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As ameaças da Grande Transformação(I)

26/07/2014

A Grande Transformação consiste na passagem de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado. Ou em outra formulação: de uma sociedade com comercado para uma sociedade só de mercado. Mercado sempre existiu na história da humanidade, mas nunca uma sociedade só de mercado. Quer dizer, uma sociedade que coloca a economia como o eixo estruturador único de toda a vida social, submetendo a ela a política e anulando a ética. Tudo é vendável, até o sagrado.

Não se trata de qualquer tipo de mercado. É o mercado que se rege pela competição e não pela cooperação. O que conta é o benefício econômico individual ou corporativo e não o bem comum de toda uma sociedade. Geralmente este benefício é alcaçado às custas da devastação da natureza e da gestação perversa de desigualdades sociais. Nesse sentido a tese de Thomas Piketty em O capital no século XXI é irrefutável.

O mercado deve ser livre, portanto, recusa controles e vê o Estado como seu grande empecilho, cuja missão, sabemos, é ordenar com leis e normas a sociedade, também o campo econômico e coordenar a busca comum do bem comum. A Grande Transformação postula um Estado mínimo, limitado praticamente às questões ligadas à infra-estrutura da sociedade, ao fisco, mantido o mais baixo possível e à segurança.Tudo o mais deve ser buscado no mercado, pagando.

O gênio da mercantilização de tudo penetrou em todos os setores da sociedade: a saúde, a educação, o esporte, o mundo das artes e do entretenimeno e até grupos importantes das religiões e das igrejas. Estas incorporaram a lógica do mercado: a criação de uma massa enorme de consumidores de bens simbólicos, igrejas pobres em espírito, mas ricas em meios de fazer dinheiro. Não raro no mesmo complexo funciona um templo e junto a ele um shopping. Enfim, se trata sempre da mesma coisa: auferir rendas seja com bens materiais seja com bens “espirituais”.

Quem estudou em detalhe este processo avassalador foi um historiador da economia, o húngaro-norte-americano Karl Polanyi (1886-1964). Ele cunhou a expressão A Grande Transformação, título do livro escrito antes do final da Segunda Guerra Mundia em 1944. No seu tempo a obra não mereceu especial atenção. Hoje, quando suas teses se vem mais e mais confirmadas, tornou-se leitura obrigatória para todos os que se propõem entender o que está ocorrendo no campo da economia com repercusão em todos os âmbitos da atividade humana, não excluida a religiosa. Desconfia-se que o próprio Papa Francisco tenha se inspirado en Polaniy para criticar a atual mercantilização de tudo, até do ser humano e órgãos.

Essa forma de organizar a sociedade ao redor dos interesses econômicos do mercado cindiu a humanidade de cima a baixo: um fosso enorme se criou entre os poucos ricos e os muitos pobres. Gestou-se uma espantosa injustiça social com multidões feitas descartáveis, consideradas óleo gasto, não mais interessante para o mercado: produzem irrisoriamente e consomem quase nada.

Simultaneamente a Grande Transformação da sociedade em mercado criou também uma iníqua injustiça ecológica. No afã de acumular, foram explorados de forma predatória bens e serviços da natureza, devastando inteiros ecossistemas, contaminando os solos, as águas, os ares e os alimentos, sem qualquer outra consideração ética, social ou sanitária.

Um projeto desta natureza, de acumulação ilimitada, não é suportado por um planeta limitado, pequeno, velho e doente. Eis que surgiu um problema sistêmico, do qual os economistas deste tipo de economia, raramente se referem: foram atingidos os limites fisico-químicos-ecológicos do planeta Terra. Tal fato dificulta senão impede a reprodução do sistema que precisa de uma Terra, repleta de “recursos” (bens e serviços ou ‘bondades’ na lingugem dos indígenas).

A continuar por esse rumo, poderemos experimentar, como já o estamos experimentando, reações violentas da Terra. Como é um Ente vivo que se autoregula, reage para manter seu equilíbrio afetado através de eventos extremos, terremotos, tsunamis, tufões e uma completa desregulação dos climas.

Essa Transformação, por sua lógica interna, está se tornando biocida, ecocida e geocida. Destrói sistematicamente as bases que sustentam a vida. A vida corre risco e a espécie humana pode, seja pelas armas de destruição em massa existentes seja pelo caos ecológico, desaparecer da face da Terra. Seria a consequência de nossa irresponsabilidade e da total falta de cuidado por tudo o que existe e vive.

Leonardo Boff escreveu Proteger a Terra-cuidar da vida: como escapar do fim do mundo, Record 2010.

 

 

19 Comentários leave one →
  1. 26/07/2014 22:06

    O sr. já leu o livro de Robert Kurz, “Dinheiro sem Valor”? Ele cita Polanyi, mas de maneira crítica as suas ideias. E fala da esquerda cooptada pelo discurso da ideologia iluminista presente no pensamento de Marx, sobretudo em O Capital.

  2. 26/07/2014 22:10

    In Deutsch: Geld ohne Wert.

  3. Manoel Mendonça permalink
    26/07/2014 22:19

    Sempre que leio a palavra “produtividade” vejo seres humanos sendo substituídos por máquinas, sem que haja nenhum planejamento para absorver os que ficarão fora do mercado de trabalho. O lucro é o que importa, e este é o único objetivo da Lei de mercado. Deixou claro um pensamento que é de muitos, só não enxerga estes avisos, aqueles que de tão cegos pela ganância, terminarão por destruir a vida humana do planeta terra.

  4. 27/07/2014 8:12

    Uma escola de economia que dê mais atenção a Hayek do que a Polanyi não é uma escola de economia: é um centro de desinformação.

  5. valmir zimmer permalink
    27/07/2014 11:04

    O “Mercado”como ambiência no qual os seres humanos realizam suas trocas. Os “rabinos”, alguns deles muito sábios se destacaram como grandes consultores.
    Segundo seus ensinamentos, existe algo que ainda não foi compreendido pela humanidade dominante: – “O comportamento moral à frente das atitudes”.

  6. 27/07/2014 18:22

    Suas palavras são uma paisagem descortinada e iluminada!

  7. 27/07/2014 18:39

    Alan Watts breaks down what’s wrong with the world (1971)

  8. 27/07/2014 18:48

    Republicou isso em engenhonetworke comentado:
    Alan Watts das criticas a Carl Jung entre ocidente e oriente. Ele fala em 1971, apesar do título do vídeo dizer em 1970, mas é o tempo da Califórnia da geração beatniks dos anos 50, geração hippies dos anos 60/70 e da contra cultura, ou em outros palavras, como escreveu e cantou por toda uma geração, Bob Dylan, “The answser my friend is blowing in the Wind, the anwser is blowing in the Wind”, nesse contexto, a geração “nerds” é um detalhe desse caldeirão de cultura do pós guerra até os nosso dias, e nesse ponto eu estou de acordo com o que diz Steve Jobs na entrevista de 1995, quando foi perguntado se ele era nerds ou hippie: “sempre fui hippie”.
    Alan Watts breaks down what’s wrong with the world (1971)

  9. Alfredo dos Santos Junior permalink
    27/07/2014 23:46

    Análise irretocável. Isto precisa ser repetido para que mais e mais pessoas tomem consciência da gravidade de nossa situação e da necessidade de que haja mudanças profundas,

  10. Fatima Freitas. permalink
    28/07/2014 16:37

    Tenho orgulho de ter um homem tão sábio no nosso país como Leonardo Boff. Ah, se o Brasil ouvisse nossos intelectuais de esquerda! Mais infelizmente estes experientes homens são esquecidos dos projetos e decisões do Brasil.

  11. Dilmara Andrade permalink
    28/07/2014 19:23

    genial, GRANDE Boff!

  12. Igor Stepanenko permalink
    29/07/2014 14:18

    Que bom seria se os filósofos pudessem ser “Reis” e os economistas simplesmente economistas e nada mais.

  13. 04/08/2014 19:29

    O FIM DA ECONOMIA-VALOR
    “Deixem que as máquinas tomem conta do trabalho e nascerá uma nova religião no mundo (OSHO)”.
    A produção chegará a zero valor, porque a robótica eliminou com o espaço/tempo e com a mais-valia (o trabalho excedente).
    Citei aquela frase do OSHO porque não só nascerá uma nova religião para a humanidade, mas sobrará muito tempo para a criatividade, para o amor, para cuidar da Natureza etc. Surgirá uma nova Civilização, uma nova Cultura…
    Teremos que aproveitar de bom o que a Modernidade deixou de positivo para o ser humano
    e destruiremos o projeto da Modernidade fechada e imanente. Aproveitaremos todas as descobertas e desenvolvimento com o advento da modernidade aberta ao Absoluto e à Transcendência, segundo Clodovis Boff em seu último livro: O Livro do Sentido, ed. Paulos, 1914.”Isto não será para hoje, nem amanhã, mas depois de amanhã” segundo F. Nietzsche.
    Estamos no alvorecer de uma linda humanidade !!!
    odécio mendes rocha

  14. 05/08/2014 10:47

    onde está meu comentário?

  15. 05/08/2014 12:23

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Mais um ótimo artigo do Leonardo Boff

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