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O Papa Francisco junto com os Movimentos Sociais Populares critica o capitalismo: João Pedro Stedile

04/11/2014

João Pedro Stédile é um dos principais líderes do Movimento dos Sem Terra que envolve  cerca de 1,5 milhão de membros que buscam terra para morar e trabalhar. São quais Abraãos que andam por muitas partes do Brasil buscando terras. O Brasil é grande, muito grande, mas  não parece  ser suficientemente grande para abrigar  esse contingente de mais de um milhão de pessoas com suas famílias e crianças. Isso porque nunca se fez uma reforma agrária. Quase todos os grandes países que deram certo, fizeram sua reforma agrária que lhes permitiu criar uma base ao desenvolvimento socialmente aceitável. O MST conseguiu muitas vitórias, criou assentamentos, até pequenos frigoríficos que com excelente qualidade de carne, vinhos muito bons e outros tantos produtos; fundou escolas, com uma pedadogiga adequada para sua situação, reconhecida no mundo inteiro e escolas de estudo com qualidade para preparar líderes e aprofundar criticamente as questões do Brasil para todos. O MST é supra-partidários e zela por sua “absoluta autonomia” face a qualquer tipo de poder; basta dizer que somente no segundo turno, abertamente apoiaram Dilma Rousseff. Essa autonomia lhe permite apoiar o projeto popular do PT mas simultaneamente lhe faz duras cobranças com referência à política agrária e continuamente exige uma reforma agrária integral sempre protelada.

É comovedor assistir às famosas “místicas” feitas no início de qualquer reunião do MST em qualquer parte do Brasil. Lá se celebra a luta, se contam as sagas vitoriosas, se exalta a vida e a resistência dos humildes e se invoca o nome do Deus, cujo filho, Jesus, foi um pobre, quem sabe “um sem terra” daquele tempo e que ousou dizer:”Felizes de vocês pobres, pois de voês é o Reino de Deus”.

João Pedro  articulou com outros o Encontro Mundial dos Movimentos Populares com o Papa em Roma  em fins de outubro. Nos debates, o Papa Francisco quis saber a partir da leitura que fazem de seus padecimentos, as causas que produzem miséria e morte em milhões de pessoas Não chamou cientistas sociais ou políticos, mas quis saber a partir da voz deles os causantes desta situação desumana que os obriga a se organizar para poder sobreviver e avançar nos seus direitos.  O Papa Francisco deu-lhes total apoio nas questões fundamentais da crítica ao capitalismo desumano que chegou a chamar de “diabo”, da justiça social, do acesso à terra contra a sua concentração e da legitimidade das ocupações feitas em função da vida e do trabalho. João Pedro deu uma longa entrevista no dia 31/10/2014 ao jornal Il fatto quotidiano que foi traduzida e reproduzida pelo Instituto Humanistas Unisinos  (IHU) dos jesuitas de São Leopoldo. Pelo fato de os meios de comunicação não terem dado muito espaço ao evento de tal relevância (é a primeira vez na história do Papado que um Papa que ama os pobres, reuniu-se com os movimentos sociais populares do mundo inteiro tão mal compreendidos e até difamados em suas demandas), publicamos aqui a entrevista de João Pedro Stedile. Vale a pena ler a história a partir do outro lado, daquele dos humilhados e ofendidos, quase nunca  escutado pelos que detém o poder: Lboff

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Eis a entrevista.

Como nasceu o encontro no Vaticano?

Tivemos a sorte de manter relações com os movimentos sociais da Argentina, amigos de Francisco, com os quais começamos a trabalhar no encontro mundial. Assim, reunimos 100 dirigentes populares de todo o mundo, sem confissões religiosas. A maioria não era católica. Um encontro muito proveitoso.

O senhor é de formação marxista. Qual a sua opinião sobre o papa e a iniciativa vaticana?

O papa deu uma grande contribuição, com um documento irrepreensível, mais à esquerda do que muitos de nós. Porque afirmou questões de princípio importantes como a reforma agrária, que não é só um problema econômico e político, mas também moral. De fato, ele condenou a grande propriedade. O importante é a simbologia: em 2.000 anos, nenhum papa jamais organizou uma reunião desse tipo com movimentos sociais.

O senhor foi um dos promotores dos Fóruns Sociais nascidos em Porto Alegre. Há uma substituição simbólica por parte do Vaticano em relação à esquerda?

Não, acho que Francisco teve a capacidade de se colocar corretamente diante dos grandes problemas do capitalismo atual como a guerra, a ecologia, o trabalho, a alimentação. E ele tem o mérito de ter iniciado um diálogo com os movimentos sociais. Eu não acho que há sobreposição, mas complementaridade. Em todo caso, assumo a autocrítica, como promotor do Fórum Social, do seu esgotamento e da sua incapacidade de criar uma assembleia mundial dos movimentos sociais. Do encontro com Francisco, nascem duas iniciativas: formar um espaço de diálogo permanente com o Vaticano e, independentemente da Igreja, mas aproveitando a reunião de Roma, construir no futuro um espaço internacional dos movimentos do mundo.

Para fazer o quê?

Para combater o capital financeiro, os bancos, as grandes multinacionais. Os “inimigos do povo” são esses. Como diria o papa, esse é o diabo. Mesmo que todos nós vivamos o inferno. Os pontos traçados do encontro de Roma são muito claros: a terra, para que os alimentos não sejam uma mercadoria, mas um direito; o direito de todos os povos de terem um território, seu próprio país, pense-se nos curdos de Kobane os nos palestinos; um teto digno para todos; o trabalho como direito inalienável.

Os Sem-Terra organizam cursos de formação sobre Gramsci e Rosa Luxemburgo. Nenhum problema para trabalhar com o Vaticano?

Nós vivemos uma crise epocal. As ideologias do segundo pós-guerra se aprofundaram. As pessoas não se sentem mais representadas. No entanto, essa crise também oferece oportunidades de mudança, desde que ninguém se apresente com a solução pronta no bolso. Será preciso um processo, um movimento de participação popular. E qualquer pessoa disposta a participar dele deve ser incluída.

No Brasil, vocês apoiaram a eleição de Dilma Rousseff. Qual é a sua opinião sobre o governo do PT e o seu futuro?

A autonomia, para nós, é um valor importante. O PT geriu o poder com uma linha de “neodesenvolvimentismo”, mais progressista do que o neoliberalismo, mas baseada em um pacto de conciliação entre grandes bancos, capital financeiro e setores sociais mais pobres. A operação de redistribuição da renda favoreceu a todos, mas principalmente os bancos. Agora, porém, esse pacto não funciona mais, as expectativas populares cresceram. O ensino universitário, por exemplo, integrou 15% da população estudantil, mas os 85% que ficaram de fora pressionam para entrar. Só que, para responder a essa demanda, seria preciso ao menos 10% do PIB, e, para levantar recursos desse tamanho, se romperia o pacto com as grandes empresas e os bancos.

Então?

O governo tem três caminhos: unir-se novamente à grande burguesia brasileira, como lhe pede o PMDB, construir um novo pacto social com os movimentos populares ou não escolher e abrir uma longa fase de crise. Nós queremos desempenhar um papel e, por isso, propomos um referendo popular para uma Assembleia Constituinte para a reforma da política. A força do povo não está no Parlamento.

Qual é a situação do Movimento dos Sem-Terra hoje?

A nossa ideia, no início, era a de realizar o sonho de todo agricultor do século XX: a terra para todos, bater o latifúndio. Mas o capitalismo mudou, a concentração da terra também significa concentração das tecnologias, da produção, das sementes. É inútil ocupar as terras se, depois, produzirem transgênicos. Não é mais suficiente repartir a terra, mas é preciso uma alimentação para todos, e uma alimentação sadia e de qualidade. Hoje visamos a uma reforma agrária integral, e a nossa luta diz respeito a todos. Por isso, é preciso uma ampla aliança com os operários, os consumidores e também com a Igreja. Somos aliados de qualquer pessoa que deseje a mudança.

 

6 Comentários leave one →
  1. Inês Ferreira permalink
    04/11/2014 16:57

    Fantástico que Papa Francisco tenha pensado e articulado este encontro!!!. É uma esperança para os pobres e para os que não deixam cair por terra os sonhos possíveis. O que o Papa proferiu em seu discurso neste encontro é para mexer com nossos brios!!! Temos um Papa, Habemus Papam!! ”Quando eu falo de terra, teto e trabalho, dizem que o papa é comunista”. ( … ) Este encontro de Movimentos Populares é um sinal, é um grande sinal: vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela! (…) Não é possível abordar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que unicamente tranquilizem e convertam os pobres em seres domesticados e inofensivos. Como é triste ver quando, por trás de supostas obras altruístas, se reduz o outro à passividade, se nega ele ou, pior, se escondem negócios e ambições pessoais: Jesus lhes chamaria de hipócritas. Como é lindo, ao contrário, quando vemos em movimento os Povos, sobretudo os seus membros mais pobres e os jovens. Então, sim, se sente o vento da promessa que aviva a esperança de um mundo melhor. Que esse vento se transforme em vendaval de esperança. Esse é o meu desejo. (…) “Nenhuma família sem casa, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos!!.”

  2. Marina Chaves permalink
    04/11/2014 20:04

    Afinal, o Papa Francisco foi enviado do céu.
    Quanto tempo fomos rejeitados, sem ter nenhum eco nos muros vaticanos. Mas… nosso grito dos excluídos chegou até a Casa Santa Marta. Quantos anos de luta nas CEBs, postos de lado por uma hierarquia que não era de pastores mas de monarcas e mais estava preocupada com suas regalias, do que com o serviço do povo e que não foi fiel à missao histórica recebida do Concílio, de Medellín, de tantos outros episódios proféticos da caminhada deste nosso continente.
    Isto me faz lembrar um livro que tive oportunidade de ler na década dos 60, escrito em italiano que falava de um Papa que haveria de vir de fora da Europa chamado… adivinhem… Francisco!!! É maravilhoso e verdadeiramente profético e creio que vale a pena todos lerem para ver como Deus visitou seu povo em caminhada para o Reino. Creio que é muito bom que todos conheçam este tesouro, pois é conhecer o que está fazendo nosso caro Bispo de Roma, previsto com 50 anos de antecedência!!
    Estive pesquisando na internet e pode ser retirado aquí: http://bit.ly/1EKyoDt e dá para ler em linha aqui: http://es.scribd.com/doc/245124662/Papa-Francesco-I
    Pena que está em italiano, mas acho que dá pra entender. Lhes recomendo muito os capítulos intitulados: Discorso di papa Francesco ai capitani d’impresa, Discorso di Papa Franceso ai comunisti. Afinal… tinha que demorar tanto para ver isto realizado!!!!???
    Será que nosso caro Leonardo não se anima a fazer um comentário desta maravilha? Ficaria muito grata.
    Viva nosso Pai Francisco!! Viva o Deus que nos liberta!

  3. Teresa Plens Manfredini permalink
    07/11/2014 17:58

    Gostaria, sinceramente, de acreditar que o MST age com independência! Minha família veio do campo e conheço bem a realidade rural… Hoje, só sobrevivem, no campo, os grandes produtores. Ninguém quer ficar no campo… Como disse, os mais ricos e mais articulados trabalham na terramcom implementos modernos financiados pelo,Estado,a juros irrisórios . Esse povo que está reivindicando terra, que faz blogs na cidade, como o ocorrido o tem , em SP são apenas bois de piranha, testas de ferro de outros que recebem as terras e as legalizam para si, na base da malandragem! Como disse, gostaria de acreditar…Acredito, na intenção do Papa, um dos melhores que já tivemos, não vê o mundo com o olhar da hipocrisia…mas, infelizmente,ele não conhece o governo que aqui se instalou…

    • 19/11/2014 2:33

      E pelo jeito a senhora brasileira conhece menos do que o papa argentino que hoje vive na Itália.
      Dizer que viveu no campo não significa conhecer a vida e os direitos dos camponeses.
      Seu discurso, palavras e raciocínio, são os mesmos dos latifundiários, que também viveram na zona rural..
      Francisco teria sempre um olhar diferente mesmo vivendo no mesmo local que o da senhora.

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