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Reintegrar-se no espaço e no tempo

30/03/2014

A partir dos anos 70 do século passado ficou clara para grande parte da comunidade científica que a Terra não é apenas um planeta sobre o qual existe vida. A Terra se apresenta com tal dosagem de elementos, de temperatura, de composição química da atmosfera e do mar que somente um organismo vivo pode fazer o que ela faz. A Terra não contem simplesmente vida. Ela é viva, um super-organismo vivente, denominado pelos andinos de Pacha Mama e pelos modernos de Gaia, o nome grego para a Terra viva.

A espécie humana representa a capacidade de Gaia de ter um pensamento reflexo e uma consciência sintetizadora e amorosa. Nós humanos, homens e mulheres, possibilitamos à Terra a apreciar a sua luxuriante beleza, a contemplar a sua intrincada complexidade e a descobrir espiritualmente o Mistério que a penetra.

O que os seres humanos são em relação à Terra é a Terra em relação ao cosmos por nós conhecido. O cosmos não é um objeto sobre o qual descobrimos a vida. O cosmos é, segundo muitos cosmólogos contemporâneos, (Goswami, Swimme e outros) um sujeito vivente que se encontra num processo permanente de gênese. Caminhou 13,7 bilhões de anos, se enovelou sobre si mesmo e madurou de tal forma que num canto dele, na Via láctea, no sistema solar, no planeta Terra emergiu a consciência reflexa de si mesmo, de donde veio, para onde vai e qual é a Energia poderosa que tudo sustenta.

Quando um eco-agrônomo estuda a composição química de um solo é a própria Terra que estuda a si mesma. Quando um astrônomo dirige o telescópio para as estrelas, é o próprio universo que olha para si mesmo.
A mudança que esta leitura deve produzir nas mentalidades e nas instituições só é comparável com aquela que se realizou no século XVI ao se comprovar que a Terra era redonda e girava ao redor do sol. Especialmente a transformação de que as coisas ainda não estão prontas, estão continuamente nascendo, abertas a novas formas de auto-realização. Consequentemente a verdade se dá numa referência aberta e não num código fechado e estabelecido. Só está na verdade quem caminha com o processo de manifestação da verdade.

Importa, antes de mais nada, realizar a reintegração do tempo. Nós não temos a idade que se conta a partir do dia do nosso nascimento. Nós temos a idade do cosmos. Começamos a nascer há 13,7 bilhões de anos quando principiaram a se organizar todas aquelas energias e materiais que entram na constituição de nosso corpo e de nossa psiqué. Quando isso madurou então nascemos de verdade e sempre abertos a outros aperfeiçoamentos futuros.

Se sintetizarmos o relógio cósmico de 13,7 bilhões de anos no espaço de um ano solar, como o fez ingeniosamente Carl Sagan no seu livro Os Dragões do Eden (N.York 1977, 14-16) e querendo apenas realçar algumas datas que nos interessam, teríamos o seguinte quadro:

A primeiro de janeiro ocorreu o big bang. A primeiro de maio o surgimento da Via-Láctea. A nove de setembro, a origem do sistema solar. A 14 de setembro, a formação da Terra. A 25 de setembro, a origem da vida. A 30 de dezembro, o aparecimento dos primeiros hominídeos, avós ancestrais dos humanos. A 31 de dezembro, irromperam os primeiros homens e mulheres. Os últimos 10 segundos de 31 de dezembro inauguraram a história do homo sapiens/demens do qual descendemos diretamente. O nascimento de Cristo ter-se-ia dado precisamente às 23 horas 59 minutos e 56 segundos. O mundo moderno teria surgido no 58º segundo do último minuto do ano. E nós individualmente? Na última fracção de segundo antes de completar meia-noite.

Em outras palavras, somente há 24 horas que o universo e a Terra têm consciência reflexa de si mesmos. Se Deus dissesse a um anjo: “procure no espaço e identifique no tempo a Denise ou o Edson ou a Silvia”, certamente não o conseguiria porque eles são menos que um pó de areia vagando no vácuo interstelar e começaram a existir a menos de um segundo atrás. Mas Deus sim, porque Ele escuta o pulsar do coração de cada filho e filha seus, porque neles o universo converge em autoconsciência, em amorização e em celebração.

Uma pedagogia adequada à nova cosmologia nos deveria introduzir nestas dimensões que nos evocam o sagrado do universo e o milagre de nossa própria existência. Isso em todo o processo educativo, da escola primária à universidade.

Em seguida faz-se mister reintegrar o espaço dentro do qual nos encontramos. Vendo a Terra de fora da Terra, nos descobrimos um elo de uma imensa cadeia de seres celestes. Estamos numa das 100 bilhões de galáxias, a Via Láctea. Numa distância de 28 mil anos luz de seu centro; pertencemos ao sistema solar que é um entre bilhões e bilhões de outras estrelas, num planeta pequeno mas extremamente aquinhoado de fatores favoráveis à evolução de formas cada vez complexas e conscientizadas de vida: a Terra.

Na Terra nos encontramos num Continente que se independizou há cerca de 210 milhões de anos atrás quando a Pangea (o continente único da Terra) se fraturou e que ganhou a configuração atual. Estamos nesta cidade, nesta rua nesta casa, neste quarto, e nesta mesa diante do computador partir donde me relaciono e me sinto ligado à totalidade de todos os espaços do universo.

Reintegrados no espaço e no tempo nos sentimos como Pascal diria: um nada diante do Todo e um Todo diante do nada. E nossa grandeza resie em pensar e celebrar tudo isso.

22 Comentários leave one →
  1. nelson permalink
    30/03/2014 18:54

    gratdao

  2. Mirian D Brazão permalink
    30/03/2014 19:00

    Com toda essa grandeza universal e uno que somos, ainda assim pequenos pequenos, somos feito desse universo de todo e tudo….Somos grandiosos e importante, porque somos da mesma matéria…….Graças a Deus…!!

  3. Maria Adelaide Guimarães Dias permalink
    30/03/2014 20:51

    Leonardo Boff, gratidão por esse texto é o que sinto. Que muitos e muitos seres humanos leiam e reflitam, aprendam e vivenciem essa reintegração é a maior esperança!

  4. Alfredo dos Santos Junior permalink
    30/03/2014 21:12

    O ser humano como consciência da Terra. É preciso trabalhar muito para que esta ideia seja realmente compreendida. Obrigado, professor, por mais esta lição.

  5. 30/03/2014 23:00

    MARAVILHOSO!

  6. 31/03/2014 2:25

    Prezado Leonardo,
    o nosso planeta terra é um subproduto das estrelas (nebulosas planetárias), que morreram e espalharam os componentes (tabela periódica), no espaço tempo, no braço de nossa galáxia Via Láctea, permitindo que outra estrela composta de Hidrogênio (nosso sol), pudesse refundir esse espalhamento em um planeta como a terra. A terra ao estar em uma posição privilegiada em relação à estrela Sol gerou as condições para que a vida fosse possível.
    Não há nada de místico, oculto, ou até mesmo metafísico nesse sistema. Trata-se de um sistema comum a todo o universo. Os teólogos inventaram termos como: místico, oculto, sagrado. Lembre-se que esses termos não se aplicam ao estudo da cosmologia somente da cosmogonia (esoterismo), construtos inventados pelos místicos.
    Caro Leonardo, devemos reeducar as pessoas mais simples, não deixando que fixem o pensamento em construtos duvidosos e impossíveis de qualquer compreensão mais elaborada, esses construtos são: coisas ocultas, místicas, sagradas e principalmente Deus.
    Seria muito mais fácil de explicar se disséssemos para uma criança que tudo nasceu de um pequeno ponto, infinitamente denso. Dentro desse ponto nasceu o espaço-tempo e a energia do universo. Não havia nada fora dele. Com apenas essas palavras essas crianças poderão colocar os seus neurônios para trabalhar durante muito tempo e começar a deduzir a vida a partir dessa afirmação.
    Se dissermos que um elemento oculto (Deus), deu origem a tudo isso, estaremos comprometendo a capacidade dessas crianças de se voltarem para a pesquisa, matemática, física, biologia, cosmologia; e compreender a vida que é independente dos nossos construtos.
    Aí vêm as deduções coerentes: somos todos filhos das estrelas e não filhos de algo oculto (Deus).
    E se alguém me disser que o “oculto”, precisa ser considerado, eu direi que é por falta de referências, pesquisas, métodos e nada mais.
    Essa é a verdade sem qualquer sombra de dúvidas! Precisamos urgente tirar as dúvidas com certezas e não com mais dúvidas.
    Foi o Nada que gerou tudo, mas a recíproca não é verdadeira.
    Aguardo comentários? Abs.

    • 31/03/2014 21:47

      Do nada nunca sai nada, senão não seria nada.
      lboff

      • 01/04/2014 4:05

        Prezado Leonardo,
        por incrível que pareça nós precisamos do Nada. O Universo nasceu de uma singularidade que continha: espaço + tempo + toda a energia do universo. Precisamos considerar que aquele pontinho matemático infinitamente denso e menor do que um átomo estava em algum lugar que ao mesmo tempo era um não lugar: o Nada. O universo se expandiu para ocupar um não lugar, algo inconcebível, mas que precisa ser conceituado para não cairmos no absurdo. Abs.

    • 01/04/2014 15:27

      Leonardo Boff e RCristo, uma pergunta:
      E por favor não levem a mal minhas contradições, dúvidas e ponderações.
      Onde você escreve: “Seria muito mais fácil de explicar se disséssemos para uma criança que tudo nasceu de um pequeno ponto, infinitamente denso. Dentro desse ponto nasceu o espaço-tempo e a energia do universo. Não havia nada fora dele.” Não sendo teológico, o que realmente não sou, pergunto: Estava esse pequeno ponto – Infinitamente denso” suspenso onde??? Onde ele exatamente estaria? pois pressuponho que algo sempre deve estar em algum lugar, então se ele como se diz, explodiu e gerou essa expansão de matérias – “digas elementos químicos conhecidos e também os não conhecidos” – que vieram a formar nossa galáxia Via Láctea entre outras e assim nosso planeta etc…
      Mas exatamente onde isso pode ter ocorrido??? Por que motivo???? Ou simplesmente a matéria densa deste ponto do qual fazemos parte teve vontade própria em se transformar??? Evoluiu por si só em si mesma e gerou todas essas transformações?
      Ou ainda, o que pode ser também uma teoria, somos ainda aquele mesmo ponto – sem fazer estudos de grandeza, já que não temos como fazer essa comparação, pois não sabemos exatamente nosso tamanho comparando-se a outras dimensões, já que não podemos nos comparar com aquilo que definitivamente não conhecemos, então supondo que ainda sejamos – Digo sejamos nós e nosso universo conhecido — ainda aquele mesmo ponto ainda suspenso em alguma parte em plena evolução e maturação…
      é mais ou menos se perguntar ao que está dentro da menor partícula conhecida o que ela pensa ser o universo… para ela o universo é o átomo… e para algo dentro dela mesma o universo é ela …. difícil dimensionar…
      Eu queria ter estudado isso muito mais a fundo, realmente queria… Física, física quântica, cosmologia, entre outras ciências, mas como não o fiz, ficam minhas divagações e dúvidas, pensamentos e teorias…
      Quem sabe onde podemos chegar…. pois nem sabemos exatamente de onde viemos…
      CD.

      • 02/04/2014 1:06

        Fdarela
        Há mais de 30 anos que estudo estas coisas e não saberia lhe responder a suas perguntas. O que podemos dizer que tudo começou um dia. Não havia espaço nem tempo. Nem era o nada, porque do nada não sai nada. Supõe-se que existe permanentemente uma Energia de fundo, Vacuo quantico, Fonte originária de todo ser que originou aquele pontozinho que se inflacionou e depois explodiu e dele vieram todas as coias que existem hoje. O mistério é essa Energia de fundo que continua atuando em tudo e em cada um de nós, caso contrario voltriamos ao nada. Talvez seja aquilo que as religioes chamam de Deus. A editora Vozes publicou um belo livro de facil leitura de Hans Küng, O principio de todas as coias. Ai ele tenta responder a perguntas como as suas.
        abraço
        lboff

      • 02/04/2014 5:41

        Prezado fdarela,

        o universo parece ter surgido do “nada” do vácuo espacial que na verdade é feito de turbulências espaço-temporais subatômicas em distâncias extremamente pequenas, mensuráveis na escala de Planck – a distância na qual a estrutura do espaço-tempo é dominada pela gravidade quântica. Nessa escala, o princípio da incerteza de Heisenberg permite que a energia decaia brevemente em partículas e antipartículas, produzindo “algo” a partir do “nada”. O nada é instável. Em seu novo livro, A Universe from Nothing, o cosmólogo Laurence M. Kraus tenta ligar a física quântica à teoria da relatividade geral de Einstein para explicar a origem de um Universo dessa maneira: “Na gravidade quântica, os universos podem aparecer espontaneamente, e de fato sempre o farão. Esses universos não precisam estar vazios, mas podem conter matéria e radiação desde que sua energia total, incluindo a energia negativa associada à gravidade (contrabalanceando a energia positiva da matéria), seja zero”. Além disso, “para universos fechados que podem ser criados a partir desses mecanismos para durar mais do que intervalos infinitesimais de tempo, algo como a inflação se faz necessário”. As observações mostram que o Universo é de fato plano (há matéria suficiente para desacelerar sua expansão, mas não detê-la), tem energia total zero e passou por uma rápida inflação, ou expansão, logo após o Big Bang, como descrito pela cosmologia inflacionária. “A gravidade quântica não apenas parece permitir que universos sejam criados a partir do nada – ou seja, da ausência de espaço e tempo –, ela pode precisar que seja assim. O ‘nada’ – nesse caso a ausência de espaço, de tempo, de tudo! – é instável”. Este é um artigo da Scientific American, sendo um resumo da explicação do livro: A Universe From Nothing.

        Respondendo às suas perguntas:

        Seguindo esse raciocínio o Nada existe e pode ter originado o Universo. O ponto matemático que deu origem ao universo era o próprio Nada, não estava suspenso em coisa alguma, pois não há nada fora desse ponto (espaço, tempo e toda a energia, estão no ponto e não fora dele – não há o fora do ponto). Os qualificativos: motivo, vontade, objetivo, etc., não se aplicam nessa formação inicial, o que sabemos até o presente momento é isso. Os seres vivos seguem uma trajetória aleatória que chamamos de seleção natural. Essa seleção natural não possui qualquer objetivo ou direcionamento, ocorre aleatoriamente. Vide matéria completa no livro de Maturana e Varella: A árvore do conhecimento: http://rcristo.com.br/2014/03/25/a-arvore-do-conhecimento-maturana-e-varella/

        Tudo dentro do universo – incluindo nós – teve a mesma origem, não foi originado por alguma vontade divina, ocorreu naturalmente. Se perguntarmos por que estamos aqui? Somos consequência de uma complexidade aleatória e sem finalidade, que nasceu com o universo. Fazemos parte desse ciclo de evolução e extinção; só espero que a nossa extinção demore a ocorrer e possamos responder de forma completa e apurada todas as perguntas.

        Possuímos uma consciência independente para analisar nossas origens e estamos contemplando esse cosmos que é extremamente complexo, desafiador e ao mesmo tempo surpreendente. É graças á nossa ciência que as arbitrariedades da existência e da vida estão sendo desvendadas.

        Precisamos de forma urgente esclarecer os religiosos que não há finalidade na vida, tudo segue trajetórias determinadas pela própria existência: o palco está aí para sermos, fazermos e vivermos, dentro das possibilidades da evolução e nada mais. O acontecimento mais importante de toda a existência é estar vivo e consciente. Veja a última matéria publicada em meu Blog: http://rcristo.com.br/2014/04/02/o-universo-a-partir-do-nada-a-universe-from-nothing-lawrence-krauss/
        Abs.

      • 05/04/2014 11:49

        Prezados fdarela,

        Da hipótese indeterminística de Henri Poincaré, à Paulo Freire, numa síntese, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”.

        “The intuitive mind is a sacred gift,…., and the rational mind is a faithful servant”, Albert Einstein.
        Tradução livre: “A mente intuitiva é uma dádiva sagrada,…., e a mente racional é um servo fiel”
        “We have created a society that honours the servant but has forgotten the gift”, Iain McGilchrist.
        Tradução livre: “Criamos uma sociedade que honra o servo, mas esqueceu a essência do dom natural (presente)”

        ilya Prigogine, em “O fim das certezas” (1996),

        Capítulo 8, pág. 169: “O tempo precede a existência?”

        “Há alguns anos, sem dúvida por volta de 1985, apresentei uma comunicação à Universidade Lomonosoff, em Moscou. O professor Ivanenko, um dos físicos russos mais respeitados, morto recentemente aos 90 anos de idade, pediu-me que escrevesse na parede um curta frase. Ele já tinha um grande números de frases escritas por cientistas celebras como Dirac e Bohr. Acho que me lembro da frase escrita por Dirac; era substancialmente a seguinte: “a beleza e a verdade vão de par com a física teórica”. Eu exitei e depois escrevi: “O tempo precede a existência”. Para muitos físicos, aceitar a teoria do big-bang como origem do nosso universo equivaleria aceitar que o tempo deve ter um ponto de partida. Haveria um começo, e talvez um fim, do tempo. Mas como conhecer esse começo? Acho mais natural supor que o nascimento de nosso universo é um evento na história do cosmos e que devemos, pois, atribuir a esse um tempo que precede o próprio nascimento do nosso universo. Esse nascimento poderia ser semelhante a uma mudança de fase que leva de um pré-universo….”

        Ilya Prigogine, O fim das certezas, 1996, p. 13.
        Big-Bang ou Big Bounce (grande salto)?
        (…) “Temos não só leis, mas também eventos que não são dedutíveis das leis, mas que atualizam as suas possibilidades. Nesta perspectiva, não podemos evitar colocar o problema da significação desse evento primordial que a física batizou de “big-bang”. Que significa o big-bang? Fornece-nos as raízes do tempo? Começou o tempo com o big-bang? Ou o tempo preexistia ao nosso universo?
        Chegamos aí as fronteiras de nosso conhecimento, numa área em que o raciocínio físico e especulação dificilmente se demarcam. Sem dúvida, é prematuro falar de demonstração ou de prova, mas é interessante analisar as possibilidades conceituais. Como vamos mostrar, podemos conceber hoje o big-bang como um evento associado a uma instabilidade, o que implica que ele é o ponto de partida de nosso universo, mas não o tempo. Enquanto o nosso universo tem uma idade, o meio cuja instabilidade produziu este universo não a teria. Nesta concepção, o tempo ao tem início e provavelmente não tem fim!”

        Ilya Prigogine, O fim das certezas, O Dilema de Epicuro – Cap. I, pág. 17, 1996.

        O DILEMA DE EPICURO
        “As questões estudadas neste livro- O universo é regido por leis deterministas? Qual o papel do nosso tempo? – foram formuladas pelos pré-socráticos na aurora do pensamento ocidental. Elas nos acompanham já há dois mil anos. Hoje, os desenvolvimentos da Física e das Matemáticas do caos e da instabilidade abrem um novo capítulo nessa longa história. Atualmente percebemos esses problemas sob um novo ângulo. Podemos a partir de agora evitar as contradições do passado.”
        “Foi Epicuro o primeiro o primeiro a estabelecer os termos do dilema a que a física moderna conferiu o peso de sua autoridade. Sucessor de Demócrito, ele imaginava o mundo constituído por átomos em movimento vazio. Pensava que os átomos caiam todos com a mesma velocidade, de acordo com trajetórias paralelas. Como podiam, então, entrar em colisão? Como podia aparecer a novidade, uma nova combinação de átomos? Para Epicuro, o problema da ciência, da inteligibilidade da natureza e o do destino dos homens eram inseparáveis. Que podia significar a liberdade humana no mundo determinista dos átomos?

        Escreveu EPICURO a Meneceu” (há dois mil e quinhentos anos):

        “Quando ao destino, que alguns consideram o senhor de tudo, o sábio ri-se dele. De fato, mais vale ainda aceitar o mito sobre os deuses do que se sujeitar ao destino dos físicos. Pois o mito nos deixa a esperança de nos conciliarmos com os deuses através das honras que nós lhe rendemos, ao passo que o destino tem um caráter de necessidade inexorável.”

        Embora os físicos de que fala Epicuro sejam os filósofos estóicos, esta citação soa de maneira espantosamente moderna! Repetidas vezes, os grandes pensadores da tradição ocidental como Kant, Whitehead ou Heidegger, defenderam a existência humana contra uma representação objetiva do mundo que ameaçava o seu sentido. Mas nenhum deles conseguiu propor uma concepção que satisfizesse as paixões contrárias, que reconciliasse nossoss idéias de inteligibilidade e de liberdade. Assim, a solução proposta pelo próprio Epicuro, o ‘clinamen’, que em momentos imprevisíveis perturba imperceptivelmente a queda paralela do átomo, permaneceu na história do pensamento como o exemplo mesmo de uma hipótese arbitrária, que salva um sistema pela introdução de um elemento ad hoc.

        Mas precisamos de um pensamento da novidade? Toda novidade não é ilusão? Também aqui, a questão remonta às origens. Para Heráclito, tal qual o entendeu Popper, “a verdade é ter apreendido o ser essencial da natureza, tê-la concebido como implicitamente infinita, como o processo mesmo”. Por contraste o célebre poema de Parmênides afirma a realidade única do ser, que não morre, nem morre nem evolui. E para Platão, como sabemos pelo Sofista, precisamos tanto do ser quanto do devir, pois se a verdade está ligada ao ser, a uma realidade estável, não podemos conceber nem a vida nem o pensamento se descartarmos o devir.
        Desde sua origem, a dualidade do ser e do devir foi uma obcesão para o pensamento ocidental, a tal ponto que Jean Wahl pôde caracterizar a história da filosofia como uma história infeliz, que oscila continuamente entre um mundo autômato e um universo governado pela vontade divina…..

        E la nave va
        Sds,

    • 03/04/2014 21:26

      Prezado Ronaldo,

      Com todo respeito, tenho a impressão, mera impressão, que você olha os modelos e os vê como fato absoluto e eterno, não estaria você, vendo uma ciência cartesiana, determinística, ciência da certeza?

      “Essencialmente todos os modelos são errados, alguns são úteis” (“Essentially, all models are wrong, but some are useful.” (1951, book response surface methodology, by George Box).

      Carta de Freud à Einstein, 1932: “Não será verdade que cada ciência, no fim, se reduz a um certo tipo de mitologia?”

      “(…) as categorias mais fundamentais do pensamento e, conseqüentemente, da ciência, têm sua origem na religião.”, Émile Durkheim

      Miguel de Unamuno: “As variações da ciência dependem das variações das necessidades humanas, e os homens de ciência costumam trabalhar, quer queiram, quer não, consciente ou inconscientemente, a serviço dos poderosos ou do povo, que lhes pedem confirmação de suas aspirações.” (Rubem Alves – Filosofia da Ciência, pág. 150).

      “Nenhum processo já revelado pelo estudo da história do desenvolvimento científico se parece, nem de longe, com o estereótipo da falsificação pela comparação direta com a natureza”. Thomas S. Kuhn.

      “A ciência é um fato social, como muitos outros, tais como religião, família, exércitos, partidos políticos: instituições que se organizaram em torno de certos problemas e estabeleceram regras para o seu funcionamento.” (Rubem Alves – Filosofia da Ciência, pág. 155).

      “Poderia surpreender que os pensamentos profundos sejam encontrados nos escritos dos poetas e não nos dos filósofos . O motivo é que os poetas se servem do entusiasmo e exploram a força da imagem.” (Descartes, Cogitationes privatae). Livro “A Cabeça Bem-Feita”, Edgar Morin, pág. 92).

      Caros, voltei a acreditar em Deus, mais que isso, sigo a sabedoria do nosso povo, agora creio também que ele é brasileiro, a sabedoria popular é pura poesia, um outro plano, além da ciência e da filosofia.

      Sds,

  7. 31/03/2014 9:02

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Um lindo texto do Leonardo Boff! “A partir dos anos 70 do século passado ficou clara para grande parte da comunidade científica que a Terra não é apenas um planeta sobre o qual existe vida. A Terra se apresenta com tal dosagem de elementos, de temperatura, de composição química da atmosfera e do mar que somente um organismo vivo pode fazer o que ela faz. A Terra não contem simplesmente vida. Ela é viva, um super-organismo vivente, denominado pelos andinos de Pacha Mama e pelos modernos de Gaia, o nome grego para a Terra viva.
    A espécie humana representa a capacidade de Gaia de ter um pensamento reflexo e uma consciência sintetizadora e amorosa. Nós humanos, homens e mulheres, possibilitamos à Terra a apreciar a sua luxuriante beleza, a contemplar a sua intrincada complexidade e a descobrir espiritualmente o Mistério que a penetra.” (continua no link anexo…)

  8. Cibele Nunes permalink
    31/03/2014 10:46

    Amém!

  9. Patrícia Cristina Santana de Sousa permalink
    31/03/2014 11:57

    Prezado Leonardo Boff,
    Ao ler seus texto, sobre a situação ecológica de Gaia, eles são para mim fonte de esperança, pois a esperança é um símbolo de seus textos, ecológicos, pois vc não difunde o terror ecológico, e sim a esperança, e nos convida a partilhar e amor com Guaia, que nos acolhe neste momento.
    Muito obrigada.

  10. 31/03/2014 12:38

    Republicou isso em PASO A LA UTOPÍA.

  11. Marina Medeiros permalink
    31/03/2014 13:50

    Como cantou São Francisco nossa irmã terra. A ti minha profunda reverência e amor.

  12. mundodepalavras permalink
    01/04/2014 2:57

    Tão bom ser.
    Fazer parte do Todo, sentir…
    E principalmente, não ter a necessidade de explicações lógicas sobre a nossa existência, mas simplesmente agradecer, por ser certamente, um sublime e sagrado milagre.

    “Do nada nunca sai nada, senão não seria nada.”
    Isso revela absolutamente tudo!

    Obrigada, querido!
    Camila Vaz

  13. Luiz permalink
    02/04/2014 16:00

    Lembro-me uma vez de ler que somente com uma visão macro do nosso planeta como os astronautas possuem é que nós seres humanos podemos ter 100 % de consciência de Gaia. Não é atoa que a maioria dos astronautas viram ativistas.

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