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O PT hoje: uma triste nulidade política nas palavras de Fábio Konder Komparato

10/04/2015

FABIO KONDER COMPARATO é um dos mais eminente juristas brasileiros e pensador da realidade social, especialmente na perspectiva ético-política e na crítcia à Civilização Capitalista. O artigo que publicamos, aparecido em CARTA CAPITAL no dia 10/4/2015 quer trazer aos leitores elementos para um juizo crítico e bem fundado da atual crise brasileira e o papel do Partido dos Trabalhadores nela. O artigo diz as verdades com o termos justos e moderados mas sempre buscando o verdadeiro e justo: Lboff

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Uma triste nulidade

É impossível decifrar os objetivos atuais do Partido dos Trabalhadores

Hipócrates, o Pai da Medicina, denominou krisis o momento preciso em que o olhar experiente do médico observa uma mudança súbita no estado do paciente, o instante em que se declaram nitidamente os sintomas da moléstia, ensejando o diagnóstico e o prognóstico.

Seremos capazes de fazer um juízo hipocrático da recente piora apresentada no estado mórbido, no qual se encontra, há muito tempo, a vida política brasileira? Creio que o diagnóstico deve ser feito em razão da realidade substancial de nossa sociedade, caracterizada pela estrutura de poder e pela mentalidade coletiva predominante.

No Brasil, desde os tempos coloniais, o poder supremo sempre pertenceu a dois grupos intimamente associados: os potentados privados e os grandes agentes estatais. Cada um deles exerce um poder ao mesmo tempo, em seu próprio benefício e complementar ao do outro. Os agentes do Estado dispõem da competência oficial de mando. Os potentados privados, da dominação econômica, agora acrescida do poder ideológico, com base no controle dos principais veículos de comunicação de massa.

Trata-se da essência do regime capitalista, pois, como bem advertiu o grande historiador francês Fernand Braudel, “o capitalismo só triunfa quando se alia ao Estado; quando é o Estado”.

Quanto à mentalidade coletiva predominante, isso é, o conjunto das convicções e preferências valorativas que influenciam decisivamente o comportamento social, ela foi entre nós moldada por quase quatro séculos de escravidão legal.

Essa herança maldita acarretou, em ambos os grupos soberanos acima nomeados, um status de completa irresponsabilidade política, pois desde sempre eles se acharam, tais como os senhores de escravos, superiores à lei e isentos de todo controle. De onde o fato de a corrupção, nas altas esferas do poder público e no setor paraestatal, ter sido até agora tacitamente aceita como costume consolidado e irreformável.

Quanto às classes pobres, o longo passado escravocrata nelas inculcou uma atitude de permanente submissão. O pobre não quer exercer poder algum, prefere, antes, ser bem tratado pelos poderosos. Na verdade, o conjunto dos pobres jamais teve consciência dos seus direitos, por eles confundidos com favores recebidos dos que mandam.

No tocante à classe média, seus integrantes procuram em regra atuar como clientes dos grandes empresários, proclamando-se, a todo o tempo, defensores da lei e da ordem. Eles sempre desprezaram a classe pobre, ou temeram sua ascensão na escala social.

Para completar esse triste quadro, e seguindo a velha prática do mundo capitalista, nossos grupos dominantes aqui forjaram, desde o início, uma duplicidade de ordenamentos jurídicos: o oficial e o real. No Brasil colônia, as ordenações do rei de Portugal mereciam respeito, mas não obediência. O direito efetivo era o que os administradores oriundos da metrópole combinavam com os senhores de engenho e grandes fazendeiros. A partir da Independência, as Constituições aqui promulgadas seguiram o modelo dos países culturalmente adiantados, para melhor dissimular a primitiva realidade oligárquica, vigorante na prática.

A Constituição de 1988 não faz exceção à regra. Ela declara solenemente, logo em seu primeiro artigo, que “todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos, ou diretamente”. Na prática, os ditos representantes do povo são eleitos, em sua quase totalidade, mediante financiamento empresarial. E o Congresso Nacional dispõe de competência exclusiva para “autorizar referendo e convocar plebiscito” (art. 49, inciso XV). Ou seja, o povo não exerce poder algum, nem direta nem indiretamente. Ele é simples figurante no teatro político.

Acontece que no centro da organização oficial do Estado brasileiro acha-se o seu chefe, isto é, o presidente da República. É de sua habilidade pessoal que depende o funcionamento, sem sobressaltos, desse sistema político de dupla face. Cabe-lhe manter, sob a aparência de respeito à Constituição e às leis, um bom relacionamento com os soberanos de fato, sem esquecer de agradar ao “povão”, dispensando-lhe módicas benesses.

Foi o que fez brilhantemente Lula durante oito anos. E é o que Dilma, por patente inabilidade, revelou-se incapaz de compreender e realizar, numa fase de prolongado desfalecimento da economia, no Brasil e no mundo. Ela entrou em choque com o Congresso Nacional, desconsiderou o Supremo Tribunal Federal (até hoje não nomeou o sucessor do Ministro Joaquim Barbosa, aposentado em 31 de julho de 2014) e acabou por se indispor com o empresariado, a baixa classe média e até a classe pobre, ao implementar a política de ajuste fiscal.

E o PT no bojo dessa crise?

Ele revelou-se uma triste nulidade política, decepcionando todos os que, como eu, se entusiasmaram com a sua fundação, em 1980. A nulidade é bem demonstrada pela leitura de seu atual estatuto, aprovado em 2013. Nele, por incrível que pareça, não há uma só palavra, ainda que de simples retórica, sobre os objetivos do partido. Todo o seu conteúdo diz respeito à organização interna, à qual, aliás, pode ser adotada por qualquer outra legenda.

Se esse diagnóstico é acertado, o que se há de fazer não é simplesmente aliviar a crise, mas atacar as causas profundas da moléstia.

Para tanto, a via cirúrgica, do tipo impeachment da presidenta ou golpe militar, não só é ineficaz como deletéria.

O que nos compete é iniciar desde logo a terapêutica adequada, consistente em quebrar a soberania oligárquica e reformar nossa mentalidade coletiva. Tudo à luz dos princípios da República (supremacia do bem comum do povo sobre os interesses particulares), da democracia autêntica (soberania do povo, fundada em crescente igualdade social), e do Estado de Direito, com o controle institucional de todos os poderes, inclusive o do povo soberano.

Bem sei que se trata de caminho longo e difícil. Não se pode esquecer que na vida política o essencial é fixar um objetivo claro para o bem da comunidade, e lutar por ele. Não é deixar as coisas como estão, para ver como ficam.

Fábio Konder Comparato é jurista e professor emérito da USP

 

26 Comentários leave one →
  1. José Daniel permalink
    10/04/2015 13:31

    Bom texto, e me reforçou o pensamento de que PT, PMDB, PSDB, PSOL… são nomes diferentes para a mesma coisa, criar uma estrutura para operar a coisa pública em benefício próprio.

    Basta observar as fortunas particulates dos integrantes da base aliada quando no poder.

    Quando a população despir camisas de partidos políticos e iniciar críticas consistentes e construtivas ao governo aí sim teremos um estado mais justos e com menos massacres entre as classes sociais.

    • Ricardo Loureiro Junger permalink
      17/04/2015 21:10

      “Quando a população despir camisas de partidos políticos e iniciar críticas consistentes e construtivas ao governo aí sim teremos um estado mais justos e com menos massacres entre as classes sociais.”José,poderia me explicar o q exatamente isso significa?

  2. ADRIANO BERAO COSTA permalink
    10/04/2015 14:22

    Identifiquei a seguinte estratégia recente dos sequestradores do PT: afinaram o discurso de que possibilitaram o escancaramento da corrupção, fazendo com com a sociedade confirmasse o que já sabia das práticas políticas historicamente engendradas por partidos tradicionais mancomunados com empresários corruptos, legislativo conivente e justiça complacente e que agora, os que sempre mamaram nas tetas do estado, diante da possibilidade de perderem a mamata e verem seu perverso sistema desmontado, rebelam-se contra o PT – “grande herói” – e reclamam sua saída antecipada do poder administrativo da República.
    Roubaram para comprar um megafone, então? Viraram vítimas agora? Não é possível que lutamos tanto à custa de vidas e amores para levar ao poder estes traidores de sonhos e destinos. Vamos resgatar nossa dignidade e, se possível, o PT, que foi criminosamente sequestrado. ÀS RUAS DIA 12. ÀS RUAS!!!

  3. 10/04/2015 15:09

    Começou bem mas encerrou com sugestão flutuante em incógnitas. Como quebrar a “soberania oligárquica” ? E como seria reformar a nossa mentalidade coletiva?

    • Ricardo Loureiro Junger permalink
      17/04/2015 21:14

      Será que vamos ter que refletir ou esperar pacientemente o próximo artigo Palmira?

  4. Roberto Belleza permalink
    10/04/2015 15:23

    Meu querido irmão Leonardo (saudades…): não há o que acrescentar ao lúcido texto de Fábio Konder Comparato. Seria uma audácia de minha parte. Enfatizo apenas a dor que também sinto pela incomensurável decepção que os fatos nos provocam. Transcrevo: (o PT) “revelou-se uma triste nulidade política, decepcionando todos os que, como eu, se entusiasmaram com a sua fundação, em 1980.”
    Meu abraço (e de todos aqui em casa).
    Roberto Belleza.

    • Ricardo Loureiro Junger permalink
      17/04/2015 22:28

      “revelou-se uma triste nulidade política, decepcionando todos os que, como eu, se entusiasmaram com a sua fundação, em 1980.” Desculpe a intromissão,mas eu nunca me impressionei com o PT, nunca quis votar no Lula sequer, sim, em lugar de um candidato da então direita, mas o único que mobilizou as minhas entranhas foi o Leonel Brizola e o Darcy Ribeiro, sem esquecer do Oscar Niemeyer ,juntos naquele consagrado “sonho do Brizola”…Os Colégios de Tempo Integral, os CTIs como eu os chamo atualmente.O governo Lula me impressionou, lutei por ele, ainda o faço, lembro-me de uma pessoa com um olhar triste angustioso,quase morta a chama de uma esperança moribunda…dizer, se o Lula não conseguir, acabou…Fico pensando nestas pessoas confiantes no PT desde tanto tempo, após um tempo duro e a grande alegria e hoje que dor devem sentir…Ou o que se passa em suas mentes e corações? Quanto nonsensse devem ter, quanta luta para defender , defender o que exatamente, compreende? Parece-me ao pensar nisso, que o PT é muito irresponsável! E o país colhe o que o PT plantou (e o próprio plantio, histórico, que confiáramos mudar nas mãos do pt) e continua negligenciando em seu plantio, silente, num silêncio comovedor e constrangedor….Cúmplice. As palavras do Fábio Konder, fazer a vontade da casa grande e “mudanças cosméticas”(Frei Beto) na área social, ou como parece-me ter sido dito acho que pelo André Singer sobre o Lulismo, sendo neoliberalismo integrado as “mudanças cosméticas” na área social, sei que muitos entraves neoliberais foram retirados, que a Dilma tentou e conseguiu fazer diminuir os juros…Que tentou o PNL(Plano Nacional de Logística),um sonho…Mas o setor privado não vai, o estatal não se faz, não há coragem mais, o sequestro é da embaixadora denominada humildade e razão e a coragem, junto a tempo foi-se embora a verdade…A Dilma disse em pronunciamento que construiu muitos Colégios de Tempo Integral, e posteriormente já na campanha, prometeu então que os ia fazer…aquele percentual do Campo de Libra, o Heródoto estava na Record News com o Ildo Sauer, e ele saiu após o pronunciamento, quando ia ter lugar um espaço para análise, estranhei aquilo, mas aliás nisso o petróleo de xisto já estava vindo célere, o tesouro do pré-sal como antigamente gostava de soar em minhas palavras, o “sonho do pt”…o sonho do Getúlio e agora o meu sonho!que se desfaz no xisto, suportar as desavenças climáticas do hidrocarboneto para nada, ainda bem que o FHC vendeu uma parte na Bolsa de NY…Enfim, que tolos todos nós brasileiros, volta a razão as micro-destilarias da biomassa, a energia do sol, a Petrobras até mesmo do álcool!…Da Petroquímica!…pois me parece, que eu esteja enganado, as estruturas que o nosso pt construiu , o grande Lula(o Celso Amorim!mt querido!)”profeta do diálogo”(), que quando eu duvidava ia ouvir sua voz no blog do Planalto…então hoje pareceu-me e que não tenha sido, cosméticas construções que o tempo demonstrem ser feitas sobre areia…Palavras tristes, acho que talvez esteja no tempo de nos embalar, quem sabe, na rede ética da Marina…Enquanto isso o tempo do homem no campo que li, tocava diariamente seu berrante nos entardeceres chamando o Lula pelo Brasil, deve perguntar-se intrigado com o seu berrante na mão indecisa, o que devo fazer?…

  5. aécio martins permalink
    10/04/2015 15:54

    Parabéns! Excelente síntese da história política do país e seu atual cenário.

  6. Paulo Luiz Martins permalink
    10/04/2015 16:23

    Infelizmente! De expulsões em expulsões! De concessões em concessões, o PT virou isso! Quem não se lembra dos antigos núcleos políticos do PT? Pois é! Estavam “atrapalhando muito” os eleitos de 1988. Por isso foram extintos. Agora está fazendo falta aquela “capilaridade” que tanto serviu para a construção do partido e deu vida ao projeto. Foram inúmeras as mãos e as pernas que se submeteram ao soerguimento do nosso ideal. Senti a mesma dor e asco que a Heloísa Helena e outros provavelmente sentiram, quando Lula em seu arroubo não pouco comum de soberba, pronunciou: “Quando EU construí esse partido…” Deu no que deu!

  7. Marcelo Leal Couto permalink
    10/04/2015 17:26

    Um diagnóstico perfeito de tudo que é e está acontecendo em nosso país.

  8. ADRIANO BERAO COSTA permalink
    10/04/2015 17:52

    ESTRUTURA DE PODER
    Tenho uma proposta a fazer.
    Nela não tem espaço prá Dilma.
    Por renúncia ou impedimento, assumiria o Michel Temer.
    Calma. Não há nada contra ele. Mas o PMDB tá atolado até as guela. Não nos serve.
    Ele assume (sem o PMDB) e o Ministério Público passaria a administrar o executivo. Exoneraria-se os atuais ministros e cargos até o quarto e quinto escalão. Na falta de quadros um concurso público de emergência supriria esta carência de forma a não paralisar o país administrativamente. Desta forma não haveria ruptura constitucional.
    Ao longo dos próximos 37 meses faria-se uma discussão nacional sobre uma reforma política, em parceria com o atual Congresso. Sei, é uma bosta. Mas cessariam as prerrogativas legislativas. Todo o debate seria sobre a reforma política. Penso que deveriam agregar-se ao debate outros setores sociais com poder idêntico aos parlamentares de forma a oxigenar e diluir vícios e atuais comprometimentos.
    Ao final a reforma seria submetida à sociedade por meio de um plebiscito ou referendo.
    Segue-se as investigações sobre desvios de dinheiro e o julgamento dos envolvidos pelo STF.
    Aprovada a reforma, convocaria-se eleições gerais. Para isso os mandatos dos Prefeitos e Vereadores seriam prorrogados por mais dois anos para que as eleições coincidissem.

    Daí começa tudo de uma espécie de 0.

    Vamos propor isso e tentar acertar o alvo ao invés de atirar para todos os lados?

    Quem sabe encontramos juntos uma alternativa administrativa que prescindia da figura presidencial. Nao é um parlamentarismo nem muito menos ad celulas terroristas clássicas e contemporâneas. Os próprios partidos e o sistema partidário seria extinto e uma nova forma, mais orgânica e coletiva, os substituiriam.

    Pensar é nossa qualidade mais pteciosa como especie e milenios temos pela frente.

    Viva o Brasil!
    Viva o Planeta Terra!

  9. ADRIANO BERAO COSTA permalink
    10/04/2015 17:54

    ESTÉTICA MIDIÁTICA E TORPOR IDEOLÓGICO

    …E 13 ANOS SE PASSARAM…

    Tenho debatido com Marco Magioli e com Leonardo Boff sobre a conjuntura política. Para eles minhas palavras soam como uma “cantilena”.
    Porém, o método da “cantilena” parece tê-los contaminado, afinal por várias vezes me respondem com o argumento de que os reajustes do salário mínimo, elevando-o a patamares nunca antes alcançados neste país, são a grande obra da coalizão que vem governando o Brasil há 13 anos. E mais, o referenciam ao dólar, moeda calibrada pela energia, pelo suor e pelo sangue de uma MAIORIA oprimida por necessidades impostas – psíquica e corporalmente – por mercados que não consideram o indivíduo e o planeta.
    Sinceramente não estou preocupado com este salário mínimo de 788 Reais por sabê-lo inconstitucional e muito aquém dos 2.975,55 (valores de dezembro) do DIEESE, Departamento Intersindical de Economia e Estatística.
    Estou preocupado, isto sim, com nossas gerações atuais e futuras.

    É da “natureza” do dinheiro – ingrediente do Capital – circular. Não por engano os economistas referem-se a ele como “corrente”, no sentido de percurso, via, força de movimento. E não considero que ele – o Dinheiro – possua ideologia e tão pouco se submeta a qualquer uma neste seu movimento. É inútil controlar seu fluxo.
    As ideologias têm a ver, isto sim, com a velocidade deste sistema, com sua direção, sentido e objetivos. É ai que minha “cantilena” serve de alerta e crítica.
    Um salário mínimo de 788 Reais subverte o significado de “corrente” e como no português esta palavra tem dois sentidos, acaba por aprisionar toda a Nação num calabouço de migalhas.
    Menos de 5% do dinheiro dos capitais envolvidos em empreendimentos públicos e privados destina-se à remuneração da Força de Trabalho.
    Isto é a contabilização de uma brutal concentração de renda pública e privada e o capital se estatiza e se oligopoliza, via de regra associados, na exploração, na corrupção e na acumulação. Pensadores, legisladores e operadores políticos de esquerda sabem disso.
    Afirmo que é preciso fazer o dinheiro circular entre a população de forma caudalosa e não a conta-gotas, distribuindo migalhas.
    Nós estamos fazendo com o fluxo do dinheiro o mesmo que fizemos com nossos arroios nas nossas cidades: os transformamos em valões assoreados e cheio de ligações clandestinas, quando não, represados para fins privados ou de políticas de drenagem equivocadas.
    Tu podes dar vales, tickets, pensões, benefícios assistenciais ou qualquer outro crédito direto ou indireto e na verdade estarás dando continuidade e alimentando, com precisão cada vez mais cirúrgica, o processo de concentração e acumulação de capitais.
    As pessoas precisam se alimentar, vestir-se, estudar, trabalhar, ter moradia, circular, cuidarem de si próprias e dos seus, se sentirem seguras e saudáveis e se divertir. Viver! Isto é fato.

    Mas afinal, quantos e quais grupos de alimentação existem no país? Quantos e quais fabricantes de tratores, de lápis, de bacias de plástico?

    Este é o nosso inimigo: a concentração que induz à acumulação e à exclusão!

    Quantos e quais fabricantes de automóveis?
    Quantos e quais fabricantes de remédios? De brinquedos?
    Quantos e quais fabricantes de smarthphones? De telhas? De canos? Fios elétricos?
    Quantas franquias nacionais estão entre as 50 maiores do mundo?
    Quantas famílias ou grupo de famílias ou bairros de produção rural ou cooperativas populares ou agro-indústrias populares operam no país?
    Quantos fabricantes de aviões?
    Quantos desenvolvedores e fabricantes de células fotovoltáicas?
    Quantos e quais fabricantes de cimento e aço? De plástico? De fibra de carbono?
    Quantas construtoras e não empreiteiras mancomunadas com os eventualistas do poder?
    Quantos filósofos, cientistas sociais, dentistas e psicanalistas?
    Quantos professores, arquitetos, urbanistas, geólogos, biólogos e engenheiros ambientais?
    Quem olha para a indústria virtual, do turismo e do entretenimento? Atividades limpas que podem ser uma saída ambiental, ao que afinal TUDO está submetido e condicionado, embora eu considere que os caminhos para a inovação estejam despavimentados no Brasil por inoperância dos operadores econômicos do Estado.
    Quais destes setores e segmentos produtivos e genuinamente nacionais recebem apoio dos órgãos de financiamento e fomento públicos e que realmente necessitam e não se prestam ao pagamento de propinas ou não são exigidos burocraticamente por garantias e avais discriminatórios?

    O PAÍS SE ENTOPE DE QUINQUILHARIAS E TECNOLOGIAS IMPORTADAS E ENGASGA-SE COM SUA CRIATIVIDADE, INICIATIVA E INSIGHTS. A INDÚSTRIA SUCUMBE, OS EMPREGOS EVAPORAM-SE, OS SERVIÇOS SE DESQUALIFICAM E A AGRO-INDÚSTRIA SE OLIGOPOLIZA E FICAMOS REFÉNS DE COMMODITIES.
    ATÉ QUANDO VAMOS NOS AUTOFAGIR EM DÉFICITS PÚBLICOS E ALIMENTAR OS PARASITAS INTERNOS E EXTERNOS COM SUPERÁVITS PRIMÁRIOS?

    Agora estamos em meio a um Ajuste Fiscal, leia-se o PAGAMENTO DAS ELEIÇÕES. E esta conta não aparecerá na prestação de contas à Justiça Eleitoral. E vejam, não é uma conta partidária de Caixa2, é uma conta POLÍTICA e perversa.

    Nossas áreas urbanas, no que diz respeito à habitação, circulação, saneamento básico e qualidade de obras de engenharia são o quadro do caos e da falta de qualidade. Pelo mesmo motivo falo da saúde e da segurança, envolvendo a prevenção, o sistema prisional e as ações de segurança pública.
    Quanto à educação me parece haver um esforço com cursos técnicos, acesso às universidades e à pós-graduações e mestrados. Mas o ensino infantil e fundamental são o quadro da dor, o que acaba por não alicerçar as medidas tomadas nesta área.
    É neste sentido que afirmo: nossa “sociedade” está maquiada e sonolenta, apaziguada por um consumo inconsequente e gerador de desperdício. Ao mesmo tempo, um mínimo de carência material faz surgir em cérebros ocos saudades de regimes autoritários que ofereciam pequenas doses de conforto e ascensão social em troca de silêncio, ordem, obediência e conformidade. A repressão fez escola.

    Por tudo isso considero os pensadores e tomadores de decisão do governo não producentes e desfocados de princípios populares e de base.
    Se o sistema político é indutor de “coalizões” frankstenianas e se for isto que nos leva à excrescências programáticas, que se mude o sistema e não nos escondamos atrás de índices e porcentagens que na verdade mascaram a incapacidade ou a falta de coragem de formularmos políticas genuinamente populares e distributivas. Esta, afinal, considero a função primordial da política parlamentar, jurídica e administrativa, cujo caldo cultural deve ser o sistema participativo universal, sincera e honestamente convocado e com poder deliberativo, escopo de uma Esfera Pública Não-Estatal.

    Doei mais de 35 anos da minha vida para levar ao poder uma ideia generosa e revolucionária porque, desde que me reconheço como um ser político, sonho com outro mundo e acredito que outro mundo é possível.
    Mas eu quero ver este outro mundo. Quero que meus filhos vejam este outro mundo. Quero que meus netos, meus amigos de carne e alma e virtuais, vejam este outro mundo e mais, quero estar com eles neste outro mundo.
    Nossa esperança precisa estar grávida!
    Neste sentido considero a militância de esquerda sequestrada e possuída por uma variação da Síndrome de Estocolmo.
    Não é possível que lutamos tanto a custa de vidas e de amores apenas para trocarmos as moscas.

    Mas vejo o sol se por e estou certo de que a noite não será longa e que não será este o último Por-de-Sol dos séculos.
    Reafirmo: O PAÍS ESTÁ MAQUIADO E SONOLENTO. A MILITÂNCIA DE ESQUERDA FOI SEQUESTRADA E ESTABELECEU-SE UMA SÍNDROME DE ESTOCOLMO COLETIVA..

    Cito Lênin:

    – “É preciso sonhar…mas com a condição de crer em nossos sonhos…de confrontar nossos sonhos com a realidade…de realizar ESCRUPULOSAMENTE nossa fantasia.”

    …e contesto, de minha lavra:

    Nem tudo o que é sólido se desmancha no ar. No máximo se dissolve no todo. E somos todos um.

    Por fim, o Mestre Jesus:

    “…EU VIM PARA QUE TIVÉSSEIS VIDA E VIDA EM ABUNDÂNCIA.”

    E 2015 anos se passaram…

    ADRIANO BERAO COSTA – GRAVATAI – RIO GRANDE DO SUL – BRASIL / 13 DE MARÇO DE 2015

  10. Suzana Alvarenga permalink
    10/04/2015 17:57

    ​Oi, Balthazar, Pela primeira vez, estou vendo o Boff concordando com criticas à situação brasileira. Pena que, ao colocar que da habilidade pessoal do Presidente depende o funcionamento do sistema politica, culpam a Dilma e se esquecem da responsabilidade do partido enquanto partido que surgiu com uma proposta nova de ética e mudança. Esquecem mais, que o Lula foi quem indicou a Dilma e que o Lula manteve os fundamentos econômicos e mesmo sociais criados pelo governo anterior nos seus primeiros 4 anos de governo e , mesmo assim, porquê havia escrito um Manifesto a Nação se compromentendo a fazê-lo.

    Vejo como pura demagogia a frase ( sobre o papel do Presidente):

    “Cabe-lhe manter, sob a aparência de respeito à Constituição e às leis, um bom relacionamento com os soberanos de fato, sem esquecer de agradar ao “povão”, dispensando-lhe módicas benesses.” E nisto o Lula é brilhante……pena!!!!!.

    Beijos, Suzana

  11. 10/04/2015 18:03

    Republicou isso em Fonte da arte.

  12. 10/04/2015 20:40

    Nao existe hoje no pais nenhum partido capaz de abraçar e atender as demandas da populaçao de media e baixa renda!!! Falta um rumo a seguir.

  13. 10/04/2015 21:57

    QUEREM O GOLPE MILITAR?
    Pois fique sabendo que não há mais comunistas como álibi; hoje é combater corrupção, violência etc.
    Fiquem sabendo que o aparato repressivo estadual está comprometido até à goela.
    Para acabar com a violência no Brasil teremos que fundar um novo aparato repressivo estadual.

  14. 11/04/2015 0:08

    excelente reportagem.

  15. Roberto permalink
    11/04/2015 0:17

    Na última década houve uma compressão da pirâmide social permitindo que, devido o curto espaço de tempo percorrido entre ascensão das classes pobres para a classe média, possamos afirmar que a citação a seguir se encaixe nos dois extratos sociais.

    “Quanto às classes pobres, o longo passado escravocrata nelas inculcou uma atitude de permanente submissão. O pobre não quer exercer poder algum, prefere, antes, ser bem tratado pelos poderosos. Na verdade, o conjunto dos pobres jamais teve consciência dos seus direitos, por eles confundidos com favores recebidos dos que mandam.

    No tocante à classe média, seus integrantes procuram em regra atuar como clientes dos grandes empresários, proclamando-se, a todo o tempo, defensores da lei e da ordem. Eles sempre desprezaram a classe pobre, ou temeram sua ascensão na escala social.”

    A classe média só é revolucionária em tempos de grave crise social. “Karl Marx estabeleceu a causalidade no desenvolvimento da sociedade humana. Não é uma causalidade externa ao homem, pois a história é ao mesmo tempo o produto da ação humana. O homem é um elo na corrente de causa e efeito; a necessidade no desenvolvimento social é uma necessidade alcançada por meio da ação humana. O mundo material atua sobre o homem, determina a sua consciência, as suas ideias, a sua vontade, as suas ações, e assim ele reage sobre o mundo e muda-o. Para o modo tradicional de pensar da classe média, isto é uma contradição — a fonte de intermináveis deformações do marxismo —: ou as ações do homem determinam a história, como eles dizem, e não há nenhuma causalidade necessária porque o homem é livre; ou se, como o marxismo sustenta, há necessidade causal, esta só pode funcionar como uma fatalidade à qual o homem tem que submeter-se sem poder alterá-la. Para o modo de pensar materialista, ao invés, a mente humana está circunscrita por uma estrita dependência causal ao conjunto do mundo circundante.” (Anton Pannekoek – 1937).

  16. josemario sebastião da silva permalink
    11/04/2015 1:08

    Aprovo o texto do ilustre jurista, assim como ele eu também acreditei que o partido dos trabalhadores poderia ser uma grande alternativa de quebrar as barreiras políticas e econômicas entre o Estado capitalista e a população pobre, no sentido de ascensão em propiciar melhores condições de vida a população e uma efetiva participação nas decisões de nosso país. O que estamos vendo é uma distância acentuada entre a classe pobre e o Estado defensor do capitalismo e das grandes corporações empresariais. Que sirva de reflexão as indagações do texto, para repensarmos a trajetória política atual do Brasil, com vistas a igualdade social nos diversos campos de nossa sociedade.

  17. 11/04/2015 2:44

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  18. Cibele Nunes permalink
    11/04/2015 10:56

    Mestre, muito bom o artigo. Mas não concordo com tudo. Principalmente com a “inabilidade política” da Presidente. A conjuntura do primeiro e ainda mais do segundo mandato dela é muito mais adversa do que a dos mandatos do Presidente Lula. Ela não pactua com o mal feito e assumiu de frente o desgaste do ajuste fiscal. Não teve “habilidade” de fazer a política do toma lá da cá? É verdade. Para mim ela está disposta a inaugurar uma nova fase de fazer política. E ela está no PT. A nulidade de hoje é o tempo necessário para se desfazer da idéia de partido único de um único Presidente da República. A história (com H) não acabou.

    Sabe, mestre, quando vejo essa perniciosa rede globo mudar a programação de domingo para espetacularizar a manifestação contra a Presidente da República, também lamento sua falta de visão sobre a importância da regularização da mídia. Mas me pergunto, onde estão os sindicatos dos jornalistas e outros sindicatos que regulam a profissão e defendem os direitos dos profissionais de comunicação? Por que eles não falam ou tomam outra atitude legal sobre a total falta de ética e profissionalismo desta degradante rede globo?

    Como, diante desta conjuntura, fazer o que nos compete: “quebrar a soberania oligárquica e reformar nossa mentalidade coletiva?

  19. Lázaro Pacheco permalink
    11/04/2015 13:00

    Segundo o jurista, cabe ao presidente “manter, sob a aparência de respeito à Constituição e às leis, um bom relacionamento com os soberanos de fato, sem esquecer de agradar ao “povão”, dispensando-lhe módicas benesses.”
    Se o governo Dilma fizesse isso, nada mudaria na velha estrutura (“mórbida” conforme a crítica do jurista).
    Quando o governo Dilma não faz isso, ela (sozinha, como se fosse uma monarca) é tachada de inábil, “incapaz de compreender e realizar” o que foi criticado como pertencente à velha estrutura.
    Porém o que permite a crítica do jurista é a existência destes “choques”, algo previsível se o mesmo entendesse o “Geist” do universo.
    Por fim, uma coisa que é necessária mudar é justamente essas críticas que têm como estrutura uma ideia monárquica da realidade. Entender cada poder e suas autoridades como monarcas atrasa tudo, e compreender que “reformar nossa mentalidade coletiva” tem que ser mais do que apontada como via, tem que ser vivida!

  20. 12/04/2015 9:39

    Ninguém pode negar a competências e o mérito de Fábio Konder, e seu artigo é legítimo, sem dúvida. Concordo principalmente quando ele diz que o impeachment da Presidente não é a solução e só traria maiores males. Precisamos nos organizar, apoiar o governo, discutir, apresentar soluções. Não podemos ir na onda daqueles que apenas querem pegar o Poder de volta, como se ainda não vivessem cheios de vantagens! Não podemos nos bandear para o lado daqueles que se tiverem a mínima chance vendem o país inteiro, contanto que tenham lucro, não podemos ficar ao lado daqueles que financiam mentiras na imprensa, financiam atos de vandalismo e terrorismo, financiam bandidos, agem junto com o narcotráfico, e ficam felizes em divulgar as piores noticias e estatísticas. Aqueles que se comprazem com a derrocada do país, desde que expulsem do poder aqueles que representam o Partido dos Trabalhadores. Eles são contra as medidas sociais, são contra uma melhor repartição dos bens, sua filosofia é que tudo é válido desde que abocanhem o Poder. Muito ganharão com esta mudança ou inversão, inclusive de valores, mas o incrível é ver pessoas que estão se beneficiando das reformas e medidas dos governos Lula e Dilma se colocarem como seus inimigos ferrenhos, por ignorância e apenas para seguir uma turba de mal intencionados. Um governo se faz com união e objetivos comuns, o momento é para total apoio a Dilma e à democracia! Conte comigo Dilma, mesmo que eu seja uma voz a clamar no deserto!

  21. adriano permalink
    13/04/2015 10:04

    O problema político não está em si próprio na reforma política, mas sim, na reforma da estrutura partidária, pois, nas prévias são eleitos sempre os mesmos nomes, ou seja, a corrupção já começa do começo, pois, nem todos os filiados têm direito de se candidatarem.

    Agora quanto a alegação do autor do texto de que a Dilma bateu de frente com o STF, não concordo neste ponto, no sentido em que a falta de indicação de um membro para substituição de Barbosa, pois, como temos visto, o STF aparentemente vem julgado como a massa de manobra quer, sob a influência da lida da mídia neoliberal, bem como não há, ainda, no texto constitucional, norma que fixe um prazo para essa nomeação, por outro lado o próprio Supremo se antecipou à Dilma editando a PEC da bengala, ou seja, o PT em sua gestão não nomeará qualquer membro do STF;

    Portanto, a Dilma não bateu de frente com o STF, mas sim o STF estaria atendendo aos anseios da cleptocracia.

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