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O pato e a galinha: refugiados, vítimas das políticas imperialistas do Ocidente

04/09/2015

Europa de hoje não está colhendo mais do que plantou

MAURO SANTAYANA é um dos jornalistas mais lúcidos da imprensa brasileira. Sua grande experiência internacional e sua vasta cultura histórica  o gabaritam  a dar opiniões seguras sobre a atual cena mundial dos milhares de refugiados que, sob grandes riscos, tentam atravessar o Mediterrâneo em busca de um pouco de paz. Fogem de guerras que o próprio Ocidente com seu espírito imperialista e arrogância provocou no norte da Africa e especialmente no Oriente Médio. Santayana denuncia este fato afirmando que “a Europa de hoje não está colhendo mais do que plantou”. Vergonhosa é a posição da Hungria que se nega acolher refugiados e pior ainda, a Polônia, sempre chamada pelo Papa João Paulo II, de “Polonia fidelis” por ter sempre salvaguardado a fé católica, agora, traindo esta fé, afirma que apenas acolhe refugiados critãos, como se os demais não fossem também nossos irmãos e irmãs e filhos e filhas de Deus: Lboff

Embora não o admita – principalmente os países que participaram diretamente da sangrenta imbecilidade – a Europa de hoje, nunca antes sitiada, por tantos estrangeiros, desde pelo menos os tempos da queda de Roma e das invasões bárbaras – não está colhendo mais do que plantou, ao secundar a política norte-americana de intervenção, no Oriente Médio e no Norte da África.Não tivesse ajudado a invadir, destruir, vilipendiar, países como o Iraque, a Líbia, e a Síria; não tivesse equipado, com armas e veículos, por meio de suas agências de espionagem, os terroristas que deram origem ao Estado Islâmico, para que estes combatessem Kadafi e Bashar Al Assad, não tivesse ajudado a criar o gigantesco engodo da Primavera Árabe, prometendo paz, liberdade e prosperidade, a quem depois só se deu fome, destruição e guerra, estupros, doenças e morte, nas areias do deserto, entre as pedras das montanhas, no profundo e escuro túmulo das águas do Mediterrâneo, a Europa não estaria, agora, às voltas com a maior crise humanitária deste século, só comparável, na história recente, aos grandes deslocamentos humanos que ocorreram no fim da Segunda Guerra Mundial.

Lépidos e fagueiros, os Estados Unidos, os maiores responsáveis pela situação, sequer cogitam receber – e nisso deveriam estar sendo cobrados pelos europeus – parte das centenas de milhares de refugiados que criaram, com sua desastrada e estúpida doutrina de “guerra ao terror”, de substituir, paradoxalmente, governos estáveis por terroristas, inaugurada pelo “pequeno” Bush, depois do controvertido atentado às Torres Gêmeas.

Depois que os imigrantes forem distribuídos, e se incrustarem, em guetos, ou forem – ao menos parte deles – integrados, em longo e doloroso processo, que deverá durar décadas, aos países que os acolherem, a Europa nunca mais será a mesma.

Por enquanto, continuarão chegando à suas fronteiras, desembarcando em suas praias, invadindo seus trens, escalando suas montanhas, todas as semanas, milhares de pessoas, que, cavando buracos, e enfrentando jatos de água, cassetetes e gás lacrimogêneo, não tendo mais bagagem que o seu sangue e o seu futuro, reunidos nos corpos de seus de seus filhos, irão cobrar seu quinhão de esperança e de destino, e a sua parte da primavera, de um continente privilegiado, que para chegar aonde chegou, fartou-se de explorar as mais variadas regiões do mundo.

É cedo para dizer quais serão as consequências do Grande Êxodo. Pessoalmente, vemos toda miscigenação como bem-vinda, uma injeção de sangue novo em um continente conservador, demograficamente moribundo, e envelhecido.

Mas é difícil acreditar que uma nova Europa homogênea, solidária, universal e próspera, emergirá no futuro de tudo isso, quando os novos imigrantes chegam em momento de grande ascensão da extrema-direita e do fascismo, e neonazistas cercam e incendeiam, latindo urros hitleristas, abrigos com mulheres e crianças.

Se, no lugar de seguir os EUA, em sua política imperial em países agora devastados, como a Líbia e a Síria, ou sob disfarçadas ditaduras, como o Egito, a Europa tivesse aplicado o que gastou em armas no Norte da África e em lugares como o Afeganistão, investindo em fábricas nesses mesmos países ou em linhas de crédito que pudessem gerar empregos para os africanos antes que eles precisassem se lançar, desesperadamente, à travessia do Mediterrâneo, apostando na paz e não na guerra, o velho continente não estaria enfrentando os problemas que enfrenta agora, o mar que o banha ao sul não estaria coalhado de cadáveres, e não existiria o Estado Islâmico.

Que isso sirva de lição a uma União Europeia que insiste, por meio da OTAN, em continuar sendo tropa auxiliar dos EUA na guerra e na diplomacia, para que os mesmos erros que se cometeram ao sul, não se repitam ao Leste, com o estímulo a um conflito com a Rússia pela Ucrânia, que pode provocar um novo êxodo maciço em uma segunda frente migratória, que irá multiplicar os problemas, o caos e os desafios que está enfrentando agora.

As desventuras das autoridades europeias, e o caos humanitário que se instala em suas cidades, em lugares como a Estação Keleti Pu, em Budapeste, e a entrada do Eurotúnel, na França, mostram que a História não tolera equívocos, principalmente quando estes se baseiam no preconceito e na arrogância, cobrando rapidamente a fatura daqueles que os cometeram.

Galinha que acompanha pato acaba morrendo afogada.

É isso que Bruxelas e a UE precisam aprender com relação a Washington e aos EUA.

Publicado no Jornal do Brasil on line de 3 de setembro de 2015.
15 Comentários leave one →
  1. Deuzimar Menezes Negreiros permalink
    04/09/2015 16:11

    [In]feliz[mente] O ser humano não consegue SER HUMANO em nada!! E, mesmo assim, ainda se diz ser cristão, mas, também não consegue SER CRISTÃO porque nada faz de Cristo para SER JESUS CRISTO‼ Mesmo nesses momentos…‼ E, ficar triste! Dignar-se! Indignar-se e’ tão só uma indignação!! Um dignar-se!! Uma tristeza! Passou o impacto do choque, esquece… e a vidinha [des]HUMANA continua‼ E o [in]feliz[mente]!

    Quanto à criança, quantas crianças já e quantas crianças… quantas famílias ainda… E a origem de tudo isso, a Causa inicial de todos os problemas no Oriente Médio e Europa estar nos EUA. Cadê o jornalismo internacional e, no nosso caso, o brasileiro para demonstrar isso?!! Para esclarecer o que e’ a política internacional dos USA?! As consequências da política dos americanos do norte para o mundo?! Não mostram porque são censurados!!

    E, por que que tudo que é ruim tem-se como responsável os EUA? Eles inventaram a bomba atômica, as guerras por dinheiro por meio do armamento bélico; a manipulação mundial; o inferno dos frigoríficos e MC Donald para os animais; a escravidão dos países mais pobres em seu proveito.., e por aí vai; por que tudo isso? Porque se trata da matriz/mãe do capitalismo [sistema liberal de produção] que tem como objetivo/foco ser único sistema… no mundo‼ Não ter nenhum tipo de sociedade alternativa ao sistema capitalismo‼ Não importa os meios a serem usado para atingir o seu objetivo.

  2. adriano permalink
    04/09/2015 16:37

    Cultivo do bom milho

    .
    Um agricultor de milho só plantava grãos premiados. Todo ano ele entrava com seu milho na feira e ganhava uma fita azul de produtor do melhor milho da região. Um ano, um repórter de jornal o entrevistou e aprendeu algo interessante sobre como ele cultivou o milho. O repórter descobriu que o fazendeiro compartilhava a semente do milho dele com seus vizinhos. “Como você pode dar ao luxo de compartilhar sua melhor semente de milho com seus vizinhos quando eles também entram na competição de milhos e competem com o seu todos os anos?”, perguntou o repórter. “Por que o senhor”, disse o fazendeiro, “não sabia? O vento apanha pólen do milho maduro e espalhá-o de campo para campo. Se meus vizinhos cultivam milho inferior, a polinização degradará continuamente a qualidade do meu milho. Se eu for cultivar milho bom, eu tenho que ajudar meus vizinhos a cultivar milho bom. “Ele é um fazendeiro muito atento às conectividades da vida. O milho dele não pode melhorar sem que o milho do vizinho também melhore.”

    Assim é com nossas vidas. Aqueles que escolhem viver em paz devem ajudar seus vizinhos a viver em paz. Aqueles que escolhem viver bem têm que ajudar os outros a viver bem, porque o valor de uma vida é medido pelas vidas que toca. E quem optar por ser feliz deve ajudar os outros a encontrar a felicidade, o bem-estar de cada um está ligado ao bem-estar de todos.

    A lição para cada um de nós é esta: se estamos a cultivar milho bom, temos de ajudar nossos vizinhos a cultivar milho bom.

    https://mileumlivros.wordpress.com/moral-da-historia/

  3. 04/09/2015 17:59

    Republicou isso em Frei Fabio, OSF.

  4. Jose Francisco Medeiros permalink
    04/09/2015 18:36

    Date: Fri, 4 Sep 2015 18:57:45 +0000 To: medeiroscnl@hotmail.com

  5. Jose Francisco Medeiros permalink
    04/09/2015 18:36

    Date: Fri, 4 Sep 2015 18:57:45 +0000 To: medeiroscnl@hotmail.com

  6. Jose Francisco Medeiros permalink
    04/09/2015 18:36

    Date: Fri, 4 Sep 2015 18:57:45 +0000 To: medeiroscnl@hotmail.com

  7. André de Barros Pinto permalink
    04/09/2015 20:55

    Estimado Leonardo,
    Mutio bom texto, mas esperava que fosse feita alguma referência a uma “mea culpa” do povo e governo brasileiro, que tem em sua origem uma expressiva imigração sírio e libanesa. É a nação com maior número de imigrantes dessa região, com o maior número de representantes nos três poderes descendentes dessa região, etc. Nenhum desses descendentes, governantes, entidades civis, em momento algum, que eu tenha visto, fez alguma referência ou sequer pediu uma intervenção do governo brasileiro para ajuda humanitária. Não estou falando, ainda, em pedidos de ajuda a imigração, o que seria natural do governo brasileiro oferecer, pelo passado que nos uni, estou falando somente em ajuda humanitária. Sabe porque a colonia sirio-libanesa não se manifesta? Porque estes excluídos do momento, são muçulmanos, os mesmos que os explusaram de suas terras num passado não muito longinquo. Como sempre a religião separando povos e não os unindo. Povos aos quais descendemos todos, no Ocidente moderno, mas ficamos nas mesmices das religiões e seus dógmas. Gostaria muito que você fosse o catalizador da esperança da união. Um forte abraço (desculpe o texto continuo… estou no meio da rua… na capital do império) Abração
    André de Barros Pinto, Alto da Boa Vista – Rio – USA-DC

  8. 05/09/2015 0:01

    Europa de hoje não está colhendo mais do que plantou MAURO SANTAYANA é um dos jornalistas mais lúcidos da imprensa brasileira. Sua grande experiência internacional e sua vasta cultura histórica  o gabaritam  a dar opiniões seguras sobre a atual cena mundial dos milhares de refugiados que, sob grandes riscos, tentam atravessar o Mediterrâneo em busca  

  9. Rachel T. Jardim permalink
    05/09/2015 8:14

    Há uma petição rolando para abrigar refugiados sírios em nosso país, Boff. O senhor pode dar uma força!

    http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR84475

  10. Joao Resende permalink
    06/09/2015 8:46

    Estranho, o Santayana não ter citado, em momento algum, o Estado de Israel como um dos principais atores da geopolítica no Oriente Médio. Ator desestabilizador, digamos assim. “Blindado” por uma capa de democracia de estilo ocidental, esse Estado teocrático militarista desafia as tradições humanitárias do próprio judaismo, valendo-se do apoio das grandes potências reféns dos poderosos lobbies judaicos. Os ataques a Gaza, nos últimos anos, produziram, aos milhares, cenas muito mais contundentes do que a foto do menino afogado numa praia da Turquia… Para o Estado de Israel, quanto mais “infieis” se comendo entre si, melhor – e as atenções do mundo retiram-no do foco…

  11. Antonio permalink
    06/09/2015 9:50

    com sua desastrada e estúpida doutrina de “guerra ao terror”

    Isso é a própria essência da economia americana, cuja prosperidade sempre esteve ancorada na indústria bélica e no sistema financeiro.

  12. ramzi shahruri permalink
    06/09/2015 9:56

    a guerra da síria foi abordada aqui com toda honestidade e franqueza não se trata de conflito religoso mas sim e politico visando a dominação do oreinte médio so olhar o iraque como era e como ficou depois da invasão americana o sr boof abordou a questão com cinceridadetinho por esse sr respeito pois sabe ser neutro e honesto ao analisar oque esta ocorrendo na região mais explusiva do mundo sírios palestinos iraquianos africanos são obrigados a fugir da guerra para morrer no mar cade a conceincia humana cade o amor ao prximo que tanto foi encinado por cristoe por muhamad e tds os profetas so muslumano e aque que registrar meu respeito e ademiracao pelo sr boof

  13. 07/09/2015 12:11

    Crisis migratoria en Europa (solo allì..?)

    Creo que podemos estar frente a una hecho histórico casi sin precedentes.
    El Sistema Productivo Depredador que la cultura Occidental nos impuso (a sangre y fuego…) se base en una Estructura Social Piramidal, que es solo factible de sostenerse por la existencia de Fronteras
    Gracias a las cuales la Base (aplastada….) asegura la existencia de “Estados de Bienestar” en la Punta de la Pirámide
    Mientras se depreda impiadosa-mente el Planeta Tierra
    Si estas Fronteras (imprescindibles…) como hoy se insinúa, comienzan a derrumbarse…
    Puede llegar a ocurrir lo mismo que le ocurrió al Socialismo Real, con la caída del Muro de Berlín
    La ilusión de hoy de los Migrantes de ser parte de la “Fiesta”… es absolutamente imposible
    Porque según nos dicen muchos estudios si por ejemplo, todos quisiéramos consumir como un norteamericano medio precisaríamos de ¡¡Tres Planetas Tierra!!
    Y que aún para mantener el actual (desigual e injusto…) consumismo, YA estaríamos necesitando de medio Planeta mas !!!
    Soy un Migrante más (como Donald Trump…) así que no puedo dejar de ser solidario con ellos…
    ¿Será que llegaré a ver todos estos cambios ó es apenas una ilusión mía… ??

  14. 08/09/2015 11:29

    EUROPA e Eua irão pagar esse PATO mais adiante.

  15. 08/09/2015 22:35

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    O pato e a galinha: refugiados, vítimas das políticas imperialistas do Ocidente.

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