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A poetisa, a mística e a gata

27/02/2011

A Igreja Católica italiana apresenta em sua história uma contradição fecunda. Por um lado há a presença forte do Vaticano, representando a Igreja oficial com sua massa de fiéis mantidos sob vigilante controle social pelas doutrinas e especialmente pela moral familiar e sexual. Por outro, há a presença de cristãos leigos e leigas não alinhados, resistentes ao poder monárquico e implacável da burocracia da Cúria romana mas abertos ao evangelho e aos valores cristãos sem romper com o Papado embora críticos de suas práticas e do apoio que dá a regimes conservadores e até autoritários.

Assim temos a figura de Antônio Rosmini no século XIX, fino filósofo e crítico do antimodernismo dos Papas. Modernamente identificamos figuras como Mazzolari, Raniero La Valle, Arturo Paoli, a eremita Maria Campello. Entre todos destaca-se Adriana Zarri, eremita, teóloga, poetisa e exímia escritora. Além de vários livros, escrevia semanalmente no diário Il Manifesto e quinzenalmente na revista de cultura Rocca.

Era duríssima contra o atual curso da Igreja sob os Papas Wojtyla e Ratzinger a quem acusava diretamente de trair os intentos de reforma provados pelo Concílio Vaticano II (1962-1965) e voltar a um modelo medieval de exercício de poder e de presença da Igreja na sociedade. Veio a falecer no dia 18 de novembro de 2010 com mais de 90 anos.

Visitei-a por algumas vezes em seu eremitério perto de Strambino no norte da Itália. Vivia só num enorme e vetusto casarão, cheio de rosas e com sua gata de estimação Arcibalda.  Tinha uma capela com o Santíssimo exposto para onde se recolhia várias horas por dia em oração e profunda meditação.

Na conversa com ela, queria saber tudo das comunidades eclesiais de base, do engajamento da Igreja na causa dos pobres, dos negros e dos indígenas. Tinha um carinho especial pelos teólogos da libertação por causa da perseguição que sofriam por parte das autoridades do Vaticano que os tratavam, segundo ela, “a bastonadas” enquanto usavam luvas de pelica aos seguidores do cismático Mons. Lefebvre.

Seu último artigo, publicado três dias antes de sua morte, dedicou-o à gatinha de estimação Arcibalda. Com ela, como pude testemunhar pessoalmente, possuía uma relação afetuosa como de íntimos amigos. Aquilo que a nossa grande psicanalista junguiana Nise da Silveira descreveu em seu livro Gatos, a emoção de lidar o confirmou Zarri: ”o gato tem a capacidade de captar o nosso estado de alma; se me vê chorando, logo vem lamber minhas lágrimas”. Contam que a gata esteve junto dela enquanto expirava. Ao ver os amigos chegarem para o velório, se enrolava, nervosa, na cortina da sala. Como se soubesse a hora, discretamente, pouco antes de fecharem o féretro, entrou discretamente na capela.

Alguém, sabendo do amor da gatinha por Adriana Zarri, pegou-a no colo e a aproximou ao rosto da defunta. Fixou-a longamente e parecia que lacrimejava. Depois colocou-se debaixo do féretro e aí permaneceu em absoluta quietude.

Isso me reporta à nossa gata, a Branquinha. Parece uma menina frágil e elegante. Apegou-se de tal maneira à minha companheira Márcia que sempre a acompanha e dorme a seus pés, especialmente, quando passa por algum aborrecimento. Ela capta seu estado de alma e procura consolá-la roçando-se nela e miando suavemente.

Adriana Zarri deixou uma epígrafe que vale a pena ser reproduzida: ”Não me vistam de preto: é triste e fúnebre. Nem me vistam de branco porque é soberbo e retórico. Vistam-me de flores amarelas e vermelhas e com asas de passarinho. E Tu, Senhor, olhe minhas mãos. Talvez tenham colocado um rosário, talvez uma cruz. Mas se enganaram. Nas mãos tenho folhas verdes e sobre a cruz, a tua ressurreição. E sobre minha tumba não coloquem mármore frio com as costumeiras mentiras para consolar os vivos. Deixem que a terra escreva, na primavera, uma epígrafe de ervas. Ali se dirá que vivi e que espero. Então, Senhor, tu escreverás o teu nome e o meu, unidos como duas pétalas de papoulas”.

A escritora e a mística dos olhos abertos, Adriana Zarri, nos mostrou como viver e morrer bela e docemente.

 

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9 Comentários leave one →
  1. Clovis permalink
    28/02/2011 1:45

    Boff, quando você vier ao Recife, pode batizar minhas duas filhas?

  2. 28/02/2011 1:46

    Emocionante.
    Eu me senti sendo ela, a monja jardineira, camponesa, em íntima rela’ção amorosa
    com sua gata. Olho pro lado e lá está ela, sentada em cima do divá, Safira, minha
    companheira de jornada, clarividente, como as flores do quintal.

    Que alma maravilhosa, espírito de amorosidade, energia que fica para sempre
    entre nós, como o espírito dos gatos no astral.

    Adoro ler-te. Minha alma te agradece por esse momento de paz e poesia.

  3. 28/02/2011 1:48

    Este aqui é mto bonito.

  4. 28/02/2011 2:03

    não se rendeu e nem tolerou a estupidez humana… que grande ser!
    e como fluíam as palavras a descrever os belos pensamentos!
    dói pensar que tantxs seres como ela, podem estar encerradxs nos espaços mais fúnebres (é como consigo ver a grande igreja).
    acho que jamais poderia ler e saber sobre ela não fosse Leo Boff! (isso que quero dizer sobre encerradxs em espaços fúnebres).
    lindas ela e sua gata!!!

  5. Alvin Gongora permalink
    28/02/2011 4:21

    No me gustan los gatos. Prefiero los perros. Sin embargo, en la casa donde vivo ya estaba aqui Oreo, un hermoso gato negro y blanco con quienes hemos entablado una buena amistad. Oreo me ha ayudado a reconciliarme con esa parte de la poblacion felina que apenas empiezo a conocer y a apreciar. Gracias por esta historia y por su invitacion a vivir como Adriana Zarri: “bela e docemente.”

  6. 28/02/2011 12:40

    Eu sou levada a ver a eternidade mais de perto quando leio você, meu instigador de pensamentos.

  7. 08/03/2011 19:42

    Frei, aprendi a ti admirar com minha mãe, já falecida.
    Dona de casa e com seu 4º ano primário, nossa estante era coalhada de livros seus, todos dela.
    Ela também acompanhava seus escritos nas páginas dos jornais que meu pai comprava.
    Alguns de seus livros constam na bibliografia de minha 1ª publicação que gostaria de te enviar.
    Mas, meu livro não tem muito de revolucionário, meu estilo é outro. Afinal, o que seria do azul se não fosse o amarelo?

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