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Os riscos da arrogância do Império

12/05/2011

Conto-me entre os que se entusiasmaram com a eleição de Barack Obama para Presidente dos EUA, especialmente vindo depois de George Bush Jr., Presidente belicoso, fundamentalista e de pouquíssimas luzes. Este acreditava na iminência do Armagedon bíblico e seguia à risca a ideologia do Destino Manifesto, um texto inventado pela vontade imperial norte-americana, para justificar a guerra contra o México, segundo o qual os EUA seriam o novo povo escolhido por Deus para levar ao mundo os direitos humanos, a liberdade e a democracia. Esta excepcionalidade se traduziu numa histórica arrogância que fazia os EUA se arrogarem o direito de levarem ao mudo inteiro, pela política ou pelas armas, o seu estilo de vida e sua visão de mundo.
 
Esperava que o novo Presidente não fosse mais refém desta nefasta e forjada eleição divina, pois anunciava em seu programa o multilateralismo e a não hegemonia. Mas tinha lá minhas desconfianças, pois atrás do Yes, we can (“sim, nós podemos”) podia se esconder a velha arrogância. Face à crise econômico-financeira apregoava que os EUA mostraram em sua história que podiam tudo e que iam superar a atual situação. Agora por ocasião do assassinato de Osama bin Laden ordenada por ele (num Estado de direito que separa os poderes, tem o Executivo o poder de mandar matar ou não cabe isso ao Judiciário que manda prender, julgar e punir?) caiu a máscara. Não teve como esconder a arrogância atávica.
 
 O Presidente, de extração humilde, afrodescendente, nascido fora do Continente, primeiramente muçulmano e depois convertido evangélico, disse claramente: “O que aconteceu domingo envia uma mensagem a todo o mundo: quando dizemos que nunca vamos esquecer, estamos falando sério”. Em outras palavras: “Terroristas do mundo inteiro, nós vamos assassinar vocês”. Aqui está revelada, sem meias palavras, toda a arrogância e a atitude imperial de se sobrepor a toda ética.
 
Isso me faz lembrar uma frase de um teólogo que serviu por 12 anos como assessor da ex-Inquisição em Roma e que veio me prestar solidariedade por ocasião do processo doutrinário que lá sofri. Confessou-me: ”Aprenda da minha experiência: a ex-Inquisição, não esquece nada, não perdoa nada e cobra tudo; prepare-se”. Efetivamente assim foi o que senti. Pior ocorreu com um teólogo moralista, queridíssimo em toda a cristandade, o alemão, Bernhard Hâring, com câncer na garganta a ponto de quase não poder falar. Mesmo assim foi submetido a rigoroso interrogatório na sala escura daquela instância de terror psicológico por causa de algumas afirmações sobre sexualidade. Ao sair confessou: “o interrogatório foi pior do que aquele que sofri com a SS nazista durante a guerra”. O que significa: pouco importa a etiqueta, católico ou nazista, todo sistema autoritário e totalitário obedece à mesma lógica: cobra tudo, não esquece e não perdoa. Assim prometeu Barack Obama e se propõe levar avante o Estado terrorista, criado pelo seu antecessor, mantendo o Ato Patriótico que autoriza a suspensão de certos direitos e a prisão preventiva de suspeitos sem sequer avisar aos familiares, o que configura sequestro. Não sem razão escreveu Johan Galtung, norueguês, o homem da cultura da paz, criador de duas instituições de pesquisa da paz e inventor do método Transcend na mediação dos conflitos (uma espécie de política do ganha-ganha): tais atos aproximam os EUA ao Estado fascista.
 
 O fato é que estamos diante de um Império. Ele é consequência lógica e necessária do presumido excepcionalismo. É um império singular, não baseado na ocupação territorial ou em colônias, mas nas 800 bases militares distribuídas pelo mundo todo, a maioria desnecessária para a segurança americana. Elas estão lá para meter medo e garantir a hegemonia no mundo. Nada disso foi desmontado pelo novo Imperador, nem fechou Guantánamo como prometeu e ainda mais, enviou outros trinta mil soldados ao Afeganistão para uma guerra de antemão perdida.
 
 Podemos discordar da tese básica de Abraham P. Huntington em seu discutido livro O choque de civilizações. Mas nele há observações, dignas de nota, como esta: “a crença na superioridade da cultura ocidental é falsa, imoral e perigosa” (p.395). Mais ainda: “a intervenção ocidental provavelmente constitui a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global num mundo multicivilizacional” (p.397). Pois as condições para semelhante tragédia estão sendo criadas pelos EUA e pelos seus súcubos europeus.
 
Uma coisa é o povo norte-americano, bom, engenhoso, trabalhador e até ingênuo que admiramos, outra é o Governo imperial, que não respeita tratados internacionais que vão contra seus interesses e capaz de todo tipo de violência. Mas não há impérios eternos. Chegará o momento em que ele será um número a mais no cemitério dos impérios mortos. 

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13 Comentários leave one →
  1. Juliana Figueiredo permalink
    12/05/2011 15:26

    Belo texto!

  2. 12/05/2011 16:02

    Brilhante! “a crença na superioridade da cultura ocidental é falsa, imoral e perigosa” – Parabéns pela análise!

  3. Waldir Martins permalink
    12/05/2011 16:03

    É não sou muito favorável às críticas feitas aos EUA. Mas esta não é uma crítica é uma análise bem feita da questão ditatorial que envolve esta nação. Gostei, Parabéns, Leonardo Boff.

  4. Francisco permalink
    12/05/2011 16:34

    Obama prometeu fechar Guantánamo e não cumpriu. Será coisa da Realpolitik?
    Uma coisa consola: passaremos, mas o império passará.
    O diabo é que passa um império, e vem outro, e traz seus soldados com suas armas, e semeia morte nos campos do planeta.

  5. André Lacerda permalink
    12/05/2011 16:38

    Muito bom, Boff. Tenho apenas dúvidas quanto a “um imperio singular”, como se o imperialismo atual fosse diferente dos anteriores. Ora, se há bases militares, há controle político-territorial, se há Iraque ocupado e petróleo usurpado, não existe tanta diferença do velho colonialismo. Além disso, a OTAN lembra as velhas alianças imperiais européias. Então, penso que, além de um presidente negro, não há tanta coisa nova no front…

  6. 12/05/2011 16:50

    Caro Leonardo Boff

    Ótimo artigo. A verdadeira face do governo americano é traduzida para a realidade, pois a propaganda existente do “bem”, contra o “mal”, é propagada insistentemente e muitas pessoas acreditam nas cartilhas doutrinárias de Bush/Obama.
    Seus artigos são uma luz nesse caminho nosso de cada dia. Aprecio cada um deles.

  7. Gilson Alves Barbosa permalink
    12/05/2011 17:14

    “Mas não há impérios eternos. Chegará o momento em que ele será um número a mais no cemitério dos impérios mortos.”

    Espero, para o nosso bem e de toda humanidade que suas sábias palavras se concretizem, se possível, em curto espaço de tempo, de modo que possamos todos assitir à derrocada da Nova Roma e de seus Césares. George Busch, Barack Obama e seus falcões em nada diferem de Osama Bin Laden, do Talibã ou de qualquer ditador de plantão. São farinha do mesmo saco, para quem a vida de seres humanos não tem o mínimo valor. Os fins justificam o meios quando se trata de interesses do Império.Portanto,não é de estranhar as altitudes de B. Obama. Kadafi,Armadinejad, Chaves, Morales que se cuidem…

  8. Rubens permalink
    12/05/2011 17:51

    O imaginário grego é fértil em imagens que personificam a homologia estrutural entre política e a tirania da perversão.
    O célebre rei Minos de Cnossos, reconhecido como filho mítico de Zeus e um dos juízes das planuras do Hades, impôs uma dominação totalitária sobre Atenas, que teria de pagar, com a vida de sete pares de jovens, um tributo à personificação da perversão: o Minotauro.
    Fruto da relação bestial da rainha Pasífae com um Touro (corporificação do poder desregrado de Poseidon), o Minotauro representa os móbeis bestiais da ação humana. Trata-se da própria encarnação da zoophilía.
    Incompatível com a aparência de justiça emanada da figura semi-divina de Minos, o monstro da perversão implicava uma situação impediente que reclamava solução engenhosa. Convocado pelo rei, o grande e inventivo Dédalos, mediador da racionalidade utilitária, concebe bem tramado projeto: o labirinto sem saída que, nos porões da realeza e da soberania, ocultaria recôndita a potência caótica da perversão.
    Como toda perversão, O Minotauro exige o sacrifífio para alimentar-se indefinidamente, como as penas eternas sem fim do Hades, como a pedra de Sísifo eternamenete rolada ou o tonel das Danaides, que havia de ser repleto somente para esvaziar-se novamente.
    As imagens são recorrentes: todo apetite, toda volúpia é insaciável e auto-centrada, sem referência ou consideração ao sofriumento e à alteridade.
    Entre a zoo-philía e a necro-philía, muda o modo de aparecer, a silhueta de uma sombra cuja projeção emana da perversão pura.
    Todas as modalidades de totalitarismo possuem como bases psíquicas apetites pervertidos, bestiais e monstruosos, porque desumanizadores.
    Obama fala em nome de direitos humanos universais, em nome das minorias e de uma ordem social mais justa. Evocou o doloroso passado de tortura da Presidente Dilma, como moeda de troca psicológica para obter apoio em relação ao Irã. Proclamou publicamente sua opção pela regulamentação da Besta caótica do fluxo de capitais internacionais.
    Mas, nos labirintos da soberania e da psykhé coletiva o princípio de ação voluptuoso ainda permanece o mesmo desde a antiguidade mais remota. A diferença é que a inteligência prometéica instrumental foi institucionalizada no Caltech,em Harvard e Wharton.
    Os prõprios americanos diagnosticam os verdadeiros móbeis da soberania, como se póde atestar no magnífico filme de Charles Ferguson: Inside Job.
    Não há limites para a cobiça, a “pleonexía”, ambição, que os pitagóricos identificavam com as forças titânicas caóticas.
    Obama foi eleito por Wall Street, eis a conclusão assustadora do filme. É um títere, uma marionete manipulada pelos fabricadores de espanto que encenam a fábrica de sonhos na caverna de Platão.
    Mas o mais terrível é o fato de que uma elite intelectual manipula as raízes antropológicas universais dos ritos de imolação como forma de angariar integração das consciências de modo artificial.
    Bin Laden é o bode expiatório, a besta expulsa das fronteiras, a peste, o miásma que deve ser afastado para purificar a cidade, o Judas malhado, o leproso apedrejado.
    O gozo orgiástico é tão imoral quanto a zoofilia, mas mais perverso, porque objetivado, concretizado e conscientemente manipulado como instrumento de dominação política dos próprios americanos.
    Aos homens de boa vontade, só resta esclarecer na medida de suas forças e rezar.
    Enquanto isso, o Papa Bento XVI, interlocutor de Habermas e mestre da reviravolta pragmático-linguística, silenciosamente, busca re-significar o Ágape agostiniano beatificando João Paulo II. Ao mesmo tempo em que Bin Laden pass a habitar os labirintos do incosnciente coletivo, pulsão mórbida da perversão necrófila, o amor de João Paulo II é expulso para o transcendente.
    Livra-nos do mal.

  9. 12/05/2011 22:04

    Tudo que olhamos à distância e analisamos, pode não refletir a realidade. Sei que olhar alguém decidindo através de um vídeo em uma sala com ar condicionado passa arrogância e falta de envolvimento com a humanidade, prefiro equilibrar isso com um governo que vejo de forma mais transparente, colaborativo com o mundo e participativo com dialogo. Porem lembro que também estou olhando a distância, sentado em meu sofa e assistindo jogo do São Paulo. rs! Abraço a todos!

  10. 14/05/2011 1:27

    Texto exemplar a ser estudado e pesquisado, lembrou- me bem o livro do Eric hobsbawm ” A era dos Impérios”, me lmbrou também o ” Dividir para dominar” de Wesseling. Hoje em dia o característico do Império seria talvez a tentativa de passar ao mundo que tudo isto é pela liberdade, que é muito luta pela liberdade. Atentemo- nos bem que a pior ditadura é que te faz pensar ser livre. Bom foi o que aprendi um pouco do Marcuse. Abraços, Parabéns Profº!

  11. 14/05/2011 23:46

    Alternativas, quero uma para viver… A nossa geração só resta torcer pela qualidade da máscara do império da vez e pela aquisição rápida da tecnologia que necessitamos para sair dessa ciranda milenar. Pretender a ausência de um grupo qualquer estar tentando manter suas rédeas de poder é algo próximo da utopia religiosa, o máximo que podemos pretender, como disse, é que o império da vez mantenha uma máscara sem muitos desvarios. Se a máscara do império cair, ele não apenas garantirá que terá o petróleo que necessita para viver, ele o tomará sem dar nada em troca, nem mesmo o dinheiro inflacionário que cria bolhas e calos nos meios de dominação global… Ou morrer e matar, a todos se preciso, sempre tentando. Sem a máscara, o que for necessário para garantir a sobrevivência de um número racional de viventes será efetuado sem pretextos ou cuidados maiores, diante dos insustentáveis nove bilhões de terráqueos do meio deste século. Vida longa para Obama, uma dos melhores porta máscaras que nos veio… Adiantaria velhas e batidas choramingas anti-imperialistas diante a um caçulinha Bush? Não. Sempre poderia ser pior. Osama salvou Obama e por tabela a todos nós.

  12. Alexandre Guimarães Vasconcellos permalink
    17/05/2011 21:02

    Como diria Gandhi “A busca da verdade exige o conhecimento prévio de que onde há violência não há verdade”.

  13. Eudson permalink
    03/12/2011 23:37

    Eu sempre disse que Barack Obama era uma farsa. As mídia mostravam antes das elições como o “salvador”, mas ele não passa de um mesmo produto que era Bush. Tolos fora o mundo que imaginou que Barack faria um governo que respeitasse a diferença. Os Estados Unidos precisavam eleger um “presidente negro” para mudar a sua imagem diante do mundo, não foi para corrigir um erro histórico. Por isso digo, Obama é uma farsa.

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