da última eleição.

A OEA está dominada pelos Estados Unidos. O que o PT faz é ter uma posição madura, tranquila. Internamente, fazemos críticas sim, sempre fizemos, continuamos fazendo, mas quando estávamos no governo procuramos contrapor-nos aos americanos e darmos condições econômicas para o país sobreviver. O Brasil virou as costas para a Venezuela e apoia hoje o cerco criminoso para aquele povo.

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