Skip to content

A política entre a utopia e a realidade

28/09/2014

Antes de abordarmos, suscintamente, a questão complexa da política faz-se mister distinguir, como já fizemos em artigo anterior, a política com P maiúsculo que é a busca comum do bem comum. Dela todos os cidadãos participam. Existe ainda a política com p minúsculo que consiste na política partidária, que como a palavra sugere, é parte e não o todo. São os agrupamentos políticos com ideologia e projeto (é o que mais nos falta no Brasil) que buscam o poder de estado para a partir dele e de seus aparelhos governar o município,os estados e a federação.

Importa ainda conscientizar o fato de que a política mais que qualquer outra realidade, participa da ambiguidade inerente à condição humana que nos faz simultaneamente dementes e sapientes, sim-bólicos e dia-bólicos, numa palavra, nos revela intrincadas de contradições. Por isso, por um lado, dizem os Papas a política é a mais alta forma do amor e, por outro, contém deformações lamentáveis como o patrimonialismo e a corrupção. Rubem Alves deixou escrito: “a política como missão é atividade das mais nobres; como profissão é a mais vil”. Dai viver a política em permanente crise. A nossa é de baixa intensidade, pois o povo não se sente representados pelos parlamentares, muitos deles vivendo de negociatas e de aproveitamento dos bens públicos. Mas ela pode sempre melhorar e transformar-se, segundo o ideario dos mestres Norberto Bobbio e Boaventura de Souza Santos, num valor universal a ser vivido em todas as instâncias, da família, dos sindicatos até no centro do poder do estado. O ideal é que cheguemos a uma democracia sem fim, um projeto sempre inacabado porque sempre perfectível.

Não secundamos um pragmatismo preguiçoso, sem sonhos e destituído de vontade de aperfeiçoamento. Infelizmente, esta é a tendência dominante, particularmente, no quadro da pós-modernidade para a qual qualquer coisa vale (anything goes) ou só vale o que está na moda. E está contaminando os jovens que se sentem desiudidos com a política.

Entretanto, uma pessoa ou uma sociedade que já não sonha e que não se orienta por utopias, escolheu o caminhou de sua decadência e de seu desaparecimento. Sem utopia não se alimenta a esperança. Sem esperança não há mais razões para viver e o desfecho fatal é a auto-diluição. A utopia desempenha função insubstituível, pois ela relativiza as realizações históricas concretas e mantém o processo sempre aberto a novas incorporações. Numa palavra, a utopia nos fazer andar. Jamais alcançaremos as estrelas. Mas que seriam nossas noites sem elas? São elas que espantam os fantasmas da escuridão e nos enchem de reverência face à majestade de um céu estrelado. Porque temos estrelas, não tememos a escuridão.

Precisamos, portanto, de uma utopia para a política, para que desempenhe a função pela qual existe: organizar a sociedade, montar um Estado, distribuir os poderes e realizar a busca comum do bem comum para todos, sem privilégios e discriminações. Isso vale tanto para a Política em P maiúsculo quanto a políitica em p minúsculo. Ambas precisam incorporar a ética do bem comum, da responsabilidade coletiva, da transparência e da retidão em todos os negócios onde estão envolvidos os poderes públicos sempre contra a corrupção.

Quando confrontamos a política realmente existente e a utopia da política notamos imensas contradições. Há um constrangimento poderoso que pesa sobre a política: o fato de a política hoje estar submetida à economia e ao mercado que se regem por uma feroz competição deixando totalmente à margem a cooperação e os valores da cooperação, fundamentais para uma convivência civilizada. Isso faz com que os valores não materiais, ligados à justiça social, à gratuidade, ao cuidado, à solidariedade, ao trato humano com as pessoas, à liberdade de expressão ocupam um lugar irrelevante quando não são feitos também mercadorias, colocadas na banca do mercado e exploradas por conhecidos populistas ou por todo um mercado de literatura de auto-ajuda que mais ilude que ilumina.

Ora, destes valores altamente positivos vive fundamenalmente a política que se entende como prática da ética social. Não é suficiente a denúncia das diferentes corrupções, deixando-as impunes.Importa  apresentar formas alternativas e legais de realizar os projetos políticos. Facilmente caímos no moralismo como se somente com a moral se resolvem todos os problemas

A Igreja Católica ajuda a criar uma ética pessoal, de retidão e integridade. Há políticos que incorporam esta ética (ética na política). Mas ela não elaborou suficientemente uma ética social e política que trabalha as instituições, os braços longos do poder que devem ser transparentes e um serviço público (ética da política). É nesse campo que ocorrem as perversões da política.

Especialmente grave é o financiamento privado das eleições que se traduz por troca de favores e implica alta corrupção.

No Brasil com tradição patrimonialista, quer dizer, o político facilmente considera seu o bem público e se apropia dele sem maiores escrúpulos. É roubo do pão que falta na mesa do pobre, é livro que o estudante não tem, é remédio inacessível ao enfermo necessitado.

A desejada reforma política que deve ser feita sem tardança reintroduziria a ética na política pois para Aristóteles, o fundador do discurso político,  política e ética eram ainda sinônimos.

12 Comentários leave one →
  1. 28/09/2014 22:37

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Leonardo Boff: A política entre a utopia e a realidade

  2. 28/09/2014 22:50

    Precisamos de mais gente com a utopia de Darcy Ribeiro!

  3. 29/09/2014 8:00

    …JOGAR A ÂNCORA NO INFINITO…
    Ser Analista ou não, médico, jogador,
    PADRE, POLÍTICO OU POLICIAL.
    Não é o mais importante.
    “SER, OU NÃO SER,”…TO BE OR NOT TO BE”…
    …Algo que preenche o sentido da existência….
    ESPINOSA, chamou o SER de:
    …DESEJO…
    Niethisky talvez concordasse que fosse,
    Uma espécie de “vontade de potência”.
    Acordar bem cedo com as galinhas e os GALOS GARNIZÉS,
    Bem motivado(a)s a entrar nas cantorias do galinheiro..
    Tudo de bom para vocês…
    Se não tivéssemos DESEJO conhecido das profundezas,
    Jamais seriamos isto, aquilo ou aquilo outro…
    E não faríamos, nada que presta, nesta breve vida boa.
    E O INFINITO ESTÁ DEBAIXO DOS NOSSOS FOGÕES.
    PICARETAS EM RISTE E VAMOS CORRER ATRÁS.
    Gisnaldo Amorim Pinto…
    BRASÍLIA..DF…
    28 de setembro de 2014.

  4. ANTONIO CARLOS permalink
    29/09/2014 10:51

    Não há mais o que comentar !!! Maravilhoso Texto

  5. 29/09/2014 10:52

    Gostaria de compartilhar com os leitores um artigo que eu escrevi com muito carinho, inspirado nas palavras do amigo Leonardo Boff.
    Nele falei sobre a DEMOCRACIA, a partir de uma perspectiva mais humana e espiritual.
    Mais uma vez agradeço ao senhor por compartilhar sua sabedoria conosco. Grande abraço!
    http://paralemdoagora.wordpress.com/2014/09/29/democracia-nao-e-isso-que-esta-ai/

  6. 29/09/2014 18:04

    Leonardo,

    Não tenho outra maneira de contactar o senhor para tirar esta dúvida. Desculpe se aqui não é o canal correto mas se possível responda-me (não se trata aqui dessas polêmicas vulgares, trata-se de uma dúvida a meu ver legítima, sendo eu um grande admirador seu): em lendo os programas do Eduardo Jorge e da Dilma, percebo que o primeiro mais se enquadra melhor nas questões ecológicas que o senhor defende, além de não deixar a desejar no lado social. Por que o senhor preferiu a atual presidente? Sua explicação será importante para mim. Grato.

  7. 30/09/2014 7:46

    Adenir Balmant
    A FACE OCULTA DA POLÍTICA
    Vi, li e ouvi o Padre Quevedo que escreveu
    A FACE OCULTA DA MENTE. A obra bus-
    ca esclarecer sobre as forças latentes e pa-
    tentes da mente humana. Parapsicologia é
    coisa paralela, ao lado e que vai junto. As
    coisas ocultas são assim. Vivemos no Bra-
    sil o sistema republicano da res (realidade)
    pública, mas forças religiosas, culturais, mi-
    litares, internacionais, etc seguem paralela-
    mente e ocultas no background e bastidores
    da vida política. Corruptos são feitos por cor-
    ruptores e sistemas de valores. Moral imoral.
    Origens iníquas. Fisiologismos e partidaris-
    mos. O poder emana do povo e em seu nome
    é representado ou exercido diretamente. A
    face de César não é a do Júlio, mas de Mar-
    co Antônio e de Augusto. Na Grécia Antiga
    formada por cidades-estados geralmente em
    Ilhas ou litorais não havia elemento marginal.
    Embora guerras, aventuras e lutas fizessem
    parte da vida grega em Esparta e Olímpia. Em
    Atenas a filosofia, o comércio e política eram
    prioridades. Já em Roma a plebe, os párias e
    desocupados invadiam as cidades juntamente
    com os Bárbaros. Na Grécia e Roma se forma-
    ram o sistema republicano construído com for-
    ça escrava e servil. A enganação, tripudiação
    e ocultamento continuam em nossos dias susten-
    tanto privilégios e corpos nédios que queimarão
    em lagos de fogo e enxofre apocalípticos para
    que se conheça a verdade e a vida. Abraços,adenir

  8. 30/09/2014 20:29

    FIM DA SOCIEDADE DE CONSUMO
    Na década de sessenta o movimento da contra-cultura Hippy, abalou o sistema, mas não conseguiu aniquilá-lo, devido não achar a verdadeira causa, não conseguindo, no entanto, cortar as verdadeiras raízes: o trabalho abstrato e valor que levaria o dinheiro a total desvalorização., como já está acontecendo a nível planetário.
    Hoje, com o advento da revolução eletrônica, chegamos à conclusão que poderemos destruir o capitalismo clássico e o marxismo tradicional.
    À medida que a robótica avança pelas nações do mundo, mais próximo estaremos perto da nova Utopia e uma práxis (uma política) que virá das redes sociais on-line.
    Não nos enganemos, a desenfreada busca do petróleo chegará a seu fim, as chaminés poluirá o mínimo do mínimo, porque teremos uma outra forma de energia, menos ecocida que o CO2; os carros transitarão mais ou menos 1/3 do seu total existente. Optaremos pelo transporte ferroviário (metrô, trens bala), pois este é mais societário e eliminará com o egoismo burguês de um carro para cada habitante.
    Confiaremos no avanço da Biotecnologia, cujo sonho é criar a Biosfera2. A primeira foi feita por Deus; a segunda Gênesis será feita pelos laboratórios humanos (vide Jeremy Rifikin ” XXI – O Século da Biotecnologia”. Caso não possa criar uma segunda Gênesis, pelo menos possa resolver os vários problemas ecológicos.
    Teremos que confiar no avanço desta tecnologia que no futuro invadirá todo o corpo humano, segundo D. Harway em seu livro sobre o Manifesto Cybor (Cyborg: abreviarura de organismo cibernético).
    Para terminar, citarei o magistral raciocínio de Clodovis Boff em seu livro O LIVRO DO SENTIDO, tomo I de sua trilogia, ed, Paulus, 2014, quando nos diz: O ecologismo culmina no Panteísmo. Panteismo quer dizer tudo é Deus. Ora, se tudo é Deus, eu sou deus também.
    A Ecologia tentanto destruir o antropocentrismo, colocou o homem como Deus. Não é hora de Baruch Spinoza, amigo Leonardo Boff.
    odécio mendes rocha

  9. Arlean Flávio Araújo de Souza permalink
    30/09/2014 20:40

    Genial……para mim és um sábio;;;;

  10. 14/10/2014 11:35

    Republicou isso em coração filosofante.

Trackbacks

  1. No penúltimo debate, Dilma parte para o ataque | MANHAS & MANHÃS
  2. A política entre a utopia e a realidade « Associação Rumos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: