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A ausência de uma nova narrativa cosmológica nas COPs da ONU

10/12/2015

Amanhã, dia 11 deve terminar a Vigésima Primeira Conferência das Partes (COP 21) da ONU em Paris que se propõe metas a serem assumidas por todos para diminuir os gazes de efeito estufa e equilibrar o clima da Terra abaixo de dois graus Celsius. Caso contrário haverá graves consequências para o sistema-vida e para o inteiro planeta. Como ainda não se pensa na Terra como um todo mas cada pais pensa em seus interesses, até hoje não se chegou a nenhum consenso, seja quanto ao clima, seja quanto ao financiamento de 100 bilhões de dólares/ano, seja na transferência de tecnologia e aprendizado para os países mais carentes e ameaçados.Desta vez, tenho a impressão que os avanços serão pífios e apenas voluntários, o que permite que a maioria não faça nada ou não o suficiente. Muitas são as causas que iremos ainda analisar neste espaço. Mas a principal dela se deriva de nosso modo de entender a Terra, não como um ser vivo e nós parte dele, mas como um armazém de bens e serviços naturais colocados ao nosso bem prazer. É a velha e superada cosmologia que hoje nos coloca numa profunda crise. Faz-se necessário uma nova cosmologia, vale dizer, uma nova forma de habitar o planeta. Transcrevo neste espaço o que escrevi como crítica para a Rio+20, onde estavam também os principais chefes de Estado. O leitor atento poderá perceber que já naquele ano minha linha de pensamento e as expressões estão em sintonia com aquilo que o Papa Francisco escreveu em sua encíclica sobre “o cuidado de nossa Casa Comum“. Ele, o Papa, entendeu bem que devemos mudar. Assumiu a nova cosmologia de forma clara a coerente. Por isso devemos ouvi-lo e em seu pensamento perceber uma alternativa que nos pode tirar da crise nos colocar no caminho  correto, em sintonia com todos os seres e com a Mãe Terra: lboff

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                    A ausência de uma nova narrativa nas diferentes COPs da ONU

O vazio básico do documento da ONU para a Rio+20 reside numa completa ausência de uma nova narrativa ou de uma nova cosmologia que poderia garantir a esperança de um “futuro que queremos” lema do grande encontro. Assim como está, nega qualquer futuro promissor.

Para seus formuladores, o futuro depende da economia, pouco importa o adjetivo que se lhe agregue: sustentável ou verde. Especialmente a economia verde opera o grande assalto ao último reduto da natureza: transformar em mercadoria e colocar preço àquilo que é comum, natural, vital e insubstituível para a vida como a água, solos, fertilidade, florestas, genes etc. O que pertence à vida é sagrado e não pode ir para o mercado dos negócios. Mas está indo, sob o imperativo categórico: apropia-te de tudo, faça comércio com tudo , especialmente com a natureza e com seus bens e serviços.

Eis aqui o supremo egocentrismo e a arrogância  dos seres humanos, chamado também de antropocentrismo. Estes veem a Terra como um armazém de recursos só para eles, sem se dar conta de que não são os únicos a habitar a Terra nem são seus proprietarios. Não nos sentimos parte da natureza,  mas fora e acima dela como seus “mestres e donos”. Esquecemos, entretanto,  que existe toda a comunidade de vida visível (5% da biosfera) e os quintilhões de quintilhões de microrganismos invisíveis (95%) que garantem a vitalidade e fecundidade da Terra. Todos estes pertencem ao condomínio Terra  e têm direito de  viver  e conviver conosco. Sem as relações de interdependência com eles, sequer poderíamos existir. O documento desconsidera tudo isso. Podemos então dizer: Com ele não há salvação. Ele abre o caminho para o abismo. Enquanto tivermos tempo, urge evitá-lo.

Tal vazio se deriva da velha narrativa ou cosmologia. Por narrativa ou cosmologia entendemos a visão do mundo que subjaz às idéias, às práticas, aos hábitos e aos sonhos de uma sociedade. Por ela se procura explicar a origem, a evolução e o propósito do universo, da história e  o lugar do ser humano no conjunto dos seres.

A nossa atual é a narrativa ou  a cosmologia da conquista do mundo em vista do progresso e do crescimento ilimitado. Caracteriza-se por ser mecanicista, determinística, atomística e reducionista. Por força desta narrativa 20% da população mundial controla e consome 80% de todos os bens e serviços naturais; metade das grandes florestas foram destruídas, 65% das terras agricultáveis, perdidas, cerca de 27 a cem  mil espécies vivas desaparecem por ano(Wilson) e mais de mil agentes químicos sintéticos, a maioria tóxicos, são lançados na natureza. Construímos armas de destruição em massa, capazes de eliminar toda vida humana. O efeito final é o desequilíbrio do sistema-Terra que se expressa pelo  aquecimento global. Com os gases já acumulados, até 2050 fatalmente se chegará a 3-4 graus Celsius, o que tornará a vida, assim como a conhecemos praticamente impossível.

A atual crise econômico-financeira que mergulha nações inteiras na miséria nos fazem perder a percepção do risco  e conspiram contra qualquer mudança de  de rumo.

Em contraposição, surge  a narrativa ou a cosmologia do cuidado e da responsabilidade universal, potencialmente salvadora. Ela ganhou sua melhor expressão na Carta da Terra. Situa nossa realidade dentro da cosmogênese, aquele imenso processo de evolução que se iniciou há  13,7 bilhões de anos. O universo está continuamente se expandindo, se auto-organizando e se autocriando. Nele tudo é relação em redes e nada existe fora desta relação. Por isso todos os seres são interdependentes e colaboram entre si para garantirem o equilíbrio de todos os fatores. Missão humana reside em  cuidar e manter essa harmonia sinfônica.

 Por detrás de todos os seres atua a Energia de fundo que deu origem e sustenta o universo permitindo emergências novas. A mais espetacular delas é a Terra viva e os humanos como a porção consciente dela, com a missão de cuidá-la e de responsabilizar-se por ela.

Esta nova narrativa garante “o futuro que queremos”. Do contrário seremos empurrados fatalmente ao caos  coletivo com consequências funestas. Ela se revela inspiradora. Ao invés de fazer negócios com a natureza, nos colocamos no seio dela em profunda sintonia e sinergia, respeitando seus ciclos e buscando o “bem viver” que é  a harmonia entre todos e com a mãe Terra.  Característica desta nova cosmologia é o cuidado no lugar da dominação, o reconhecimento do valor intrínseco de cada ser e não sua mera utilização humana, o respeito por toda a vida e dos direitos da natureza e não sua exploração e a articulação da justiça ecológica com a social.

Esta narrativa está mais de acordo com as reais necessidades humanas e com a lógica do próprio universo. Se o documento Rio+20 a adotasse, como pano de fundo, criar-se-ia a oportunidade de uma civilização planetária na qual o cuidado, a cooperação, o amor, o respeito, a alegria e espiritualidade ganhariam centralidade. Tal opção apontaria, não para o abismo, mas para o “o futuro que queremos”: uma biocivilização da esperança.

Leonardo Boff é autor com Mark Hathaway de O Tao da Libertação: a ecologia da transformação, Vozes 2012.

 

7 Comentários leave one →
  1. 11/12/2015 7:48

    Republicou isso em Blog de Sociologia Políticae comentado:
    Compartilho desse pensamento… A Economia sem Ecologia é Egolatria.

  2. 11/12/2015 8:46

    FIM DO HELIOCENTRISMO

    É anunciada a volta do cometa Halley. Ele virá como um filho rejeitado, tal qual um Moisés, o libertador do cativeiro do Egito, tal qual o rei Édipo, o elucidador do ethos grego; tal qual Cristo, filho sem pai nativo; o revolucionário da moral e da vida.
    Esta é a grande hora. É a hora de se pensar em algo diferente…
    Astronomicamente, o Sol é o centro de nosso sistema planetário. Tudo gira em torno do Sol…
    Todo este heliocentrismo é um reflexo da nossa falocracia e do nosso falocentrismo. Falo-cracia (membro masculino-governo do) é o governo do falo. Falo-centrismo (membro masculino-centro do) significa nosso machismo.
    A ontologia falocrática totaliza a mãe e o filho dentro do horizonte do “o Mesmo”, sem nenhuma proposta de libertação.
    O Sol como centro do sistema, é o reflexo da dependência das colônias em torno do império atual.
    A Ontologia do centro europeu-norte-americano, totaliza os países subdesenvolvidos dentro do âmbito dos seus teoremas, normas e teorias. Pois a partir de um pretenso “centro”, a cultura parte dele e para ele, quase irreversivelmente, sufocando toda a cultura da periferia, que, neste caso, é o terceiro mundo.
    Voltando ao Sol, este é “um momento mítico masculino” (Henrique Dussel, Erótica e Pedagógica, pág. 157); “a terra atemorizada é o momento maternal-feminino” (Ibid).
    A teoria de Copérnico veio a negar uma outra ordem. A teoria de Einstein desestruturou, quase que anarquisticamente, toda uma outra ordem pré-estabelecida, que era a teoria Newtoniana, de causa e efeito.
    Na mesma esteira de um Einstein, vieram as teorias libertadoras, tais como a Pedagogia do Oprimido (Paulo Freire), a Teologia da Libertação (Leonardo Boff), a Filosofia da Libertação (Enrique D. Dussel e outros), a antipsicologia (Alfredo Moffat e outros).
    O rei Sol (nome masculino), que, antigamente, pedia imolações humanas, é substituído pelo falocentrismo e pela Ontologia do centro europeu-norte-americano.
    E como superar o falocentrismo, diríamos nós. E como superar a Ontologia, diria Heidegger. Responderíamos, nós, pensadores da libertação com uma Meta-física que é uma ética antropológica, que é, também, uma ética arqueológica…
    Enfim, o cometa Halley virá inconscientemente, e com a sua própria luz, matar o rei-Sol e casar-se com a mãe-Terra. É hora de muita reflexão…
    Alguns anos mais tarde, Edgar Morin, em seu livro Método, em 05 vols., faz uma reviravolta no heliocentrismo, colocando o sol alinhado aos outros planetas e no lugar central onde está o Sol, Morin coloca uma máquina ao centro…

    * Artigo publicado no Jornal O Povo
    Data: 19 de Novembro de 1985

  3. 11/12/2015 8:48

    onde está o meu artigo?

  4. Edgar Rocha permalink
    11/12/2015 14:25

    “Missão humana reside em cuidar e manter essa harmonia sinfônica.” Às vezes temos de nos livrar de nosso próprio egocentrismo, esgotar nosso próprio antropocentrismo antes de meter-se numa cruzada em prol da natureza.
    Com todo respeito, mas que pretensão achar que temos neste mundo a função de zelar pela harmonia sinfônica da vida e do Universo. Já nos é por demais pesado ter de entendê-lo, sobreviver a ele sustentarmos nosso próprio futuro! Nem estas coisas, já tão bem resolvidas pelo mundo natural, nossa “consciência” foi capaz de elaborar e digerir.
    Primeiro, nos caberia abrir mão de nossa posição de liderança sobre as outras formas de vida. Não somos. Caberia-nos entender que um ser vivo, seja ele qual for, não tem por princípio alterar mais o meio em que vive para além do que suas forças reais e naturais permitem. Todos – exatamente – todos os seres vivos alteram em certo grau o meio em que vivem em seu benefício. E nenhum de nós, humanos ou não, estamos acima das forças evolucionárias ou, aquilo que as antigas civilizações determinaram como sendo Fortuna. Triste constatação. Feliz constatação.
    Nossa única tarefa seria entendermos nossa própria natureza interna. Foi para isto que a natureza em seu processo evolutivo, dotou nossa espécie. Quando isto ocorrer, creio eu, já não teremos mais o meio externo como empecilho ao bem viver. Não precisaremos desviar rios, exaurir solos, construir mega-cidades… tudo isto atende exclusivamente a irracionalidade exacerbada a qual equivocadamente definimos como progresso. É nossa pulsão animal pela disputa de poder – tal como um lobo numa matilha, ou um gorila em seu bando – que tem controlado o único dispositivo capaz de manter viva esta forma tão frágil, conduzindo-a com isto ao caminho da seleção natural. O que não se sustenta, extingue-se.
    Manter a harmonia interna é o que importa no momento. Quando isto ocorrer, olharemos para nós mesmos, com a piedade dos que viam a roda da Fortuna girar, aguardando sua vez de decair, impotentes, diante das forças sob as quais nosso corpo inexoravelmente se submete. Haveremos de reconhecer nossa miséria, nossa incapacidade em conduzirmos nossa própria vida. Gente não é pra brilhar coisa nenhuma. Quem brilha, quem quer brilhar, sempre mata de fome a outrem. Ou, será que quem morre de fome não é gente?
    Devemos reconhecer que basta um erro, um grande erro, e tudo o que vem depois pagará por ele pela eternidade. O resto, é fruto deste ego maldito, desta força que nos faz pensar que somos mais do que somos. Na vida só existe uma arma legítima e invencível: o Não!

  5. 19/12/2015 19:17

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    A ausência de uma nova narrativa nas diferentes COPs da ONU – Leonardo Boff

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