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Absolvição do aborto entrou no mercado em Madri

30/08/2011

Um Papa não pode perder dignidade nem colocar os serviços da Igreja à disposição do mercado. Pois foi o que ocorreu em Madri por ocasião do encontro internacional do Papa com os jovens. Mulheres que cometeram aborto,presentes no encontro, ganhavam o perdão e de lambuja ainda uma indulgência plenária. Bastava estar lá e se confessar nos 200 confessionarios na Praça do Retiro. As coisas deixaram de ser sérias e voltamos ao tempo medieval em que se vendiam perdões e indulgências a quem podia pagar, como estas mulheres que puderam pagar suas passagens e estar em Madri. E as demais milhões de mulheres do mundo inteiro? Ivone Gebara é teóloga,tempos atrás também submetida como eu “ao silêncio obsequioso”, por criticar a insensibilidade da moral católica face ao sofrimento humano, especialmente em questões de sexualidade e agora contra os dois pesos e as duas medidas face à questão do aborto. Trabalha no Recife em meios populares pobres e sabe dos padecimentos das mulheres, além de escrever teologia com rigor e em tom de profecia. Aqui vai o artigo-protesto dela com a qual me solidarizo. LB

DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS:O PAPA PERDOA ABORTO EM MADRI

fonte: http://www.ciranda.net/fsm-dacar-2011/article/dois-pesos-e-duas-medidas-o-aborto

quarta-feira 24 de agosto de 2011, por Ivone Gebara

É com muito constrangimento que muitas mulheres católicas leram a notícia publicada em vários jornais nesse último final de semana de que a Arquidiocese de Madri com aprovação papal autorizou a concessão do perdão e indulgência plenária às mulheres que confessarem o aborto por ocasião da visita do papa. A impressão que tivemos é que o papa, o Vaticano e alguns bispos gostam de brincadeiras de mau gosto com as mul heres. Não sabemos em que mundo esses homens vivem, quem pensam que são e quem pensam que somos!

Primeiro, concedem o perdão a quem pode viajar para assistir a missa do papa e passar pelo “confessionódromo” ou pelo conjunto de duzentos confessionários brancos instalados numa grande Praça pública de Madri chamada “Parque do Retiro”. O perdão deste “pecado” tem local, dia e hora marcada. Custa apenas uma viagem a Madri para estar diante do papa! Quem não faria o esforço para tão grande privilégio? Basta ter dinheiro para viajar e pagar a estadia em algum hotel de Madri que o perdão poderá ser alcançado. Por isso nos perguntamos: que alianças a prática do perdão na Igreja tem com o capitalismo atual? Como se pode viver tal reducionismo teológico e existencial? Quem está tirando benefícios com esse comportamento?

Segundo, têm o desplante de afirmar que o perdão deste “crime hediondo” como eles costumam afirmar, é dado apenas por ocasião da visita do papa para que nessa mesma ocasião as fiéis pecadoras obtenham “os frutos da divina graça” confessando o seu pecado. – Como entender que uma falta é perdoada apenas quando a autoridade máxima está presente? Não estariam reforçando o velho e decadente modelo imperial do papado? Quando o Imperador está presente tudo é possível até mesmo a expressão da contradição em seu sistema penal.

Não quero retomar os argumentos que muitas de nós mulheres sensíveis às nossas próprias dores temos repetido ao longo de muitos anos numa breve reflexão como esta. Mas esse acontecimento papal madrilenho, infelizmente, só mostra mais uma vez, um lado ainda bastante vivo no Vaticano, ou seja, o lado das querelas medievais em que questões absolutamente sem peso na vida humana eram discutidas. E mais, demonstra desconhecer as dores femininas, desconhecer os dramas que situações de violência provocam em nossos corpos e corações.

Ao conceder o perdão ao “crime” do aborto na linguagem que sempre usaram, de forma elitista revelam o rosto ambíguo da instituição religiosa capaz de ceder ao aparato triunfalista quando sua credibilidade está em jogo. Podem abençoar tropas para matar inocentes, enviar sacerdotes como capelães militares em guerras sempre sujas, fazer afirmações públicas em defesa da instituição condenando pobres e oprimidas, abrir exceções à regra de seus comportamentos para atrair jovens alienados dos grandes problemas do mundo ao rebanho do Papa. A lista dos usos e costumes transgressores de suas próprias leis é enorme…

Por que reduzir a vida cristã a pão e circo? Por que dar um espetáculo de magnanimidade em meio a corrupção dos costumes? Por que criar ilusões sobre o perdão quando o dia a dia das mulheres é cheio de perseguições e proibições às suas escolhas e competências?

Somos convidadas/os a pensar no aspecto nefasto da posição do papa e dos bispos que se aliaram a ele. O papa não concedeu perdão e indulgência total ou plena “urbe et orbe”, i sto é, para todas as mulheres que fizeram aborto, mas apenas àquelas que se confessaram naquele momento preciso e por ocasião da visita do papa à Espanha. Não é mais uma vez a utilização das consciências especialmente das mulheres para fins de expansionismo de seu modelo perverso de bondade? Não é mais uma vez abrir concessões obedecendo a uma lógica autoritária que quer restaurar os antigos privilégios da Igreja em alguns países europeus? Não é uma forma de querer comprar as mulheres confundindo-as diante da pretensa magnanimidade dos hierarcas?

Será que as autoridades constituídas na Igreja Católica e de outras Igrejas são ainda cristãs? São ainda seguidoras dos valores éticos humanistas que norteiam o respeito a todas as vidas e em especial à vida das mulheres?

Creio que mais uma vez somos convocadas/os a expressar publicamente nosso sentimento de repúdio à utilização da vida de tantas mulheres como pretexto de magnanimidade do coração papal. Somos convidada s/os a tornar pública a corrupção dos costumes em todas as nossas instituições inclusive naquelas que representam publicamente nossas crenças religiosas. Somos convidadas/os a ser o corpo visível de nossas crenças e opções.

Fazendo isso, não somos melhores do que ninguém. Somos todas pecadoras e pecadores capazes de ferir uns aos outros, capazes de hipocrisia e mentira, de crueldade e crueldade refinada. Mas, também somos capazes de dividir nosso pão, de acolher a abandonada, de cobrir o nu, de visitar o prisioneiro, de chamar Herodes de raposa. Somos essa mistura, expressão de nosso eu, de nossos deuses, dos espinhos em nossa carne convidando-nos e convocando-nos a viver para além das fachadas atrás das quais gostamos de nos esconder.

*A teóloga IVONE GEBARA é doutora em Filosofia pela Universidade Católica de São Paulo e em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. 21 de agosto de 2011.

15 Comentários leave one →
  1. 30/08/2011 1:43

    Há diferença entre decisão de Papa e decisão de Igreja. O Papa pode até errar, mas a Igreja jamais erra. Mas ser fiel à Igreja é aceitar o Papa, com equívocos ou não. O que eu sei é que ser Católico, nos dias de hoje, é muito difícil, mas não podemos desistir.

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    • 30/08/2011 20:00

      Se pensarmos a Igreja como uma realidade heterônoma, podemos até atribuir-lhe, de maneira mítica, o poder de nunca errar. Mas, se a considerarmos como uma comunidade que vive e prega o amor em sua forma mais radical, que é aquela vivida e pregada por Jesus Cristo, então, podemos, também, admitir que ela é capaz de errar, porque ela é humana. Errar é próprio do ser humano. O que não podemos é tomar o erro pela verdade e justificar com ele todas as mazelas a que são submetidos aqueles que não têm voz nem vez.

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    • Paulo permalink
      31/08/2011 12:53

      Caro amigo, o que a igreja diz é justamente o contrário. Ela diz que a igreja é santa, mas feita por pecadores, mas o papa é infalível. Obs. também sou católico

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  2. Nathan Charles permalink
    30/08/2011 2:38

    Maravilhoso.

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  3. Ismael Carneiro permalink
    30/08/2011 8:21

    Isso tudo revela o espírito arcaico e medieval do papa Joseph Ratzinger, que sempre se revelou uma pessoa de entendimento esclerosado.

    É lamentavel que este para queira trazer de volta coisas que aconteceram na “idade das trevas.que desqualificava o ser, a vida, e acima de tudo, desconfigurava o Evangelho, alias, o Evangelhos de Jesus nuna esteve presente da vida deste despota religioso.

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  4. 30/08/2011 8:53

    O perdão é uma questão de inteligência. Se realizado “o crime”, como colore o pecado, linguagem mais apropriada à “lógica de Deus”, se acontecido o fato, que pena pode ser assim decretada, ainda mais sem julgamento? E mesmo que houvesse pena,no que ela contribuiria para a justiça tão ansiada?
    O que existe de gente picada pelo virus platônico é impressionante. Por que não olham ao próproio umbigo, como apregoava seu mestre Sócvrates?

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  5. Antonio Sergio da Costa Nunes permalink
    31/08/2011 11:59

    O perdão somente Deus pode conceder e ninguém mais, pois ele é fruto da sua misericórdia. O sacerdote é tão somente o agente da absolvição não tem poder para perdoar, este pertence a Deus. O sacerdote apenas sacramenta o perdão, por isso que a confissão auricular é retrógrada e controladora, cabe dá-la quando o fiel assim o quiser de livre vontade e não por obrigação. “Perdoa os pecados EM NOME DO PAI DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO”, o poder portanto é em Nome de Deus, pois só Ele perdoa.

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  6. Susi permalink
    31/08/2011 13:32

    “Que país é esse?”

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  7. Gilson Alves Barbosa permalink
    31/08/2011 22:42

    Ivone Gebara acertou na mosca. Bento XVI ( ou melhor Jumento XVI) é a encarnação das trevas. Uma pergunta: depois dessa como será que o José Serra, a Mõnica Serra e o bispo de Guarulhos vão tratar a questão? “Boa pergunta”!!!!!

    Abraços

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  8. thais mazzoni permalink
    03/09/2011 15:06

    Concordo com vc não podemos ter dois pesos e duas medidas esse papa é arcaico e está nos levando de volta a idade média!!!!!!!!!!!!

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  9. Samuel Fidelis permalink
    13/09/2011 23:59

    Admiro muito os questionamentos propostos pelo artigo, porém é válido pensar que em materia de doutrina não há incoerencia, por parte da ICAR nas conseções de Madri.
    O fato de que o código de direito canônico estabelece uma excomunhão imediata aos envolvidos e um aborto não extingue a possibilidade de um perdão ou indulgência plenária aos que cometerem tal ato. De certo que a igreja vendeu indulgências durante a Idade Média, porém no episódio de Madri 2011 ela não fez nada além daquilo que seus mebros acreditam que é seu direito.
    Lembremos-se sempre da frase de Mt 16-18 onde a igreja tem (conforme sua doutrina) direito de ligar ou desligar algo em matéria de fé.3
    Errada ou não não há nesse caso nem no caso da menina de 9 anos incoerência.

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  10. Marina permalink
    24/10/2011 9:05

    Sem dúvidas essa senhora agiu de má fé com esse artigo! Sou mulher e católica e fiquei muito feliz com a atitude do Santo Padre.

    Não preciso dizer muito, Dom Luiz já diz tudo:

    A IVONE GEBARA, a mulher de muitos deuses

    http://www.domluizbergonzini.com.br/2011/10/ivone-gebara-mulher-de-muitos-deuses.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+com%2FVPRJ+%28DOM+LUIZ+BERGONZINI%29

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  11. Paulo Younes permalink
    11/06/2015 18:43

    A Igreja somos nós… Falível, mas buscando sempre a infalibilidade… A expressividade de nossas mazelas, nossas limitações, nossas angústias, nossos pecados… Nada de novo… Apenas nossa incessante busca por justiça, paz e crescimento interior…

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  12. Fagner Gamonal permalink
    13/06/2015 17:56

    Esquecemos que qualquer mulher que confessar o pecado gravíssimo do aborto a qualquer sacerdote obtém o perdão. Não só em Madrid, como leva a crer Boff. E indulgência plenária pode ser dispensada por qualquer bispo pela causa que o Espírito lhe instruir.

    De qualquer forma, sempre leio Boff e o admiro. Mas nessa, lhe faltou coerência.

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