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Para onde aponta a crise do clima

20/02/2014

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         Conheço poucos jornalistas que com tanto afinco, inteligência, boa informação e senso de equilíbrio nos entrega textos de grande relevância sobre questões ecológicas e afins como Washington Novaes. Cada sexta-feira publica no Estado de São Paulo um artigo que vale ler e guardar. Todos no Brasil estamos sofrendo sob o calor intenso, falta de chuvas e de águas nos reservatórios. Por outro lado, enchentes devastadoras, localizadas, em várias regiões do país. Como entender estes eventos extremos? Que sinais são estes que a Terra nos está dando? Para onde nos conduzirá o aumento da temperatura que não para de subir? Estas interrogações nos são colocadas para nossa preocupação e como desafio para fazermos alguma coisa a fim de mitigarmos e adaptarmo-nos aos efeitos perigosos das mudanças climáticas. Publicamos neste blog este artigo do amigo Washinton Novaes pois nos orienta sobre a real situação da Terra e de nosso pais. Lboff            

****************************

O noticiário recente sobre a mais longa estiagem no Brasil em seis décadas – e suas graves consequências em vários setores de atividade no país – traz consigo memórias incômodas e a sensação de despreparo do poder público e da sociedade   para a questão das mudanças do clima. Há muitas décadas numerosos  estudos científicos têm alertado para a gravidade e o agravamento progressivo das mudanças, para a necessidade de implantar sem perda de tempo políticas e programas de “mitigação” e “adaptação” a essas transformações. Mas têm encontrado pela frente o ceticismo – quando não o descaso.  Ou a crença nas avaliações dos chamados “céticos do clima”.

         Para não ter de recuar muito no tempo, o autor destas linhas retorna, por exemplo, ao que escreveu neste mesmo espaço há uma década (6/3/2004), quando o panorama na área do clima tinha causas opostas às de hoje: o Nordeste em janeiro daquele ano recebera um volume de chuvas sete vezes maior que sua média histórica; em alguns pontos de Goiás, em 50 dias chovera tanto quanto todo o ano anterior; açudes e barragens rompiam-se; abriam-se comportas para evitar rompimentos e provocavam-se graves inundações a jusante. Cientistas clamavam por um sistema oficial de informações que habilitasse a sociedade para programas de adaptação e mitigação – à semelhança do que a Europa já fazia, devolvendo seus rios ao curso natural, eliminando barragens, evacuando as margens de rios, implantando sistemas de drenagem urbana.  O então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, advertia: “São visíveis os sinais de mudanças climáticas, com inundações e secas cada vez mais graves”. Mas outro artigo  (26/23/2004)já acentuava que “no Brasil não se conseguiu ainda definir regras”, nem mesmo para um plano nacional de saneamento básico.

         Quem quiser recuar ainda mais no tempo, pode ir ao artigo de 31/7/1998, há mais de 15 anos, que se referia à maior estiagem no rio Cuiabá em 65 anos, que ameaçava o fornecimento de água a um milhão de pessoas – ao contrário do que acontecia no rio Branco, Acre, com “volumes inéditos de chuvas” levando a temer que se repetisse por aqui o drama pelo qual passava a China, com as maiores inundações em 40 anos, 2,5 mil mortos, um milhão de desabrigados. Dizia então o PNUD (ONU) que de 1967 a 1990 chegara a 3 bilhões o número de pessoas atingidas pelos desastres climáticos.

         Agora, São Paulo enfrenta os dias mais quentes desde fevereiro de 1943.  O “sistema Cantareira está à beira do colapso” (ESTADO, 8/2) e ameaça reduzir em 45% o  suprimento de toda a água na Região Metropolitana de São Paulo. O volume de água armazenado já caiu 13,7% em relação ao que era em 1930. Guarulhos sofre com  o racionamento dia sim, dia não. E o panorama se repete praticamente em todo o país, intensifica o consumo de energia elétrica.

Estudiosos como Sir Nicholas Stern dizem que o aumento da temperatura no mundo será de 4 a 5  graus até o fim do século. James Lovelock, autor da “teoria Gaia”, chega a prever (Rolling Stones, novembro de 2013) que “a raça humana está condenada” a perder mais de 5 bilhões da população até 2100, com o Saara invadindo a Europa, Berlim tonando-se mais quente do que Bagdá. A temperatura subirá 8 graus na América do Norte e Europa. Segundo a Organização Mundial de Meteorologia, “não haverá pausa no aumento da temperatura”; cada década será mais quente.

         Michael Bloomberg, o bilionário ex-prefeito de Nova York, hoje à frente de várias iniciativas “ambientalistas”, sugere o fechamento imediato de todas as minas de carvão mineral, a maior fonte de poluição – mas por aqui já colocamos em atividade as nossas termelétricas a carvão, as mais poluidoras e mais caras. Enquanto isso, a safra de soja em São Paulo já se perdeu em 40% (ESTADO, 7/2), com prejuizo de R$744 milhões. Em Goiás, já se foram 15%. E o mundo subsidia o consumo de petróleo.

         Não adianta mais exorcizar os que os “céticos” chamavam de ”profetas do Apocalipse”. Nem fechar os olhos à realidade. Temos de conceber e adotar com muita urgência um plano nacional para o clima. Que inclua regras rigorosas para a ocupação do solo, impeça o desmatamento, promova a recuperação de áreas, proteja os recursos hídricos. Obrigue os administradores públicos a tratar com urgência também do solo urbano e dos planos de drenagem , além da contenção das emissões de poluentes nos transportes.E que nos imponha repensar nossa matriz energética. É preciso conferir prioridade absoluta às fontes de energia “limpas” e renováveis. Avançar com a energia eólica, já competitiva e ainda desprezada. Estimular os formatos de energia solar, que avançam a toda a velocidade no mundo. Voltar a conferir preferência para as energias de biomassas, inclusive ao álcool, onde o Brasil foi pioneiro e agora importa dos Estados Unidos para baixar índices de inflação, com o etanol nas bombas prejudicado pela política anti-inflação de segurar os preços dos combustíveis.

         Não é só. Temos de caminhar sem retardo para conferir, na matriz energética, prioridade para a microgeração distribuída. Gerada localmente e consumida também localmente, essa microgeração – que pode ser, por exemplo, a resultante do aproveitamento de biogás  resultante dejetos animais, como se está fazendo no Paraná e se começa em outros lugares – permite ao produtor rural deixar de pagar contas de energia e ainda vender o excedente da produção para as distribuidoras. Sem “linhões” fantásticos, caríssimos (já temos mais de 100 mil quilômetros deles), desperdiçadores de energia. Sem megaprojetos de geração que custam os olhos da cara e exigem juros gigantescos.

 Esse é o caminho do futuro: o desenvolvimento local, com microgeração de energia. Sem concentrar a propriedade, sem concentrar a renda. E, se tivermos competência e sorte, reduzindo a emissão de poluentes e contribuindo para atenuar as mudanças do clima.

 

 

19 Comentários leave one →
  1. Carlos gouveia de Omena permalink
    20/02/2014 23:00

    Leonardo, boa noite, quanto a isto você tem toda razão, eu que moro aqui no Norte do Brasil sentimos de perto este problema climático. Precisamos de uma “cruzada” nacional em prol do Meio ambiente. Carlos de omena

    • Cassia Lourenço permalink
      21/02/2014 0:31

      Carlos mais do que uma cruzada que creio eu que seja uma busca de interesses e que devemos apoiar o bem de todos , água é vida e quando os ”nossos” representantes entenderem que o bem comum é o bem de todos talvez possamos viver em mundo com mais delicadeza .

  2. 21/02/2014 0:13

    Republicou isso em coração filosofante.

  3. 21/02/2014 0:13

    Republicou isso em coração filosofante.

  4. MALC permalink
    21/02/2014 8:40

    Segundo James Lovelock, já não há mais tempo para tentar recuperar o meio ambiente, agora só resta investir em medidas emergenciais para sobrevivência aos eventos de crise gerados pelas mudanças climáticas: http://www.theguardian.com/theguardian/2008/mar/01/scienceofclimatechange.climatechange?CMP=fb_gu

  5. simone sarmento lima permalink
    21/02/2014 11:20

    Muito bom! Se todos fizessem uma leitura do seu texto, ficariam a refletir, e quem sabe, começar a colocar em prática alguma coisa, em prol do meio ambiente.
    A cor dar para a realidade, a cor dar é uma ordem/ num país de tantos contrastes e dores/ a esperança existe/embora tênue/ e todas as formas de mudança /sempre serão bem-vindas/ quando. de fato, se tem vontade de a cor dar.

  6. AnaPaulaRodrigues permalink
    21/02/2014 11:49

    Leonardo, vc sempre à frente dos demais mortais. Aqui em Recife estamos cozinhando!
    AnnaPaula

  7. Celso José Machado permalink
    21/02/2014 12:00

    Leonardo Boff;

    Preciso de sua ajuda, preciso fazer chegar ao Papa Francisco a minha carta. Já Mandei em Setembro do ano passado e não tive nenhuma resposta. Para isto eu posso te mandar para seu e-mail, sinto que há pessoas interrompendo o encaminhamento desta carta para chegar ao Papa. Trata-se do meu Drama pessoal. Eu sei que você conhece pessoas do Vaticano que são fieis à própria consciência. Se houver um e-mail seu eu passo os arquivos para que você leia e entenda onde pretendo chegar.
    Eu agradeço de coração;

    Pe. Celso pecjmach@hotmail.com

    • 22/02/2014 9:24

      Pe.Celso
      Posso imaginar que há milhares no mundo que escrevem para o Papa. Tudo tem que passar por trâmites. As coisas não chegam diretamente, somente quando ele mesmo pede. Vc acha, de verdade, que só o Papa pode resolver o seu problema? Não esqueça que existe o Espirito Santo para quem vc sempre pode pedir luz para o seu caminho. Esse é a forma mais curta e mais eficaz.
      lboff

  8. 21/02/2014 19:58

    Republicou isso em luveredas.

  9. 22/02/2014 16:10

    A querida Dona Terra é uma senhora sensível,idosa. Furam-lhe a carne; revolvem-lhe as entranhas; entopem suas artérias; rompem suas veias! Tapam-lhe a respiração!
    Ela se contorce. Se descontrola. Grita. Chora.Sente calor, Sente frio. Esperneia.Incomoda!
    O que fazer? Os incomodados que se mudem???

  10. 22/02/2014 20:24

    FIM DA ECONOMIA CLÁSSICA E O ADVENTO DO COMUNISMO

    Quando escreví “O Reino da Liberdade” há 07 (sete) anos atrás, pouca gente entendeu o que eu estava escrevendo. Foi publicado em dois jornais locais aqui de fortaleza “O Povo” e “A Folha do Ceará”. Depois publiquei na Internet, no meu blog, neste site do Leonardo Boff e em outros. Agora vou para as vias de fato.
    O trabalho abstrato perdeu a sua dimensão ontológica. Não há mais razão para sua existência. Ele era a raiz de toda a economia milenar que produzia valor.
    A idéia sobre o fim do trabalho abstrato, da economia sem valor, do dinheiro sem valor remete-nos 24 séculos de espera.
    Quem primeiro pensou numa sociedade sem trabalho, com a produção zero valor e o dinheiro sem valor, foi o filósofo Aristóteles (IV séc. a.C.), quando disse: “Se o tear (instrumento artesanal de fiação) trabalhasse sozinho, não precisaria de senhor nem de escravo”. Esta idéia foi retomada por Karl Marx em 1857-8, no seu livro os Grundrisse (Borrões), onde ele resgatava Aristóteles com a nova roupagem tecnológica atual.
    A Cibernética de Norbert Weiner e sua extensiva informática que culminou na robótica, abriu as portas para o comunismo, com esta revolução eletrônica que estamos a passar.
    O próprio capitalismo inventou a corda para lhe enforcar – o comunismo cibernético.
    A robótica que quase eliminou com o espaço/tempo, acabou extinguindo com o trabalho abstrato (entidade social que criava valor, segundo Marx), com o valor da produção e liquidou com o valor do dinheiro, que é a manifestação do trabalho abstrato e o valor.
    Esta nova civilização que haverá de vir brevemente, eliminará com os problemas climáticos e ecológicos, pois foi e é a sociedade consumista que provocou o desastre ecológico. Não haverá mais consumismo na nova civilização.
    Estamos chegando à Terra Prometida. Estamos entrando numa sociedade onde haverá pouco trabalho e muito ócio criativo, como sonhava Karl Marx no reino da liberdade.
    Não chamem os Ludista, como a matéria publicada na revista “Carta Capital” da semana passada. Não precisamos quebrar as máquinas para que retorne o emprego estrutural. Deixem a robótica evoluir até chegar ao comunismo cibernético – sonho da humanidade há 2.400 anos.
    Quem viver, verá !!!

  11. 22/02/2014 21:14

    Onde está o meu artigo?

  12. 22/02/2014 21:40

    A Cibernética de Norbert Wiener e sua extensiva informática que culminou na robótica, abriu as portas para o comunismo, com esta revolução eletrônica que estamos a passar.
    O próprio capitalismo inventou a corda para lhe enforcar – o comunismo cibernético.
    A robótica que quase eliminou com o espaço/tempo, acabou extinguindo com o trabalho abstrato (entidade social que criava valor, segundo Marx), com o valor da produção e liquidou com o valor do dinheiro, que é a manifestação do trabalho abstrato e o valor.
    Esta nova civilização que haverá de vir brevemente, eliminará com os problemas climáticos e ecológicos, pois foi e é a sociedade consumista que provocou o desastre ecológico. Não haverá mais consumismo na nova civilização.
    Estamos chegando à Terra Prometida. Estamos entrando numa sociedade onde haverá pouco trabalho e muito ócio criativo, como sonhava Karl Marx no reino da liberdade.
    Não chamem os Ludista, como a matéria publicada na revista “Carta Capital” da semana passada. Não precisamos quebrar as máquinas para que retorne o emprego estrutural. Deixem a robótica evoluir até chegar ao comunismo cibernético – sonho da humanidade há 2.400 anos.
    Quem viver, verá !!!
    Resposta
    Odeciomendesrocha Mendes Roc

  13. Diva Falcão permalink
    23/02/2014 9:38

    Alô…alô…Ministério da Educação: Meio ambiente: conscientização, questões e soluções…matéria que deveria fazer parte do currículo escolar!

  14. Marcelo permalink
    06/03/2014 19:03

    É triste ver Leonardo Boff a serviço do Grande capital internacional. Al Gore & Cia faturam bilhões em cima das ideias verdes e da farsa do aquecimento global. Quem defende estas ideias alimenta a ganância dos capitalistas do hemisfério norte.

    • 06/03/2014 19:57

      Marcelo
      vc está em má companhia, com os céticos, que estão sendo refutados dia a dia pelos fatos. Hoje nenhum cientista sério nega os eventos extremos. Nem precisa analisar basta simplesmente observar. Só um exemplo: o degelo das calotas polares e principalmente do permafrost, aquele solo congelado que vem do Canadá e vai até o final da Sibéria está liberando milhões de toneladas de metano que é 23 vezes mais agressivo que o CO2. O metano está acelerando os eventos extremos. Se não mudarmos vamos ao encontro do pior e vc não vai escapar pois não há uma Arca de Noé só para os negacionistas.
      lboff

      • Marcelo permalink
        06/03/2014 22:42

        Discordo completamente. O gelo da Antártica está aumentando segundo o pesquisador Ricardo Augusto Felício. O pior do Ártico já passou. veja o que diz Luis Carlos Molion aqui http://www.youtube.com/watch?v=ODC3AQt55kU
        E depois, o interesse de Al Gore & Cia na falácia do aquecimento é muito suspeito. Eles faturam bilhões e compram cientistas, como foi revelado na fraude do IPCC.
        Quando o “fim do mundo” não vier os homens do futuro vão rir de nós que acreditamos nesta balela.
        É a fábula do momento. O pior é que quando ela passar vão inventar outra mentira para ganhar em cima dela.
        Eu não estou nem estarei a serviço desta gente inescrupulosa que só pensa em dólares.

      • 08/03/2014 19:23

        Marcelo,
        Não é verdade que nas calotas polares a neve aumenta. Estive lá e vi o contrário.Veja a Islândia: um terço do pais já derreteu. O acúmulo de CO2 na atmosfera é de 21 bilhões de toneladas.Se fosse densificado daria uma montanha de um km e meio de altura e 19 km de base. Como a Terra consegue absorvere essa mole? Não consegue. Por isso ela reage mediante os eventos extremos, observáveis por todos. É melhor vc ser mais prudente e desconfiado, pois poderá ser pego de surpresa. E desta vez não podemos errar, pois todos seremos atingidos. A assim chamada fraude do IPCC foi amplamente refutada como invencionice especialmente vindas das petroleiras.Vc está em franca minoria face à grande comunidade científica que tem como dado seguro o caráter antropogênico do atual caos ecologico na Terra.
        lboff

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