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Dentro da sexta-feira santa política um vislumbre de ressurreição

23/03/2016

Vivemos politicamente no país uma situação de sexta-feira da paixão: há ódio, dilaceração das relações sociais, riscos de ruptura da ordem democrática e de passagem de uma democracia do direito e das leis para uma democracia da direita e sem leis. Há sinais inequívocos de que este cenário não seja impossível.

É neste contexto que celebramos a festa maior do cristianismo, a páscoa. Ela significa em hebraico, a “passagem” do cativeiro egípcio para a liberdade da terra prometida; metaforicamenjte, passagem dos turbilhões de uma crise para a paz serena de um Estado democrático de direito.

Foi refletindo sobre o significado profundo da sexta-feira santa   que o jovem estudante de teologia e depois um dos maiores filósofos da história F. Hegel tirou a sua famosa chave de leitura da história e da vida humana: a dialética. Ele via realizada na saga de Jesus a realização destes três passos: vida-morte-ressurreição.

A vida é a tese da positividade. A morte é a antítese da negatividade. A ressurreição é a síntese que incorpora a tese e a antítese numa síntese superior. A ressurreição é mais que a reanimação de um cadáver, como o de Lázaro, pois significaria a volta à vida anterior. A ressurreição é a introdução de algo novo, nascido das afirmações e contradições do passado. Esse “insight” sempre lembrado por ele, foi chamado de a “sexta-feira santa teórica”.

Se bem reparamos, a semana santa, para além de seu caráter religioso, representa um paradigma do processo histórico e da própria evolução. Tudo no universo, nos processos biológicos, humanos e biográficos se estrutura na forma da dialética. O primeiro momento é a tranquila serenidade e paz infinita daquele pontozinho quase infinito de onde viemos (tese). De repente, sem sabermos por quê, ele explode. Produz um incomensurável caos(antítese). A evolução do universo significa um processo de criar ordens cada vez mais altas e complexas que culminam com a emergência do espírito e da consciência (síntese).

Dentro desta síntese, transformada agora em nova tese, carrega sua antítese que desemboca numa nova síntese mais fecunda. E assim corre o devenir da história do universo, das sociedades e de cada pessoa.

Concretizando para a nossa situação atual. O Brasil entrou num processo de crise, cujas causas não cabe aqui referir. De uma situação tranquila( tese) entrou em processo de caos (antítse). Deste caos deve irromper uma nova ordem que possa dar horizonte e esperança ao país (síntese). Precisa-se definir novas estrelas-guia que nos orientem face à crise atual. A crise tem a função de acrisolar, purificar e tornar a todos mais maduros.

A questão toda se resume: quem possui a proposta político-social que supere a crise e crie uma convivência minimamente pacífica? Não será através de fórmulas já testadas e gastas que virá a superação da crise dando centralidade a políticas e a grupos de poder à custa do sacrifício da maioria da população.

Promissora é aquela que realiza para o maior número possível de pessoas um bem-estar mínimo, que lhe garanta trabalho, uma moradia modesta mas digna e lhe crie possibilidades de desenvolvimento e crescimento através da saúde e da educação sustentáveis. Em todo esse processo dialético há a experiência de vida, de morte e de transfiguração; de ordem, desordem e nova ordem; de tese, antítese e síntese. A complexidade segundo E. Morin se estrutura nesta dialética que é a da semente: ”se o grão de trigo, caindo na terra não morrer, ficará só, mas se morrer, produzirá muito fruto”, como disse o Mestre.

Hoje a natureza, a humanidade e nossa sociedade vivem sob pesada sexta-feira santa ameaçadora.

A nossa esperança é que este padecimento se ordene a uma radiante transformação. O corrupto seja punido e o que politicamente se fez errado seja corrigido. Importa definir um rumo que de certa forma já foi apontado. Se o rumo estiver certo, o caminho pode conhecer subidas e descidas mas ele nos leva ao destino certo: a uma nova ordem de convivência onde não seja tão difícil tratarmos a natureza com compaixão e nossos próximos com humanidade e com cuidado.

Leonardo Boff é autor de Paixão de Cristo-paixão do mundo. Vozes 2002.

 

13 Comentários leave one →
  1. paulo fernandes dias permalink
    23/03/2016 20:33

    A minha maior dúvida – tenho vida, envelheço, morro, decompõe-se o meu corpo que é reinserido, reintegrado na cadeia cósmica da natureza, ou seja, meus restos mortais são combinados com outras matérias e redundando em novos compostos, em sequentes macro equilíbrios homeostáticos – onde estaria o meu espírito, a minha consciência, a minha capacidade de pensar, a minha “personalidade”???

  2. Isabel da Fontoura Pinho permalink
    23/03/2016 21:51

    Que beleza de texto, o sr. é um escritor imbatível ! No seu embalo, a justiça por Bertold Brecht: A justiça é o pão do povo.
    Às vezes bastante, às vezes pouca.
    Às vezes de gosto bom, às vezes de gosto ruim.
    Quando o pão é pouco, há fome.
    Quando o pão é ruim, há descontentamento.

    Fora com a justiça ruim!
    Cozida sem amor, amassada sem saber!
    A justiça sem amor, cuja casca é cinzenta!
    A justiça de ontem, que chega tarde demais!
    Quando o pão é bom e bastante
    O resto da refeição pode ser perdoado.
    Não pode haver logo tudo em abundância.
    Alimentado do pão da justiça
    Pode ser feito o trabalho
    De que resulta a abundância.

    Como é necessário o pão diário
    É necessária a justiça diária.
    Sim, mesmo várias vezes ao dia.
    De manhã, à noite, no trabalho, no prazer.
    Nos tempos duros e nos felizes
    O povo necessita de pão diário
    Da justiça, bastante, e saudável.

    Sendo o pão da justiça tão importante.
    Quem amigos, deve prepará-lo?

    Quem prepara o outro pão?

    Assim como o outro pão
    Deve o pão da justiça
    Ser preparado pelo povo

    Bastante, saudável, diário.
    Um abraço, Isabel

  3. Amaurih permalink
    24/03/2016 7:45

    Caro blogueiro, o senhor está sendo leviano, nesta frase “riscos de ruptura da ordem democrática e de passagem de uma democracia do direito e das leis para uma democracia da direita e sem leis.”, eu vejo quem ignora as leis apesar de fazer um discurso pelo Estado de Direito. Levar essa situação para a simplista e maniqueísta de esquerda contra direita, só serve para semear o ódio nas relações que são estritamente legais e constitucionais, sem sinais de “golpe”, já que golpe, mesmo, foi dado quando houve a permissividade do Governo por se deixar infiltrar a corrupção. Golpe, agora, é deixar que o esquema tenha continuidade, ou que fique impune.

  4. adenir balmant permalink
    24/03/2016 8:54

    A HISTÓRIA, DO INÍCIO AO FIM, É A HISTÓRIA DA LUTA DA VIDA CONTRA A MORTE. A DIALÉTICA CLAREIA ESTE EMBATE. JESUS ERA,POETA E PROFETA DIALÉTICO. ALIÁS TODA POESIA E PROFECIAS SÃO DIALÉTICAS. ALÉM DA ESQUERDA E DIREITA ESTÁ A ÉTICA DE SEGUIMENTO QUANDO JESUS ENSINA TOMAR A CRUZ A CADA DIA E SE TORNAR INTERDEPENDENTE TENDO FOME, SEDE E NECESSIDADES DA VIDA EM COMUNHÃO.E SOCIEDADE.

  5. 24/03/2016 11:53

    Prezado Leonardo,
    Já comentei anteriormente que tenho grande apreço pela sua pessoa e que aprendo muito lendo seus artigos. Estou convencido que queremos o mesmo lá no horizonte, mas constato também que os nossos caminhos não serão sempre os mesmos. Felizmente!
    Especialmente neste artigo encontro várias proximidades e por isso desejo comentá-lo.

    Ao ler a sua frase: “…passagem de uma democracia do direito e das leis para uma democracia da direita e sem leis.” e os parágrafos seguintes sobre o processo dialético, vejo o perigo de que você seja interpretado como se a esquerda fosse a tese e a direita a antítese. Como dois agrupamentos humanos. Não acredito que essa seja a sua postura. Mas essa interpretação torna-se às vezes quase inevitável quando se acrescenta boa parte das mensagens dos seus artigos. Neles encontro – não sem dor – a direita e a esquerda qualificadas no sentido do enunciado “Proletários do mundo uní-vos!” E logo vejo que não é essa a sua mensagem quando leio a sua descrição da paixão de Cristo.

    Eu tenho me convencido e penso encontrar o mesmo nas entrelinhas de muitos dos seus artigos que quem se encontra mais à direita neste momento pode evoluir mais ouvindo quem está à sua esquerda e vice versa. Precisamos da direita e da esquerda assim como precisamos cair um pouco para a direita e em seguida um pouco para a esquerda para podermos caminhar, avançar. Precisamos uns dos outros e não é necessário dividir-nos em partidos e grupos para avançar (ao contrário). É uma verdadeira benção existirem pensamentos e interpretações contraditórias do mundo e das oportunidades que ele nos oferece. Não precisamos culpar nem a direita nem a esquerda que em realidade nem existem (sic). Estas são meras abstrações do nosso intelecto para pensarmos sobre a vida. Nós é que existimos e podemos nos ajudar a caminhar com menos tropeços se levarmos a sério o exemplo da paixão independentemente do credo de cada um. Um tema sem fim! Um abraço afetuoso do Marco.

  6. Adão Martins permalink
    24/03/2016 12:18

    Boff, seus comentários e avaliações são de uma linha extremamente interessante e inteligente. Parabéns pela lucidez da sua crônica. Sou um admirador da sua obra literária. Obrigado

  7. aLBERTINA pAULO cANDIDO permalink
    25/03/2016 8:01

    QGue você Boff esteja prevendo uma Ressurreição para o Brasil nos enche de ESPERANÇAS

  8. 26/03/2016 12:49

    Por favor, ler meus comentários no meu blog drpaulomaciel

  9. Lázaro Pacheco permalink
    26/03/2016 15:22

    Olá Leonardo Boff!
    Eu penso que, junto da questão de quem possui a proposta político-social que supere a crise e crie uma convivência minimamente pacífica, haja a questão de qual seria esta proposta, quem acredita nela e de que modo ela se concretizaria.
    Pois vejo a crise como sendo gerada por pessoas de empresas (nacionais e estrangeiras), de direita, da mídia e do judiciário que querem mais e mais, uma espécie de inferno que não se cansa de consumir e envolver pessoas no enriquecimento às custas dos pobres.
    Temos uma multidão muito maior de gente contra isto, porém agrupadas em partidos e organizações com táticas e estratégias multiformes, diversas e que se desencontram em vez de tentar se conciliar.
    Conviver pacificamente não parece algo possível diante de tamanho abismo… vai ter que haver muita concessão de ambos os lados, algo que ambos não estão dispostos a fazer!
    Mas penso também que a solução não passa por novidades, por propostas nunca vistas, e sim por propostas já secularizadas, como a “ilha de Utopia” e outras políticas nunca antes levadas a cabo neste Brasil ainda colonial.

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