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Cada um tem seu tempo e depois entra em silêncio

06/06/2014

Há um livro curioso do Primeiro Testamento, o Eclesiastes (em hebraico Coélet), que não menciona a eleição do povo de Deus, nem a aliança divina, sequer a relação pessoal com Deus. Representa a fé judaica inculturada na visão grega da vida. Possui um olhar agudo sobre a realidade assim como se apresenta e nutre a reverência para com todos os seres. Há uma passagem assáz conhecida que fala do tempo: “há tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de colher, tempo de rir e tempo de chorar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de guerra e tempo de paz” e por aí vai (c. 3,2-8).

Há muitas formas de tempo. Precisamos nos libertar de um tipo de tempo dominante, aquele dos relógios. Todos somos reféns deste tipo de tempo mecânico. Conhecem-se relógios – o primeiro foi o relógio do sol – já há 16 séculos. Supõe-se que foram os asiáticos que, por primeiro, inventram o relógio. Em 725 da nossa era, um monge budista maquinou um relógio mecânico que à base de baldes de água fazia uma rotação completa em 24 horas. No Ocidente atribui-se a outro monge, um beneditino, depois Papa Silvestre II (950-1003) a invenção do relógio mecânico atual.

Hoje ninguém anda sem algum tipo de relógio mecânico que mede o tempo a partir das rotações da Terra ao redor do Sol. Mas essa visão mecânica do tempo do relógio, estreitou nossa percepção dos muitos tempos que existem, como referidos pelo Eclesiastes acima. Foram os cosmólogos modernos que nos despertaram para os vários tempos. Tudo no processo da evolução possui o seu timing. Não respeitando certo timing, tudo muda e nós mesmos não estaríamos aqui para falar do tempo.

Assim, por exemplo, imediatamente após a primeira singularidade, o big bang, a explosão imensa (mas silenciosa pois não havia ainda o espaço para recolher o estrondo) ocorreu a primeira expressão do tempo. Se a força gravitacional aquela que faz expandir e ao mesmo tempo segurar as energias e as partículas originárias (a mais importante das quatro existentes) fosse por milionésimos de segundo mais forte do que se apresentou, retrairia tudo para si e causaria explosãoes sobre explosões e tornaria o universo impossível. Se fosse, por milionéssima parte de segundo, um pouco mais forte, os gazes se expandiriam de tal forma que não ocasionariam a sua condensação e não teriam surgido as estrelas, os elementos todos que compõem o universo, nem haveria o Sol, Terra e a nossa existência humana.

Mas ocorreu aquele tempo necessário para o equilíbrio entre a expansão e a contenção que acabou abrindo um tempo para surgir tudo o que veio posteriormente. Houve um exato tempo em que se formaram as grandes estrelas vermelhas dentro das quais se forjaram todos os tijolinhos que compõem todos os seres. Se esse tempo exato fosse disperdiçado, nada mais teria acontencido.

Houve um tempo exatíssimo em que naquele dado momento deveriam surgir as galáxias. Se tivesse faltado aquele tempo, não surgiriam as cem bihões de galáxias, as bilhões e bilhões de estrelas, em seguida os planetas como a Terra. Num exatíssimo momento de alta complexidade de sua evolução, irrompeu a vida. Perdido esse tempo, a vida não estaria aqui irradiando. Tudo apontava para a irrupção da vida lá na frente. O celebrado físico Freeman Dayson diz:”Quanto mais examino o universo e estudo os detalhes de sua arquitetura, mais vejo a evidência de que o universo de alguma forma pressentia que nós estávamos a caminho”.

Há pois tempos e tempos e não apenas o tempo escravizante e mecânico do relógio. A Igreja guardou o sentido da diversidade dos tempos. Para cada tempo do ano, se Natal, se Quaresma ou Páscoa há a sua cor específica.

Geralmente vivemos os tempos das quatro estações com as transformações que ocorrem na natureza. Na nossa infância interiorana os tempos eram bem definidos: janeiro-abril: tempo das uvas, dos figos, das melancias,dos melões. Tempo de maio, o plantio do trigo e outubro-novembro de sua colheita.

Nós crianças esperávamos com ansiedade dois tempos sociais, nos quais a vila toda se reunia para uma grande confraternização: a festa da “polenta e osei”(polenta e passarinhos). Como as matas eram virgens, abundava todo tipo de pássaros que eram caçados especialmente para a festa. A outra era a “buchada” comida com pão e vinho, em longas mesas, seguida de cucas e geléias.

Estes tempos e outros conferiam distintos sentidos para a vida. Havia a espera do tempo, sua vivência e sua recordação.

O universo inteiro tem o seu tempo que se concretiza em dois movimentos que se dão também em nós: nossos pulmões e nossos corações se expandem e se contraem. O mesmo faz o universo mediante a gravidade: ao mesmo tempo que se dilata ele é segurado, mantendo um equilíbrio sutil que faz tudo funcionar harmoniosamente. Quando perde esse equilíbrio é sinal que prepara um salto para frente e para cima rumo a uma nova ordem que também se exapande e se contrái.

Cada um de nós tem seu tempo biológico, determinado não pelo relógio mecânico, mas pelo equilíbrio de nossas energias. Quando chegam ao seu climax que pode ser com 10, 15, 50, 90 anos, se fecha o nosso ciclo e entramos no silêncio do mistério. Dizem que é ai habita Deus nos esperando com os braços abertos como um Pai e uma Mãe, cheio de saudades de cada um de nós.

26 Comentários leave one →
  1. 06/06/2014 22:56

    Republicou isso em Diário de Nilton Felipe.

  2. maria de fatima leal ismael permalink
    06/06/2014 23:39

    Frei Leonardo voce parece que percebe o que cada um de nós precisa escutar.Esse seu tempo veio de encontro ao meu tempo de sentir saudades das estrelas( de quando éramos poeira de estrelas),saudades daquele tempo em que vivíamos no mistério( acho que já vivemos antes neste Mistério).Estou no tempo de saudades do Mistério.Obrigada pelo belo texto,Maria de Fatima

  3. 07/06/2014 1:39

    Republicou isso em Por favor, um café!e comentado:
    O silêncio até que ia bem. Tá aí, meu mundo.

  4. 07/06/2014 2:35

    Republicou isso em PASO A LA UTOPÍA.

  5. Sr claudicéa permalink
    07/06/2014 6:13

    Este texto sobre o nosso tempo é muito bom e me coloca em plena harmonia com aquilo que sou e serei, mas também me proporcionou um caminho de volta no tempo reconhecendo os tempos que marcaram minha vida!

  6. 07/06/2014 9:26

    Republicou isso em luveredas.

  7. simone sarmento lima permalink
    07/06/2014 9:49

    Muito bom texto!! O tempo, esse movimento e repouso, gerando um ao outro. Esse é o ritmo de todo vir-a-ser.
    O tempo da vida em si mesma e em nós mesmos. Dificilmente paramos para pensar nisso, a não ser os filósofos e outros estudiosos específicos.Se observássemos melhor a nós mesmos, verificaríamos que a pressa do tempo é uma ilusão. O tempo continua independente de qualquer coisa. Como diz Bergson: “le temps est durée”,esse tempo duração em si mesmo, o que sempre é.
    O curso do Céu e da Terra é duradouro e longo;o nosso curso ao longo da vida também, e quem segue o seu curso, o mundo tem possibilidade de se reestruturar em busca do equilíbrio. Essa passagem diz muito bem “Mas ocorreu aquele tempo necessário para o equilíbrio entre a expansão e a contenção que acabou abrindo um tempo para surgir tudo o que veio posteriormente”
    Isso. Em nós também. O ritmo de cada um de nós é humano. A duração do tempo em nós é individual e intransferível. Tempo de amadurecer,compreender, de aceitar ou não, de elaboração e transformação – no nosso próprio tempo. A expansão e a contenção são os nossos avanços e recuos necessários à sobrevivência humana. Faz parte. Nós, ocidentais, imediatistas,não acreditamos que recuar,conter, parar sejam saudáveis, uma forma de agir inteligente. São práticas consideradas menores, humilhantes. Por isso, tanta ansiedade, descontrole, competição e luta em tudo. Para os orientais, retirando os extremistas fanáticos, a sabedoria é alimentada na paciência e persistência sempre. Recuar para melhor avançar.Compreender tudo isso, para nós,demora um pouco, para isso, precisaríamos investir no nosso psiquismo, na nossa intuição, mecanismos e movimentos internos que se alternam no tempo do nosso corpo sempre se renovando, à medida que amadurecemos (pressupõe-se) em cada término e começo de cada ciclo.

  8. Cibele Nunes permalink
    07/06/2014 11:41

    Sabe Mestre, estou bem nesta fase do desequilíbrio orgânico, do silêncio e fé em que o próximo estágio seja bem melhor (porque recém começo aprender a respeitar meus limites), em termos físicos, psíquicos, espirituais e emocionais. Como disse Maria de Fátima, você percebe o que cada um de nós precisa escutar. Obrigada.

  9. 07/06/2014 12:35

    Republicou isso em Windows Live Space: Imperatore comentado:
    Boa leitura!

  10. 07/06/2014 17:39

    Instigante texto sobre o,grande tempo do ser humano se preparar a para a passagem da morte vivendo o proposito que Deus deixou graciosamente para seus filhos e filhas desse Universo..

  11. 07/06/2014 19:07

    agradecido mestre linda leitura de um lindo livro.

  12. Marilda M, Mattos permalink
    07/06/2014 19:31

    é. e agora ja estamos chegandom_ no FINAL DOS TEMPOS!!!

  13. Marilda M.Mattos permalink
    07/06/2014 19:34

    ..é , e agora ja estamos chegando no FINAL DOS TEMPOS!!

  14. Aldo Costa permalink
    07/06/2014 20:13

    Caro Frei Leonardo,
    Saiba que você, com seu fogo e temperança ao mesmo tempo, continua sendo uma fonte de refúgio e alento para muitos de nós, e continuamente viremos até suas palavras para matar nossa sede de Deus e de justiça.

  15. 07/06/2014 23:24

    Belo texto.Senti uma profunda saudade do tempo de meu pai.Lembrei dos seus quase 90 anos,correndo para junto das crianças que estavam no parquinho da praça,pude ver com alegria o seu bem estar,a sua ponte do tempo,o retorno ao estágio da infância.Lembrei também do dia mais importante de nossas vidas,que foi seu maior carinho ao me dizer o quanto foi bom ter ao seu lado este adotivo,que lhe deu muitas alegrias.Obrigado por publicar coisas tão boas de se ler e de viver.

  16. 08/06/2014 12:06

    Ah, o TEMPO! é isso tudo também. Mais o tempo de entender. Ah, como já é tarde!!

  17. 08/06/2014 13:58

    Prezado Leonardo. Seu belo e poético texto exalta a vida e a ciencia como elas podem ser compreendidas pelos espíritos leves, evoluidos e generosos, que a natureza em toda sua grandeza espelha no ser humano e que por tantos anos as instuticoes religiosas ocidentais na plenitude de sua ignorancia e prepotencia jamais desejaram, como se isso negasse ao fundo o que pode ser o mais grandioso. Questionar e ter a humildade de aceitar quando se tem claras respostas é grandeza de espírito e nao pode jamais ser visto como crime e inobediencia; muito contrário, como Teilhard e tantos outros o fizeram, isso é dever e obrigacao para com o que existe dessa grandeza dentro nós. Grande abraco de seu amigo, companheiro admirador nesse tempo aqui na Terra, entre uma estrela e outra.

  18. 09/06/2014 0:52

    Houve um erro na grafia da palavra “disperçado”. O correto é “dispersado”.

  19. Maria Bregolin Gasques permalink
    09/06/2014 8:11

    Frei Leonardo, você acredita, com todo seu coração, que quando se fechar o nosso ciclo aí encontraremos Deus?
    Um grande abraço, cheio de admiração.

  20. hebertlima13 permalink
    09/06/2014 10:33

    Republicou isso em Blog do Hebert Limae comentado:
    Leonardo Boff com sua singular percepção das coisas importantes da vida nos fala sobre o tempo de cada um de nós e de tudo que há no universo. Vale um leitura atenta e uma reflexão sobre como utilizamos nosso tempo.

  21. Júlio Cezar permalink
    11/06/2014 13:07

    E…que ao menos, nos cheguem os tempos de paz…

  22. Mauricio Scerni permalink
    11/06/2014 15:12

    Boa tarde.

    Meu novo correio eletrônico é mauricio.scerni.barbosa@gmail.com Por favor, desconsidere o do IG.

    Abraços

    Mauricio Scerni

  23. 05/07/2014 3:23

    Olá, Prof. Leonardo Boff. Outro dia usei o texto de Eclesiastes para me despedir dos meus colegas de trabalho, constatei que realmente tudo tem um tempo debaixo dos céus.
    No dia seguinte da demissão, me senti aliviada, por uma simples coisa: não ter de bater ponto, nem ficar horas no engarrafamento. Ainda sinto saudades dos amigos, mas percebi que existe um tempo para desacelerar, viver a vida, a família e os amigos, afinal passamos mais tempo na eternidade do que neste mundo – a vida é realmente passageira e Deus é o tempo do agora e da eternidade.

  24. Cláudio Maurício Zorzan permalink
    08/07/2014 12:27

    Quero receber os textos no meu e-mail pois sou um grande admirador de sua obra.

  25. Lourivaldo R. Schülter permalink
    25/08/2014 11:38

    Leonardo,

    olhe só o que defendem as escolas particulares: http://www.sinepe-sc.org.br/conteudo/jornal-do-sinepe-sc/

    Sds

  26. Maria de Fátima Leal Ismaell permalink
    06/06/2016 12:54

    Mais uma vez, Leonardo,você traduz os sentimentos de muitos de seus leitores.Gostei muito do que disse o físico que de alguma forma o universo nos pressentia.É bom fazer parte deste universo que se mos pressentia,nos esperava e nos acolheria.Tomara que nós saibamos agradecer e devolver essa gentileza.Paz e Bem!

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