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Promessas de outro tipo de Transformação(III)

08/08/2014

Para pormos em curso outro tipo de Grande Transformação que nos devolta a sociedade com mercado e elimine a deletéria sociedade unicamente de mercado, precisamos fazer algumas travessias improstergáveis. A maioria delas está em curso mas elas precisam ser reforçadas. Importa passar:

-do paradigma Império, vigente há seculos para o paradigma Comunidade da Terra;

-de uma sociedade industrialista que depreda os bens naturais e tensiona as relações sociais para uma uma sociedade de sustentação de toda a vida;

-da Terra tida como meio de produção e balcão de recursos sujeitos à venda e à exploração para a Terra como um Ente vivo, chamado Gaia, Pacha Mama ou Mãe Terra;

-da era tecnozoica que devastou grande parte da biosfera para a era ecozoica pela qual todos os saberes e atividades se ecologizam e juntas cooperam na salvaguarda da vida.

-da lógica da competição de se rege pelo ganha-perde e que opõem as pessoas para a lógica da cooperação do ganha-ganha que congrega e fortalece a solidariedade entre todos.

-do capital material sempre limitado e exaurível, para o capital espiritual e humano ilimitado feito de amor, solidariedade, respeito, compaixão e de uma confraternização como todos os seres da comunidade de vida;

-de uma sociedade antropocêntrica, separada da natureza, para uma sociedade biocentrada que se sente parte da natureza e busca ajustar seu comportamento à logica do processo cosmogênico que se caracteriza pela sinergia, pela interdependência de todos com todos e pela cooperação.

Se é perigosa a Grande Transformação da sociedade de mercado, mais promissora ainda é a Grande Transformação da consciência. Triunfa aquele conjunto de visões, valores e princípios que mais congregam pessoas e melhor projetam um horizonte de esperança para todos. Essa seguramente é a Grande Transformação das mentes e dos corações a que se refere a Carta da Terra. Esperamos que se consolide, ganhe mais e mais espaços de consciência com práticas alternativas até assumir a hegemonia da nossa história.

Há um documento acima citado a Carta da Terra por seu alto valor de inspiração e gerador de esperança. Ela é fruto de uma vasta consulta dos mais distintos setores das sociedades mundiais, desde os povos originários, das tradições religiosas e espirituais até de notáveis centros de pesquisa. Foi animada especialmente por Michail Gorbachev, Steven Rockfeller, o ex-primeiro ministro da Holanda Lubbers, Maurice Strong, sub-secretário da ONU e Mirian Vilela, brasileira que, desde o início coordena os trabalhos e dirige o Centro na Costa Rica. Eu memo faço parte do grupo e tenho colaborado na redação do documento final e de sua difusão por onde posso.

Depois de 8 anos de intensos trabalhos e de encontros frequentes nos vários continentes, surgiu um documento pequeno mas denso que incorpora o melhor da nova visão nascida das ciências da Terra e da vida, especialmente da cosmologia contemporânea. Ai se traçam princípios e se elaboram valores no arco de uma visão holística da ecologia, que podem efetivamente apontar um camino promissor para a humanidade presente e futura. Aprovado em 2001 foi assumido oficialmente em 2003 pela UNESCO como um dos materiais educativos mais inspiradores do novo milênio.

A Hidrelétrica Itaipu-Binacional, a maior do gênero no mundo, tomou a sério as propostas da Carta da Terra e seus dois diretores Jorge Samek e Nelton Friedrich conseguiram envolver 29 municípios que bordeiam o grande lago onde vive cerca de um milhão de pessoas. Deram início de fato a uma Grande Transformação. Lá se realiza efetivamente a sustentabilidade e se aplica o cuidado e a responsabilidade coletiva em todos os municípios e em todos os âmbitos, mostrando que, mesmo dentro da velha ordem, se pode gestar o novo porque as pessoas mesmas vivem já agora o que querem para os outros.

Se concretizarmos o sonho da Terra, esta não será mais condenada a ser para a maioria da humanidade um vale de lágrimas e uma via-sacra de padecimentos. Ela pode ser transformada numa montanha de bem-aventuranças, possíveis à nossa sofrida existência e uma pequena antecipação da transfiguração do Tabor.

Para que isso ocorra, não basta sonhar, mas importa praticar.

Leonardo Boff escreveu A opção-Terra: a salvação da Terra não cai do céu, Record 2009.

4 Comentários leave one →
  1. 09/08/2014 20:17

    Republicou isso em DVH Advogadose comentado:
    P RFLETIR

  2. 12/08/2014 9:55

    POR UM NOVO CONTRATO SOCIAL
    Comecemos com a família, que é a célula mater da sociedade.
    Teremos que modificar totalmente esta nossa família atual desagregada, esfacelada.
    Num futuro não muito longe, teremos que coadunar família e sociedade e vice-versa. Como não teremos mais provedores, a família futura conviverá com o “homem e a mulher debaixo do mesmo teto como dois polos de amor” (Rose Marie Muraro).
    Lancemos um novo olhar na abolição da propriedade privada.
    Thomas Mores, em seu livro Utopia, já falava disto. Karl Marx fez uma crítica ao Estado Burguês e a ex-URSS, China e Cuba não passaram de um Capitalismo modernizado de Estado, cujo patrão apenas mudou de nome – o Estado.
    Agora, iremos falar de abolição de propriedade privada atrelada à revolução eletrônica.
    A revolução eletrônica não veio somente desempregar trabalhadores, mas também expulsar os patrões, os proprietários etc.
    “Chegará um dia em que os proprietários desistirão de seus patrimônios, porque não lhes darão nenhum lucro”(vide meu artigo O reino da Liberdade, 2008).
    A produção chegará a zero valor; o trabalho abstrato e valor deixará de ser uma categoria fundante da sociedade; e em sua esteira de decomposição, morrerá sua manifestação que é o dinheiro.
    A exclusão do trabalho estrutural, nos países centrais, em breve chegará a 80%. Quem consumirá os produtos sem nenhuma substância?
    Teremos, portanto, pensarmos em um novo pacto social com urgência. Chamaremos todos os excluídos para construir uma nova sociedade.
    O Estado futuro, parecerá que não existirá Estado. Mas estará mais presente do que nunca pela normatividade de cidadão para cada cidadão.
    O Estado será virtual, descentralizado, subjetivado (o Estado seremos todos nós), administrado por páginas eletrônicas.
    Com a robótica tomando conta do trabalho, teremos tempo para formular uma nova Cultura, tempo para o amor, para a fraternidade, para o ócio criativo, para o lazer, para uma nova Religião mundial sincretizada etc.
    O trabalho e a riqueza só tomaram vulto após a primeira revolução industrial. Com a rapidez das máquinas ajudadas pelo homem, cresceu a ganância da riqueza material, cujo “progresso” desertificou a Natureza e destruiu o amor do homem ao seu semelhante.
    A Economia tem o seu nascedouro a partir daí. Cujo Estatuto foi elaborado no Iluminismo.
    A Economia, criou nome e virou Ciência.
    Hoje estamos assistindo os seus últimos suspiros. Está em seu estertor…
    odécio mendes rocha

    • 12/08/2014 16:38

      Mendes Rocha
      Concordo plenamente. Mas acho que devemos articular o contrato natural com o contrato social senão acaba destruindo o primeiro como está ocorrendo agora. E então não teremos salvação.
      lboff

  3. 31/08/2014 16:40

    Existem conceitos que são belos não apenas enquanto utopia, devendo sim nortear as ações humanas, embora em processo gradual e fisiológico. Permitindo adaptações consentidas e sinceras de cada cidadão neste sentido.
    Utopia, porém acreditar que tudo ocorra da noite para o dia.
    Qualquer tentativa de forçar ou acelerar tal processo será agressivo e achatará a sociedade em miséria intelectual, social, econômica, e cultural. Levando à grave crise que inevitavelmente redundará em caos.
    Necessário erguer os menos providos à altura dos mais desenvoltos. Igualar pelo mérito e pela prosperidade.
    Desestimular a infeliz ideia de que o mais carente assim o é por culpa apenas do sistema. Não estimular brigas, pois que são todos homens e possuem a mesma essência.
    Estimular sim a capacidade de cada um em se superar, ou estimular seus filhos à superarem e ajudarem seus pais, de forma criativa e proativa.
    Erguer pelo estímulo e não por colocar o cidadão na condição de vítima. Tal não se justifica, sendo a meu ver argumento decorrente de pobreza e imaturidade intelectual.
    Aceitar que sempre existirão aqueles menos capazes é sensatez, sendo que a negação deste fato natural torna-se apenas prepotência demagógica. Ajudar aos menos capazes sempre, porém sem inversão de valores e nunca à custo de onerar aquele que mais produz.
    Enquanto humanos somos todos iguais, em essência, e tal deve ser respeitado. Todos devem ser considerados como merecedores de dignidade. Mas sem cometer o erro de julgar da mesma forma as capacidades individuais. Aí o grande engano que leva boa parte dos sistemas de esquerda à sucumbir. O livre arbítrio de cada um, associado a condições individuais, que nos diferenciam, determinará sempre que alguns busquem mais do que outros. Que alguns se desenvolvam mais que outros. Mesmo sob mesmas condições de partida muitos se destacarão enquanto outros se desviarão. Tal é da natureza humana. Negar isto é negar a própria realidade. Tentar subverter tal natureza é se candidatar a ainda maiores desvios. Não podemos tapar o sol com a peneira em justa jornada pela igualdade.
    Temos que ser sensatos na busca pela dignidade de todos.
    Que possamos nos unir por uma nova era cheia de possibilidades para todos. Garantindo igualdade de chances para que todos prosperem, mas sem a cegueira improdutiva e demagógica que hoje empobrece muitos de nossos pensadores de esquerda.
    Não é o homem contra o homem, mas o homem pelo homem.
    Que o rico tenha menos ambições e seja mais solidário e que o pobre lute para melhorar a própria situação. Que haja sempre apoio dos governos. Que as ideologias sejam dinâmicas e não engessadas, atendendo igualmente a diferentes necessidades.
    O planeta está a beira de grande estreitamento de recursos. Hora chega em que devemos unir esforços.
    Devemos rejeitar aqueles que, estimulando brigas e dissenções, falam apenas dos direitos negados, mas ao contrário devemos sim apoiar aqueles que falam em deveres, pois que se cada um cumprir seu dever, deixando a triste e indigna condição de vítima ou algoz de lado, todos sairemos ganhando.
    O planeta agradece.

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