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A memória sexual: base biológica da sexualidade humana:

04/07/2014

Para compreendermos em profundidade a sexualidade humana, precisamos entender que ela não existe isolada, mas representa um momento de um processo maior: o biogênico.

A nova cosmologia nos habituou a considerar cada realidade singular dentro do todo que vem sendo urdido já há 13,7 bilhões de anos e a vida há 3,8 bilhões de anos. As realidades singulares (elementos físico-químicos, microorganismos, rochas, plantas, animais e seres humanos) não se juxtapõem mas se entrelaçam em redes interconectadas constituindo uma totalidade sistêmica, complexa e diversa.

Assim, a sexualidade emergiu há um bilhão de anos como um momento avançado da vida. Depois da decifração do código genético por Crick e Dawson nos anos 50 do século passado. sabemos hoje comprovadamente que vigora a unidade da cadeia da vida: bactérias, fungos, plantas, animais e humanos somos todos irmãos e irmãs porque descendemos de uma única forma originária de vida. Temos, por exemplo, 2.758 genes iguais aos da mosca e 2.031 idênticos aos do verme.

Esse dado se explica pelo fato de que todos, sem exceção, somos construídos a partir de 20 proteinas básicas combinadas com quatro ácidos nucleicos (adenina, timina, citosina e guanina). Todos descendemos de um antepassado ancestral comum, originando a ramificação progressiva da árvore da vida. Cada célula de nosso corpo, mesmo a mais epidérmica, contém a informação básica de toda vida que conhecemos. Há, pois, uma memória biológica inscrita no código genético de todo organismo vivo.

Assim como existe a memória genética, existe também a memória sexual que se faz presente na nossa sexualidade humana. Consideremos alguns passos desse complexo processo. O antepassado comum de todos os seres vivos foi, muito provavelmente, uma bactéria, tecnicamente chamada de procarionte que significa um organismo unicelular, sem núcleo e com uma organização interna rudimentar. Ao se multiplicar rapidamente por divisão celular (denominada mitose: uma célula-mãe se divide em duas células-filhas idênticas) surgiram colônias de bactérias. Reinaram, sozinhas, durante quase dois bilhões de anos. Teoricamente a reprodução por mitose confere imortalidade às células, pois seus descendentes são idênticos, sem mutações genéticas.

Por volta de dois bilhões de anos atrás, ocorreu um importante fenômeno para a posterior evolução, somente suplantado pelo surgimento da própria vida: a irrupção de uma célula com membrana e dois núcleos. Dentro deles se encontram os cromossomos (material genético) nos quais o DNA se combina com proteinas especiais. Tecnicamente é chamada de eucarionte ou também célula diplóide, isto é, célula com núcleo duplo.

A importância desta célula binucleada reside no fato de nela se encontrar a origem do sexo. Em sua forma mais primitiva, o sexo significava a troca de núcleos inteiros entre células binucleadas, chegando a fusão em um único núcleo diplóide, contendo todos os cromossomos em pares. Até aqui as células se multiplicavam sozinhas por mitose (divisão) perpetuando o mesmo genoma. A forma eucariota de sexo, que se dá pelo encontro de duas células diferentes, permite uma troca fantástica de informações contidas nos respectivos núcleos. Isso origina uma enorme biodiversidade.
Surge, pois, um novo ser vivo, a célula que se reproduz sexualmente a partir do encontro com outra célula. Tal fato já aponta para o sentido profundo de toda sexualidade: a troca que enriquece e a fusão que cria pradoxalmente a diversidade. Esse proceso envolve imperfeições, inexistente na mitose. Mas favorece mutações, adaptações e novas formas de vida.

A sexualidade revela a presença da simbiose (composição de diferentes elementos) que, junto com a seleção natural, representa a força mais importante da evolução.

Tal fato vem carregado de consequências filosóficas. A vida é tecida de cooperação, de trocas, de simbioses, muito mais do que de luta competitiva pela sobrevivência. A evolução chegou até o estágio atual graças à essa lógica cooperativa entre todos.

Deixando de lado muitos outros dados fundamentais  e indo diretamente à sexualidade humana devemos reconhecer que ela está embasada num bilhão de anos de sexogênese. Mas possui algo singular: o instinto se transforma em liberdade, a sexualidade desabrocha no amor. A sexualidade humana não está sujeita ao ritmo biológico da reprodução. O ser humano se encontra sempre disponível para a relação sexual, porque esta não se ordena apenas à reprodução da espécie mas também e principalmente à manifestação do afeto entre os parceiros. O amor reorienta a lógica natural da sexualidade como instinto de reprodução; o amor faz com que a sexualidade se descentre de si para se concentrar no outro. O amor torna os parceiros preciosos uns para os outros, únicos no universo, fonte de admiração, de enamoramento e de paixão. É por causa dessa aura que o amor se revela como o âmbito da suprema realização e felicidade humana ou, no seu fracasso, da infelicidade e da guerra dos sexos.

O ser humano precisa aprender a combinr instinto e amor. Sente em si, necessidade de amar e de ser amado. Não por imposição, mas por liberdade e espontaneidade. Sem essa liberdade de quem dá e de quem recebe, não existe amor. É a liberdade e a capacidade de amorização que constroem as formas de amor que humanizam o ser humano e lhe abrem perspectivas espirituais ultrapassando em muito as demandas do instinto.

Leonardo Boff escreveu com Rose Marie Muraro, recém falecida, Feminino-masculino: um novo paradigma para uma nova relação, Record 2010. Esse artigo é pensandoem sua homenagem pois com ela trabalhei mais de vinte anos.

28 Comentários leave one →
  1. Manoel Mendonça permalink
    04/07/2014 21:58

    Melhor será voltar a falar sobre a mãe terra e os pobres. O texto é enfadonho e não temos porque acreditar nele como sendo um conhecimento seu. Copiou de alguém. Nada mais que isso.

    • 06/07/2014 1:43

      Manoel,
      Não seja precipitado em suas opiniões pois se transformem em maledicêncial Se quiser aprofundar o tema da sexualidade aconselho-lhe ler um livro grosso que Rose Marie Muraro e eu escrevemos com o titulo Feminino-masculino:novo pardigma sobre uma nova relação Record 2009. Ai’ vc encontra muitas páginas sobre a sexualidade fundada na melhor bibliografia.
      lboff

      • Manoel Mendonça permalink
        06/07/2014 6:59

        É lamentável que tenha chegado ao ponto de só aceitar comentários que lhe tragam elogios. Maledicência é um termo subjetivo que julga o que o Sr. pode pensar, mas que não faz justiça ao que eu pensei no meu comentário. O texto é realmente enfadonho e contém vários erros.

    • 10/07/2014 12:37

      Concordo, Manoel… o autor sequer sabe o que é uma célula diplóide.
      Não deveria escrever a respeito de um campo que não domina.

  2. Thomaz permalink
    05/07/2014 0:40

    Devo alertar que este texto esta calcado em um concepção errônea de um conceito biológico importante e que mudaria toda a ideologia desde texto. Uma célula diploide é aquela que apresenta dois conjuntos cromossomais idênticos ( assim como os seres humanos, com duas copias de seu genoma, e diferente das bananas que apresentariam tres conjuntos ou copias de seu genoma – triploide) o que não tem relação com fusão de núcleos e que por sua vez não levaria a inferência da origem do sexo por este ultimo evento. Outro adendo, menos importante, seria o nome dos determinadores da estrutura da molécula de DNA, que devem ser corretamente nomeados Watson (não Dawson) e Crick. Um terceiro ponto a ser destacado é o fato de que não somos originados de “20 proteínas básicas” e sim de 20 aminoácidos básicos, moléculas orgânicas fundamentais para a formação de proteínas.

  3. 05/07/2014 1:52

    Em tempo: James Watson*, Francis Crick, Maurice Wilkins (agraciados pelo Nobel de Fisiologia/Medicina em 1962. E Rosalind Franklin (está não reconhecida pela academia na época déc.50 por ser mulher). Tod@s pesquisadores(@s) reconhecid@s pelas descobertas que levaram à compreensão da estrutura em dupla hélice do ácido desoxirribonucleico (DNA).
    * linha 9: Dawson – Watson. 🙂
    Ótimo texto!!!😀 Mas falar de DNA sempre me lembra a história da Rosalind:/

  4. jesus permalink
    05/07/2014 4:35

    olá caro Boff, lindo texto, gratidão. só tenho um adendo técnico, no 4o parágrafo diz que somos constituídos de “20 proteínas”, em verdade se trata de 20 aminoácidos.
    deus continue te abençoando.
    até logo.
    um velho amigo.

  5. Sheila permalink
    05/07/2014 5:33

    Querido Leonardo, seria interessante dar uma olhada na frase: ¨Esse dado se explica pelo fato de que todos, sem exceção, somos construídos a partir de 20 proteinas básicas combinadas com quatro ácidos nucleicos (adenina, timina, citosina e guanina). ¨
    uma pequena correção: as proteínas são formadas pelas unidades básicas aminoácidos. 20 aminoácidos formam todas proteínas, cujas instruções para as variadas combinações está codificada no DNA, que é ¨escrito¨ usando um código químico com 4 diferentes nucleotídeos. Adoro os teus textos e a tua filosofia. Parabéns esta ideia de sexualidade é sublime.

    • 06/07/2014 1:31

      Sheila
      obrigado pela correção. Em outros textos sempre digo 20 aminoácidos e não proteinas. Foi um lapso lamentavel.
      obrigado
      lboff

  6. Luis Felipe permalink
    05/07/2014 7:38

    Caro Leonardo Boff, gostei muito do seu artigo. Parabéns pela iniciativa de dar um olhar tão espirituosos sobre esse tema.. Mas aproveitando o ensejo, gostaria de perguntar por que os padres católicos insistem em dizer que a homossexualidade é antinatural, se ela CLARAMENTE EXISTE NA NATUREZA! Além do que, na natureza, fêmeas matam seus machos, machos matam filhotes e animais comem fezes. Não creio que heterossexuais devam fazer essas coisas só porque é “natural”. Além disso, a própria noção de natural é bem problemática, uma vez que óculos, depilação e roupas também não são naturais.

    Fico me perguntando como padres, com tantos anos de estudo, pode ser tão estúpidos ao dizerem que a homossexualidade é antinatural, mas ao mesmo tempo usarem óculos e não incentivarem que machos matem filhotes, como acontece entre os animais.

    Como eles usam alcunha da antinaturalidade para atacar os outros?

    Sempre tive essa dúvida, mas nunca tive um católico para perguntar. Você poderia responder?

    • 06/07/2014 1:30

      Luis Felipe
      Há pessoas, especialmente entre o clero, que estudam a vida inteira sem nunca se educarem e entenderem melhor as multiformes expressões do que seja a vida especialmente a vida humana.
      lboff

      • Luis Felipe permalink
        06/07/2014 1:39

        Obrigado pela resposta! ^^

  7. simone sarmento lima permalink
    05/07/2014 9:37

    Ótima escolha falar sobre a sexualidade. Necessário falar sobre esse tema tão controvertido, polêmico,tabu,instigante, mal compreendido, desde sempre, e fascinante, acima de tudo!
    Se entendermos a sexualidade como sinônimo de sexo, ou relação sexual, estaremos reduzindo, compartimentalizando o ser humano ao corpo propriamente dito; estaremos nos limitando aos prazeres do instinto, á sua satisfação, quer estejam ou não ligados à genitalidade.
    Acredito que Freud revolucionou o pensamento da época, mesmo existindo negativas quanto ao seu entendimento sobre instinto sexual e sexualidade. Tanto tabu, tudo escondido, camuflado. Como alguém ousaria falar sobre isso abertamente, e ainda por cima falar em sexualidade infantil? (só um acréscimo) Freud foi muito feliz em caracterizar a sexualidade como um fenômeno de grande plasticidade, um todo de sensações e excitações que permeiam a vida do ser humano desde o nascimento, proporcionando prazeres, desde às necessidades básicas como respiração,fome, excreção e por aí vai.
    A sexualidade não se confunde com sexo, o sexo é um componente da sexualidade. A sexualidade ultrapassa a necessidade fisiológica, biológica e anatômica, tem a ver com a simbolização dos desejos pela vida, em diversas formas de ser, do ser humano, em diversas formas de cultura com seus valores, regras, interditos e permissões.
    “A vida é tecida de cooperação, de trocas… muito mais do que de luta competitiva pela sobrevivência.”
    A sexualidade é uma das estruturas do ser humano.

  8. 05/07/2014 10:06

    Caro Leonardo: Tenho trabalhado este assunto há muitos anos e gostaria de complementar com a ideia de que ocorre a confusão entre amor e sentimento gregário. Este sentimento que se dá em unção de que é gostoso e seguro ficar junto é o início de um processo que vai resultar em amor muito mais tarde na vida dos seres que passam a ser não só seres naturais, mas em função dos seres humanos, seres espirituais porque estes “encarnam” a consciência e daí a vida espiritual. É a partir daí que pode crescer efetivamente o amor!

  9. 05/07/2014 10:08

    Neste comentário acima corrijo a palavra “unção”. Eu quis escrever função.

  10. Cristina Coluccini permalink
    05/07/2014 13:07

    “Somos todos naturais quanto uma abóbora…”Abraços sinceros!

  11. Marcos permalink
    05/07/2014 13:17

    Aconselho ao senhor Leonardo procurar a assessoria de um biólogo para consolidar alguns conceitos básicos de biologia celular que ficaram a desejar. Além disso, uma correção mais pontual é a do nome de um dos descritores do ADN, onde se lê Dawson, leia-se Watson. Mas a ideia central do artigo é bem interessante, parabéns.

  12. Vanina Franzoni permalink
    05/07/2014 15:26

    Salve Rose Marie Muraro!!!!!

  13. Regina permalink
    05/07/2014 17:26

    Texto maravilhoso! Amei…

  14. Mariane T D'avila permalink
    05/07/2014 20:32

    Lindo!

  15. Ricardo Reis permalink
    05/07/2014 23:48

    Fabuloso!!!!

  16. 06/07/2014 9:35

    “… o instinto se transforma em liberdade, a sexualidade desabrocha no amor.” O instinto puramente animal de reprodução, transforma-se também em prazer. Perfeito, Boff.

  17. Ana Carolina permalink
    06/07/2014 11:43

    Texto lindo mesmo, muito inspirador! Parabéns!

  18. Adryane permalink
    07/07/2014 9:33

    Excelente texto. Só uma observação. Não sei se é uma falha do texto ou preciosismo meu com números (mal de engenheiro.. rs), mas o trecho que diz “Temos, por exemplo, 2.758 genes iguais aos da mosca e 2.031 idênticos aos do verme.” não significa muito no texto, já que não cita a quantidade de genes do ser humano, perdendo sua representatividade. Uma alternativa seria trocar os valores absolutos por porcentagens. Desculpe se interpretei de forma errada.. Abraços!

  19. 08/07/2014 9:37

    Republicou isso em Empreender e Teologare comentado:
    Um artigo que muito enriquece nosso intelecto mas também que mexe com nossos ser e nossos sentimentos

    Obrigado amigo L Boff.

  20. Deivy Lima permalink
    08/07/2014 11:42

    Gostei muito da abordagem do assunto e como ele (texto), chama a atenção para o tema central que é o AMOR. A aceitação do outro, como legítimo outro na sua convivência, raciocinando igual a um grande biólogo chileno Huberto Maturana, pelo qual centro meus estudos educacionais e biológicos.
    Sendo biólogo por formação, não poderia de deixa uma contribuição técnica para o brilhante texto, além do que já foi dito anteriormente. É só a critério de enriquecimento. Os seres procariontes possui núcleo, porém, seu núcleo é classificado como: núcleo não individualizado, núcleo falso, núcleo não diferenciado. Os seres procariontes são seres vivos cujo suas células são desprovidas de organelas membranosas. Forte Abraço L. Boff

    • 11/07/2014 11:25

      Obrigado pelas informacoes. Errei tb ao dizer que todos tem 20 proteinas quando se trata de aminoacidos. Foi lapso pois no livro que escrevi com Rose Marie Muraro sobre masculino-feminino não digo isso.
      Obrigado
      lboff

  21. Walter Bernardes Nunes permalink
    04/08/2014 17:46

    Acima de tudo está a coerência e a verdade que existe dentro de cada ser,as coisas só acontece se quero,a dado a cada um um livro árbitrio.parabéns grande Leanardo Boff.

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