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Os jogadores de futebol precisam de mística além de psicologia

19/07/2014

Foi uma idéia construtiva da CBF e do grupo técnico da seleção de futebol brasileira ter convocado uma psicóloga experiente na área, Regina Brandão, para acompanhar os jogadores nos seus jogos. A incorporação do acompanhamento psicológico já existe há anos na seleção alemã. O sentido é evidente: criar uma atmosfera de serenidade interior, celebrar as vitórias de forma controlada e criar as condições de uma boa resiliência nas derrotas, vale dizer, saber dar a volta por cima, aprender dos erros e melhorar o desempenho.

Mas estimo que isso ainda não é suficiente. A psicologia pode ser enriquecida com a mística. Não me venham logo dizer que estou introduzindo religião no futebol. Precisamos antes demais nada desmistificar a mística. Ela tem muitos significados, sendo que dois são principais: o sentido sociológico e o sentido espiritual mas não confessional.

Dou dois exemplos que esclarecem melhor do que muitas palavras. Nos dias 17 e 18 de maio de 1993, frei Betto e eu organizamos uma reflexão aberta sobre mística a espiritualidade. Era durante a semana, de manhã e de tarde. Vieram mais de 500 operários, a maioria metalúrgicos. Queriam saber que diabo é isso de místa e espiritualidade. Foram duas palestras de abertura. O resto, debates, do maior interesse e grande atenção de todos. Tudo foi registrado e saiu em livro já com muitas edições: Mística e Espiritualidade (Vozes 2014).

Outro exemplo: cada grande reunião do Movimento dos Sem Terra, com centenas de pessoas, sempre se inicia com uma “mística”. Que ocorre ai? Teatralizam-se os problemas vividos pelos participantes, criam-se símbolos significativos, entoam-se canções, ouvem-se testemunhos de luta e de vida. Nem sempre se fala de Deus. O que irrompe é um sentido de vida, um reforço na vontade de levar avante os projetos, de resistir, de denunciar e de criar coisas novas. O efeito final é o entusiasmo geral, leveza de espírito, congraçamento de todos. Por estas “celebrações” toca-se a dimensão mais profunda do ser humano, lá onde estão nossos melhores sonhos, nossas utopias, nossa determinação de melhor a vida. Esse é o sentido sociológico de mística. Ele se encontra referido na famosa palestra de Max Weber, um dos fundadores da sociologia, aos estudantes de Munique em 1919 sobre A política como vocação. Para ele, uma política digna desse nome (não o viver da política mas o viver para a política) implica numa mística, caso contrário se atola no pântano dos interesses individuais ou corporativos. Mística para Max Weber significa o conjunto das convicções profundas, as visões grandiosas e as paixões fortes que mobilizam pessoas e movimentos, inspirando práticas capazes de afrontar dificuldades e sustentando a esperança face aos fracassos. A maioria dos movimentos populares vivem desta mística face à dureza das dificuldades.

Pois esse tipo de mística pode e deve ser vivida pelos jogadores de futebol, mormente, os da seleção nas Copas Mundiais ou nos grandes torneios. Vejam que não se trata apenas de psicologia com suas motivações. Trata-se de valores, de sonhos bons, de entusiasmo. A questão é como chegar a isso?

Aqui vem o segundo sentido de mística, o espiritual. Mas precisamos fazer algum esclarecimento: temos um lado exterior, o nosso corpo com o qual entramos em contacto com os outros, a natureza e o universo. O futebol treina todas as virtualidades possíveis do corpo para criar o atleta e o craque. Mas não basta. Temos o nosso interior que é a psiqué habitada por paixões, amores, ódios, arquétipos profundos, a dimensão de luz e a de sombra. Tarefa de cada um é domesticar os demônios, potenciar os anjos bons de tal forma que possa viver em paz consigo mesmo, com os outros e não sermos vítimas dos impulsos e criando vítimas.

Mas temos também o profundo que é nosso lado espiritual. No nosso profundo, encontramos as indagações inescapáveis que nos acompanham ao largo da vida: Quem sou eu? Que faço neste mundo? Que posso esperar para além desta vida? Qual o sentido de jogar na Copa? Como devo me comportar nas vitórias e nas derrotas? Sabemos hoje pelas novas ciências da vida, da Terra e do universo que todas as coisas são interdependentes entre si e se entreajudam para viver. Tem que haver um elo que liga e re-liga todas elas.  Os cosmólogos falam da Energia de Fundo que subjaz a todo o universo e a cada coisa, tambem a cada pessoa. Temos ainda um Eu profundo de onde nos vém   sugestões e projetos que nos mobilizam.

No nivel humano um dos nome desta Energia de Fundo, poderosa e amorosa se chama entusiasmo. Gosto desta palavra porque entusiasmo em grego significa “ter um deus dentro”: aquela Energia que é maior que nós e que nos toma e que nos conduz pela vida afora. Sem entusiasmo nos acercamos do mundo da morte. A moderna ciência do cérebro identificou o que os cientistas chamaram o ponto Deus no cérebro ou a inteligência espiritual. Sempre que se abordam questões fundamentais da vida, se busca uma visão mais global, quando se pergunta pela Energia misteriosa que em tudo penetra e que tudo sustenta, há uma aceleração de uma zona dos neurônios maior que a normal. Somos dotados de um órgão interior pelo qual captamos aquilo que foi chamado de Tao, de Shiva, de Olorum, de Alá, de Javé, de Deus. Não importam os nomes: mas a experiência de uma Totalidade na qual estamos inseridos, um Elo que segura todas as coisas. Ativar o “ponto Deus” nos torna mais sensíveis aos outros, mais cuidadosos, mais amigos, compreensivos, atentos e inventidos em nossas jogadas e em nossas estratégias.

Creio que um jogador faria bem, antes de começar os treinos ou um jogo, retirar-se num canto, concentrar-se e escutar esse Eu profundo donde nascem as boas ideias, os bons sentimentos e se fortalece o “entusiasmo”. E há pessoas como frei Betto, Dom Marcelo Barros e outros que fariam magistralmente esse trabalho. Eles colocariam os jogadores afinados com o “ponto Deus” e dispensariam a magia do “Tois”. Haveria mais concentração, mais calma,mais sentido de grupo, pois o que faz vencer memo é a boa articulação do grupo, como sempre tem insistito Pelé. Isso não garante a vitória mas a torna mais provável e criaria o espaço para que ela irrompa como expressão feliz da Energia de Fundo que está sempre disponível para cada um e que pode sempre ser invocada e interiorizada. Ai o jogador é um perfeito craque no corpo, na psiqué e no espiritual.

Leonardo Boff por mais de 20 anos professor de espiritualidade e autor de Espiritualidade:caminho de transformação,Sextante, Rio 2000.

5 Comentários leave one →
  1. 19/07/2014 10:49

    Q excelente texto! N me canso de reler.
    Apenas um comentário sobre a Psicologia: um bom trabalho psicoterapêutico deve ser a longo prazo e não apenas no período da copa do mundo. Ninguém faz mudanças a curto prazo nesta área. A Psicologia Cognitiva poderia oferecer bons resultados, com atendimentos desde os primeiros anos de formação profissional dos jogadores. Seria interessante dois Psicólogos (terapeuta e co-terapeuta) trabalhando juntos durante um bom tempo antes da copa. Da forma como foi feita com a seleção brasileira só serve para “apagar incêndio”. Gil/Psicóloga/CRP02077/PR

  2. Ana Lúcia Jezuino da Costa permalink
    19/07/2014 19:40

    A sintonia com Deus transforma o Ser humano em Humano, que pensa e faz desta equipe um grupo de pessoas sintonizadas nos ganhos coletivos e não individuais.
    Mas, um problema sério da seleção brasileira são os patrocinadores e os cartolas que querem lucrar de qualquer forma. Pra isso não tem psicologia e religiosidade que de conta.

  3. neiva permalink
    19/07/2014 22:45

    Leonardo, Perdoe-me a ousadia e a ignorância, mas eu gostaria de saber se existe algo que você ou Frei Beto tenham escrito sobre Mística e Educação. ??????

  4. antonio gaeta permalink
    20/07/2014 3:55

    Ottimo il concetto e ottima anche l’analisi.

  5. simone sarmento lima permalink
    20/07/2014 19:23

    Importante texto para a gente refletir. “Pois esse tipo de mística (…)Vejam que não se trata apenas de psicologia (…) Trata-se de valores, de sonhos bons, de entusiasmo. A questão é como chegar a isso?”
    Nós brasileiros não perseguimos sonhos que em outras palavras, seriam desejos, vontades transformadas em objetivos, metas. Simplesmente, queremos vencer sem luta. Isso é em tudo. Até porque não somos preparados para lutar, e sim, para vencer, vencer sem consistência. Um segundo e terceiro lugar é uma morte. As fisionomias se transformam em máscaras e não somos capaz de cumprimentar corretamente o adversário, mal olhamos, não apertamos as mãos, só tocamos, puxando par baixo. Vaiamos o hino dos outros, vaiamos a presidente do país, somos incapazes de respeitar o adversário e a representante do país. E criticamos os argentinos,falamos horrores. Pode?
    Sei não! Educação passa longe em nós!!!!! O trabalho das competições têm que ser desde a infância, educação de base. Ensinar a ganhar e a perder. A vida é perde ganha constantemente. como não entender isso? A partir do momento, que a desvantagem existe para nós, nos desestabilizamos. Como justificativa, dizemos que foi apagão!!!!!!!!!!!!!!!Ou então, choramos copiosamente. precisamos parar com isso. É muito mais dizer que o técnico é culpado do que assumir que erraram feio. Porque no campo precisam trabalhar do seu jeito(de cada um) mesmo tendo as orientações e táticas e por aí vai. Brasileiro é individualista, não sabe o que coletivo, tudo é em causa própria! Precisamos chegar lá sim.
    Chegar com garra, com disciplina, respeito ao outro, lutar sempre, e acima de tudo ser humilde. Isso é de dentro, é essência. A psicologia no futebol, pelo que ouvi, muito fraca, um faz de conta. Se não trabalhar privação, frustração, autoestima, inibição diante do mais forte + respeito + HUMILDADE, não chegaremos a lugar nenhum.

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