Skip to content

A paz perene com a natureza e a Mãe Terra

12/04/2014

          Um dos legados mais fecundos de Francisco de Assis e atualizado por Francisco de Roma é a pregação da paz, tão urgente nos dias atuais. A primeira saudação que São Francisco dirigia aos que encontrava era desejar “Paz e Bem” que corresponde ao Shalom bíblico. A paz que ansiava não se restringia às relações inter-pessoais e sociais. Buscava uma paz perene com todos os elementos da natureza, tratando-os com o doce nome de irmãos e irmãs.

Especialmente a “irmã e Mãe Terra”, como dizia, deveria ser abraçada pelo amplexo da paz. Seu primeiro biógrafo Tomás de Celano resume maravilhosamente o sentimento fraterno do mundo que o invadia ao testemunhar:”Enchia-se de inefável gozo todas as vezes que olhava o sol, contemplava a lua e dirigia sua vista para as estrelas e o firmamento. Quando se encontrava com as flores, pregava-lhes como se fossem dotadas e inteligência e as convidava a louvar a Deus. Fazia-o com terníssima e comovedora candura: exortava à gratidão os trigais e os vinhedos, as pedras e as selvas, a plantura dos campos e as correntes dos rios, a beleza das hortas, a terra, o fogo, o ar e o vento”.

Esta atitude de reverência e de enternecimento levava-o a recolher as minhocas dos caminhos para não serem pisadas. No inverno dava mel às abelhas para que não morressem de escasseza e de frio. Pedia aos irmãos que não cortassem as árvores pela raiz, na esperança de que pudessen se regenerar. Até as ervas daninhas deveriam ter um lugar reservado nas hortas, para que pudessem sobreviver, pois “elas também anunciam o formossísmo Pai de todos os seres”.

Só pode viver esta intimidade com todos os seres quem escutou sua ressonância simbólica dentro da alma, unindo a ecologia ambiental com a ecologia profunda; jamais se colocou acima das coisas mas ao pé delas, verdadeiramente como quem convive como irmão e irmã, descobrindo os laços de parentesco que une a todos.

O universo franciscano e ecológico nunca é inerte nem as coisas estão jogadas aí, ao alcance da mão possessora do ser humano ou juxtapostas uma ao lado da outra, sem interconexões entre elas. Tudo compõe uma grandiosa sinfonia cujo maestro é o próprio Criador. Todas são animadas e personalizadas; por intuição descobriu o que sabemos atualmente por via científica (Crick e Dawson, os que decifraram o DNA) que todos os viventes somos parentes, primos, irmãos e irmãs, por possuirmos o mesmo código genético de base. Francisco experimento espiritualmente esta consanguinidade.

Desta atitude nasceu uma imperturbável paz, sem medo e sem ameças, paz de quem se sente sempre em casa com os pais, os irmãos e as irmãs.

São Francisco realizou plenamente a esplêndida definição que a Carta da Terra encontrou para a paz: ”é aquela plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com as outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte”(n.16 f). O Papa Francisco parece ter realizado as condições para a paz que irradia.

A suprema expressão da paz, feita de convivência fraterna e acolhida calorosa de todas as pessoas e coisas é simbolizada pelo conhecido relato da perfeita alegria. Através de um artifício da imaginação, Francisco apresenta todo tipo de injúrias e violências contra dois confrades (um deles é ele próprio, Francisco). Encharcados de chuva e de lama, chegam, exaustos, ao convento. Ai são rechaçados a bastonadas (“batidos com um pau de nó em nó”) pelo frade porteiro. Embora tenham sido reconhecidos como confrades, são vilipendiados moralmente e rejeitados como gente de má fama.

No relato da perfeita alegria, que encontra paralelos na tradição budista, Francico vai, passo a passo, desmontando os mecanismos que geram a cultura da violência. A verdadeira alegria não está na autoestima, nem na necessidade de reconheicmento, nem em fazer milagres e falar em linguas. Em seu lugar, coloca os fundamentos da cultura da paz: o amor, a capacidade de suportar as contradições, o perdão e a reconciliação para além de qualquer pressuposição ou exigência prévia. Vivida esta atitude, irrompe a paz que é uma paz interior inalterável, capaz de conviver jovialmente com as mais duras oposições, paz como fruto de um completo despojamento. Não são essas as primícias de um Reino de justiça, de paz e de amor que tanto desejamos?

Esta visão da paz de São Francisco representa um outro modo de ser-no-mundo, uma alternativa ao modo de ser da modernidade e das pós-modernidade, assentado sobre a posse e o uso desrespeitoso das coisas para o desfrute humano sem qualquer outra consideração.

Embora tenha vivido há mais de oitocentes anos, novo é ele e não nós. Nós somos velhos e envelhecidos que com a nossa voracidade estamos destruindo as bases que sustentam a vida em nosso planeta e pondo em risco o nosso futuro como espécie. A descoberta da irmandade cósmica nos ajudará a sair da crise e nos devolverá a inocência perdida que é a claridade infantil da idade adulta.

Leonardo Boff é autor de A oração de São Francisco:uma mensagem de paz para o mundo atual, Vozes 2012.

10 Comentários leave one →
  1. patriciaexpositores permalink
    12/04/2014 23:47

    Mais um texto gostoso de ler, que desafia a reflexão …

  2. Fernando permalink
    13/04/2014 1:17

    Sabe, frei Leonardo, lendo este belíssimo artigo sobre a integração do homem à natureza tomando os dois Franciscos como ponto de partida para a reflexão e fazendo associações totalmente despojadas de preconceito com outras crenças, como no caso o Budismo, fico pensando em quão livre e contemplativo e ao mesmo tempo atuante poderia ter sido o Cristianismo se não tivesse sido corrompido por aquele entulho farisaico da antiga religião de Paulo – que tanta desagregação e associações maniqueístas trouxe ao Evangelho chegando mesmo a subverter o perdão do Cristo em uma promessa de danação eterna – e as manipulações posteriores em virtude de interesses políticos. Se o Cristianismo tivesse realmente se estabelecido com a simplicidade de Pedro, como ordenado por Jesus, teríamos hoje, talvez, uma sociedade ocidental mais simples mas mais evoluída em termos humanos. Mas, infelizmente, o que se vê ainda é o pensamento infame de gente que acredita piamente que o homem é o dono absoluto de tudo e se Deus lhes concedeu o direito de ser os detentores da posse então podem deitar e rolar que nada vai acontecer. É como se tivessem uma carta branca de Deus para fazer o que quiserem. Sei lá… acho que o deus dessa gente, positivamente, não é o meu.

    • ferraridan67 permalink
      16/04/2014 13:35

      Caro amigo Fernando, concordo plenamente com você! E além, proponho-te que sejamos nós as pedras sobre as quais a “igreja” Crística se edifique. Não temos ação para grandes feitos, porém, como o amigo mesmo disse, não é essa a ideia, mas o objetivo é a simplicidade, pequenas vivências com imenso impacto. Fique bem, em paz!

    • Clélio da Silva permalink
      21/04/2014 12:18

      Querido irmão Fernando, existem outros deuses? Creio que não! Para mim, só existe um DEUS único. E esse DEUS, ao criar o homem, deu-lhe o livre arbítrio para escolher em que quer acreditar enquanto ascende até ELE. Uns vão devagar, outros vão mais rápidos, mas todos chegarão até ELE, não importa o que façam e como façam pelo caminho. Irmão, quer dizer dar as mãos aos que tem dificuldade para ver com clareza, o que vieram fazer aqui. E cada um, deve se aperfeiçoar para ver com clareza, a dificuldade de cada um que está na sua estrada. Um grande abraço.

    • Terezinha oliveira permalink
      04/05/2014 11:09

      Muito bom, parabéns!

  3. 02/05/2014 18:37

    Mestre Boff
    Quando o vejo discorrer sobre a paz tao necessaria entre a natureza e os seres humanos, fico pensando no nosso estágio de estar na metade do caminho entre o macro e o micro-cosmos. Qtas vezes são necessaria açoes aparentemente violentas para que a vida continue, a começar pelo momento do nosso nascimento. Se mãe e bebe não interagem num momento de força continua, sobrevem o nada, a morte. E a vida se faz atraves dessa continua interaçao.
    Hoje se não houver um parto em favor da natureza, um grito e ação dos oprimidos o nada virá uma vez que se quebrará o equilibrio das forças. A nos, os do meio cabe a mediação entre a violencia de ambos os lados, entre o BEM e o MAL, o ÓDIO e o AMOR. Jesus pregava a água viva, a água em movimento e se colocava ao nosso dispor para te-la. Acredito e me sinto dependente de Sua Presença, para alcançar com brandura cada pequeno movimento que se faz presente hoje, no ocaso de minha vida.
    Um grande abraço, PAZ E BEM.

  4. Maria do Carmo permalink
    05/05/2014 6:07

    ” Bem aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”

    Querido Leonardo, sua bênção.
    Seus textos sempre fazem-me mergulhar no abismo profundo do meu ser para o encontro com a totalidade do AMOR DIVINO.
    Bendito seja Deus nos seus dons!
    Abraços, com o carinho e as orações de sua irmã.

Trackbacks

  1. A paz perene com a natureza e a Mãe Terr...
  2. A paz perene com a natureza e a Mãe Terra | EVS NOTÍCIAS.
  3. A paz perene com a natureza e a Mãe Terra : Blog – Cidadão do Mundo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: