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O Ocidente escolheu o pior caminho: a guerra

21/11/2015

        Seguramente são abomináveis e de todo rejeitáveis os atententados terroristas perpetrados no último dia 13 de novembro em Paris por grupos terroristas de extração islâmica. Tais fatos nefastos não caem do céu. Possuem uma pré-história de raiva, humilhação e desejo de vingança.

Estudos acadêmicos feitos nos USA evidenciaram que as persistentes intervenções militares do Ocidente com sua geopolítica para a região e a fim de garantir o suprimento do sangue do sistema mundial que é o petróleo, rico no Oriente Médio, acrescido ainda pelo fato do apoio irrestrito dado pelos USA ao Estado de Israel com sua notória violência brutal contra os palestinos, constituem a principal motivação do terrorismo islâmico contra o Ocidente e contra os USA (veja a vasta literatura assinalada por Robert Barrowes: Terrorism: Ultimate Weapon of the Global Elite en seu site: War is a Crime.org).

A resposta que o Ocidente tem dado, a começar com George W. Bush, agora retomado vigorosamente por François Hollande e aliados europeus mais a Rússia e os EUA é o caminho da guerra implacável contra o terrorismo seja interno na Europa seja externo contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Mas esse é o pior dos caminhos, como criticou Edgar Morin, pois guerras não se combatem com outras guerras nem o fundamentalismo com outro fundamentalismo (o da cultura ocidental que se presume a melhor do mundo e com o direito de ser imposta a todos).

A resposta da guerra que, provavelmente, será interminável pela dificuldade de derrotar o fundamentalismo ou grupos que decidem fazer de seus próprios corpos bombas de alta destruição, insere-se ainda no velho paradigma pré-globalização, paradigma enclausurado nos estados-nações, sem se dar conta de que a história mudou e tornou coletivo o destino da espécie humana e da vida sobre o planeta Terra. O caminho da guerra nunca trouxe paz, no máximo alguma pacificação, deixando um lastro macabro de raiva e de vontade de vindita por parte dos derrotados que nunca, na verdade, serão totalmente vencidos.

O paradigma velho respondia guerra com guerra. O novo, da fase planetária da Terra e da Humanidade, responde com o paradigma da compreensão, da hospitalidade de todos com todos, do diálogo sem barreiras, das trocas sem fronteiras, do ganha-ganha e das alianças entre todos. Caso contrário, ao se generalizar as guerras cada vez mais destrutivas, poderemos pôr fim a nossa espécie ou tornar a Casa Comum inabitável.

Quem nos garante que os terroristas atuais não se apropriem de tecnologias sofisticadas e comecem a usar armas químicas e biológicas que, por exemplo, colocadas nos reservatórios de água de uma grande cidade, acabe produzindo um dizimação sem precedentes de vidas humanas? Sabemos que estão se habilitando para montar ataques cibernéticos e telemáticos que podem afetar todo o serviço de energia de uma grande cidade, dos hospitais, das escolas, dos aeroportos e dos serviços públicos. A opção pela guerra pode levar a estes extremos, todos possíveis.

Devemos tomar a sério o que sábios nos alertaram como Eric Hobswbam ao concluir seu conhecido A era dos extremos: o breve século XX (1995:562):”O mundo corre o risco de explosão e implosão; tem que mudar…a alternativa para a mudança é a escuridão”. Ou então do eminente historiador Arnold Toynbee, depois de escrever dez tomos sobre as grandes civilizações históricas, nos vem esta advertência em seu ensaio autobiográfico Experiências (1969:422):” Vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possiblidade intra-histórica, capaz de ser traduzida em fato não por um ato de Deus mas do próprio homem”.

O Ocidente optou pela guerra sem trégua. Mas nunca mais terá paz e viverá cheio de medo e refém de possíveis atentados que são a vingança dos islâmicos. Oxalá não se realize o cenário descrito por Jacques Attali em seu Uma breve história do futuro (2008): guerras regionais, numa espécie de balcanização do mundo, são cada vez mais destrutivas a ponto de ameaçarem a espécie humana  . Aí a humanidade, para sobreviver, pensará numa governança global com uma hiiperdemocracia planetária. Será a última oportunidade que impedirá no mergulho num abismo que não conhece volta.

O que se impõe, assim nos parece, é o reconhecimento da existência de fato de um Estado Islâmico e em seguida formular uma coligação pluralista de nações e de meios diplomáticos e de paz para criar as condições de um diálogo para pensar o destino comum da Terra e da Humanidade.

Receio que a arrogância típica do Ocidente, com sua visão imperial e ao se julgar em tudo melhor, não acolha esse percurso pacificador mas prefira a guerra. Então torna a ganhar significado a sentença profética de M. Heidegger, conhecida depois de sua morte:” Nur noch ein Gott kann uns retten: então somente um Deus nos poderá salvar”.

Não devemos ingenuamente esperar a intervenção divina, pois o nosso destino está entregue à nossa responsabilidade. Seremos o que decidirmos: uma espécie que preferiu se auto-exterminar a renunciar à sua vontade absurda de poder sobre todos e sobre tudo ou então forjarmos as bases para uma paz perpétua (Kant) que nos conceda viver diferentes e unidos, na mesma Casa Comum.

Leonardo Boff é articulista do Jornal do Brasil on line, ecoteólogo e escritor.

23 Comentários leave one →
  1. 21/11/2015 10:04

    Republicou isso em Lado B .

  2. Flávio Sánchez Leão permalink
    21/11/2015 10:07

    Prezado Frei Leonardo Boff, o senhor propõe “o reconhecimento da existência de fato de um Estado Islâmico e em seguida formular uma coligação pluralista de nações e de meios diplomáticos e de paz para criar as condições de um diálogo para pensar o destino comum da Terra e da Humanidade”. Só falta combinar isso com o Estado Islâmico. O senhor acredita mesmo que esses salafrários do Estado Islâmico, que não passam de uma máfia praticando acumulação primitiva de capital, com o método típico dos capitalistas (rapina, saque, roubo, invasão, estupro e terror) estejam mesmo a fim de conversa e negociações de paz????????????

  3. Airam Santiago permalink
    21/11/2015 10:51

    Preciso, maravilhoso.

  4. 21/11/2015 10:53

    Republicou isso em luveredase comentado:
    Não devemos ingenuamente esperar a intervenção divina, pois o nosso destino está entregue à nossa responsabilidade. Seremos o que decidirmos: uma espécie que preferiu se auto-exterminar a renunciar à sua vontade absurda de poder sobre todos e sobre tudo ou então forjarmos as bases para uma paz perpétua (Kant) que nos conceda viver diferentes e unidos, na mesma Casa Comum.

  5. Thiago permalink
    21/11/2015 11:12

    Eu convido o Frei Boff à levar as suas ideias de paz diretamente e pessoalmente ao IEstado Islâmico.

  6. marcio cartaxo ponte permalink
    21/11/2015 13:00

    O homem é a medida de todas as coisas más!!!

  7. Geovane Belo permalink
    21/11/2015 13:17

    Concordo, Leonardo. A pior escolha é o revide. A guerra nunca pressupõe uma paz instituída, revela pequenas tréguas, mas depois convertidas em massacres vingativos.

  8. 21/11/2015 13:29

    “SER HERÓI, MARILIA, NÃO CONSISTE EM QUEIMAR IMPÉRIOS
    MOVE A GUERRA, ESPALHA O SANGUE HUMANO
    E DESPOVOA A TERRA, TAMBÉM, O MAU TIRANO.
    SER HERÓI CONSISTE EM VIVER JUSTO
    E TANTO PODE SER HERÓI O POBRE COMO O MAIOR AUGUSTO.”
    (TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA)
    São demais os perigos e aflições desta vida. É preciso ter cuidado
    e clamor. Onde estás, ó Deus, que não respondes? O futuro a Deus
    pertence que no presente o mundo vence. Mas, a cada dia uma cruz a
    levar. Opções pela guerra e ódio aumentam as cruzes. Pelo caminho
    precisamos dar chance à paz, amor,cuidado e serviço.

  9. Rafaela Barkay permalink
    21/11/2015 14:58

    obrigada por colocar em palavras, sempre tão sábias. só queria pedir uma coisa, se for possível… por favor, refira-se aos setores conservadores de Israel (e dos EUA também), e não a um Israel genérico, pois eu sou Israel também e compactuo ipsis literis de cada palavra aqui descrita.
    gratidão e respeito,
    Rafaela

  10. 21/11/2015 15:32

    Obrigado, por esta reflexão, muito importante, lógica e fundamentada se vista por um certo prisma, sobretudo crédulo no ser humano. No entanto, deveríamos também tentar perceber quais são os reais objectivos do Ocidente, esse nome abstracto dado a um jogador que não tem cara, nem nacionalidade, nem cor, nem raça, mas mais objectivamente se lhe deveria chamar o Poder do Dinheiro. Esses objectivos têm nos sido oferecidos por vários autores marginalizados e até desprezados pela sociedade, chamados Teóricos da Conspiração. A verdade que sempre nos trouxeram, mais ou menos especulativa, era incómoda para a humanidade, tornada na modernidade cada vez mais individualista, porque implicava com a sua tranquilidade.

    “O novo [paradigma], da fase planetária da Terra e da Humanidade, responde com o paradigma da compreensão, da hospitalidade de todos com todos, do diálogo sem barreiras, das trocas sem fronteiras, do ganha-ganha e das alianças entre todos.” Absolutamente de acordo, se esses valores tivessem sido mantidos nas pessoas, onde as várias religiões tinham um papel fundamental nesse aspecto. Com algumas excepções, as religiões desquitaram-se dessa missão, consciente ou inconscientemente. Hoje, vê-se o Papa Francisco numa procura de reintegrar a Igreja Católica nessa Missão, mas apesar de nunca ser tarde para se corrigir uma estratégia, duvido que vá a tempo de evitar uma catástrofe na Humanidade. Duvido também que tenha apoio interno suficiente para tão grandiosa Missão.

    A governança global, que sempre foi o principal objectivo do Ocidente, poder ser uma oportunidade de sobrevivência para a humanidade, mas se agora já estamos de volta ao século XVIII em termos socio-económicos aí voltaremos muito mais atrás, para o período esclavagista primário. Só espero não viver até lá para não passar por isso.

  11. 21/11/2015 19:00

    E você escolhe o que? Paz. Claro, Paz é o mesmo que guerra.
    Eu sei que você sabe.
    Não creio que você. um homem de alto quilate continue escrevendo essas preciosidades.

  12. 21/11/2015 19:42

    Republicou isso em Não ao Golpe2.

  13. Tonni permalink
    21/11/2015 20:52

    Caro Boff,

    Aqui fala o Tonni ,de Maputo, Mocambique… Africa Austral!

    Eu vou resumir so para teres uma ideia de quanto acto macabro se faz neste Mundo e, a gente e’ que nao percebe nada, mesmo com a vista desarmada….

    Olha, nao pretendo especular nada, todavia deixo a minha opiniao.

    Sobre o que dizes a respeito da “arrogancia do Ocidente”, eu diria que fazes bem pois e’ seu dever comentar, mas no concreto, o Ocidente nunca vai cessar com as suas accoes, pois para eles e’ a tecnologia lhes confere legitimidade para poder intervir em qualquer parte do Mundo e de forma criativa e/ou destruitiva.

    Veja bem, ha’ pouco tivemos conhecimento da queda da aeronave russa no Sinai- Egipto,… uma evento bem arquitectado!!!

    Para te ser sincero, aquilo e’ uma fachada, um truque de belo efeito.

    Na verdade, para mim, a propria Russia foi quem orquestrou a queda daquele aparelho, tudo para garantir a sua percentagem nos despojos “dividendos” da Siria pos-conflito, ja que os EUA nao podem intervir directamente pois se opoem ao regime de Bashar Al Assad…

    Meu caro, a Russia e os EUA sao duas faces da mesma moeda, eles se entendem, somente que na midia dao a entender uma suposta rivalidade… Pedia que entrasse para esse Link abaixo, so para ter uma ideia.

    http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/obama-e-putin-concordam-em-negociar-para-evitar-conflitos-na-siria.html,…

    Ora, mesmo nao intervindo directamente, os EUA sabem muito bem qual devera’ ser a sua percentagem na divisao do Bolo, em fim, isto e’ uma jogada que a humanidade enquanto nao voltar a atencao para dentro de si, nunca vai entender.

    Para os EUA e a Russia nao lhes custa sacrificar umas centenas de vida que e’ para depois lucrar a posterior, digo aquelas vitimas do suposto atentado no Sinai para esses dois Governos, aquilo nao lhes diz absolutamente nada.

    A Russia mandou secretamente abater aquele Aviao, pode crer no que estou falando, mesmo vivendo num pais de Terceiro Mundo, mas para mim, a percepcao que tenho e’ essa.

    Bom, eu fico por aqui, e respeito as suas intervencoes, e importa referir que eu nao sou comentador e muito menos historiador, mas sim um leitor com uma visao diferente sobre os factos que acontecem pelo Mundo fora.

    Abraco,

    Estamos juntos!!!

    • edmarvalente permalink
      24/11/2015 2:51

      Gostei, Tonni ,de Maputo, Mocambique… Africa Austral! Aqui, Edmar, de Rio de Janeiro, Brasil… América do Sul!

  14. 22/11/2015 11:30

    “SER HERÓI NÃO CONSISTE EM QUEIMAR IMPÉRIOS.
    MOVE A GUERRA, ESPALHA O SANGUE HUMANO
    E DESPOVOA A TERRA, TAMBÉM, O MAU TIRANO.
    SER HERÓI CONSISTE EM VIVER JUSTO
    E TANTO PODE SER HERÓI O POBRE
    COMO O MAIOR AUGUSTO.”
    (TOMÁS ANTÔNIO GONZAGA)
    São demais os perigos e aflições desta vida. É preciso ter cuidado
    e clamor. Onde estás, ó Deus, que não respondes? O futuro a Deus
    pertence que no presente o mundo vence. Mas, a cada dia uma cruz a
    levar. Opções pela guerra e ódio aumentam as cruzes. Pelo caminho
    precisamos dar chance à paz, amor,cuidado e serviço

  15. Eliane Ferreira permalink
    22/11/2015 11:42

    Infelizmente a lucidez é qualidade de poucos!

  16. André Lacerda permalink
    23/11/2015 14:13

    A meu ver, o problema crônico das guerras reside na manutenção da cultura humana do aniquilamento, onde se crê no extermínio do inimigo. Nesta perspectiva, o homem moderno, herança morta-viva do homem arcaico, continua não enxergando o invisível, mostrando-se totalmente cego para além de seus sentidos, como se fosse possível o coração não sentir o que os olhos não vêm. Com efeito, alia-se ao mal para aplacar o mal, e nem se apercebe estúpido. E eu nem me refiro aos ‘senhores da guerra’, pobres tolos engravatados do mundo de negócios, mas aos cidadãos comuns, que se deixam levar pela justiça aparente, pelo discurso pomposo e pela falsa solidariedade e humanismo. Por isso, nestes momentos de caos, sugiro que lembremo-nos do invisível a que se referiu Saint-Exupéry no clássico O pequeno príncipe, e que nos envolve e abriga o “essencial”.

  17. 23/11/2015 18:54

    Republicou isso em Abrente incertoe comentado:
    Cédolle a palabra a Leonardo Boff, porque cómpre emprender múltiples camiños de militancia pacifista.

  18. 27/11/2015 13:10

    Grande! Quisera eu que suas palavras entrassem nos corações ambiciosos que decidem sobre vidas humanas com a mesma placidez com que escolhem um rótulo de vinho para a ceia.

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