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A hospitalidade para com os haitianos: quão humana é a nossa sociedade?

04/05/2014

O drama de centenas e centenas de haitianos, vítimas de devastador terremoto, que, via o Estado do Acre, buscam hospitalidade no Brasil, representa um teste de quanto humana é ou não é a nossa sociedade. Não queremos nos restringir somente aos haitinos, mas aos tantos que são expulsos de suas terras, posseiros, indígenas, quilombolas e outros, pelo avanço do agronegócio, das hidrelétricas   ou desalojados  como recentemente do prédio da OI no Rio de Janeiro e que tiveram que se refugiar na praça da Catedral da cidade. Organismos da ONU nos dão conta de que existem no mundo alguns milhões de refugiados por guerras, por problemas de fome ou climáticos e outras causas semelhantes. Quais Abraãos andam por ai buscando quem os acolha e terra para trabalhar e viver. E não encontram. E quantas naves são rejeitadas tendo que vagar pelos mares no meio de todo tipo de necessidades e desesperanças.

Basta lembrar os refugiados de África que chegam à ilha italiana de Lampeduza. Receberam a solidariedade do Papa Francisco, ocasião em que fez as mais duras críticas à nossa civilização por ser insensível e perder a capacidade de chorar sobre a desgraça de seus semelhantes. Todos estes padecem sob a falta de hospitalidade e de solidariedade.

No Brasil, nos jornais mas especialmente na mídias sociais, se  deslanchou acirrada polêmica sobre como tratar os haitianos desesperados e depauperados que estão chegando ao Brasil. O Governador Tião Viana do Acre  mostrou profunda sensibilidade e hospidade acolhendo-os a ponto de, com os meios parcos de um Estado pobre, não dar conta da situação. Teve  que pedir socorro ao Governo Central. Mas foi de forma desavergonhada injuriado por muitos nas redes sociais e no twitter. Aí nos damos conta quão desumanos e sem piedade algumas pessoas podem ser. Nem respeitam a regra de ouro universal de tratar os outros como gostariam de ser tratados. Segundo o notável biólogo chileno Humberto Maturana, tais pessoas retrocedem ao estágio pre-humano dos chimpanzés que são societários mas autoritários e pouco hospitaleiros.

É neste contexto que a virtude da hospitalidade ganha especial relevância. A hospitalidade disse-o o filósofo Kant em seu último livro A Paz Perpétua  (1795): é a primeira virtude de uma república mundial. É um direito e um dever de todos, pois todos somos filhos e filhas da mesma Terra. Temos o direito de circular por ela, de receber e de oferecer hospitalidade.

Um dos mais belos  mitos gregos concerne   à hospitalidade. Dois velhinhos muito pobres, Baucis e Filemon, deram acolhida a Júpiter e a Hermes que se travestiram de andarilhos miseráveis para testar quanta hospitalidade ainda restava sobre a  Terra. Foram repelidos por todos. Mas  foram calorosamente acolhidos pelos bons velhinhos que oferecem comida e a própria cama. Quando as divindades se despiram de seus trapos e mostraram a sua glória, transformaram a choupa num esplênido templo. Os bons velhinhos se prostraram em reverência. As divindades pediram que fizessem um pedido e que seria prontamente atendido. Como se tivessem combinado previamente,  ambos disseram que queriam continuar no templo recebendo os peregrinos e que no final da vida, os dois, depois de tão longo amor, pudessem morrer juntos. E foram atendidos. Anos após, num mesmo momento, Filemon foi transformado num enorme carvalho e Baucis numa frondosa amoreira. Os galhos se entrelaçaram no alto e assim ficaram até os dias de hoje, como se ainda se conta. Disso foi tirada uma lição que passou para todas as tradições: quem acolhe um pobre, hospeda o próprio Deus.

A hospitalidade exige uma boa vontade incondicional para acolher o necessitado e o que se encontra sob grande sofrimento.

Ela exige também escutar atentamente o outro, mais com o coração do que com os ouvidos para captar a sua angústia e as suas expectativas.

Ela exige outrossim uma acolhida generosa, sem preconceitos de cor, de religião e de condição social. Evitar tudo o que o fizer sentir-se um indesejado e um estranho.

Estar aberto ao diálogo sincero para captar sua história de vida, os riscos que passou e como chegou até aqui.

Responsabilizar-se conscientemente junto com outros para que encontre oum lugar onde morar e um trabalho para ganhar sua vida.

A hospitalidade é um dos critérios básicos do humanismo de uma civilização. A ocidental vem marcada  lamentavelmente por preconceitos de larga tradição, por  nacionalismos, pela xenofobia e pelos vários fundamentalismos. Todos estes fecham as portas aos imigrados ao invés de abri-las e, compassivos, compartilhar  de sua dor.

É nesse espírto que a hospitalidade para com nossos irmãos e irmãs haitianos deve ser vivida e testemunhada. Aqui se mostra se somos, como se diz, de fato, um povo de cordialidade e de acolhida aberta a todos; o quanto temos crescido em nossa humanidade e melhorado nossa civilização ainda em formação.

Leonardo Boff ecreveu Hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes, Petrópolis 2005.

52 Comentários leave one →
  1. 04/05/2014 1:10

    Bate uma vergonha muito grande de fazer parte dessa sociedade tão desumana e insensível, são irmãos, pedindo uma pequena chance pra sobreviver a tantas catastrofes, sofrimento…quiz compartilhar com vc… como se sente? tb insensível. , pensando com seu senso prático!!!! ???

  2. 04/05/2014 1:50

    Leonardo a nossa Pátria mãe terra, está sendo testada, Acolher o acolhimento, nos gera a esperança,, que, o sonho humano,está vivo! Os Haitianos, simboliza Cristo, batendo em nossos corações,, dando-nos tempos do abraço irmão,,da vida para a vida,humana, que conclama para o humanismo de nossa casinha interior, onde somente lá encontraremos o verdadeiro Deus, pleno e glorioso para o encontro do nosso abraço mais profundo com nossa alma.e… Abraços e obrigada.

  3. Consuelo Fernanda de Barros Nery. permalink
    04/05/2014 1:57

    Os orientais também não são grandes hospitaleiros.

  4. Francisco permalink
    04/05/2014 3:30

    A Hospitalidade : Dever e Direito de Todos….

  5. Marco Antônio permalink
    04/05/2014 7:45

    Obrigado professor por mais esse texto, a única matéria jornalística que li a respeito informava que o governo do Acre estava encaminhando para São Paulo os haitianos sem deixá-los escolher o destino, até citava um que gostaria de ir para Florianópolis e teve que vir para São Paulo. A matéria dizia também que a Secretária de São Paulo pedia para ser avisada, pois não havia como se preparar para recepcioná-los sem saber que estavam chegando e nem em que quantidade, o que me pareceu prudente, nada falava do destino que estavam tendo e foi isso que me preocupou, pois com certeza se não tivermos esse espirito que o senhor comentou, esse contingente de pessoas podem ser recepcionados por traficantes, organizações criminosas, etc., com certeza nesse contingente de pessoas deve haver bons e maus, mas para identificá-los, não há outra forma a não ser com esse “ouvir com o coração” que mencionou. Abraço.

  6. Alexandra M. permalink
    04/05/2014 7:48

    Lindo!! O egoísmo é uma amarra para o homem. Quando deixarmos de pensar de forma individualista e passarmos a pensar de forma coletiva, seremos mais felizes…

  7. Marlene permalink
    04/05/2014 9:15

    Sejam benvindos, irmãos haitianos! Somos marinheiros embarcados no mesmo navio a navegar por este planeta!

  8. 04/05/2014 9:53

    É difícil achar uma solução, por um lado estão passando fome no Haiti, mas por outro lado, tem mais Boliviano no Brasil que na Bolívia, sem falar nos Chineses, Portugueses, Árabe, … e dezenas de outras nacionalidades que aqui estão chegando para escapar da crise nos seus países, e como fica a nossa família de Brasileiros que sofrem com a a mão de obra muitas vezes bem melhor que a nossa? E as dezenas de outros problemas que já estamos enfrentando. Gostaria de saber sua opinião Frei Leonardo, pois sou muito admirador da sua obra.

  9. simone sarmento lima permalink
    04/05/2014 10:00

    Muito bom! Mas os nossos preconceitos dizem quem somos!!

  10. João Carlos Lima permalink
    04/05/2014 10:03

    O Brasil é terra de todos, um torrão aberto!

  11. osvaldo job permalink
    04/05/2014 10:27

    A nossa sociedade é sim solidária e só não são aquela minoria que tem acesso ao facebook, porque evidentemente serão os filhos da avareza ocupando seu tempo ocioso, tentando espantar os seus medos de aproximação com o mundo real.

  12. 04/05/2014 10:34

    Boff, aqui em Belo Horizonte vejo muitos trabalhando em transportadoras, tive contatos com alguns mas não tive a oportunidade de conversar sobre como chegaram aqui e se estão passando alguma necessidade. Espero que pelo menos eles estejam sendo tratados como os brasileiros que trabalham nestas empresas. As pessoas deveriam enxergar que eles perderam tudo e o que restou foi o que nós podemos oferecer. Infelizmente não vejo muita solidariedade em um país enorme quanto o nosso e me pergunto porque é assim se somos um país “CRISTÃO”. Acho que a hipocrisia ronda nossa sociedade escondida em doutrinas de igrejas que distancia o ser humano do Cristianismo real.

  13. ANNE permalink
    04/05/2014 11:26

    Em uma ação da natureza, qual é nossa primeira preocupação, correr atrás do socorro para os bens materiais ou tentar socorrer as pessoas? Lembrem-se, situações como a que ocorreu ou ocorre ninguém escolhe, a nossa obrigação, não é questionar e sim ajudar pelo menos informar com qualidade e solidariedade.

  14. Carlos G. Oliveira permalink
    04/05/2014 11:32

    Parabéns pelo artigo!! Não só os Hatianos precisam nossa solidariedade e hospitalidade. Os migrantes de nosso país, os que perderam toda sua dignidade em busca de um sonho utópico. Ver Cristo no irmão necessitado. Essa é a chave para nossa prova de fidelidade a Deus.

  15. 04/05/2014 11:36

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Do Leonardo Boff: O drama de centenas e centenas de haitianos, vítimas de devastador terremoto, que, via o Estado do Acre, buscam hospitalidade no Brasil, representa um teste de quanto humana é ou não é a nossa sociedade. Não queremos nos restringir somente aos haitinos, mas aos tantos que são expulsos de suas terras, posseiros, indígenas, quilombolas e outros, pelo avanço do agronegócio, das hidrelétricas ou desalojados como recentemente do prédio da OI no Rio de Janeiro e que tiveram que se refugiar na praça da Catedral da cidade. Organismos da ONU nos dão conta de que existem no mundo alguns milhões de refugiados por guerras, por problemas de fome ou climáticos e outras causas semelhantes. Quais Abraãos andam por ai buscando quem os acolha e terra para trabalhar e viver. E não encontram. E quantas naves são rejeitadas tendo que vagar pelos mares no meio de todo tipo de necessidades e desesperanças.

  16. 04/05/2014 11:43

    Nossa sociedade NÃO é humana. Há discriminação. Há valorização do que nunca deveria ser valorizado. Há a Veja e há a Globo. Não, definitivamente, não somos uma sociedade humana…

  17. 04/05/2014 11:48

    Republicou isso em INTERBLOG.

  18. 04/05/2014 12:22

    Formidável texto a hospitalidade é dever de todos independente da Religião e da fé da cada pessoa.É questão de cidadania,

  19. klaus permalink
    04/05/2014 12:48

    Lindos comentários. E quantos haitianos, concretamente, encontraram a hospitalidade aqui propagada na casa dos autores e das autoras?

  20. Odenir Vinhato permalink
    04/05/2014 13:15

    Magnífica sua observação professor Leonardo Boff!!! Aqui em São Paulo fiquei admirado ao perceber que foram poucas as expressões de preconceito para com os haitianos que por aqui chegam! Fiquei um pouco orgulhoso de nosso povo ao ver na tv a solidariedade de alguns em enviar mantimentos e doações para a igreja do Glicério no centro da capital! Também alguns comerciantes procurando alguns para oferecer emprego com carteira assinada e uma profissão! Pode ser algo extremamente pequeno, más ainda é muito gratificante ver brasileiros com essa cordialidade e senso de cidadania!

  21. 04/05/2014 13:17

    Não acolhemos nem os próprios brasileiros nesta terra de privilégios e exclusão quanto mais os filhos de outras nações.

  22. Abdul Malik Muhammad permalink
    04/05/2014 15:20

    Abdul Muhammad através de sua empresa 1World Sports, encaminhou uma proposta de ajuda bastante interessante à representação do governo do Acre através da Secretaria de Estado Justiça e Direitos Humanos deste Estado da Federação, porém, até o momento sem nenhuma resposta, de como concentrar esforços através de empresas, comunidade muçulmana e Governo, para minimizar ao menos de forma parcial o sofrimento dos irmãos haitianos refugiados nos Acre

    Nosso link para a nossa proposta (abaixo)
    Link For Brazilian Proposal
    https://docs.google.com/document/d/1SRryPHDK67QaLJJOhb-5qAQh39_BWphq75OtKVILPb0/edit

  23. 04/05/2014 16:20

    Leonardo, os haitianos nao sao vitimas apenas do terremoto. Os haitianos sao vitimas de um inimigo muito pior que o terremoto. Logo apos a revoluçao haitiana, a primeira e unica revoluçao bem sucedida liderada por escravos, o Haiti sofreu fortes embargos economicos que tem efeitos nefastos ate hoje. Deixo aqui um link que fala sobre isso.

    Haitianismo: uma maldição na história haitiana?

    http://www.educacional.com.br/reportagens/haiti/parte-03.asp

    • Mac permalink
      14/05/2014 1:35

      Dou muito valor as suas palavras Fabricio ,infelizmente as pessoas que negam* esses fatos juntam-se com as hipócritas para continuarem a denegrir O PRIMEIRO PAIS NEGRO LIVRE . Tu és muito bem informado .

  24. 04/05/2014 18:26

    Que nós enquanto sociedade brasileira, constituída por diferentes etnias, sempre tenhamos o cuidado de não reproduzir em tempos atuais, regimes escravocratas, como no passado. Onde seres humanos foram escravizados tirando -lhes o direito a vida em plenitude! Essa herança maldita continua repercutindo negativamente na vida das etnias que historicamente forma e continuam sendo vítima do sistema constituído pelo racismo! onde clamores por justiça, continuam se ecoando de várias formas, inclusive na perspectiva da hospitalidade! Para o outro o irmão continua sendo você!

  25. Julio permalink
    04/05/2014 19:07

    Leonardo: Soldados ucranianos são preparados para atirar em mulheres para reprimir disturbios no leste do país. Ditadura pró-washington aumenta nivel da repressão ao povo, usando o exército.

    http://actualidad.rt.com/actualidad/view/127160-militares-ucranianos-preparacion-disparo-mujer

  26. 04/05/2014 20:37

    Republicou isso em luveredas.

  27. silvio orti permalink
    04/05/2014 21:20

    Segundo a imprensa o governo do Acre auxiliou a migração dos haitianos para São Paulo sem ao menos comunicar, causando transtorno sociais aos mesmos. Quanto ao governo federal nada melhor que sua pessoa para opinar pois fez parte dele.

  28. 04/05/2014 23:44

    Republicou isso em DVH Advogadose comentado:
    E AGORA?

  29. 05/05/2014 10:53

    O povo brasileiro é com certeza o mais hospitaleiro, disso não há dúvidas, assim como não há dúvidas sobre a solidariedade de nosso povo, seja com ele próprio, ou com as pessoas vítimas de desastres pelo mundo. Só que a questão aqui não é só sobre hospitalidade e solidariedade. A questão é bem mais política. O que o governo está fazendo é usar isso como desculpa para gastos de grande monta, enquanto que nossa realidade é bem pior, basta olhar para nosso sistema de saúde, educação e segurança. Nossos governantes não dão conta de sanar as necessidades mais primárias do próprio povo e querem se passar por solidários e humanistas quando na verdade não são nem humanos com o próprio povo que os colocou no poder.
    Estão usando os haitianos assim como usam o povo sofrido do nordeste brasileiro para angariar votos e dinheiro, é só isso que eles estão fazendo… Triste realidade mas assim é… Haitianos seja Bem vindos, vocês não são culpados pelos desmandos dos nossos governantes, e tenham toda nossa solidariedade…
    Governantes, acordem… O nosso povo também precisa de Ajuda….

  30. mundodepalavras permalink
    05/05/2014 11:31

    Hebreus: 13. 2. Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, sem o saberem, hospedaram anjos.

  31. 05/05/2014 15:25

    Estive morando em Manaus no período em que vários hatianos chegaram,o governo do Amazonas na época os colocou em alojamentos e os direcionou a empregos e todos os meses vinham mais de 100 imigrantes,não entendo o porque de tanto barrismo no sul do Brasil.
    Chega basta,o Brasil é o melhor país do mundo para acolher não existe outro igual.O Brasil é enorme e cheio de amor para dar vender,exportar,não é a toa que se diz que Deus é brasileiro,a compaixão é nosso DNA.
    Estou morando aqui no Líbano e tenho visto o contrário de como os libaneses tratam os brasileiros por aqui ignorância total,muito diferente da receptividade que o povo brasileiro vem tido a mais de um século da imigração libanesa.
    Brasil é diferente por sua hospitalidade então que assim seja!

  32. 05/05/2014 21:17

    O RESGATE DA UTOPIA
    Peço permissão ao Leonardo Boff para expor algo diferente do texto dele.
    Gostaria de informar que o livro do Clodovis Boff “O Livro do Sentido – Crise e Busca de Sentido”, Tomo I de sua trilogia, está sendo muito vendido aqui em fortaleza-Ce. Eu lí,, é um excelente livro. Para Clodovis Boff tudo o que está acontecendo no nosso mundo é devido a crise de sentido que está desorientando toda a nossa humanidade. Até a violência é decorrente da nossa crise de sentido e, consequentemente, de nosso niilismo.
    Combinando com o título acima, a nossa utopia será o Comunismo. Não falamos em comunismo à ex-URSS, à China e à Cuba. Estes “socialismo” são apenas modernizações do capitalismo; capitalismo de Estado etc. Falo de um comunismo diferente de todos os demais. Recomeçaremos com uma Utopia Comunista jamais pensada, com exceção dos Grundrisse de Karl Marx, 1857-8.
    A nossa U-topia (o não-lugar) que poderá ser preenchido. Parte do pressuposto que toda a Economia Clássica já está em seu estertor, devido à velocidade das máquinas que a revolução eletrônica nos propiciou.
    A sociedade do trabalho chegou ao seu fim; a produção chegará ao valor zero; e o dinheiro, como a manifestação da entidade social, ou seja, do trabalho abstrato e valor, perdeu seu valor.
    Na antiguidade greco-romana, o trabalho não era tirano como agora o é.Só após a primeira revolução industrial que o trabalho ficou imperante, centralizador das nossas vidas etc.Trabalhava-se pouco e o vazio era preenchido pelos estudos, criatividades, artes, contemplação, amor, lazer etc.
    Hoje a entidade social, isto é, o trabalho abstrato e valor, já chegaram ao seu fim histórico-social. Esta sociedade do trabalho que chegou ao seu fim, permitiu-se pensar numa democracia direta, participativa. Não queremos mais a democracia representativa que ora afunda-se no abismo.
    Pensaremos num comunismo digital, cibernético. O Estado do futuro será tão distinto que parecerá que não existe Estado. Mas estará mais presente do que nunca, pela normatividade de cidadão para cada cidadão. O Estado será virtual, descentralizado, subjetivado ( o Estado seremos todos nós), administrado por páginas eletrônica, segundo Enrique Dussel – 20 teses de Política.
    A nova práxis social virá pela redes sociais., cuja autonomia, negará toda e qualquer instituição burocrata e fetichista. Porque estas instituições propriciam o fetiche do poder.
    “Ocuppy Wall Sreet” e movimento de ruas feito aqui no Brasil, na Copa das Confederações, em 2013, nos mostrou que é possível chegarmos a este objetivo.

    Odécio Mendes Rocha.

    • 06/05/2014 23:07

      Odecio
      Creio que morreram as grandes utopias. Mas não a utopia que pertence à essencia do humano. Na proxima semana publicarei um artigo sobre as utopias minimalistas mas viáveis que precismos para dar sentido a vida. Creio que meu irmão é rigoroso demais para com a modernidade, como se ela tivesse perdido a transcendência. Transcendência que se perde nunca foi transcendência. Ela pertence ao nosso ser mais essencial por isso está sempre presente. Devemos procurar os deslocamentos da transcendência. E nisso creio que o livro dele é limitado, embora extremamente bem escrito. Mas com categorias apenas aristotélicas e tomistas (no fundo, com a neo-escolástica lovaniense) não damos conta do fenômeno tão complexo que é a modernidade.
      abraço
      lboff

      • 08/05/2014 22:30

        Leonardo Boff
        Você esteve aqui em Fortaleza-Ce., Dando uma palestra sobre “Utopia”. Pena que eu não soube. Gostaria de dá uma forte abraço e mostrar-lhe como você me conhece há tempo.
        A primeira vez que lhe conhecí você não era famoso como agora. Tinha 46 anos, imberbe e estava acompanhado com Rose Marie Muraro. Ministrava uma palestra no Colégio Marista Cearense. Ainda não havia caído a ditadura militar. Parece-me – se a minha memória não falha – que estava lançando “O Rosto Materno de Deus”. A partir daí fiquei seu fã, até hoje.
        O que falou sobre o fim das utopias, isto é coisa de pós-modernos que falam, como disse J.- F. Lyotar, em seu livro “A Condição Pós-Moderna” que as metanarrativas haviam chegado ao seu fim, principalmente o marxismo.
        Não teremos outra alternativa, senão revisitar a utopia marxiana de uma outra forma. Num livro volumoso sobre “A ÉTICA DA LIBERTAÇÃO” do filósofo Enrique Dussel, uma frase ficou gravada na minha cabeça, quando nos diz: “Os frutos de Marx ainda estarão no futuro”…depois de dezesseis anos de reflexões e leituras cheguei à conclusão de que Dussel tinha razão.
        Passaremos da Economia Clássica (capitalismo e socialismo real) para um comunismo cibernético que está sendo gestado através das redes sociais.
        Precisamos de urgência, pois toda a Economia mundial está fictícia, ancorada apenas no mercado financeiro internacional. Hoje, as compras e vendas dos países centrais, sobrevivem por intermédio da economia das bolhas, sem mais nenhuma substância. O próximo crash será tão violento como o de 2008, em Wall Street, com a crise da dívida pública em gestação e ainda incubada.
        Um forte abraço, amigo
        Odécio Mendes Rocha

      • 10/05/2014 17:21

        Odecio
        Hoje prefiro acreditar que somente a natureza vai derrotar o capitalismo. Este possui tantas manhas e sempre consegue se refazer. Penso que agora ele encostou nos limites da Terra. As consequências deste impasse vai atingir infelizmente a todos e penso que a nossa geração verá ainda a derrocada deste sistema anti-vida.
        lboff

  33. 06/05/2014 9:00

    onde está meu artigo?

  34. 06/05/2014 13:31

    Concordo com comentarios acima, nossos Países vizinhos Bolívia e Peru não são solidários para com os Haitianos, Brasiléia virou um caos total. A quatro anos recebemos Haitianos, como foi mencionado o Acre é um Estado pobre mais solidário sim, o nosso Governo é muito solidário para com todos.
    .

  35. 06/05/2014 20:12

    onde está o meu texto?

  36. 10/05/2014 19:50

    Leonardo Boff
    Lí com muita tristeza sua última reflexão. Então você espera que o capitalismo poderá se renovar?…
    Acredito, meu grande amigo, que o pensamento ecológico veio a preencher o vácuo que o Liberalismo e socialismo real deixaram após a queda do Leste-europeu. A proposta da Ecologia (cuidar da casa) tem como desígnio pensarmos como uma montanha..
    O pensamento ecológico era o único que poderia atingir a Política. Por isso tomou vulto.
    Leia o meu artigo “O ANTI-HUMANISMO DA ECOLOGIA PROFUNDA”, publicada em vários jornais locais, aqui de Fortaleza-Ce.
    Acredito na crise ecológica, mas com muita reserva. Porque as ciências não tem mais certezas de nada. Tudo o que você escreveu durante mais de uma dezena de anos, poderá ou não acontecer.
    Um abraço
    Odécio Mendes Rocha

    • 11/05/2014 10:32

      Odecio
      Acho estranho que a ideia da hospitalidade que vc associa ao capitalismo lhe tenha causado estranheza. Isso vai contra toda a tradição humanistica da humanidade.
      lboff

  37. 10/05/2014 20:02

    O ANTI-HUMANISMO DA ECOLOGIA PROFUNDA
    Quando o cientista britânico James Lovelock, em seu livro Gaia, afirmou que o nosso planeta Terra é um superoganismo vivo, decretou o fim do antropocentrismo (o homem como centro do universo).

    Aldo Leopold é considerado o pai de Ecologia profunda. Morto em 1948, deixou vários livros, entre eles L”éthique de la Terre, sedimentando as bases para a desconstrução do homem.

    A mensagem hermenêutica desta nova Cosmologia é retirar, expulsar, execrar o homem como o centro do universo e substituí-lo pelo Cosmos, pela Natureza etc.

    O homem, senhor de seu destino, sujeito de sua História, chegou ao seu fim. Chegaram à conclusão que o homem é muito pernicioso, depredador voraz da Natureza, por isso é convidado a retirar-se do mundo como agente ativo.

    A grande pretensão da Ecologia profunda é formular um novo conhecimento e uma nova práxis – uma nova Epistemologia, uma nova Ética, uma nova Cosmologia a partir da Natureza, do Cosmos. Pretendem formular um estatuto jurídico para as plantas, vales, montanhas, micro-organismo, animais irracionais etc., querem abandonar tudo aquilo que fale de antropocentrismo. O homem, daqui para diante, apenas co-habita com animais irracionais, plantas, micro-organismos etc.

    A nova Legislação priorizará a Natureza de um modo geral, deixando o homem apenas como agente passivo, sujeito às leis
    naturais. Querem parar com o projeto antropocêntrico, interromper, transcender as conquistas do homem, enquanto sujeito de sua História.

    A base da desconstrução do homem, segundo a Ecologia profunda, reside no terrorismo intelectual, como: Ondas gigantes, degelo polar, chuvas ácidas que em breve matarão todas as plantações e os animais que as comem, enfim, haverá uma escassez total de alimentos sobre o nosso planeta Terra.

    Essa nova cosmovisão tomou vulto após a queda do Leste-europeu, com o fim da política, o desencanto das utopias, fim da Ética. fragmentação dos saberes etc.

    Não sei se ainda é válido pensar desta maneira, pois já temos uma Utopia eletrônica, com promessas esperançosas e muitas luzes novas que já se abriram no novo horizonte para toda a humanidade …

    Odécio Mendes Rocha – Philosopher
    http://www.pt.netlog.com/odeciomendesrocha
    My virtual book:
    ” THE NEW ADDRESS OF IDEAS – The Rescue of Utopia”
    or www. mendesrochalenitivo.blogspot.com

    ” THE NEW ADDRESS OF IDEAS – The Rescue of Utopia”

    10 Maio 2010

    • 11/05/2014 10:28

      Odecio
      A ecologia profunda não tem nada a ver com o anti-humanismo. Leia com mais atenção o seu fundador Arne Naes que procurou completar o discurso e ecologico geral com a dimensão do profundo, espiritual. O que essa tendência da ecologia faz não é deconstruir o homem mas tirar-lhe a hybris de se achar senhor e dono da natureza e não sentir-se parte dela e de um Todo maior.
      lboff

      • 12/05/2014 11:43

        Leonardo Boff
        Se você acha que o capitalismo irá renovar-se, é uma pena. Um grande intelectual como você ainda acreditar que o capitalismo não acabou, está difícil de adotar o pensamento complexo (“complexus”: tecer juntos) de Edgar Morin. Já publiquei vários artigos sobre o fim do capitalismo. Não quero mais repetir isto.
        odécio

  38. 10/05/2014 21:02

    onde estão meus textos?

  39. 14/05/2014 8:52

    Comentário da professora Letícia Mamed sobre o artigo “A hospitalidade para com os haitianos: quão humana é a nossa sociedade?”, de autoria do teólogo Leonardo Boff:

    – Ao afirmar que o Acre recebeu haitianos com “sensibilidade” e “hospitalidade”, Leonardo Boff apenas revela que nunca visitou nenhum dos sete abrigos de imigrantes existentes no Estado durante esses três anos e meio da passagem deles pela região. E mais: que nunca conversou com a comunidade de Brasiléia e Epitaciolândia para conhecer a percepção local sobre tudo isso. É desse modo que o Brasil segue afirmando no plano meramente teórico ser um país “sem preconceitos”. Na balança política, a “sensibilidade e hospitalidade acreana para com os haitianos” do teólogo é tão vazia quanto o “somos todos macacos” do jogador de futebol. Clique aqui e lei o artigo.

  40. 14/05/2014 8:53

    PS: a Professora Letícia Mamed é do Acre e denuncia há anos o drama dos haitianos e o descaso dos governos do PT, no Estado e Federal.

  41. 20/05/2014 11:31

    Oi Boff… fico feliz em ver algo seu escrito sobre o Haiti. Eu estou fazendo uma experiência de conviver uns dias com os camponeses/as Haitianos/as. Tenho presenciado como esse povo é forte e aos poucos se refazem e reinventam… Agora, queria só dar uma ideia sobre como temos nos reportado ao Haiti nos últimos anos – todas e qualquer justificativa, o primeiro fato vem o 12 de janeiro de 2010, o terremoto. Na verdade, isso tem sido uma ótima justificativa para invasão internacional no Haiti, com pouca exceções. Digo isso, por que as vezes corremos o risco de justificar a miséria e a desgraça apenas pelo viés da catástrofe “natural” que foi o terremoto ou os furacões, etc. que tem em todo Caribe e deixemos em alguns momentos de refletir sobre o processo histórico do causo político que enfrenta o povo haitiano. Por ter conquistado e ser a primeira república negra do mundo, os estados brancos que controlam a economia capitalista atualmente, também jamais querem que o Haiti seja um País que avance e portanto fazem de tudo para impedir a liberdade do povo. Por isso mesmo aqui tem a MISNUTAH que é justificada como força de paz, mas serve na verdade para calar a boca de manifestantes que vão as ruas para lutar pelas reformas justas e necessárias para o País. Por isso, acho que deveremos sim acolher e da melhor forma os haitianos/as no Brasil, mas temos de refletir com o governo brasileiro a forma de relação que temos com o povo haitiano aqui mesmo. E por que e para que serve o exercito brasileiro aqui??? Num poderíamos copiar CUBA que em vez de soldados mandou uma equipe de 5 mil médicos que vão nos rincões das montanhas para dialogar com as pessoas… Fica a dica e a reflexão!

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