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Paz: um bem escasso e sempre desejado

09/01/2016

O que mais se ouve no princípio de cada ano novo são os votos de paz e de felicidade. Se olharmos com realismo a situação atual do mundo e mesmo dos distintos países, inclusive do nosso, o que mais falta é justamente paz. Ela é um bem tão precioso que sempre é desejado. E precisamos nos empenhar muito (quase ia dizendo…precisamos lutar, o que seria contraditório) para conseguir aquele mínimo de pez que torna a vida apetecida: paz interior, paz na família, paz nas relações de trabalho, paz no jogo político e paz entre os povos e também paz com Deus. E como é necessária! Além dos atentados terroristas, existem no mundo 40 focos de guerras ou conflitos, geralmente, devastadores.

São muitas e até misteriosas as causas que destroem a paz e impedem a sua construção. Restrinjo-me à primeira delas: a profunda desigualdade social mundial. Thomas Piketty escreveu um inteiro livro sobre A economia da desigualdade (Intriseca 2015). O simples fato de que cerca de 1% de multibilhardáros controlarem grande parte das rendas dos povos e no Brasil, segundo o especialista no ramo Márcio Pochmann, cinco mil famílias deterem 46% do PIB nacional nos mostra o nível da desigualdade. Piketty reconhece que “a questão da desigualdade das rendas dos trabalhos talvez tenha se tornado a questão central da desigualdade contemporânea senão de todos os tempos” (Op.cit. p. 12). Rendas altíssimas de uns poucos e pobreza infamante das grandes maiorias.

Não esqueçamos que desigualdade é uma categoria analítico-descritiva. Ela é fria pois não deixa ouvir o clamor do sofrimento que esconde. Ético-politicamente se traduz por injustiça social. E teologicamente, em pecado social e estrutural que afeta o desígnio do Criador que criou todos os seres humanos como sua imagem e semelhança, com igual dignidade e com os mesmos direitos. Esta justiça original (pacto criacional) se rompeu ao largo da história e nos legou o atual estado de uma injustiça clamorosa, pois afeta os que não conseguem se defender por própria conta.

Uma das partes mais contundentes da encíclica do Papa Francisco sobre O cuidado da Casa Comum é dedicada à “desigualdade planetária”( (nn.48-52). Vale citar suas palavras:

“Os excluídos são a maioria do planeta, milhares de milhões de pessoas. Hoje são mencionados nos debates políticos e econômicos internacionais, mas com frequência parece que os seus problemas se colocam como um apêndice, como uma questão que se acrescenta quase por obrigação ou perifericamente, quando não são considerados meros danos colaterais. Com efeito, na hora da implementação concreta permanecem frequentemente no último lugar…deve-se integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o grito da Terra como o grito dos pobres”(n.49)

Aqui reside a causa principal da destruição das condições para a paz seja entre os seres humanos seja com a Mãe Terra: esta é ultra explorada; tratamos injustamente nossos semelhantes; não nutrimos sentido de equidade nem de solidariedade para com os que menos têm e são condenados a morrer antes do tempo. A encíclica vai ao ponto nevrálgico ao dizer: ”é preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença”(n.52).

A indiferença é a ausência de amor, é expressão de cinismo e de ausência da inteligência cordial e sensível. Esta é sempre retomada em minhas reflexões, pois sem ela não nos animamos a estender a mão ao outro nem a cuidar da Terra, também ela submetida à gravíssima injustiça ecológica: movemo-lhe guerra em todas frentes a ponto de ela ter entrado em processo de caos com o aquecimento global com os efeitos extremos que ele causa.

Em resumo: ou seremos pessoal social e ecologicamente justos ou nunca gozaremos de paz serena.

A meu ver, a melhor definição de paz foi dada pela Carta da Terra ao afirmar: ”a paz é a plenitude que resulta das relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com outras vidas, com a Terra e com o Todo do qual somos parte” (n.16, f). Aqui fica claro que paz não é um dado que existe em si. Ela é o resultado de relações corretas com as diferentes realidades. Sem estas corretas relações (isso é justiça) jamais desfrutaremos de paz.

Para mim é evidente que dentro do quadro atual de uma sociedade produtivista, consumista, competitiva e nada cooperativa, indiferente e egoísta, mundialmente globalizada, não poderá haver paz. No máximo alguma pacificação. Temos que politicamente criar outro tipo de sociedade que se assente em relações justas entre todos, com a natureza, com a Mãe Terra e com o Todo (o Mistério do mundo ou Deus) a quem pertencemos. Então florescerá a paz que a tradição ética definiu como “a obra da justiça ”(opus justiciae, pax).

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor.

11 Comentários leave one →
  1. Maria Emília Marques Mano permalink
    09/01/2016 10:02

    «relações correctas consigo mesmo» em primeiro lugar, condição sine qua non. Se não houver relações correctas consigo mesmo, tudo o que fazemos só pode ser errado, maléfico, até mesmo a caridadezinha. E ter relações correctas consigo mesmo implica o velho «conhece-te a ti próprio e conhecerás o mundo e Deus». E não nos conhecemos; a nossa inconsciência é confrangedora. Continuamos no exílio de nós mesmos, no labirinto das categorias morais de bem e de mal que, hoje, não têm cabimento.

  2. Maria José dos Santos permalink
    09/01/2016 16:48

    Texto maravilhoso. Uma grande reflexão sobre o que é a paz.

  3. Edgar Rocha permalink
    10/01/2016 3:31

    Talvez, seja necessário reunir os querem a paz e a vêem não como uma utopia, mas em sua concretude, como matéria prima insubstituível para a construção do bem viver. São tantos os excluídos no mundo e tantas as formas de exclusão que, se dependesse desta condição social para se desejar a paz, não haveria guerra por falta de quorum. Acontece que o “mundo-cão” apregoado pelo sistema capitalista, como única realidade de vida, para a qual nascemos e sem a qual não faria sentido algum viver, vence de goleada sobre um conceito que, ao invés de estar dentro de nós, é posto como promessa, como utopia. Lembrando-me de outro excelente texto escrito pelo senhor, talvez este seja o sentido da mudança pelo cansaço a qual se fez menção, admitindo-se nele um certo tom polêmico que eu, particularmente, não senti. Pra mim, está claro como água da fonte. As pessoas têm que desistir, de uma vez por todas, deste paradigma inquestionável de que a vida só faz sentido pelo exercício do poder. Poder este que pode ser tão mesquinho quanto colocar-se acima dos que tem uma fatia menor de pão que a tua pra se alimentar. A origem disto tudo, no entanto, se coloca justamente no segundo desejo que se expressa nestes tempos de festas: a felicidade. Entendo-a no sentido estrito: o de agraciamento, de satisfação. Ora, isto se consegue também por estímulo artificial de um “tapa” numa carreira de cocaína.
    A felicidade é algo tão vil, tão ruim que poderia ser o eixo central da crítica ao capitalismo. É o prazer instantâneo como macarrão chinês. Acaba logo, e continuamos eternamente famintos, desejosos de tudo que nos for apresentado como panaceia pra nossas carências mais inconscientes, mais animalescas e insaciáveis.
    Eu, nestes tempos, desejo paz e alegria. Nunca felicidades. Alegria é júbilo. É o que separa o infeliz vendedor de amendoim no farol e o escroque de Wall Street. O primeiro, infeliz, sorri sinceramente, desce do morro e vai ao carnaval sentindo-se um Deus. É um idiota? Tenho certeza que não. É alegre. E a alegria abraça como irmã todos os outros sentimentos da vida: felicidade, tristeza, desespero, luto, dor… É ela que nos faz aceitar o viver. Alegria traz certeza. No caso do escroque, por outro lado, sua felicidade inquestionável não o impede de, muitas vezes, subir no topo do prédio em que trabalha e de lá alçar queda livre no vazio de sua vida para o desejo de tocar por uma vez sequer, a concretude do chão em que se esborracha.
    O cansaço é o que nos faz mudar de rumo, transformar. E o escroque não se cansa, se frustra e se desespera. Morre de raiva de si mesmo, na esperança de interromper seu vício isolador pelo poder.
    Desta forma, como eu acredito que todos os injustiçados ainda não se cansaram de lutar pelo direito de ser tão feliz quanto os de cima, creio que esta guerra atual vá longe. E muitos hão de sucumbir no caminho até o chão, de onde o ser humano nunca deveria ter sonhado em sair. Mesmo as águias têm de pousar um dia.
    Meus respeitos.

  4. gustavo souza permalink
    10/01/2016 7:31

    Lo que dice Boff es verdad, no se puede pedir que un sistema economico que se ha impuesto mundialmente, incluso en los paises del socialismo “real” que desprecia a la inmensa mayoria de la humanidad y ni que hablar de los recursos naturales pueda siquiera plantearse alcanzar la paz, cuando no fomenta ningùn otro valor que la sustente, compasiòn, caridad, solidaridad, rectitud, humildad, etc. Aunque el discurso siempre exalta estos valores es evidente que la vida misma de cada uno los desalienta bien pronto. Mientras los economistas se crean que pueden manejar con formulas las desigualdades y perversiones de este sistema injusto y nunca se cuestione el manejo economicista de la pobreza el problema nunca se va a solucionar. La guerra es la ùnica manera que el poder encuentra para solucionar sus problemas (B. Russel tiene una cita memorable al respecto). Si la gente no cultiva el desapego ni cuestiona su ego nunca podrà haber paz alguna. Comencemos por lo chiquito, lo que nos rodea, si todos lo hicieramos el mundo cambiaria, suena infantil, pero al menos seremos màs felices y quien te dice?

  5. tatiane permalink
    10/01/2016 7:54

    A paz deve ser um cultivo que se faz diariamente, como um hábito, e que se expande desde a nossa condição existencial, até nossa vital relação com o planeta provedor e seus habitantes…exige esforço e persistência, olhar e atitude amorosas, o famoso ” Amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo”

  6. paulo fernandes dias permalink
    10/01/2016 8:50

    … a paz foi historicamente alheia aos hábitos de engradecimento, atualmente, num mundo globalmente informado, converte-se em pequenos conflitos individuais, continua com mais eficácia substituída pelo contínuo viver para o externo, ideais de exibicionismos e lato senso,escassa em todo o planeta… clamores de igualdade, fraternidade, perdem-se dentre outros informes mais excitantes…

  7. 10/01/2016 11:39

    Republicou isso em sdaalencare comentado:
    Indubitável!

  8. Ilze Andrade Camargo permalink
    10/01/2016 12:10

    Bom dia, meu amigo. Que bom ler um texto seu enviado para o meu e-mail, eu que tanto precisei de você ao longo de minha caminhada na igreja católica, e que encontrei solidariedade e auxílio quando precisei de você! Um grande abraço. Ilze Camargo

  9. Dulcinea permalink
    10/01/2016 22:41

    Peço ao Leonardo Boff uma análise da fala de Mauro Rasi, à luz desta mensagem pela paz. https://m.youtube.com/watch?v=tznmXqK6ECs

  10. 12/01/2016 21:04

    Republicou isso em psicologofelipe's Bloge comentado:
    São muitas e até misteriosas as causas que destroem a paz e impedem a sua construção. Restrinjo-me à primeira delas: a profunda desigualdade social mundial. Thomas Piketty escreveu um inteiro livro sobre A economia da desigualdade (Intriseca 2015). O simples fato de que cerca de 1% de multibilhardáros controlarem grande parte das rendas dos povos e no Brasil, segundo o especialista no ramo Márcio Pochmann, cinco mil famílias deterem 46% do PIB nacional nos mostra o nível da desigualdade. Piketty reconhece que “a questão da desigualdade das rendas dos trabalhos talvez tenha se tornado a questão central da desigualdade contemporânea senão de todos os tempos” (Op.cit. p. 12). Rendas altíssimas de uns poucos e pobreza infamante das grandes maiorias.

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