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O pacto das catacumbas vivido pelo Papa Francisco

06/07/2014

No dia 16 de novembro de 1965 ao findar o Concílo Vaticano II (1962-1965), algus bispos, animados por Dom Helder Camara, celebraram uma missa nas Catacumbas de Santa Domitila, fora de Roma e fizeram um Pacto das Catacumbas da Igreja serva e pobre. Propunham-se ideais de pobreza e simplicidade, deixando seus palácios e vivendo em simples casas ou apartamentos. Agora com o Papa Francisco este pacto ganha plena atualidade. Vale a pena rememorar os compromissos assumidos pelos bispos.

“Nós, Bispos, reunidos no Concílio Vaticano II, esclarecidos sobre as deficiências de nossa vida de pobreza segundo o Evangelho; incentivados uns pelos outros, numa iniciativa em que cada um de nós quereria evitar a excepcionalidade e a presunção; unidos a todos os nossos Irmãos no Episcopado; contando sobretudo com a graça e a força de Nosso Senhor Jesus Cristo, com a oração dos fiéis e dos sacerdotes de nossas respectivas dioceses; colocando-nos, pelo pensamento e pela oração, diante da Trindade, diante da Igreja de Cristo e diante dos sacerdotes e dos fiéis de nossas dioceses, na humildade e na consciência de nossa fraqueza, mas também com toda a determinação e toda a força de que Deus nos quer dar a graça, comprometemo-nos ao que se segue:

1) Procuraremos viver segundo o modo ordinário da nossa população, no que concerne à habitação, à alimentação, aos meios de locomoção e a tudo que daí se segue.

2) Para sempre renunciamos à aparência e à realidade de riqueza, especialmente no traje (tecidos ricos, cores berrantes, nas insígnias de matéria preciosa). Devem esses signos ser, com efeito, evangélicos: nem ouro nem prata.

3) Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco, etc., em nosso próprio nome; e, se for preciso possuir, poremos tudo no nome da diocese, ou das obras sociais ou caritativas.

4) Cada vez que for possível, confiaremos a gestão financeira e material em nossa diocese a uma comissão de leigos competentes e cônscios do seu papel apostólico, na perspectiva de sermos menos administradores do que pastores e apóstolos.

5) Recusamos ser chamados, oralmente ou por escrito, com nomes e títulos que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor…). Preferimos ser chamados com o nome evangélico de Padre.

6) No nosso comportamento, nas nossas relações sociais, evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios, prioridades ou mesmo uma preferência qualquer aos ricos e aos poderosos (ex.: banquetes oferecidos ou aceitos, classes nos serviços religiosos).

7.Do mesmo modo, evitaremos incentivar ou lisonjear a vaidade de quem quer que seja, com vistas a recompensar ou a solicitar dádivas, ou por qualquer outra razão. Convidaremos nossos fiéis a considerarem as suas dádivas como uma participação normal no culto, no apostolado e na ação social.

8) Daremos tudo o que for necessário de nosso tempo, reflexão, coração, meios, etc. ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos, sem que isso prejudique as outras pessoas e grupos da diocese. Ampararemos os leigos, religiosos, diáconos ou sacerdotes que o Senhor chama a evangelizarem os pobres e os operários compartilhando a vida operária e o trabalho.

9) Cônscios das exigências da justiça e da caridade, e das suas relações mútuas, procuraremos transformar as obras de “beneficência” em obras sociais baseadas na caridade e na justiça, que levam em conta todos e todas as exigências, como um humilde serviço dos organismos públicos competentes.

10) Poremos tudo em obra para que os responsáveis pelo nosso governo e pelos nossos serviços públicos decidam e ponham em prática as leis, as estruturas e as instituições sociais necessárias à justiça, à igualdade e ao desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens, e, por aí, ao advento de uma outra ordem social, nova, digna dos filhos do homem e dos filhos de Deus.

11) Achando a colegialidade dos bispos sua realização a mais evangélica na assunção do encargo comum das massas humanas em estado de miséria física, cultural e moral – dois terços da humanidade – comprometemo-nos:
-a participarmos, conforme nossos meios, dos investimentos urgentes dos episcopados das nações pobres;
-requerermos juntos ao plano dos organismos internacionais, mas testemunhando o Evangelho, como o fez o Papa Paulo VI na ONU, a adoção de estruturas econômicas e culturais que não mais fabriquem nações proletárias num mundo cada vez mais rico, mas sim permitam às massas pobres saírem de sua miséria.

12) Comprometermo-nos a partilhar, na caridade pastoral, nossa vida com nossos irmãos em Cristo, sacerdotes, religiosos e leigos, para que nosso ministério constitua um verdadeiro serviço; assim:
-esforçar-nos-emos para “revisar nossa vida” com eles;
-suscitaremos colaboradores para serem mais animadores segundo o espírito, do que chefes segundo o mundo;
-procuraremos ser o mais humanamente presentes e acolhedores;
-mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião.

13) Tornados às nossas dioceses respectivas, daremos a conhecer aos nossos diocesanos a nossa resolução, rogando-lhes ajudar-nos por sua compreensão, seu concurso e suas preces.
Ajude-nos Deus a sermos fiéis”.
Não são esses os ideais apresentandos pelo Papa Francisco?

16 Comentários leave one →
  1. Ismael Cunha permalink
    06/07/2014 6:49

    Que intuições de d. Hélder e a saudade de uma Igreja comprometida…

  2. simone sarmento lima permalink
    06/07/2014 7:37

    Essa proposta de vida apresentada pelo papa Francisco é abençoada por Deus porque essa transformação vem inspirada do alto. Papa Francisco não está sozinho. A luta é grande e o fardo dele é pesado desde que se fez papa. Muitos, muitos mesmo o aplaudem. Mas… existe um mas no meio do caminho que precisará ser retirado do Vaticano com força e fé para o caminho da transformação cristã seguir em frente. São os sinais do tempo. Nostradamus já falava isso em suas centúrias e outros e outros,cada um a sua maneira.Difícil é a decifração e entendimento. Que matéria bruta, pesada, intransigente, vaidosa e traiçoeira somos nós?!… E falamos tanto em Deus, Jesus e Maria.
    Queremos enganar a quem?
    Deus à frente, papa Francisco fará o que tem que ser feito, e atento aos homens.

  3. 06/07/2014 13:38

    Sem dúvida, vida longa ao papa Franscisco e que ele continue corajosamente defendendo os princípios mais sagrados e verdadeiros do evangelho, mesmo provocando a ira dos ultraconservadores.

  4. 06/07/2014 15:06

    Francisco vive o que prega, assim como Boff. Será lindo quando todos os nós fizermos isso!

  5. madalena boff pereira permalink
    06/07/2014 15:53

    Foram apresentados em 1965, e alguém seguiu? Vamos ver se agora, 2014, alguém segue!!!!!! Deus nos ajude e inspire.

  6. Alfredo dos Santos Junior permalink
    06/07/2014 20:01

    São, sim, os ideais do Papa Francisco. Mas, o que dizer de D. Helder, senão que tivemos o privilégio de conviver com um verdadeiro profeta: alguém que adverte, que anuncia, que prenuncia e que anima. Peçamos ao Espírito que anime este pacto com sua força.

  7. 06/07/2014 21:49

    Há algo de novo no mundo realmente Leonardo.
    Há um velho sonho possível de realização?
    Esta é a questão que clama. O fausto das diversas igrejas da Cidade de Santos é algo que fere a simplicidade. Mesmo entre as que se dizem franciscanas.
    Onde a coerência?

  8. 07/07/2014 0:35

    O grande equívoco foi terem pensado ser o PT o movimento social colimador desses nobres propósitos e o desvirtuamento praticado por alguns padres sobre os ensinamentos de Don Helder Câmara.

  9. 07/07/2014 11:48

    Bonito! Exemplo para nós, no que cabe. Nos prelados, vi isso em Dom Hélder. Gostaria de ouvir que outros vivem na mesma linha.

  10. 07/07/2014 16:07

    Força e Perseverança! Que a tarefa é árdua.Esse é um bom caminho!

  11. 08/07/2014 12:17

    Se for assim, até eu, tão cético, descrente e sobretudo temeroso quanto ao que pode e é capaz a igreja institucional, estarei de volta à “Santa Madre”! Mas, infelizmente, duvido que ali aconteça a conversão ampla e generalizada: antes disto, ou matam ao Papa Francisco, ou irão de alguma forma dar um jeito de tirá-lo de seu cargo de “sucessor de Pedro”!

  12. Maria de Lourdes Barbosa Silva permalink
    08/07/2014 14:11

    Muito bom.Concerteza esta é a Igreja que Jesus deseja e sonhou quando escolheu os seus dicípulos entre pobres e marginalizados.

  13. Luiz F B Gomes permalink
    09/07/2014 16:46

    Maravilhoso, e sem duvida vivido em sua plenitude pelo Papa, exemplo de vida. Eu gostaria de saber se alguma vez o Papa fez menção direta a este pacto

  14. 11/08/2014 17:40

    Não é tão simples assim como ler essa página, mas com muita oração em favor da Igreja tudo pode ser possível, afinal Ela pertence a Cristo que nasceu viveu e morreu pobre como exemplo somente por amor

  15. Leda Sônia O. Linhares permalink
    19/08/2014 17:03

    Antonio Cardoso

Trackbacks

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