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Cuidar e respeitar o valor intrínseco de cada ser

18/10/2015

A esplêndida encíclica do Papa Francisco “sobre o cuidado da Casa Comum” insiste  continuamente que cada ser, por menor que seja, possui valor intrínseco e tem algo a nos dizer, ademais de estar sempre interconectado com todos os demais seres. Por isso merece respeito e cuidado de nossa parte.

Estes pensamentos nos remetem ao pensador que melhor no Ocidente pensou o ilimitado respeito a tudo o que existe e vive: o médico suíço Albert Schweitzer (1875-1965). Era oriundo da Alsácia. Desde cedo apresentou traços de genialidade. Tornou-se famoso exegeta bíblico com vasta obra especialmente sobre questões ligadas à possibilidade ou não de se fazer uma biografia científica de Jesus. Era também um exímio organista e concertista das obras de Bach e compositor. Foi grande a minha emoção quando visitei a sua casa e o órgão que tocava em Kaysersberg.

Em consequência de seus estudos sobre a mensagem de Jesus, especialmente do Sermão da Montanha, com sua centralidade no pobre e no oprimido, resolveu abandonar tudo e estudar medicina. Em 1913 foi para a África como médico em Lambarene, no atual Gabun, exatamente para aquelas regiões que foram dominadas e exploradas furiosamente pelos colonizadores europeus. Diz explicitamente, numa carta, que “o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos, mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum valor. Se o Cristianismo não realizar isso, perdeu seu sentido”.

E continua: “depois de ter refletido muito, isso ficou claro para mim: minha vida não é nem a ciência nem a arte, mas tornar-me um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”(A. SchweitzerWie wir überleben können, 1994 p. 25-26).

Em seu hospital no interior da floresta tropical, entre um atendimento e outro de doentes, tinha tempo para refletir sobre os destinos da cultura e da humanidade. Considerava a falta de uma ética humanitária como a crise maior da cultura moderna. Dedicou anos no estudo das questões éticas que ganharam corpo em vários livros, sendo o principal deles O respeito diante da vida (Ehrfurcht vor dem LebenI edição de 1996).

Tudo em sua ética gira ao redor do respeito, da veneração, da compaixão, da responsabilidade e do cuidado para com todos os seres, especialmente, com aqueles que mais sofrem.

Ponto de partida para Schweitzer é o dado primário de nossa existência, a vontade de viver que se expressa:”Eu sou vida que quer viver no meio de vidas que querem viver”(Wie wir überleben können: 73). À vontade de poder (Wille zur Macht) de Nietzsche, Schweitzer contrapõe a vontade de viver (Wille zum Leben). E continua :”A ideia-chave do bem consiste em conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao seu máximo valor; o mal consiste em destruir a vida, prejudicá-la e impedi-la de se desenvolver. Este é o princípio necessário, universal e absoluto da ética”(op. cit. p. 52 e 73).

Para Schweitzer, as éticas vigentes são incompletas porque tratam apenas dos comportamentos dos seres humanos face a outros seres humanos e esquecem de incluir todas as formas de vida que se nos apresentam. O Papa em sua encíclica faz uma rigorosa crítica a este antropocentrismo (nn. 115-121). O respeito que devemos à vida “engloba tudo o que significa amor, doação, compaixão, solidariedade e partilha”(op. cit. 53).

Numa palavra: “a ética é a responsabilidade ilimitada por tudo  que existe e vive” (Wie wir überleben, p. 52 e Was sollen wir tun p. 29).

Como a nossa vida é vida com outras vidas, a ética do respeito à vida deverá ser sempre um con-viver e um con-sofrer (miterleben und miterleiden) com os outros. Numa formulação suscinta afirma :”Tu deves viver convivendo e conservando a vida, este é o maior dos mandamentos na sua forma mais elementar”(Was sollen wir tun?.op. cit. p. 26).

Dai derivam comportamentos de grande compaixão e cuidado. Interpelando cada ouvinte numa homilia conclama: “Mantenha teus olhos abertos para não perder a ocasião de ser um salvador. Não passe ao largo, inconsciente, do pequeno inseto que se debate na água e corre risco de se afogar. Tome um pauzinho e retire-o da água, enxugue-lhe as asinhas e experimente a maravilha de ter salvo uma vida e a felicidade de ter agido a cargo e em nome do Todo-poderoso. O verme que se perdeu na estrada dura e seca e que não pode fazer o seu buraco, retire-o e coloque-o no meio da grama. ‘O que fizerdes a um desses mais pequenos foi a mim que o fizestes’. Esta palavra de Jesus não vale apenas para nós humanos mas também para as mais pequenas das criaturas”(Was sollen wir tun, op.cit. p. 55).

A ética do respeito e do cuidado de Albert Schweitzer une inteligência emocional, cordial e inteligência racional, num esforço de tornar a ética um caminho de salvaguarda de todas as coisas e de resgate do valor que elas possuem em si mesmas. O maior inimigo desta ética é o embotamento da sensibilidade, a inconsciência e a ignorância que fazem perder  de vista o dom da existência e a excelência da vida em todas as suas formas.

O ser humano é chamado a ser o guardião de cada ser vivo. Ao realizar esta missão, ele alcança o grau maior de sua humanidade. E se sentirá pertencendo a um Todo maior, superando a falta de enraizamento e a solidão dos filhos da modernidade.

Leonardo Boff é colunista do JB on line teólogo, filósofo e escritor.

12 Comentários leave one →
  1. Isabel da Fontoura Pinho permalink
    18/10/2015 20:00

    Seu texto é um belo chamamento à importância da vida como um todo.Um abraço, Isabel

  2. Edgar Rocha permalink
    19/10/2015 7:34

    Acho o romantismo ecológico um luxo ao qual o ser humano, pleno em suas aptidões e dignidades, pode-se oferecer, pelo simples prazer do cultivo à benevolência. Contudo, mesmo Jesus foi bastante perspicaz neste quesito. Pensemos: a mosca salva na lagoa pode ser a diferença entre a vida e a morte do peixe que a comeria. De minha parte, seja isto hipocrisia ou não, amo todos os ratinhos da Terra. Acho-os lindos, inteligentes e necessários. Evito sua presença em minha casa, pois sei dos riscos de tê-los por perto. Em caso de uma eventual invasão, no entanto, mato-os. Peço perdão, fico com pena, mas zelo pela saúde de minha família e pela minha própria. Arranjei gatos e os agradeço todos os dias por fazer pra mim o serviço sujo que, sem eles, eu mesmo teria de fazer. Amo a ambos – aos gatos e aos ratos – e a Deus por ter feito a natureza com mais bom senso do que eu.
    Ademais, disse o Cristo: “olhai os lírios do campo […], olhai as aves do céu […]”. Deve ter uma razão pra não ter dito “olhai as baratas voadoras, olhai as cobras do deserto”. E mesmo a figueira muquirana – pobre figueira! – que não Lhe deu frutos, bem… “Seque!” Até hoje fico chocado quando me lembro desta passagem.
    Enfim, Jesus não condena a luta humana pela vida e as reações advindas de nossa fragilidade física. Toda vida – inclusive a nossa – é expressão de Deus e merece respeito. Mesmo as baratas voadoras (convenhamos, as malditas existem só pra testar nossa masculinidade! Desculpe-me, senhor Boff), mesmo elas são formas da perfeição divina merecedoras de admiração e reconhecimento. Porém, um novo mandamento deveria ser testado: ‘ser ecochato jamais!’ Vida e morte estão neste plano e a razão de o Universo produzir o fenômeno consciência está no fato de que a vida deve evoluir em suas formas de cuidado e autopreservação. Falo da vida como fenômeno único e indissolúvel que é.
    Já temos a consciência, resta-nos agora, desenvolver o bom senso.
    Meus respeitos.

  3. Simone Sarmento Lima permalink
    19/10/2015 8:42

    Que texto lindo, humano!. Não vou comentar sobre o texto. Comungo com ele em todos os sentidos a favor da vida.
    Hoje, entendo melhor o que esse texto fala.Sinto-me feliz por fazer parte de um trabalho, que fui convocada. Sei também, que não foi por acaso. Sabia que um dia, esse dia ia chegar, e chegou. Comecei em março desse ano, num comitê a favor da vida, não, ao aborto. O COMVIDA-AL No momento, trabalhamos em escolas com palestras, oficinas direcionadas à educação sexual,saúde pública e um fechamento que eu chamo de conexão com à vida (humanização, responsabilidade e o espiritual sem direcionar a crença a Deus) trabalhamos nas comunidades dentro e fora da cidade, onde precisar.
    Amei o texto.

  4. Antonio Brito permalink
    19/10/2015 8:48

    Que bom que você explicite isso, caríssimo Boff, que ficava um pouco implícito em seus textos, os quais adoro. Acredito que só teremos um mundo melhor quando deixarmos de lado nossa visão especista e antropocentrista, e partirmos para o biocentrismo.

  5. 19/10/2015 9:47

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Cuidar e respeitar o valor intrínseco de cada ser – Leonardo Boff

  6. Caio Mendes de Oliveira Castro permalink
    19/10/2015 19:26

    Mário Quintana diz muito sobre o tema em “O Poema” ;
    A formiguinha atravessa ,em diagonal, a página ainda em branco.
    Mas ele, aquela noite, não escreveu nada.
    Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida…

  7. 19/10/2015 23:19

    Republicou isso em andradereginaldo.

  8. Edir Evaristo da Silva permalink
    20/10/2015 0:14

    Cuidar e respeitar o valor intrínseco de cada ser 18/10/2015

    A esplêndida encíclica do Papa Francisco “*sobre o cuidado da Casa Comum*” insiste continuamente que cada ser, por menor que seja, possui valor intrínseco e tem algo a nos dizer, ademais de estar sempre interconectado com todos os demais seres. Por isso merece respeito e cuidado de nossa parte.

    Estes pensamentos nos remetem ao pensador que melhor no Ocidente pensou o ilimitado respeito a tudo o que existe e vive: o médico suíço Albert Schweitzer (1875-1965). Era oriundo da Alsácia. Desde cedo apresentou traços de genialidade. Tornou-se famoso exegeta bíblico com vasta obra especialmente sobre questões ligadas à possibilidade ou não de se fazer uma biografia científica de Jesus. Era também um exímio organista e concertista das obras de Bach e compositor. Foi grande a minha emoção quando visitei a sua casa e o órgão que tocava em Kaysersberg.

    Em consequência de seus estudos sobre a mensagem de Jesus, especialmente do Sermão da Montanha, com sua centralidade no pobre e no oprimido, resolveu abandonar tudo e estudar medicina. Em 1913 foi para a África como médico em Lambarene, no atual Gabun, exatamente para aquelas regiões que foram dominadas e exploradas furiosamente pelos colonizadores europeus. Diz explicitamente, numa carta, que “o que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos, mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum valor. Se o Cristianismo não realizar isso, perdeu seu sentido”.

    E continua: “depois de ter refletido muito, isso ficou claro para mim: minha vida não é nem a ciência nem a arte, mas tornar-me um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”(A. Schweitze*r*, *Wie wir überleben können,* 1994 p. 25-26).

    Em seu hospital no interior da floresta tropical, entre um atendimento e outro de doentes, tinha tempo para refletir sobre os destinos da cultura e da humanidade. Considerava a falta de uma ética humanitária como a crise maior da cultura moderna. Dedicou anos no estudo das questões éticas que ganharam corpo em vários livros, sendo o principal deles *O respeito diante da vida (Ehrfurcht vor dem LebenI *edição de* 1996).*

    Tudo em sua ética gira ao redor do respeito, da veneração, da compaixão, da responsabilidade e do cuidado para com todos os seres, especialmente, com aqueles que mais sofrem.

    Ponto de partida para Schweitzer é o dado primário de nossa existência, a vontade de viver que se expressa:”Eu sou vida que quer viver no meio de vidas que querem viver*”(Wie wir überleben können*: 73). À vontade de poder (*Wille zur Macht*) de Nietzsche, Schweitzer contrapõe a vontade de viver (*Wille zum Leben*). E continua :”A ideia-chave do bem consiste em conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao seu máximo valor; o mal consiste em destruir a vida, prejudicá-la e impedi-la de se desenvolver. *Este é o princípio necessário, universal e absoluto da ética”*(op. cit. p. 52 e 73).

    Para Schweitzer, as éticas vigentes são incompletas porque tratam apenas dos comportamentos dos seres humanos face a outros seres humanos e esquecem de incluir todas as formas de vida que se nos apresentam. O Papa em sua encíclica faz uma rigorosa crítica a este antropocentrismo (nn. 115-121). O respeito que devemos à vida “engloba tudo o que significa amor, doação, compaixão, solidariedade e partilha”(op. cit. 53).

    Numa palavra: “*a ética é a responsabilidade ilimitada por tudo que existe e vive*” (*Wie wir überleben*, p. 52 e *Was sollen wir tun* p. 29).

    Como a nossa vida é vida com outras vidas, a ética do respeito à vida deverá ser sempre um con-viver e um con-sofrer (*miterleben und miterleiden*) com os outros. Numa formulação suscinta afirma :”Tu deves viver convivendo e conservando a vida, este é o maior dos mandamentos na sua forma mais elementar”(*Was sollen wir tun*?.op. cit. p. 26).

    Dai derivam comportamentos de grande compaixão e cuidado. Interpelando cada ouvinte numa homilia conclama: “Mantenha teus olhos abertos para não perder a ocasião de ser um salvador. Não passe ao largo, inconsciente, do pequeno inseto que se debate na água e corre risco de se afogar. Tome um pauzinho e retire-o da água, enxugue-lhe as asinhas e experimente a maravilha de ter salvo uma vida e a felicidade de ter agido a cargo e em nome do Todo-poderoso. O verme que se perdeu na estrada dura e seca e que não pode fazer o seu buraco, retire-o e coloque-o no meio da grama. ‘O que fizerdes a um desses mais pequenos foi a mim que o fizestes’. Esta palavra de Jesus não vale apenas para nós humanos mas também para as mais pequenas das criaturas”(*Was sollen wir tun*, op.cit. p. 55).

    A ética do respeito e do cuidado de Albert Schweitzer une inteligência emocional, cordial e inteligência racional, num esforço de tornar a ética um caminho de salvaguarda de todas as coisas e de resgate do valor que elas possuem em si mesmas. O maior inimigo desta ética é o embotamento da sensibilidade, a inconsciência e a ignorância que fazem perder de vista o dom da existência e a excelência da vida em todas as suas formas.

    O ser humano é chamado a ser o guardião de cada ser vivo. Ao realizar esta missão, ele alcança o grau maior de sua humanidade. E se sentirá pertencendo a um Todo maior, superando a falta de enraizamento e a solidão dos filhos da modernidade.

    Leonardo Boff é colunista do JB on line teólogo, filósofo e escritor.

  9. 20/10/2015 15:09

    Republicou isso em luveredase comentado:
    O ser humano é chamado a ser o guardião de cada ser vivo. Ao realizar esta missão, ele alcança o grau maior de sua humanidade. E se sentirá pertencendo a um Todo maior, superando a falta de enraizamento e a solidão dos filhos da modernidade.

  10. André Lacerda permalink
    28/10/2015 15:55

    Eu ainda não acabei de ler “O Princípio da Responsabilidade”, de Hans Jonas, mas pelo que pude perceber, o autor afirma a caducidade da ética moderna em virtude dos impactos das novas tecnologias (poder e sinergia muito superiores às tecnologias pregressas); já neste artigo de Leonardo Boff, Albert Schweitzer seria também um crítico daquela ética moderna, porém, não pelos mesmos motivos de Jonas, mas, precisamente, pela incompletude da compreensão do “amai-vos uns aos outros” ou do “não faça aos outros o que você não quer que seja feito a você”. Entretanto, ambos – Jonas e Schweitzer – falam da ética moderna como algo a ser superado, no sentido de expandi-la para além das relações antropocêntricas. Em suma, uma nova ética que incorpore outras dimensões, outras naturezas. Ou seja, um desafio e tanto para as sociedades atuais, cunhadas e voltadas, quase que exclusivamente, para a valorização do ego, através da naturalização do individualismo e da competição.
    No âmbito das considerações sobre a “fragilidade da Natureza” frente aos impactos da estupidez humana, destacadas no livro de Jonas, cumpre lembrar o poder da Natureza em sua grandeza e capacidade de recuperação. Neste caso, não seria a Natureza que estaria em risco, mas nós, seres viventes desse minúsculo planeta Terra.

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