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O Papa Francisco e a economia política da exclusão

12/12/2013

Quem escuta as várias intervenções do bispo de Roma e atual Papa, se sente em casa e na América Latina. Ele não é eurocêntrico, nem romanocêntrico e muito menos vaticanocêntrico. Ele é ele mesmo, um pastor que “veio do fim do mundo”, da periferia da velha cristandade européia, decadente e agônica (só 24% dos católicos são europeus); provem do cristianismo novo que se elaborou ao longo de 500 anos na América Latina com um rosto próprio e sua teologia.

O Papa Francisco não conheceu o capitalismo central e triunfante da Europa mas o capitalismo periférico, subalterno, agregado e sócio menor do grande capitalismo mundial. O grande perigo nunca foi o marxismo mas a selvageria do capitalismo não civilizado. Esse tipo de capitalismo gerou no nosso Continente latino-americano uma escandalosa acumulação de uns poucos à custa  da pobreza e da exclusão das grandes maiorias do povo.

Seu discurso é direto, explícito, sem metáforas encobridoras, como costuma ser o discurso oficial e equilibrista do Vaticano que coloca o acento mais na segurança e na equidistância do que na verdade e na clareza da própria posição.

A posição do Papa Francisco é claríssima: a partir  dos pobres e excluidos:”não devem subsistir dúvidas nem explicações que debilitem” esta opção já “que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres”(Exortação n.48). De forma contundente denuncia:”o sistema social e econômico é injusto em sua raiz(n.59); “devemos dizer não a uma economia da exclusão e da desigualdade social; esta economia mata…o ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora; os excluidos não são  os ‘explorados’ mas resíduos e ‘sobras”(n. 53).

Não se pode negar: esse tipo de formulação do Papa Francisco lembra o magistério dos bispos latino-ameriacanos de Medelin (1968), Puebla (1979) e Aparecida (2005) bem como  o pensamento comum da teologia da libertação. Esta tem como seu eixo central a opção pelos pobres, contra a sua pobreza e em favor da vida e da justiça social.

Há uma afinidade perceptível com o economista Karl Polanyi que, por primeiro, denunciou a “Grande Transformação”(título do livro de 1944) ao fazer da economia de mercado  uma sociedade de mercado. Nesta tudo vira mercadoria, as coisas mais sagradas e as mais vitais. Tudo é objeto de lucro. Tal sociedade se rege estritamente pela competição, pela regência do individualismo e pela ausência  de qualquer limite. Por isso nada respeita e cria um caldo de violência, intrínseca à forma como ela  se constrói e funciona, duramente criticada pelo Papa Francisco (n. 53). Ela gestou um efeito atroz. Nas palavras do Papa: “desenvolveu uma globalização da indiferença; tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios; já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos em cuidar deles”(n.54). Numa palavra, vivemos tempos de grande desumanidade, impiedade e crueldade. Podemos nos considerar ainda civilizados se por civilização entendermos  a humanização do ser humano? Na verdade, regredimos à primitivas formas de barbárie.

Conclusão final que o Pontífice deriva desta inversão:”não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado”(n.204). Destarte ataca o coração ideológico e falso do sistema imperante.

Onde vai buscar alternativas? Não vai beber da esperada Doutrina Social da Igreja. Respeita-a mas observa:”não podemos evitar de ser concretos para que os grandes princípios sociais não fiquem meras generalidades que não interpelam ninguém”(n.182). Vai buscar na prática humanitária do Jesus histórico. Não entende sua mensagem como regra, engessada no passado, mas como inspiração que se abre para a história sempre cambiante. Jesus é alguém que nos ensina a viver e a conviver a “reconhecer o outro, curar as feridas, construir pontes, estreitar laços e ajudar-nos a carregar as cargas uns dos outros”(n.67). Personalizando seu propósito diz:”a mim interessa procurar que, quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoista, possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo que dignifique a sua passagem por esta terra”(n.208). Esta intenção se assemelha àquela da Carta da Terra que aponta valores e princípios para uma nova Humanidade que habita com amor e cuidado o planeta Terra.

O sonho do Papa Francisco atualiza o sonho do Jesus histórico, o do Reino de justiça, de amor e de paz. Não estava na intenção de Jesus criar uma nova religião, mas pessoas que amam, se solidarizam, mostram misericórdia, sentem a todos como irmãos e irmãs porque todos filhos e filhas no Filho.

Esse tipo de cristianismo não tem nada de proselitismo mas conquista pela atração de sua beleza e profunda humanidade. São tais valores que irão salvar a humanidade.

Leonardo Boff escreveu:O Cristianismo: o mínimo do mínimo,Vozes 2011.

20 Comentários leave one →
  1. 12/12/2013 22:29

    Republicou isso em Espírito Críticoe comentado:
    “devemos dizer não a uma economia da exclusão e da desigualdade social; esta economia mata…o ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora; os excluidos não são os ‘explorados’ mas resíduos e ‘sobras” Papa Francisco

  2. Iracy Boff permalink
    12/12/2013 23:36

    Querido primo!Ao me defrontar com orientaes to sbias e prudentes, sinto-me pequena e por que no dizer tambm , insegurapara complementar de alguma forma o que acabei de aprender. Amo ler suas publicaes,obrigada por sempre repassar seus talentos, que nos fazem melhorar a cada dia. Um abrao.

    Date: Thu, 12 Dec 2013 21:04:44 +0000 To: iracybof@hotmail.com

  3. 13/12/2013 0:22

    Amém!

  4. Alexandre A. Martins permalink
    13/12/2013 1:06

    Concodo com você, caro L. Boff. Ler e escutar o Papa Francisco nos fazem sentir em casa, na America Latina. Isso para mim tem um sabor todo especial, pois estou estudando fora do meu país no anseio de voltar e contribuir para o processo histório de libertação do meu povo.

  5. Milton Rocha permalink
    13/12/2013 2:05

    Leonardo, a alternativa contra a barbárie do capital está na construção do socialismo, rumo a sociedade dos homens e mulheres livres e associados. O capitalismo não pode ser melhorado, a sua essência é o lucro, obtido através da exploração do trabalho alheio. Vejo com alegria as críticas contundentes de Francisco, contra o capital. Grande abraço!

  6. Lucinete Alves da Cruz permalink
    13/12/2013 8:25

    Muito bom! Bastante reflexivo…

  7. Lucinete Alves da Cruz permalink
    13/12/2013 8:25

    Muito bom

  8. Henriqueta Cavalcante permalink
    13/12/2013 9:21

    Muito bom Leonardo Boff! Hoje, repiramos um novo céu e uma nova terra com o Papa Francisco!

  9. Normando Mendonça permalink
    13/12/2013 12:51

    Tão profundo e tão simples que nos faz refletir, avaliar a nossa cristandade. Deus o abençoe Frei Leonardo Boff, assim como ao amantíssimo Sumo Pontífice.

  10. Daniela permalink
    13/12/2013 14:02

    Maravilhosa visão do papa, resenhada pelo nosso querido Boff.

  11. 13/12/2013 14:15

    É preciso reverter esta lógica maquiavélica, pela lógica evangélica.

  12. IZAIAS AMARAL DAS NEVES permalink
    13/12/2013 16:12

    PODE SER UM ARGUMENTO POSITIVO MAS NÃO POSSO ACREDITAR QUE FRANCISCO TENHA FORÇAS SUFICIENTES PARA REEDIFICAR A RUÍNA EM QUE ENCONTRA SE A ENTIDADE DA QUAL É O COMANDANTE PRINCIPAL. É MUITA PODRIDÃO E ISSO NÃO SE MUDA COM DISCURSOS SR. LEONARDO. NÃO VEJO UMA VIRGULA SENDO MUDADA NAS AÇÕES DAS DIOCESES E PARÓQUIAS.

  13. Cláudia permalink
    13/12/2013 21:10

    Nunca li um texto tão inteligente, excelente! A posição sobre o cristianismo atual é a mais pura verdade, os papas seguem os princípios europeus. O papa Francisco vem mostrando o que é o Cristianismo de verdade, o que Jesus pregou para ter seus discípulos.. Parabéns pelo o incrível texto.

  14. aldenora Pereira da Silva permalink
    13/12/2013 22:59

    Além de ler e escutar o Papa Francisco devemos seguir o seu exemplo indo ao encontro dos pobres e humilhados em uma sociedade que o TER vale mais que o SER.

  15. 14/12/2013 11:59

    Senti um arrepio bem humano ao ler esse texto!

  16. Altamira dos Santos Souza permalink
    14/12/2013 16:28

    Que nos seres humanos dizemos ser tao cristao,revemos nossos conceitos ,o dizer nao e o agir .Voltamos nossos olhares a esses ensinamentos mas com açoes

  17. 15/12/2013 12:19

    Caríssimo Boff,

    Tenho me perguntado: Economia é uma ciência das exatas, portanto seu conhecimento é uma constatação de como a natureza é, ou é uma ciência das humanas, que portanto é construída pelo homem? Esta pergunta tem me encucado pois vejo os argumentos econômicos serem colocados como verdades absolutas, “ordem natural das coisas”, sendo a única solução possível a “austeridade”, o corte em benefícios e serviços públicos, e por aí vai. Este post seu contribuiu muito para a minha reflexão sobre o tema. Tenho muito gosto em acompanhar seu site. Obrigado!

  18. Marcel permalink
    17/12/2013 8:58

    Excelente texto, que mostra as feridas do sistema capitalista, e nos dá a diretriz para reumanizarmo-nos. Creio que para que tal aconteça e tenha força, temos de dar muita educação e orientação ética e moral aos mais jovens de modo a virem a exercer pressão na mudança do sistema, gradativamente, porém com intensidade e velocidade. Aprecio ler seus textos. Grande Abraço.

  19. Lucia freimuler permalink
    13/01/2014 12:36

    Eu estou apavoràda, com oque pode acontecêr?!!. E acho que os Póbres, e excluidos, é sim um grande problêma!, porêm, tem muitas coisas piór é, a Corrupção, Falta de Fé, a destruição das Familias, gênte que não quérem trabalhar, e preférem assaltar, e roubar?!. E tantas coisas mais?!. Só Deus!!!. póde resolvêr tudo isso!. E todos os dias, Suplico, a Deus que tenha misericórdia!, de todos nós!!..

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