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Nossos pressupostos equivocados nos podem liquidar

30/05/2014

Inegavelmente vivemos uma crise dos fundamentos que sustentam nossa forma de habitar e organizar o planeta Terra e de tratar os bens e serviços da natureza. Na perspectiva atual eles são totalmente equivocados, perigosos e ameaçadores do sistema-vida e do sistema-Terra. Temos que ir além.
Dois pais fundadores de nosso modo de ver o mundo, René Descartes(1596-1650) e Francis Bacon(1561-1626) são seus principais formuladores. Viam a matéria como algo totalmente passivo e inerte. A mente existia exclusivamente nos seres humanos. Estes podiam sentir e pensar enquanto os demais animais e seres agiam como máquinas, destituídas de qualquer subjetividade e propósito.

Logicamente, essa compreensão criou a ocasião para que se tratasse a Terra, a natureza e os seres vivos como coisas que podíamos dispor à bel-prazer. Na base do processo industrialista selvagem está esta compreensão que persiste ainda nos dias de hoje, mesmo dentro das universidades, ditas progressistas, mas reféns no velho paradigma.

As coisas, no entanto, não são bem assim. Tudo mudou quando A. Eistein mostrou que matéria é um campo densíssimo de interações; mais ainda, ela, de fato nem existe no sentido comum da palavra: é energia altamente condensada; basta um centrímetro cúbico de matéria, como ouvi ainda em seu último semestre de aulas na Universidade de Munique em 1967 Werner Heisenberg, um dos fundadores da física das partículas subatômicas, a mecânica quântica, dizer que se esse pouco de matéria fosse trasnsformado em pura energia poderia desestabilizar todo o nosso sistema solar.
Em 1924 Edwin Hubble (1889-1953) com seu telescópio no Monte Wilson no sul da Califórnia, descobriu que não temos apenas a nossa galáxia, a Via Láctea, mas centenas (hoje cem bilhões) delas. Notou, curiosamente, que elas estão se expandindo e se afastanto duma das outras com velocidades inimagináveis. Tal verificação levou os cientistas a imaginar que o universo observável era muito menor, um pontozinho ínfimo que depois se inflacionou e explodiu dando origem ao universo em expansão. Um eco ínfimo desta explosão pode ser ainda identificado permitindo a datação do evento, ocorrido há 13,7 bilhões de anos.

Mas uma das maiores contribuições que vem demantelando o velho olhar sobre a Terra e a natureza nos vem do prêmio Nobel de química o russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003). Ele deixou para trás a concepção da matéria como inerte e passiva e demonstrou, experimentalmente, que elementos químicos, colocados sob certas condições, podem organizar-se a si próprios, sob complexos padrões que requerem a coordenação de trilhões de moléculas. Elas não precisam de instruções, nem os seres humanos entram em sua organização. Sequer existem códigos genéticos que guiem suas ações. A dinâmica de sua auto-organização é intrínseca, como aquela do universo e articula todas as interações.

O universo é penetrado por um dinamismo auto-criativo e auto-organizativo que estrutura as galáxias, as estrelas e os planetas. De tempos em tempos, a partir da Energia de Fundo, ocorrem emergências de novas complexidades que fazem aparecer, por exemplo, a vida e a vida consciente e humana.

Toda essa dinâmica cósmica tem seus tempos próprios, tempo das galáxias, das estrelas, da Terra, dos distintos ecossistemas com seus representantes, cada um também com o seu próprio tempo, das flores, das borboletas etc. Especialmente os orgnismos vivos têm seus tempos biológicos próprios, um para os micro-organismos, outro para as florestas, outro para os animais, outro para os oceanos, por fim, outro para cada ser humano. Completado seu tempo, ele parte.

Que fizemos nós modernamente para gestar a crise atual? Inventamos o tempo mecânico e sempre igual dos relógios. Ele comanda a vida e todo o processo produtivo, não tomando em conta os demais tempos. Submete o tempo da natureza ao tempo tecnológico (certa árvore demora 40 anos para crescer, e a motoserra a derruba em dois minutos). Não alimentamos nenhum respeito para os tempos de cada coisa. Assim não lhe damos tempo de se refazer de nossas devastações: poluimos os ares, envenenamos os solos e quimicalizamos quase todos os nossos alimentos. A máquica vale mais que o ser humano.

Ao não concedermos um sábado, biblicamente falando, para a Terra descansar, a extenuamos, a mutilamos e a deixamos adoecer quase mortalmente, destruindo as condições de nosssa própria subsistência.

Neste momento estamos vivendo num tempo em que a própria Terra está tomando consciência de sua enfermidade. O aquecimento global sinaliza que ela vai entrar num outro tempo. Se continuarmos a feri-la e não a ajudarmos a se estabilizar num outro tempo, podemos começar a contar as décadas que inaugurarão a tribulação da desolação. Por causa de nossos equívocos não conscientizados e formulados há séculos, não os corrigimos e que  teimosamente os reafirmamos.

Com Mark Hathaway escrevi O Tao da libertação, premiado nos USA em 2010 com a medalha de ouro em nova ciência e cosmologia.

17 Comentários leave one →
  1. 30/05/2014 17:01

    Estimado Boff, parece-me que a imediatidade que o ser humano deseja é também parte do universo. Será que esta imediatidade não é a contribuição que temos de dar para que o próprio planeta nos expurgue? Não será chegado o fim do tempo para a raça humana? A expansão caótica universal não precisa da vida humana. Temos o privilégio de sermos formados do mesmo material das estrelas e termos consciência disso. Mas mesmo assim não nos damos conta da maravilha que somos. Da maravilha que é o universo.
    Nossa imediatidade é uma miopia semeada pela ganancia que alimentamos. Nossa fome é insaciável, o vazio existencial humano não se preenche com a destruição da Terra.
    Mas então o que fazer?
    Viajar até Marte? Populá-lo? Destruí-lo?
    Me parece que apenas a reflexão, o autoconhecimento, o voltar-se ao humano é capaz de saciar a fome do vazio existencial humano. Apenas o diálogo é capaz de fazer com que nos percebamos irmãos nesta busca que não tem fim.

    Fraterno abraço.

    Artur

  2. 30/05/2014 17:26

    Republicou isso em luveredas.

  3. márcia Ferreira Machado. permalink
    30/05/2014 19:34

    Adorei o texto, como a todos os outros. É muito importante, que os intelectuais do nosso tempo não fiquem apenas nos livros, nas livrarias, no comércio. Que saiam, mas entrem nas nossas vidas também e tragam para nós, para o nosso tempo todos os seus conhecimentos e façam do nosso presente e do nosso futuro e seu quintal. Quintal de ideias construtivas para a compreensão e vivência de uma vida melhor..

    • márcia Ferreira Machado. permalink
      30/05/2014 19:40

      Importante também lembrar, que o nosso sistema político, arrancou das páginas dos livros as mais importantes informação para a nossa própria construção de conhecimento. Ficamos, então, no vácuo. “Dependendo”, em termos, das boas intenções dos bons intelectuais.

  4. 30/05/2014 21:31

    Republicou isso em wanderleifgomes.

  5. 31/05/2014 10:56

    Dolorosa verdade!

  6. 31/05/2014 13:15

    O respeito pela Natureza deve ser iniciado antes de conceber um ser humano…Amor ao próximo, respeito a tudo que existe ao nosso redor…No mundo atual parece que algumas pessoas perderam esses valores…

  7. Kay Limak permalink
    31/05/2014 17:36

    Acompanho seu trabalho há pouco tempo, cerca de meio ano e desde então fiquei quase que iluminado pelos seus pensamentos claros sobre a lógica por detrás da «grande máquina». Constato decerto uma diferença gigante entre as principais ideias que fundamentam a «grande máquina» e a lógica da «mãe natureza». De uma grande mente esperam-se sempre produções brilhantes, por isso honestamente digo, gostei muito da sua reflexão e obrigado.

  8. 01/06/2014 4:17

    Caro Leonardo Boff

    Já tinha te falado sobre o pensamento cartesiano a algum tempo. Não somos máquinas, somos seres vivos. E como Sartre disse certa vez o CANCRO da Terra é o homem, que quer se colocar como maior obra da criação, e me desculpe Leonardo só fez merda até agora. Te alertei sobre Gorbachev, desmantelou um pais, conscientemente, e criou uma situação de unilaterilarismo, sim temos hoje um mundo unilateral, do qual se sairmos vivos será por sorte (ou azar) da Terra. OTAN, UE, EUA, a oriental-fobia, o clube de Bildeberg e outras tralhas mais estão levando a humanidade à beira da extinção. Somos um fracasso, continuo a dizer incapazes de resolver qualquer diferença sem ser através do conflito. Veja o caso dos EUA, de 1890 até hoje participou direta ou indiretamente de 201 (duzentos e um) conflitos armados. E por falar no famigerado clube de Bildeberg, saiba que foi fundado por um judeu, basta pesquisar.
    Não precisamos ir muito longe, veja o candidato do PSDB, aqui no Brasil, flagrado trebado no Rio de Janeiro, distribuindo notas de R$100,00 num bar (e não é a primeira vez que isto acontece). Sempre viveu nas costas e às custas do avô (que também não era flor que se cheira-se). Veja SP com o Sr. Alckimim, exemplo lapidar de desprezo pelo estado, e ainda tem o desplante de colocar nas mídias fajutas do Brasil (Band, Globo e outras mais) propaganda em que afirma que os estado de SP é o único estado da federação onde “não há violência”.
    Tome o caso do tal do ministro do STF Sr. Joaquim Barbosa, agora em palpos de aranha com o dossiê em mãos da justiça italiana, com em torno de 1000 páginas em que é demonstrada toda a manipulação com fins unicamente políticos. Agora este senhor se aposenta… ou melhor se retira da vida pública para a “privada”.
    Repare os meios midiáticos, omitem deliberadamente o programa mais médicos, quando falam é para dizer que um médico cubano assediou uma paciente. Enquanto isso se formos analisar Petrópolis, por exemplo, constataremos que é uma cidade com um dos maiores índices de médicos por pacientes (é semelhante ao caso das sapatarias em Petrópolis, basta andar pela rua do imperador e constatar, parece até que o petropolitano deve ser centopéia, é para chorar e não rir.
    Veja o caso exemplar da parente da Nara Leão que diz que se sentiu mal quando viu uma empregada estar no mesmo lugar que ela mora.
    A humanidade está sim, doente, com a corja que se autodenomina “elite”, que para mim são no mínimo sociopatas e em vários casos psicopatas.
    Não é a Terra que está doente, somos nós, e qualquer dias destes Ela dará uma sacudidela e desapareceremos, num piscar de olhos. Continuo a dizer, até os dinossauros foram mais bem sucedidos, sobreviveram durante 254 milhões de anos, nós não temos mais do que meros 3 milhões de anos de existência.

    Abraços

    Jose Severiano

  9. 01/06/2014 5:49

    Prezado Leonardo,
    tenho notado que o seu diálogo com relação aos temas contemporâneos está quase perfeito. O que falta é justamente não conceituar o oculto, místico e irreal. É uma mudança de paradigma exemplar, pois orientará as pessoas a uma compreensão mais aprimorada de como a vida é regida e orquestrada.
    Por mais que a nossa ciência avance no citado tempo, o que estamos descobrindo é a pura verdade sobre a própria construção do cosmos, e nela não há nada que fuja às nossas interfaces. Os aparelhos tecnológicos atuais são nossos instrumentos que nos permitem ir mais longe e observar a real constituição da matéria, energia e ver como a vida se desenvolve.
    Os novos radiotelescópios instalados no deserto do Atacama do Chile (projeto Alma) estão proporcionando a detecção de moléculas de DNA ao redor dos exoplanetas (planetas extrassolares). Estamos quase detectando vida em outros planetas e, quem sabe, até vida inteligente.
    Em minha opinião o que falta para o ser humano é o reconhecimento de que esteve durante milênios dormindo um longínquo sono do faz de conta. Estivemos mergulhados durante milênios em uma ilusão de: vida após a morte, deuses, espíritos, fantasmas, etc. Uma completa absurdidade sem precedentes. São essas crenças inúteis que precisam ser esquecidas para dar lugar ao verdadeiro cosmos que somente pode ser compreendido através de muita tecnologia e esforço consciente.
    Hoje a nossa própria existência só é possível graças às tecnologias, sem elas deixaremos de existir rapidamente. Os milhões de vírus remanescentes da época dos dinossauros ainda podem nos aniquilar a qualquer momento caso não tenhamos os antídotos que somente as pesquisas científicas podem fazer.
    O ser humano precisa urgente acordar do sono dogmático e saber que embaixo da cama não existe nenhum bicho papão; ou melhor, se está com medo do escuro acenda a luz!
    Precisamos urgente parar de inventar um Deus que não existe e focar a nossa atenção, comunicação e tecnologias nos próximos avanços que garantam a subsistência tanto da terra, dos seres em convivência mútua e, principalmente nós mesmos. Abs.

    • 04/06/2014 0:21

      Só que no fim de tudo todos morrremos. O que faremos com a morte? O que esperar alem dela? voltar ao pó cosmico?
      Seria bom vc ler cosmologos modernos como B.Swimme eoutros que pensam bem diferentemente.
      lboff

      • 04/06/2014 2:21

        Prezado Leonardo,
        até o presente momento não pudemos detectar algo que subsistisse à morte. Viemos do pó estelar e voltaremos ao pó cósmico. É uma troca justa, não há qualquer razão para esperar algo posterior, a nossa vida é uma só, pelo menos até o presente momento ninguém voltou dos mortos para nos dizer se há algo a mais lá fora.
        Vejo a morte como um desligamento total da consciência e caso essa consciência não possa ser ligada novamente, é porque morremos de fato.
        Farei uma leitura dos textos de Brian Thomas Swimme e depois voltarei aqui para dialogarmos…
        E a coisa mais importante do universo ainda é estar vivo e consciente. Abs.

  10. André Lacerda permalink
    02/06/2014 15:38

    Ainda que frequentemente sejam feitas críticas ao cartesianismo – principalmente no que diz respeito ao comportamento humano frente à natureza – e imaginando que nos séculos XVI e XVII ainda se respirava com euforia o ar recém-libertado das sacro-masmorras medievais, gosto de pensar que Descartes foi um gênio. Afinal, foi ele quem, retomando as pegadas de Sócrates, propõe a dúvida como princípio do método, ponderando, assim, sobre todas as certezas do homem frente coisas e acontecimentos. E, além do mais, no contexto de sua obra, o “penso, logo existo” tende a sugerir muito mais humildade frente ao desconhecido do que qualquer atitude prepotente ou de soberba. Com efeito, penso que, precisamente, foi naquela longa noite medieval que estava sendo gestado, pouco a pouco, e de maneira indireta, o atual pensamento ocidental utilitarista e predatório, e não, propriamente nos séculos seguintes. Pois tal qual Nietzsche anunciou, foi a igreja medieval quem mais “matou” o Deus nos homens.

  11. 05/06/2014 20:14

    Um artigo para se pensar, e repensar, traz grande e vital sabedoria !

    Publicado também, com preciosa foto de Santino Frezza, em:

    http://cantinholiterariososriosdobrasil.wordpress.com/2014/06/05/nossos-pressupostos-equivocados-nos-podem-liquidar-leonardo-boff-foto-de-santino-frezza/

  12. fatima goveia permalink
    06/07/2014 8:41

    Que possamos dar expansão ao AMOR SENSIVEL e assim conviver bem no universo dando a ele o que temos de bom e recebendo o que ele possui de extraordinário .

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  1. Nossos pressupostos equivocados nos podem liquidar – Leonardo Boff; foto de Santino Frezza | Cantinho Literário SOS Rios do Brasil

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