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Há saída para o desamparo atual e alegria para o coração?

20/12/2013

Inegavelmente vivemos tempos sombrios nos quais as estrelas-guias desapareceram e com elas a alegria de viver e a esperança de uma humanidade mais humana e de uma Terra mais cuidada. As promessas do projeto da tecno-ciência com seu sonho de um progresso ilimitado e da economia neoliberal de mercado oferecendo um consumo generalizado produziram decepção e fracassso. Excluiram milhõe e milhões de pessoas. Bem diz o Papa Francisco:”a sociedade técnica multiplicou as possibilidades de prazer mas tem  grandes dificuldades de engendrar alegria”(Exortação,n.7). Prazer é coisa dos sentidos. Alegria é coisa do coração. E nosso modo de ser é sem coração.

 

Eis que no meio deste mal-estar mundial irrompeu uma figura que nos devolveu esperança, alegria e gosto pela beleza: o Papa Francisco. Seu primeiro texto oficial leva como título Exortação Pontifícia Alegria do Evangelho.Todo texto vem perpassado pela alegria, pelas categorias  do encontro, da proximidade, da misericórdia, da centralidade dos pobres, da beleza, de “revolução da ternura” e da “mística do viver juntos”.

 

Essa alegria não é de bobos alegres que o são sem saber porquê. Ela brota de um encontro com uma Pessoa concreta que lhe suscitou entusiasmo, lhe produziu elevo e simplesmente o fascinou. É a figura de Jesus de Nazaré. Não se trata daquele Cristo, coberto de títulos de pompa e glória que a teologia posterior lhe conferiu. Mas é o Jesus do povo simples e pobre, das estradas poirentas da Palestina que trazia palavras de frescor e de fascínio. O Papa Francisco testemunha o encontro com essa Pessoa.  Foi tão arrebatador que mudou sua vida e lhe criou uma fonte inesgotável de alegria e de beleza. Para ele evangelizar é refazer esta experiência e a missão da Igreja é resgatar o frescor e o fascínio pela figura de Jesus. Evita a palavra já feita oficial de “nova evangelização”. Prefere “conversão pastoral” feita de alegria, beleza, fascínio, proximidade, encontro, ternura, amor e misericórdia.

 

Que diferença com os seus predecessores de séculos. Apresentavam um Cristianismo como doutrina, dogma e norma moral. Exigia-se adesão irrestrita e sem qualquer laivo de dúvidas  pois  gozava das características da infalibilidade.

 

O Papa Francisco entende o Cristinianismo em outra chave. Não é uma doutrina. É um encontro pessoal com uma Pessoa, com sua causa, com sua luta, com sua capacidade de enfrentar as dificuldades sem fugir delas.        Agradam-se sobremaneira as palavras contidas na Epístola aos Hebreus onde se diz que Jesus “passou pelas mesmas provações que nós… que foi cercado de fraqueza… que entre clamores e lágrimas suplicou àquele que o  podia salvar da morte e que não foi atendido em sua angústia”, consoante os estudos de dois grandes sábios nas Escrituras A. Harnack e R. Bultmann que dão essa versão no lugar daquela que está na Epístola”e foi atendido em sua piedade”(eusebeia em grego pode significar alem de piedade, também angústia)…”que teve que aprender a obedecer mediante o sofrimento”(Hebreus 4,15; 5,2.7-8).

 

Na evangelização tradicional tudo passava pela inteligência intelectual (intellectus fidei) expresssa pelo credo e pelo catecismo. Na Exortação, o Papa Francisco chega a dizer que “aprisionamos Cristo em esquemas enfadonhos…e assim privamos o cristianismo de sua criatividade”(n.11). Em sua versão, a evangelização passa pela inteligência cordial (intellectus cordis) porque aí tem sua sede o amor, a misericórdia, a ternura e o frescor da Pessoa de Jesus. Ela se expressa pela proximidade, pelo encontro, pelo diálogo e pelo amor. É um cristianismo-casa-aberta para todos, “sem fiscais de doutrina” e não uma fortaleza fechada e intimidada.

 

Pois é esse cristianismo que precisamos, capaz de produzir alegria, pois tudo o que nasce verdadeiramente de um encontro profundo e verdadeiro gera alegria que ninguém pode tirar. É como a alegria dos sulafricanos no sepultamento de Mandela: nascia do fundo do coração e movia todo o corpo.

 

Falta-nos em nossa cultura mediática e internética esse espaço do encontro, do olho  no olho, de cara a cara, da pele a pele. Para isso temos que realizar “saídas”, palavra sempre repetida pelo Papa. “Saída” de nós mesmos para o outro, “saída” para as periferias existenciais (as solidões e os abandonos) “saída” para o universo dos pobres. Essa “saída” é um verdadeiro “Exodo” que trouxe alegria aos hebreu livres do jugo do faraó.

 

Nada melhor que lembrar o testemunho de F. Dostoievsky ao “sair” da Casa dos Mortos na Sibéria:”Às vezes, Deus me envia instantes de paz; nestes instantes, amo e sinto que sou amado; foi num desses momentos que compus para mim mesmo um credo, onde tudo é claro e sagrado. Esse credo é muito simples. Ei-lo: creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais humano, de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se encontra nele, prefiro ficar com Cristo a ficar com a verdade”.

 

O Papa Francisco faria suas estas palavras de Dostoievsky. Não é uma verdade abstrata que preenche a vida, mas o encontro vivo com uma Pessoa, com Jesus, o Nazareno. É a partir dele que a verdade se faz verdade. Se 2014 nos trouxer um pouco desse encontro (chamem-no de Cristo, de o Profundo, o Mistério em nós, de o Sagrado de todo o ser) então teremos cavado uma fonte donde jorra alegria que é infinitamente melhor que qualquer prazer induzido pelo consumo.

 

 

27 Comentários leave one →
  1. ana maría expósito fernandez permalink
    20/12/2013 14:08

    Muchas gracias, me ayuda muchísimo sus escritos y reflexiones gracias

  2. 20/12/2013 14:30

    Poxa, que texto bonito, me emocionei e lembrei de alguns encontros desses que eu tive na minha vida, raríssimos e quase imperceptíveis… pra mim..

  3. Luiz Nogueira da costa permalink
    20/12/2013 14:36

    Jesus é a paz, o amor, lamentavelmente as religiões deturparam sua mensagem do “amai-vos uns aos outros” e criaram dogmas para satisfazer as ambições humanas. Em nome dessas religiões, mataram muitos inocentes, fomentaram muitas guerras “santas” e esqueceram o essencial: Vivenciar o amor de Jesus. Espero que o Papa Francisco dê um novo rumo a sua igreja, trazendo-a ao seu objetivo primordial que levar o amor incondicional à todas as criaturas de Deus.

  4. Luiz Alberto Silva Souza permalink
    20/12/2013 15:02

    Palavras de sabedoria e conforto, caro mestre. Que a luz do Senhor que brilha sobre ti e sempre te iluminou, nos alcance e traga paz pela sabedoria. É bom saber que Cristo tem sido resgatado da parcialidade do anonimato da Teologia que não O divulga, mas apenas O estuda, como mero objeto de pesquisa, e O nega ao que realmente O entende. Graça e paz!

  5. Celsinho permalink
    20/12/2013 15:44

    Não consigo ver Jesus tão feliz dentro de uma estrutura engessada! Não dá para imaginar Jesus selecionando as pessoas para redimi-las. É impossível de conseguir oferecer saúde numa religião embolorada! Como me encanto com o Reino, com os gestos de amor, com a caridade sem cobranças, com a alegria de se viver com bondade e serenidade sem julgamentos vazios e precipitados;

  6. 20/12/2013 15:52

    Comecei a ler o texto e a pensar que você, Leonardo Boff, é uma estrela guia em minha vida. Gosto muito de vir até aqui ler suas palavras. Muito obrigada! Pela alegria e esperança que me traz de tempos em tempos com suas postagens! Acho que conheço mais você do que o Papa Francisco. Sua confiança na mudança que ele pode trazer para a Igreja Católica me deixa muito feliz porque ele chegará a muito mais pessoas. Mas tê-lo, Leonardo Boff, assim pertinho de nós, me dá um enorme conforto! Mais uma vez, obrigada!

  7. 20/12/2013 16:54

    Mensagem extremamente bela auspiciosa para reflexão do natal todo dia sem mercantilismo.Feliz Natal para todo o Planeta..Abraço Adventício para o brilhante teólogo Leonardo Boff..

  8. Leila Fátima Fernandes permalink
    20/12/2013 17:38

    Bela reflexão.
    Se faz urgentemente a necessidade de encontrar Jesus Cristo, aquele que sendo o MAIOR se fez pequeno lavando os pés de seus discípulos deixando o testemunho do serviço de amor ao próximo. Aquele que não tinha nem lugar para nascer, nasceu numa manjedoura junto aos animais, simplicidade de vida, verdade das verdades, humano, próximo, foi condenado à morte de cruz e ainda carregou a sua cruz pela remissão de nossos pecados. E nós o que fazemos? Carregamos a nossa cruz ou crucificamos nosso próximo? Vamos à Igreja ou somos igrejas na vivência diária? Comemoramos a vida ou a morte? Eu quero viver o Evangelho que Cristo pregou, quero ser uma cristã de verdade, amando e respeitando meu próximo. Pai fortaleça a minha fé, dai-me sabedoria. Eu creio em vós.

  9. Felipe Wouk permalink
    20/12/2013 18:06

    A mais cristalina verdade, em Cristo!

  10. Manoel Mendonça permalink
    20/12/2013 19:32

    Agora sim, o Sr. acaba de validar as atitudes e as palavras do Papa, claro, não mencionou que ele condenou todos os tipos de ideologias na Igreja católica, mas o que isso importa? O Sr. colocou palavras na boca dele, interpretou a subjetividade do seu pensamento, e o que isso significa? Que o Sr. procura roubar os méritos do Papa para credita-los a si mesmo, como se tudo que ele diz ou faz, só tivesse valor depois da sua aprovação. Lembre-se: O Papa rejeitou a sua Teologia da Libertação, o que torna suspeito todo o seu discurso

    • 21/12/2013 14:48

      Manoel,
      Ve é afoito em suas opiniões. O Papa Francisco nunca condenou a minha teologia da libertação. Só para vc ficar mais humilde: já me consultou duas vezes e quer um encontro como o fez com Gustavo Gutiérrez.
      Chega de reacionarismo da Igreja.
      lboff

    • Robson permalink
      21/12/2013 15:42

      Manoel, compreende de uma vez que a TL nasce do evangelho e não do pseudo marxismo…vai ler o evangelho…vai ler a TL…vai ler Marx e compreenderás a diferença…conhecereis a verdade e ela vos libertará…

      Feliz Natal! Que a leveza e jovialidade do menino a que ousamos chamar de Deus renove nossas esperanças!

    • Pedro da S. Feitoza permalink
      27/12/2013 7:40

      Manoel

      O que vc entende como ideologia? Parece-nos que vc se esconde atrás da essência pura materialista, impregnada no Capitalismo. Há uma grande diferença entre idéias e práticas, mas o desvirtuamento nas ações não neutraliza as grandes idéias, ao contrário, fortalecem-nas. Desarme-se ou revele para sempre o seu reacionarismo!

  11. Isabel da Fontoura Pinho permalink
    21/12/2013 8:19

    “…se alguém me provar que o Cristo est´´a fora da verdade e que esta n~~ao se encontra nele, prefiro ficar com Cristo a ficar com a verdade”.
    Que bonito, como o restante do texto!Abs. Isabel

  12. jacirema permalink
    21/12/2013 9:30

    O senhor espera muito do papa Francisco. Tomara que ele consiga realizar o que deseja, numa igreja cheia de vícios seculares, segº suas palavras: de “vaidade e arrogância”, sempre em busca de “chamar a atenção sobre si”. Infelizmente, nenhum sinal de mudança nas igrejas de minha cidade.

  13. 21/12/2013 11:58

    Reblogueó esto en PASO A LA UTOPÍA.

  14. Ana Augusta Rocha permalink
    21/12/2013 15:56

    Belas palavras numa época de tanto desamparo e desilusão. Obrigada por partilhar conosco um texto tão lindo!

  15. Luiz Antônio Bersch permalink
    21/12/2013 20:09

    Caríssimo Leonardo,

    Muito obrigado. Você veio alegrar meu Natal sobremaneira, com sua reflexão profunda, precisa, cirúrgica no sentido de fazer brotar com mais vigor a esperança e a alegria de viver..
    Abração
    Luiz A. Bersch

  16. Rosi Perdigao Martins permalink
    22/12/2013 10:50

    Caro Leonardo Boff, tenho lido seus artigos e a cada um deles descubro um pouco mais da minha humanidade. Este acima me suscitou um encontro pessoal com Cristo em um amigo que sofria com câncer. No seu rosto pude ver a face de Nosso Senhor, pois neste rosto não havia sofrimento, havia entrega, é quando não somos mais nós que vivemos, mas Cristo que vive em nós. Meses depois deste encontro descobri que tinha também um câncer, e tenho certeza e testemunho com alegria, que se não fosse este Encontro, essa Pessoa, talvez não estaria aqui escrevendo isso. A minha certeza está em Cristo, creio que Ele é tão Presente que nos meus momentos de angústia, sinto-me abraçada por Ele, Obrigada por poder fazer parte da família cristã!

  17. Leila Fátima Fernandes permalink
    22/12/2013 17:33

    Caro Leonardo Boff eu te sigo desde 1982. Me ensinaste muita coisa sobre a verdadeira fé cristã. Desejo-lhe muita saúde e paz e vamos juntos somando forças e acreditando sempre na verdadeira identidade do Cristo Ressuscitado. Não desanime frente aos comentários que nos fazem no dia a dia. Só Deus tem o poder de nos julgar e ELE é justo. Com minha fidelidade sempre.

  18. 23/12/2013 14:33

    Gostei muito de sua matéria,primo LEONARDO BOFF. Tudo que você diz é verdadeiro. Você tem uma inteligencia fantástica; seus livros são lições incomparáveis a muitas outras que conheço. Continue, assim teremos uma catequese espiritual avançada as demais e podemos ser mais assíduos aos nossos compromissos com o nosso povo que sofre.

  19. Rosa Maria Nascimento Rodrigues permalink
    23/12/2013 21:24

    Frei Leonardo
    Muito obrigado por todos os seus maravilhosos textos que sempre me ajudaram tanto! Vou ficar muito feliz quando o Senhor se encontrar com o nosso querido Papa Francisco! Votos de um Santo Natal
    Rosa Rodrigues/Braga-Norte de Portugal

    !

  20. Luiz Roberto Bodstein permalink
    25/12/2013 18:50

    Caro Leonardo, é sempre reconfortante ser lembrado pelos seus escritos que ainda existem pessoas de tão elevada percepção para avaliar período a período a sociedade em que vivemos. Você é uma eterna inspiração para todas essas pessoas que, como eu, torcem por uma sociedade mais justa e um mundo menos cruel para com os mais desfavorecidos. Prostro-me sensibilizado ante a grandeza de sua espiritualidade e a sensibilidade para entender o mundo à sua volta.
    Um abraço do tamanho daquele com que o Cristo Redentor abençoa a Guanabara.
    Felicíssimo Natal e um maravilhoso 2014, para nos brindar com suas análises tão lúcidas.
    Luiz R. Bodstein

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