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Convergências nas novas democracias latinoamericanas

22/03/2015

        Nos dias 12, 13 e 14 de março do corrente ano o Ministério da Cultura da Argentina organizou um forum internacional sobre o tema Emancipação e Igualdade.

         Estes dois temas estão intimamente ligados, pois quanto maior foi a igualdade social tanto mais se pode realizar a autonomia de um país. Dada a profunda desigualdade que ainda vigora na América Latina, estas duas realidades não encontraram até o momento uma forma satisfatória de concretização. No Brasil se deram, nos últimos anos, passos importantes, pois passamos do terceiro país mais desigual do mundo para o 15º. Mesmo assim persiste um fosso considerável que estigmatiza nossa sociedade.

         A este forum acorreram pessoas de toda a América Latina e algumas celebridades mundiais como Noam Chomsky dos EEU, Gianni Vattimo, filósofo italiano, Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, Jean-Luc Mélenchon. da França, Marisa Matias, de Portugual, representantes da nova agremiação política espanhola Podemos e um representante do novo governo da Grécia, conturbada por grave crise economico-social e por fim estava presente também o bispo Marcelo Sánchez Sorondo, chanceler da Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, representando o Papa Francisco de Roma.

         Da Améria Latina estavam representantes do pensamento progressista e das novas democracias de base popular que vicejaram após as ditaduras militares. Do Brasil apontava Emir Sader e este que escreve estas linhas.

         Notável foi a presença de Gabriela Montaño Viaña, presidente do Senado no governo de Evo Morales Ayma. Testemunhou um fato inédito, de ressonância mundial: mais de 50% do Parlamento boliviano é constituído por mulheres. Seguramente darão um cunho singular à política, pois a forma de as mulheres exercerem o poder vai na linha do cuidado da coisa pública e de dar centralidade às questões que têm a ver com a vida em geral e com a vida cotidiana das pessoas que mais devem lutar para atingir níveis mínimos de participação e de dignidade social.

         Cada representante relatava a situação das novas democracias, cuja base social não repousa mais nas classes que detinham tradicionalmente o poder, o ter, o saber e a comunicação social, mas na vasta rede de movimentos sociais surgidos ao largo de toda a América Latina, seja como resistência aos regimes autoritários dos militares, seja como caminhada própria, levantando a bandeira de um novo tipo de democraia que vá além da mera representanção e delegação e que busca formas mais avançadas de participação, a partir de baixo.

         A reunião se deu no belíssimo teatro Cervantes no qual cabiam cerca de 500 pessoas. Mas como a acorrência, especialmente de jovens, ultrapassava os espaços de teatro, dois grandes telões exteriores permitiam que centenas pudessem acompanhar os debates internos. Estes jovens criaram uma atmosfera de entusiasmo, o que revelou forte conscientização política, no sentido de pensar o destino dos diferentes países face aos desafios que nos vêm da globalização da macroeconomia neoliberal, da rearticulação dos estratos mais conservadores da sociedade que procuram voltar ao poder que pelas eleições perderam e da necessária vontade política de projetar um projeto nacional de autonomia e de superação das desigualdades sociais, mas sempre aberto à nova fase da humanidade, a fase das comunicações globais.

         Dois temas expressaram a convergência dos participantes: a urgente solidariedade fraternal entre os vários povos e países. Sem essa solidariedade, vinda de baixo, dificilmente se poderá fazer frente às pressões do sistema econômico imperante, mais de cunho especulativo que produtivo e dos grupos interessados em manter o status quo que os beneficiava no passado e que retrocedeu, em parte, graças à presença de novos sujeitos históricos, vindos dos movimentos sociais que sustentam as novas democracias.

         O segundo tema recorrente era o da Patria Grande, o sonho dos libertadores Bolivar e San Martin, entre outros. Para nós brasileiros esse ponto passa quase desapercebido. Mas para os demais latino-americanos trata-se de um projeto nunca abandonado e sempre de novo ressuscitado por diferentes líderes políticos de cariz libertário. É importante que o Brasil se associe a este projeto que ganhou expressão pela Tele Sur, pela ALBA e pelo Banco Sur. Finalmente pertencemos à essa totalidade latinoamericana que deverá se interconectar mais e mais para darmos um passo rumo a um Continente que tem algo a contribuir no processo de planetização da humanidade. Somos, como Continente, o mais galardoado em termos ecológicos e portador de uma riqueza natural que faz falta à humanidade.

         Cabe enfatizar o sentido ético e humanístico dado às reflexões políticas. Como, juntos, podemos ser mais fraternos e solidários, especialmente, com aqueles países que mais lutam para superar a pobreza e a desigualdade e por fim mais cuidadores da riqueza natural e cultural que nos foi confiada.

Leonardo Boff escreveu Que Brasil queremos depois de 500 anos, Vozes 2000.

 

                                            

7 Comentários leave one →
  1. Tiago Herrera permalink
    22/03/2015 11:49

    O problema da esquerda é que ela almeja e promete o impossível destruindo o possível.
    Podem quebrar tudo que depois nós da direita reconstruímos.

    • marcio fernandes permalink
      22/03/2015 21:56

      perdeu uma grande oportunidade seu tiago herrera

  2. Mario Real permalink
    22/03/2015 17:26

    Frei Leonardo. É importante reiterar sempre que, para atingir este necessário equilíbrio tem que se tratar com lisura a coisa pública, e não assalta-la como se fez e faz aqui no Brasil.
    Paz e Bem

  3. eloy permalink
    22/03/2015 18:19

    Ética para justifticar matar todos que são contra o comunismo? A idéia de matar todos que trabalham, se esforçam, para brindar os que nao trabalham, roubam…e nao produzem um única utilidade para a vida senão o pensamento crítico destrutivo e o alimento da revolução e morte….parece que confronta com o instinto de vida! 0 Eden…nao existe!

  4. 24/03/2015 16:06

    Não acredito que governos autoritários ( Venezuela, Colombia……Brasil ) e muito agarrados ao poder….. até fazendo uso da força, da mentira…. queiram realmente uma América
    Latina unida…como afirmam os ditos ” intelectuais orgânicos “…induzindo o povo,” idiotas úteis” ,( como classifica: Gramsci,) a acreitar que enquanto alguns só recebem, sem haver a preocupação dos governantes em promover, libertar as pessoas da dependência, da miséria física,moral e intelectual…. aconteça essa transformação…. continuará só no discurso e ainda : a manutenção eterna desses governos populistas no poder….. Olhemos o nosso Brasil…. esse governo, conseguiu dividir, classificar a população ( golpistas, elites, burgueses………) gerando um certo ódio…mentiu… perdendo toda a credibilidade….mas esquecem, que são os trabalhadores dessas divisões criadas por esse governo, que sustentam e pagam impostos para manter os projetos sociais…..que os garante no poder… ENQUANTO as necissidades básicas da população na SAÚDE,EDUCAÇÃO, SEGURAÇA, HABITAÇÃO…..não são atendidas….

  5. 25/03/2015 23:17

    Republicou isso em andradereginaldo.

  6. 27/03/2015 14:24

    Republicou isso em Alejandro Valle Baeza.

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