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Quatro sombras afligem a realidade brasileira

20/03/2016

 Em momentos de crise, assomam quatro sombras que estigmatizam nossa história cujos efeitos perduram até hoje.

A primeira sombra é nosso passado colonial. Todo processo colonialista é violento. Implica invadir terras, submeter os povos, obriga-los a falar a língua do invasor, assumir as formas políticas do outro e submeter-se totalmente a ele. A consequência no inconsciente coletivo do povo dominado: sempre baixar a cabeça e levado a pensar que somente o que é estrangeiro é bom.

A segunda sombra foi o genocídio indígena. Eram mais de 4 milhões. Os massacres de Mem de Sá em 31 de maio de 1580 que liquidou com os Tupiniquim da Capitania de Ilhéus e pior ainda, a guerra declarada oficialmente por D.João VI em 13 de maio de 1808 que dizimou os Botocudos (Krenak) no vale do Rio Doce manchará para sempre a memória nacional. Consequência: temos dificuldade de conviver com o diferente, entendendo-o como desigual. O índio não é ainda considerado plenamente “gente”, por isso suas terras são tomados, muitos são assassinados e para não morrerem, se suicidam. Há uma tradição de intolerância e negação do outro.

A terceira sombra, a mais nefasta de todas, foi o escravidão. Entre 4-5 milhões foram trazidos de África como “peças” a serem negociadas no mercado para servirem nos engenhos ou nas cidades como escravos. Negamos-lhes humanidade e seus lamentos sob a chibata chegam ainda hoje ao céu. Criou-se a instituição da Casa Grande e da Senzala. Gilberto Freyre deixou claro que não se trata apenas de uma formação social patriarcal, mas de uma estrutura mental que penetrou nos comportamentos das classes senhoriais e depois dominantes. Consequência: não precisamos respeitar o outro; ela está aí para nos servir. Se lhe pagamos salario é caridade e não direito. Predominou o autoritarismo; o privilégio substitui o direito e criou-se um estado para servir os interesses dos poderosos e não ao bem de todos e uma complicada burocracia que afasta o povo.

Raymundo Faoro (Os donos do poder) e o historiador e acadêmico José Honório Rodrigues (Conciliação e reforma no Brasil ) nos têm narrado a violência com que o povo foi tratado para estabelecer o estado nacional, fruto da conciliação entre as classes opulentas sempre com a exclusão intencionada do povo. Assim surgiu uma nação profundamente dividida entre poucos ricos e grandes maiorias pobres, um dos países mais desiguais do mundo, o que significa, um país violento e cheio de injustiças sociais.

Uma sociedade montada sobre a injustiça social nunca criará uma coesão interna que lhe permitirá um salto rumo a formas mais civilizadas de convivência. Aqui imperou sempre um capitalismo selvagem que nunca conseguiu ser civilizado. Mas depois de muitas dificuldades e derrotas, conseguiu-se um avanço: a irrupção de todo tipo de movimentos sociais que se articularam entre si. Nasceu uma força social poderosa que desembocou numa força político-partidária. O Partido dos Trabalhadores e outros afins, nasceram deste esforço titânico, sempre vigiados, satanizados, perseguidos e alguns presos e mortos.

A coligação de partidos hegemonizados pelo PT conseguiu chegar ao poder central. Fez-se o que nunca foi pensado e feito antes: conferir centralidade ao pobre e ao marginalizado. Em função deles se organizaram, como cunhas no sistema dominante, políticas sociais que permitiram a milhões saírem da miséria e terem os benefícios mínimos da cidadania e da dignidade.

Mas uma quarta sombra obnubila uma realidade que parecia tão promissora: a corrupção. Corrupção sempre houve entre nós em todas as esferas. Negá-lo seria hipocrisia. Basta lembrar os discursos contundentes e memoráveis de Ruy Barbosa no Parlamento. Setores importantes do PT deixaram-se morder pela mosca azul do poder e se corromperam. Isso jamais poderia ter acontecido, dado os propósitos iniciais do partido. Devem ser julgados e punidos.

A justiça focou-se quase só neles e mostrou-se muitas vezes parcial e com clara vontade persecutória. Os vazamentos ilegais, permitidos pelo juiz Sérgio Moro, forneceram munição à imprensa oposicionista e aos grupos que sempre dominaram a cena política e que agora querem voltar ao poder com um projeto velhista, neoliberal e insensível à injustiça social. Estes conseguiram mobilizar multidões, conclamando o impedimento da Presidenta Dilma, mesmo sem suficiente fundamento legal como afirmam notáveis juristas. Mas o PT respondeu à altura.

As quatro sombras recobrem a nossa realidade social e dificultam uma síntese integradora. Elas pesam enormemente e vêm à tona em tempos de crise como agora, manifestando-se como ódio, raiva, intolerância e violência simbólica e real contra opositores. Temos que integrar essa sombra, como diria C.G.Jung, para que a dimensão de luz possa predominar e liberar nosso caminho de obstáculos.

Nunca fui filiado ao PT. Mas apesar de seus erros, a causa que defende será sempre válida: fazer uma política integradora dos excluídos e humanizar nossas relações sociais para tornar a nossa sociedade menos malvada.

Leonardo Boff é articulista do JB online e escreveu: Que Brasil queremos, Vozes 2000.

 

 

 

 

41 Comentários leave one →
  1. Mario Real permalink
    20/03/2016 20:09

    Então Frei.
    Tem uma 5a vertente. A IMPUNIDADE CRÔNICA. O pt a deseja ardentemente. O Sr deveria colocar sua posição frente a isso e não pedir para que o ex presidente atual MELIANTE se escondesse debaixo das saias d Dillma. Assim a velha esquerda quer é moleza e compadrio público. Tic Tac. Está chegando a hora dos fdp serem presos. Após vamos pegar os outros políticos corruptos, a lista é longa.
    Começar a limpeza é o primeiro passo.
    A ver !

    • duto-11 permalink
      25/03/2016 16:28

      Que tal o meliante Cunha, e toda a tucanada que mama há muito mais tempo nos desvios de verbas públicas?Eles sim, tão desprezíveis como teu comentário faccioso, seriam o primeiro e histórico passo a ser dado…eles são afinal a mãe de toda a corrupção nacional.Deves saber disto, mas acoberta-te no teu compadrio direitista e tic tac, tão desonesto quanto.

  2. 20/03/2016 20:20

    Sendo um homem pobre, um do povo, vi o PT se afastar das suas bases sociais e sindicais, a linha foi transposta. Critiquei veementemente o novo PT e a esquerda elitizada em geral (exceção ao PSOL, PSTU, PCB).

    Agora, em meio ao vendaval, vejo a velha esquerda se posicionar na defensiva… Estou com o PT novamente e espero não me decepcionar, caso o partido se recupere das máculas que a si mesmo causou quando no poder.

  3. 20/03/2016 20:25

    Republicou isso em trabalhadoresdaemgeprone comentado:
    (…). Setores importantes do PT deixaram-se morder pela mosca azul do poder e se corromperam. Isso jamais poderia ter acontecido, dado os propósitos iniciais do partido. Devem ser julgados e punidos (Leonardo Boff).

  4. 20/03/2016 21:13

    EU admiro o eminente intelectual Leonardo e costumo acompanhar alguns de seus artigos. Amo filosofia. Amo ver as considerações filosóficas do senhor Dr. Mas percebo que não conhece o suficiente do nosso ordenamento jurídico, quando fala do Moro. E, vê a ciência política através da lente parcial do ideal.

  5. Isabel da Fontoura Pinho permalink
    20/03/2016 21:21

    Muito rico seu texto. Concordo que a tese do Partido dos Trabalhadores é válida.
    Dra. Berenice Dias, desembargadora aposentada, hoje advoga a causa dos homoafetivos
    deu uma entrevista, em uma emissora da TV, dizendo que no Brasil não existe lei que proíba o crime contra os homossexuais.E dos demais ódios também, constato eu. Um abraço, Isabel

  6. Fernando permalink
    20/03/2016 21:33

    Irretocável, como sempre , Frei Leonardo. Parabéns pela resistência intelectual e moral nestes dias onde a bestialidade desmascarou um dos maiores mitos de nossa cultura: a do Brasileiro cordial. Pura fantasia inventada pela casa grande para despistar a tensão que sempre existiu. A casa grande, para manter sua hegemonia e calar por todos os meios a insatisfação que brota do extrato mais pobre da sociedade, criou um mito de falsa cordialidade que é, na verdade, um grande jogo de hipocrisia onde ela faz de conta que respeita os desvalidos e os pobres fazem de conta que respeitam os ricos quando, no máximo, puxam-lhes o saco para tornar a existência menos sofrível.

  7. Fabiana Moretto permalink
    20/03/2016 21:50

    Formidável, conseguiu escrever em poucas palavras tudo o que está acontecendo e como estamos nos comportando. Obrigada!!!

  8. Amaurih permalink
    21/03/2016 7:17

    Integrar essa sombra seira ser omissos à relação que os mandatários do partido que defende tiveram e têm com as grandes empreiteiras e com os desvios impetrados na maior empresa estatal, assim como ser omisso o fato de o governo ter gasto recursos que não tinha em uma época em que era ilegal o governo aumentar seus gastos, no período pré-eleitoral? Se integrar a sombra for isso eu entendo o seu posicionamento, e o cargo (político) que ocupa em uma Universidade federal…

  9. Lázaro Pacheco permalink
    21/03/2016 8:32

    Olá Leonardo Boff!
    Não precisamos ser filiados a partido algum para notar claramente que há podres poderes que querem voltar a tomar as rédeas da nação para seu projeto explorador, entreguista e de continuidade ao passado colonial, escravizador, assassino e perpetuador de injustiças sociais.
    É necessário sublinhar que a mídia atua diretamente e formalmente na continuação de todos os males acima descritos: não seria o “BBB”, com suas fofocas, brigas e expulsões, um exemplo dos muitos programas televisivos que “formam” os espectadores para massacrar e jogar pessoas fora da maneira mais fascista e irracional possível? E os programas “humorísticos” onde se falava muito “quero que o pobre se exploda”, “tenho horror a pobre”, etc.?
    Se precisamos de uma sociedade melhor, há que se mexer não na liberdade de imprensa, mas na qualidade da mídia, removendo programas que deseducam.

  10. adenir balmant permalink
    21/03/2016 9:16

    A maior sombra do Brasil é do GIGANTISMO. Nossos 8.514.876 deixam espaços para populações e cidades que já chegam a 205.650.879 habitantes nas 5.561 cidades. O
    sistema republicano greco-romano é limitado e desatualizado para esta realidade. A sombra da monarquia portuguesa está constantemente rondando. Por força deste gigantismo e miscigenação todo brasileiro traz em si o “SANGUE DOS HERÓIS E TRAIDORES”. Nossa sombra mais obscura é a do ENTREGUISMO E GOLPISMO QUE DESDE A COLONIZAÇÃO VEM DIVIDINDO E RETALHANDO O PAÍS. O ANARQUISMO, também, tem minado as forças bem intencionados, pois muita coisa no Brasil não passa de boas intenções.Como não sou filiado a nenhum partido e já na idade dos setenta sem obrigações de voto espero uma política que TRATE COM OS POBRES, pois ser MARIONETE DE RICOS é vergonhoso. Minha OPÇÃO PREFERENCIAL é com LULA, TRABALHADORES E POBRES. O resto ainda tem espaço no gigante em berço esplêndido.

  11. Nazario Souza permalink
    21/03/2016 11:37

    As 3 primeiras sombras são parcialmente verdadeiras. Colonialismo pode sr oportunidade e integração, sobre os índios nem todos foram dízimados, eles estão em nós na nossa herança genética foram como disse integrados. A escravidão é mancha mas não pode se atribuída somente ao branco colonizador, a escravidão foi aceita por milênios e ainda existe na África sobretudo entre os muçulmanos. Na verdade nos só estamos aqui graças a homens brutais como raposo Tavares se fossemos colonizados por politicamente corretos seríamos comida de índio. Quanto a corrupção sim está e sombra verdadeira e a bronca com o PT é que ele sempre posou de ético. Quanto ao verdadeiro projeto petista não passa do velho marxismo/comunismo tra vestido de social democracia.

  12. Gustavo permalink
    21/03/2016 12:40

    Acredito que daqui 50 anos a visão do partido dos trabalhadores será bem diferente do que e apresentada hoje, a historia deverá ser mais imparcial e ponderada com certos julgamentos, ainda mais com a triste historia da desigualdade Brasileira. Sem duvida o Lula estará como o Grande presidente que esse Brasil já possuiu, estará na Historia, assim como as instituições que o apoiaram.

  13. 21/03/2016 13:40

    De fato isso tudo reflete uma o modelo de formação social na história do País. Como as elites sempre comandaram o poder político no Brasil: desde a colônia, Reinado, Império, oligarquias na Velha República, perpassando por ditaduras (Vargas e Militar), a frágil redemocratização, desde os anos 80, ainda patina nesta lógica maquiavélica de caça ao vilão e de criação de salvador da pátria. Faz parte da história da massa alienada, desde os tempos jesuânicos: dos que diziam: “Solta Barrabás e crucifique Jesus”, muitos dos quais, posteriormente iriam dizer: “Malhemos Judas e acolhamos Jesus”. Uma coisa é certa: enquanto ficarmos buscando culpados e elegendo “salvadores da pátria”, estaremos apenas trocando maquinistas e deixando a máquina ficar estragada. A agenda política popular precisa de um bom tempero. As demandas essenciais por reformas urgentes no setor político ( acabar com este monte de partidos; mordomias e altos salários dos que ocupam cargos públicos; reforma tributária para aliviar as classes menos favorecidas e exigir mais das elites econômicas; políticas sociais sustentáveis para alavancar a economia popular; garantia de serviços públicos essenciais; fim da corrupção independentemente do partido político ou organização que a pratica; redução dos gastos da máquina pública; transparência na ação do Judiciário; etc. etc. etc… Parece que a agenda da disputa política se reduz à mera disputa do poder pelo poder. O oportunismo de grupos ou líderes que querem dar continuidade aos vícios e equívocos da velha política arrasta multidão de cegos pelas ruas. Parece uma torcida organizada, cujo foco não é o jogo em si, mas a prevalência de uns sobre outros. Os verdadeiros elementos da agenda de mudanças fica ensurdecida sob os gritos fanáticos de “fora Dilma”, “fora PT”, ou de “fica Dilma”, “viva Lula de volta”, ou coisa assim.
    Caso contrário, as manifestações nas ruas vão escambar par um verdadeiro cenário de hostilização, insultos, podendo chegar à violência fortuita.
    Bela fica a rua quando cheia de manifestantes. Um sinal de indignação contra tudo oque se apresenta no cenário político e econômico brasileiro. Mas não percamos a chance de amadurecer politicamente. Ler criticamente os fatos e reivindicar profundas transformações do sistema político brasileiro e no modo de fazer política. Criar agendas de reformas. Exigir de quem está no poder ou venha a ocupá-lo, comprometa-se com as mudanças substanciais, a fim de colocar o Brasil na direção de crescimento sustentável , que permita melhor distribuição da renda, diminuição da exclusão e do abandono das políticas sociais.
    Faça sua análise, apresente sua crítica, tire suas conclusões.

  14. Edgar Rocha permalink
    21/03/2016 16:55

    Texto de uma capacidade de síntese milagrosa! É o tipo de artigo que deveria estar contido em qualquer curso de formação, acadêmico/formal ou não. Muito obrigado por mais este importante instrumento para o entendimento do país.
    Só me restou uma dúvida, professor. A frase no final ” Temos que integrar essa sombra, como diria C.G.Jung, para que a dimensão de luz possa predominar e liberar nosso caminho de obstáculos.”.
    Me desculpe, mas não entendi o que o senhor quis dizer com isto. Integrar a sombra seria integrar a todos que ainda vivem sob ela? Ou seria o esforço de integrar os “agentes” da sombra à identidade social pela qual desgraçadamente (na visão destes) estão cercados?
    Faço esta pergunta porque, como muitos aqui, acompanho seus textos – me desculpe o trocadilho – religiosamente. Sei de sua disposição conciliatória e sua enorme convicção de que seja possível a convivência, digamos, harmoniosa, entre lobos e camponeses (não vou me esquecer daquele texto, professor).
    Antes de um posicionamento mais pessoal sobre isto e abusando de sua franciscana paciência com seus leitores, gostaria de entender melhor esta passagem, se for possível, obviamente.
    Um forte abraço e, de antemão, agradeço-lhe e peço desculpas pela aporrinhação.
    Meus respeitos.

    • 24/03/2016 6:36

      Edgar, integrar a sombra significa não recalcá-la ou desconhece-la. Ela faz parte de nossa históriaa mas não permitir que ela continue dominando a história. Deve ser absorvida por um projeto mais generoso e luminoso. No nivel pessoal vale a mesma coisa.
      lboff

      • Luís Pancada permalink
        26/03/2016 19:22

        É espantoso como há ” pensadores ” que continuam a a atribuir a Portugal todos os males que acontecem no Brasil. Já tinha lido artigos seus em que é notória essa raivinha de dentes. Como se nós nada de bom tivéssemos levado para o Brasil , desde a maior biblioteca que na época existiu na América do Sul , até um sistema bancário inovador , teatro , etc etc etc

        Sou Português casado com uma Brasileira e trago sempre o Brasil no coração , mesmo quando facciosos esquerdistas como o senhor tentam baralhar as mentes menos evoluídas . Salazar ( que eu combati , convém dizer,para evitar imediatas interpretações de mentes como a sua ) dizia sobre os manipuladores que pensam como o senhor .. “ah , sim são peixinhos vermelhos nadando em pias de água benta … “

      • 26/03/2016 22:59

        Luis, vc precisa entender mais de história. Os fatos do passado são internalizados e criam um imaginário que permanece até hoje. Vc acha que a invasão portuguesa no Brasil foi uma benção para os indigenas que eram 4 milhões e hoje são apenas 800? Moro numa região de Mata Atlantica, com grande biodiversiade, que vai do sul até a Bahia e que foi dizimada pelos colonos portugueses exportando madeira e acabaram esta mata extraordinária aponto de que hoje apenas sobrou 7% do que era. E a escravidão, nem pensar. 62% dos brasileiros possuem sangue africano. Oa africanos não vieram a passeio no Brasil mas como peças a serem exploradas. Seu tempo de vida não passava de 7-10 anos quando trabalhavam nos engenhos tal era a exploração. Isso o inconsciente coletivo não esquece. Tenha um pouco mais de misericórdia e piedade e não queira desculpar as barbaridades aqui cometidas por seus antepassados.
        lboff

  15. Vitória permalink
    21/03/2016 22:02

    Leonardo Boff, admiro muito o senhor como pensador e como cristão. Suas palavras são de leveza para a alma, ao mesmo tempo que carregadas de força transformadora. Nisso, o senhor certamente assemelha-se ao nosso mestre. Tê-lo como referência no Brasil é um privilégio. Gostaria de saber se tem alguma reflexão passível de publicação em relação a este momento que passamos no Brasil e também no mundo, de instabilidade política, diante da iminência de “espinheiros governarem no lugar de árvores frutíferas” – faço aqui referência à parábola de Juízes 9. Um abraço com muito respeito e carinho.

  16. 22/03/2016 9:52

    Este comentário é sobre as sombras que pairam sobre o Brasil, sempre que os pobres e excluídos levantam a cabeça para ver a luz do dia.
    Sabe, mestre, penso que até a corrupção que conseguiu esgueirar-se dentro do PT teve um fim educativo.
    Por um lado conheceram o poder da corrupção: se corrompeu ou deixou-se corromper por uma justa causa ela reconhece quem não lhe pertence.
    Mas como é dona da bola, se os jogadores estiverem perdendo, ela acaba com o jogo e permanece com a bola.
    Também nós que fomos ou somos militantes,dirigentes e simpatizantes do PT corremos o risco de viver a cegueira e a crueldade daqueles que se julgam justos e detentores da verdade porque tem parcela do poder e se afastam do diálogo com os necessitados.
    Por Deus, nós não vamos nos submeter, “prova de amor maior não há, que doar a vida pelo irmão” ou parafraseando a música “eu só quero é ser feliz, andar despreocupada na terra onde eu nasci e poder me orgulhar de ter a consciência que o pobre aqui tem seu lugar…DIGNO!

  17. 22/03/2016 12:15

    Colonialismo, (em diferentes contextos, acrescento), genocídio indígena, herança escravista e corrupção (política e econômica) parecem ser a metáfora que o pensamento crítico de Leonardo Boff faz uso para se pensar o Brasil de nossos dias. Logo, o agravante combina esses quatro elementos quando engendram uma quinta sombra, a VIOLÊNCIA SIMBÓLICA dos Donos do Poder, aliada às classes médias, que na opinião do cientista político Paulo Sérgio Pinheiro (em outro contexto, esclareço), seriam as “classes basculantes”, que abrem e fecham na medida de suas conveniências. De parabéns, a Lucidez Ética de um Leonardo Boff.

  18. SAMUEL FRANCISCO permalink
    22/03/2016 21:36

    Em 2013 a 2ª turma do STF rejeitou o Habeas Corpus impetrado pela defesa do doleiro Rubens Catenacci, condenado por crime contra o Sistema Financeiro Nacional. A defesa pretendia anular o processo sob o argumento de parcialidade do juiz SÉRGIO MORO, da 2ª vara Federal de Curitiba/PR.

    Muito embora os ministros tenham rejeitado a alegação de suspeição do juiz, decidiram, por maioria, enviar os autos à Corregedoria Regional da Justiça Federal da 4ª Região e ao Conselho Nacional de Justiça para averiguar se o comportamento do juiz caracterizou falta disciplinar. Entre as condutas questionadas, estava o monitoramento dos advogados de Catenacci para garantir a execução de ordem de prisão.

    Em seu voto-vista, o ministro GILMAR MENDES acompanhou o relator, ministro Eros Grau ao rejeitar as alegações de nulidade do processo em razão da atuação do magistrado, mas inovou ao recomendar a expedição de ofício à Corregedoria Geral de Justiça para apurar a conduta do magistrado.

    Da leitura do HC em comento, tem-se que “nunca antes, na história deste país, alguém traçou tão bem um perfil de Sérgio Moro”.

    Mas a dúvida que paira é: se no HC 95.518 PR o Ministro Gilmar Mendes (e o STF) pediu a punição do Juiz Sergio Moro por monitorar advogados, o que aliás fez com o advogado de Lula, por que não o fez também (ele e o STF) no caso de monitoramento da Presidente da República?

    Pena que não tenha um jornal para escrever sobre isso e perguntar ao Dr. Mendes se alguém mudou, ou ele ou Sérgio Moro.

    PS. Quem, como eu, está tão de boca aberta que acha que não pode ser verdade, o acórdão do HC 95518 / PR está todinho aqui para conferir:

    file:///C:/Users/Dr.%20Samuel%20Francisco/Desktop/HC%2095.518%20PR.pdf

    Samuel Francisco: Advogado – OAB/MT 10.908

  19. 23/03/2016 12:43

    Republicou isso em Leila Jinkings – impressõese comentado:
    Artigo do frei Leonardo Boff tenta explicar a origem do ódio que aflige os setores atrasados da nossa sociedade.

  20. Valter Junior permalink
    23/03/2016 16:48

    Em momentos de crise, assomam quatro sombras que estigmatizaram nossa história, cujos efeitos perduram até hoje: nosso passado colonial, o genocídio indígena, a escravidão e a corrupção.

    De fato, como ensinou Jung, há o perigo de se mergulhar tanto nesse inconsciente coletivo a ponto de perdermos nossa própria identidade. E assim não se acha mais um “eu”, pois está totalmente diluído, sem qualquer diferença de toda uma massa que grita, em protesto ou em revide.

    O partidarismo é assim… tão divisor como uma religião, tão apaixonado como a torcida para um time. E nós somos assim… medíocres.

    E quão mais partidaristas ficamos, mais desrespeitosos somos, mais cegos nos tornamos, e julgamos o conservadorismo da direita como certo ou errado, sem considerar que há uma manutenção de coisas que é saudável para todos, e incriminamos a esquerda, como se não houvesse uma política integradora dos excluídos a ser considerada ainda. Essas quatro sombras… O frei foi incisivo em suas palavras.

    “Isso jamais poderia ter acontecido, dado os propósitos iniciais do partido”. Bem, frei, na verdade, eu diria: isso estava fadado a acontecer, dados os propósitos iniciais serem tão bons e nós sermos o que somos… humanos sob os efeitos de quatro sombras. O tropeço viria de dentro ou de fora, mas veio de dentro e de fora.

    Não consigo creditar inocência a Lula, mas menos inocente é o peso desigual no juízo de cada um. Aí há um interesse, não há dúvida.

    Caro Boff, em momentos assim de crise, gosto de ouvir vozes lúcidas de todos os lados. Leio Reinaldo Azevedo, mas venho aqui também leus seus pensamentos. Obrigado por me ajudar a ter equilíbrio. Afinal, eu não quero o fundamentalismo político de Bush nem o de Bin Laden, pois como um grande autor disse: “Enquanto predominarem tais fundamentalismos, seremos condenados à intolerância, à violência, à guerra…” L. Boff

  21. jorge roberto permalink
    26/03/2016 15:56

    Leonardo, gostei muito de sua análise, ao meu ver honesta ,cuidadosa e isenta de paixão, creio que poderíamos acrecer mais algumas causas além das 4 .
    Fui eleitor do pt des de sua fundaçao ,
    E foi realmente uma grande esperança que tivemos! Claro que nossa elite dominante é egoista, desumana, e ao final burra! Mas o pt perdeu o bonde salvador da história, enveredando por caminhos marginais e absolutamente
    tolos com suas práticas também criminosas. O Lula perdeu oportunidade de dar uma liçao singular nessa elite. Ao meu ver os caminhos atuais são difíceis e cinzentos. Optei por não apoiar os bandidos da vez… claro que sei que não é so o pt !

  22. 26/03/2016 19:42

    Republicou isso em O Jardim da Celeste.

  23. Luís Pancada permalink
    27/03/2016 9:21

    Desculpe , Frei … mas é o senhor que deve estudar um pouco mais de história…

    Nunca me passou pela cabeça culpar os Romanos , , os Celtas ou os Visigodos pelas desgraças porque o meu país tem passado. Ninguém nega alguns malefícios que os colonizadores sempre trazem na bagagem mas culpá-los de tudo o que de errado esse país atravessa é de uma falta de lucidez total. E história por história talvez seja bom o senhor rever alguns conhecimentos … não fique agarrado à sua fama… relembre , por exemplo , que Portugal foi o primeiro país da Europa a abolir a escravatura …

    Não tente encontrar desculpas para o estrondoso falhanço social e económico do PT ,que trouxe para o querido Brasil a maior corrupção MUNDIAL … por favor para bem de todos nós deixe de ser o tal o tal peixinho vermelho nadando em pias de água benta…

    • 27/03/2016 21:30

      O Brasil foi o último a abolir a escravatura porque a elite portuguesa que aqui se locupletava não queria perder a mão de obra gratuita.”Alguns malefícios” pergunte aos indígenas exterminados e aos escravos 6-7 milhões que vocês portugueses trouxeram para cá e os tratou como peças se foi apenas alguns malefícios. Seja verdadeiro, o que implica ser humilde, coisa que não parece ser sua virtude. lboff

      • Luís Pancada permalink
        04/04/2016 4:28

        Eminente pensador… O senhor falar de humildade… só para rir…

        O senhor de quem li com interesse vários artigos ,perdeu o seu ponto de equilíbrio quando começou a falar ” ex cátedra ”

        Pior ainda quando começou a gostar de se ouvir… ai o Ego …ai o Ego !

        O Brasil tem uma das maiores diferenças entre ricos e pobres e é das países com menor % do PIB para a educação .Só por si estes dois fatores são determinantes para o atraso desse magnifico país que merecia melhores ” pensadores ” Ou somos também nós os culpados por esta circunstância ??

        Tenha juízo , Frei!

      • 06/04/2016 22:32

        Luis, o seu raciocínio não tem nada a ver com o que escrevi. Aprenda a ler para poder dialogar em verdade.

  24. Silvina Maria Leal de Souza Miyata permalink
    27/03/2016 18:27

    Infelizmente, para nos colocarmos em oposição as ideologias do próximos ainda necessitamos estar longe de atitudes civilizatórias, da delicadeza, do ouvir, refletir e discordar!
    Ganhar no grito, envenenar-se, encolerar-se, condenar ainda que não façamos parte da Suprema Corte são comportamentos seculares pra mim!!!!!
    Vamos pra frente!!!! Atualizando, questionando, refletindo, querendo mudanças; então que elas comecem por cada um de nós!!!
    Querido Leonardo Boff, peço desculpas por estarmos tão distantes de boas atitudes!!!!
    Bons Ventos!!!!
    Namastê!!!!
    Silvina Leal Miyata

  25. 03/04/2016 7:59

    Interessante que os EUA tiveram as mesmas sombras, um pouco mais na segunda e menos na quarta. Acho que falta uma quinta sombra, politicamente incorreta que seja: o catolicismo, ou a herança administrativa lusitana.

  26. Aristóteles Barros da Silva permalink
    24/04/2016 20:55

    Frei Leonardo: se o senhor é capaz de tremer de indignação cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então, somos companheiros, o que é mais importante. Tremo de indignação quando observo que se pretende colocar toda a culpa pelos tropeços de nossa história recente, no PT ou naqueles/as que o acompanham. De longa data vimos sofrendo reveses, iniciados pelas “pancadas” que os lusitanos nos deram, apenas e tão somente por sermos índios. Quando não nos agridem pessoalmente, encarregam seus esbirros de fazê-lo. É o que está acontecendo, infelizmente!

    • Luís Pancada Fonseca permalink
      26/07/2016 7:47

      : Numa coisa tão prosaica mas tão estranhamente envolvente como o futebol , pelo facto de termos ganho o Campeonato da Europa recebemos o aplauso gritante de TODAS as ex-colónias . Uma simples pergunta para os Freis e Kissilas deste mundo… Qual o país colonialista ( França , Inglaterra , Holanda , Espanha ,etc) que teve ,algumas vez,manifestações destas, da parte das ex-colónias, quando ganharam títulos internacionais ?? NENHUM.!!

      Xanana Gusmão ex- Presidente de Timor … e ex guerrilheiro pela Independência passeou de carro com uma bandeira Portuguesa desfraldada e foi assim por todo o lado . Mesmo aí na vossa terra o meu Querido Brasil que pessoas como vós não chegam para o sujar , o Cristo Redentor se vestiu de verde/ rubro !

      Os terríveis Lusitanos são isto que os facciosos não conseguem ou não querem ver…

  27. Kíssila permalink
    23/07/2016 17:52

    Creio que sejam mais profundas e complexas do que meras sombras. As sombras vêm e vão dependendo da posição da luz porque são sempre externas. Essas que nos afligem estão dentro de nós, todos e cada um.

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