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Uma santa que não acreditava em Deus

09/09/2016

Tudo é político mas o político não é tudo. Há outras dimensões na vida que merecem a nossa atenção e que nos levam a refletir sobre a condição humana, mesmo de pessoas  que consideramos santas.Quero me referir  à noite escura que a recém canonizada Madre Teresa de Calcultá viveu e sofreu desde 1948 até a sua morte em 1997. Temos os testemunhos recolhidos pelo postulador de sua causa, o canadense Brian Kolodiejchuk num livro Come Be My Light (Venha, seja a minha luz).

Como é notório, Madre Teresa vivia em Calcutá recolhendo moribundos das ruas para que morressem humanamente dentro de uma casa e cercados de pessoas. Fazia-o com extremo carinho e completa abnegação. Tudo indicava que o fazia a partir de uma profunda experiência de Deus.

Qual não é a nossa surpresa, quando viemos saber de seu profundo desamparo interior, verdadeira noite sem estrelas e sem esperança de um sol nascente. Essa paixão dolorosa durou por quase 50 anos até a sua morte. Já em agosto de 1959 escrevia a um de seus diretores espirituais:”Em minha própria alma sinto uma dor terrível. Sinto que Deus não me quer, que Deus não é Deus e que Ele verdadeiramente não existe”.

Numa outra ocasião escreveu:”Há tanta contradição em minha alma: um profundo anelo de Deus, tão profundo que me faz mal; um sofrimento contínuo e com ele o sentimento de não ser querida por Deus, rejeitada, vazia, sem fé, sem amor, sem cuidado; o céu não significa nada para mim, parece-me um lugar vazio”.

Sabemos que muitos místicos testemuham esta experiência de obscuridade. Constatamo-lo em São João da Cruz, em Santa Teresa D’Avila, em Santa Teresa de Lisieux, entre outros. Esta última, tão meiga e expressão da mística das coisas cotidianas, escreveu em seu Diário de uma Alma:” Não creio na vida eterna; parece-me que depois desta vida mortal, não existe nada: tudo desapareceu para mim, não me resta senão o amor”.

Conhecida é a noite escura de São João da Cruz, tão bem expressa em seu poema “La noche oscura”. Ele distingue duas noites escuras: uma, a noite dos sentidos pela qual a alma vive sem consolos espirituais e numa severa secura interior. A outra é a noite do espírito “oscura y terrible” na qual a alma já não consegue crer em Deus, chega a duvidar de sua existência e se sente condenada ao inferno.

Especialmente a modernidade, centrada em si mesma e perdida dentro imenso aparato tecnológico que criou, vive também esta ausência de Deus que Nietzsche qualificou como “a morte de Deus”. Não que Deus tenha morrido, porque então ele não seria Deus. Mas é o fato de que nós o matamos, vale dizer: ele não é mais um centro de referência e de sentido. Vivemos errantes, sós e sem esperança.

Dietrich Bonhöffer, teólogo mártir do nazismo, captou esta experiência, aconselhando-nos a viver “como se Deus não existisse” (etsi Deus non daretur). Mas vivendo no amor, no serviço aos demais e no cultivo da solidariedade e do cuidado essencial. Pois esses são os valores sob os quais Deus se esconde. Quem os vive, mesmo sem o saber, está em Deus.

Suspeitamos que Jesus conheceu esta noite terrível. No Jardim das Oliveiras sentiu-se tão só e angustiado que chegou a suar sangue, expressão suprema do pavor. No alto da cruz, grita ao céu:”Pai, por que me abandonaste?” Não obstante essa ausência de Deus, se entrega confiante: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. Despojou-se de tudo. A resposta veio na forma da ressurreição como a plenitude da vida.

A noite escura de Madre Teresa a ponto de dizer:”Deus verdadeiramente não existe” nos deixa uma interrogação teológica. Ela descompõe todas as nossas representações de Deus. “Deus ninguém jamais viu”atestam as Escrituras. Portanto, não há como descrevê-lo. E quando o tentamos é apenas  o “nosso saber não sabendo, toda ciência transcendendo” no dizer de São João da Cruz. Crer em Deus não é aderir a uma doutrina ou dogma. Crer é uma atitude e um modo de ser no mundo com os outros, no amor, na solidariedade e no perdão; é aderir à uma esperança que é “a convicção das realidades que não se veem”(Hebreus 11,1), porque o invisível é parte do visível. Crer é a coragem de amar o invisível pois ele esconde o sentido secreto e último de todas as coisas. Crer é uma aposta no dizer de Pascal que conheceu também a sua noite escura, uma aposta que a vida vale mais que os bens materiais, que a luz tem mais direito que as trevas e que ao sentido cabe a última página da vida e da história.

Simone Weil, a judia que, na última guerra, se converteu ao cristianismo mas não se deixou batizar em solidariedade a seus irmãos condenados às câmaras de gás, nos dá uma pista de compreensão sobre onde encontrar Deus mesmo no meio da mais absoluta escuridão como aquela de Madre Teresa e de tantos homens e mulheres espirituais que vem um tormento interior: “Se quiseres saber se alguém crê de Deus, não repare como fala de Deus mas como fala do mundo”, se fala na forma da solidariedade, do amor e da compaixão. Deus não pode ser encontrado fora destes valores. Quem os vive está na direção dele e junto dele mesmo que o negue .

Madre Teresa de Calcutá, em sua noite escura, mas cheia de amor aos moribundos, estava em comunhão com o Deus abscôndito. Agora que já se transfigurou viverá em plena luz e saboreará a presença de Deus face a face na mais profunda intimidade e na comunhão sem fim.

Leonardo Boff é teólogo e articulista do JB on line

17 Comentários leave one →
  1. Gilson Alves Barbosa permalink
    09/09/2016 17:13

    Acho que sei o que seja esse sentimento…Tanta interrogação para tão poucas respostas.

  2. 09/09/2016 17:18

    Querido professor…
    Que saudade de seus textos teológicos! Ultimamente me confesso exausta da política e muito descrente. Ainda assim acompanhei todos os seus textos até o impeachment da presidenta Dilma. Mas visto que na política pouca luz há ultimamente, sentia falta do Leonardo Boff teólogo. Claro que quando o senhor escreve nos mantendo atentos com relação às minorias no Brasil está sim mostrando onde está Deus de fato. Nessas minorias que Madre Teresa defendeu e cuidou com as próprias mãos. Mas às vezes precisamos nos voltar pra dentro e esse texto introspectivo mexeu com sentimentos bem íntimos meus quanto a Deus. A gente se perde Dele…mas Ele nunca perde-Se de nós. Não sentí-Lo é ruim… mas muito pior é não praticá-Lo…amor puro que é. Que Madre Teresa…em sua humildade de mostrar-se tão humana nos ilumine em nossas noites escuras. Obrigada pelo texto. Abraço grande

  3. Marcelino permalink
    09/09/2016 18:46

    Que lindo e elucidativo texto.

  4. 09/09/2016 19:37

    “Senhor, mostra-nos o Pai. Filipe a tanto tempo estou convosco.QUEM ME VIU, VIU O PAI’.”jESUS é a imagem visível do Deus invisível”.(São Paulo) Marízia Costa Carmo Lippi, Diocese de Petrópolis-RJ.

  5. 09/09/2016 21:02

    Entendo Deus como a própria natureza e tudo que nos envolve e, inclusive, nós mesmos. Nós nos inserimos em Deus e Deus se insere em nós. Deus nos contém e Nele estamos contidos. Deus é o fluxo da energia positiva, é a energia, é o fluxo, é o positivo. Nós estamos mergulhados em Deus e Deus está mergulhado em nós. Deus é a sabedoria suprema. Quando o homem fere alguém ou a natureza, fere Deus. Deus não é um velhinho de barba branca sentado no seu trono celestial. Os fenômenos espirituais são todos fenômenos da própria natureza. Deus não pertence a nenhuma religião. Deus não tem religião. A religião é um traço cultural do homem. E Deus é a essência de amor.

  6. 09/09/2016 21:31

    Todo ser humano tem sua noite escuro, seus momentos de deserto, que as vezes duram meses , anos ou uma vida. A experiência de Madre Tereza e de outros santos como os que aqui foram citados, me chega como algo que serve de consolo e alento. É tão bom se sentir acompanhado na solidão de suas dúvidas. É assim que me sinto.
    Minha admiração por estes seres especiais aumentam e minha fé se sente acompanhada.

  7. 10/09/2016 1:05

    Belo texto, como sempre.

  8. sofia permalink
    10/09/2016 7:00

    Texto excelente!!

  9. Maria José Silva dos santos permalink
    10/09/2016 8:27

    Não é por acaso, certamente, que tendo sido eu, tão afastada de uma ideia de Deus na minha juventude e já adulta, sempre fiquei em paz íntima lendo Leonardo Boff.
    Este excelente texto sobre Teresa de Calcutá, pessoa por quem não nutro especial afeição, me deixou tão serenamente em paz comigo e com a ideia que eu tenho de Deus.
    Deus é o Amor absoluto.

  10. Jeferson Gonçalves permalink
    10/09/2016 13:04

    Será que o caro Leonardo Boff acredita mesmo nesta lenda?

    • 14/09/2016 1:36

      Jederson, não é lenda. É uma montanha de cartas, até hoje desconhecidas, que revelam o sofrimento interior passado por Madre Teresa. Mas quem serve o outro mais outro, já está dentro de Deus mesmo que não o sinta nem consiga crer nele. lboff

  11. 10/09/2016 20:04

    Que maravilha é o Reino! Não dá para afirmar que está ali naquela instituição, ou aqui na minha zona de conforto. O Reino está entre nós, é de todos, é de acesso universal até aos que duvidamos que possam fazer parte. Encanta a decisão divina de não permitir o monopólio sobre a verdade. Deus é para todas e todos.

  12. Edgar Rocha permalink
    11/09/2016 5:04

    Madre Tereza, não à toa, é conhecida como “a de Calcutá”. Às vezes, por menos que conheça sobre sua vida, eu ficava me perguntando: como é possível praticar o cristianismo na Índia? A resposta me veio estudando sobre a Índia: país plural, com antiquíssima tradição baseada justamente na diversidade e no direito inquestionável de se chegar a Deus pelo caminho que melhor lhe apraz. Descobri que, a despeito de nossa ignorância, só há uma grande força suprema a que se possa comparar ao conceito de Deus. Para os hindus, Ela se chama Branman, um ser-força-lugar inatingível aos olhos e à imaginação humana. Todo aquele panteão infinito de imagens, na visão indiana, reproduz a diversidade de espíritos, permitido pela misericórdia e generosidade do/da grande Branman.
    Libertado dos preconceitos e do cristianíssimo sentimento de culpa, admiti meu carinho e admiração por três das lindas abstrações imanentes da força divina: Senhor Shiva, expressão maior do conceito de amor Divino, o grande transformador do Universo e supremo destruidor de tudo que se torna decrépito; Senhor Ganesha, filho de Shiva, arquétipo da Grande Sabedoria entregue aos homens, o que abre caminhos com sua cabeça de elefante e carrega a pureza em seu corpo de eterno menino; e Senhor Hanuman, uma das encarnações de Shiva, aquele que veio ao mundo entre os humildes povos da floresta, conhecido por sua face deformada e discriminada, pela qual é nomeado (Hanuman=”Boca deformada”) e que veio ao mundo para lutar em defesa dos justos e ensinar o povo a rezar os mantras que lhes manteriam em contato com Deus. De todos, o que mais me causou espanto foi este último, pela sabedoria contida em seu mito. Hanuman é conhecido como o Guerreiro Humilde, aquele que, a despeito de sua graça e força, age como um típico homem do campo, por vezes revelando seu espírito símio muitíssimo bem-humorado e modesto. Para Ele, toda força vem de Deus e a Ele deve ser dedicada com todo amor e devoção.
    Voltando a Tereza de Calcutá, entre tantos arquétipos dotados dos mesmos valores aos quais proferia com sua fé, não seria difícil, digamos, enturmar-se. Há quem diga no hinduísmo que Jesus é Krishna encarnado, sendo este uma encarnação de toda a Santíssima Trindade do Hinduísmo: Brama – o Criador, Vishnu – o Mantenedor e Shiva – o Transformador. Enfim, há lugar para todos nesta fé tão antiga quanto sábia.
    Tantas imagens, tantos espíritos e todos são abstrações de uma única realidade inatingível. Boa solução pra se viver em paz com o próximo e com o Divino!
    Talvez, Madre Tereza tenha passado pela experiência de purificação proposta por Hanuman: o desapego ao Ego. Isto porque, como diziam os antigos gnósticos, com o ego elevamos nosso espírito ao mais alto que podemos chegar. E isto é tão pouco que alimentamos a ilusão de que é o limite. Ao tentarmos vislumbrar um Deus, cultuamos nosso próprio brilho. Desapegar-se das formas e dos julgamentos advindos de nossa vontade, acaba por culminar na desconstrução, no esfacelamento de nossa concepção sobre o que seja o Divino. Isto é muito bom para Deus e imagino porquê: não tem coisa mais chata que encontrar alguém que nunca te viu e o sujeito age como se te conhecesse desde sempre. É penoso, ridículo, vexatório e, para um ser humano, desconcertante. Por outro lado, conheceríamos a Deus caso Ele se apresentasse a nós pessoalmente? Aceitaríamos o Sujeito??? Quem disse que Ele é o que esperamos que seja? Segundo a Bíblia, Ele é, ponto final.
    A única alternativa que Deus nos deixa, em todas as religiões é percebê-Lo ao nosso redor e no outro. O resto fica por conta a misericórdia Dele diante de nosso aprendizado.
    Ademais, não é bom esperar vê-Lo. Oh, não! Ao que me consta, quando Ele decide aparecer é que o bicho vai pegar geral! Conhecem a História de Shiva? Pois bem, vou chamá-lo de Amor: quando o Amor decide descer à Terra, vem para restaurar no mundo a confiança Nele. O Amor, paciente, eloquente, caloroso e generoso, sempre espera ser compreendido. Mas, a sociedade, de tempos em tempos, chega a um ponto em que o Amor, por mais que peça, implore, ensine, ajude, proteja, acaba por perder a batalha. Ele usa de todos os meios para que as pessoas voltem-se a Ele, sem sucesso. Pois bem, em seu último suspiro, o Amor, recorre ao braço forte Daquela que lhe emana força. Sua esposa, sua parte feminina, seu corpo feminino Lhe vem em socorro. O Amor se torna então uma mulher terrível, negra, com uma boca repleta de presas e uma dúzia de braços, cada qual com uma espada a cortar as cabeças de demônios e homens impiedosos que levaram seu marido a sucumbir. Sua língua imensa lambe cada gota de sangue derramado para que este não amaldiçoe o solo de Sua criação. Ela, a grande destruição encarnada, forma em torno de seu corpo nu uma saia feita de cabeças humanas. Nada que recuse o Amor fica vivo. Apenas os que Dele se compadeceram. Seu nome é Kali e por uma sábia coincidência, dizem os indianos, seu calendário aponta para o eles chamam de Tempo de Kali. A mais benevolente das forças Divinas… E também a mais terrível e implacável.
    Desculpem-me mas esta é uma história impressionante e o texto de nosso professor me inspira a contá-la. A ligação entre uma coisa e outra, ao menos pra mim, me parece óbvia. Tereza, em sua desesperança estava deixando de amar a Deus – ao Deus possível ao seu Ego, diga-se – e subiu um degrau, passando a amar ao Amor. Isto porque, se Este existe, tem personalidade, mesmo que inatingível ao nosso discernimento. Creio ser preciso, sinceramente, a despeito do que pensa o sr. Leonardo (desculpe, professor, sei que sou um chato), perder completamente a esperança. Por que esta nada mais é que a ilusão de que Deus seja compreensível, de que Ele possa parecer-se um pouco que seja, com o que determina nossos desejos mais diletos, nosso ego.
    Tereza despiu-se de seu deus pré-concebido para , assim como hindus, buscar Aquele que é.
    Só uma última pegunta: que é idólatra nesta história toda?
    Meus respeitos.

  13. 24/09/2016 14:05

    Republicou isso em Coração Filosofante.

  14. 25/09/2016 23:48

    Maravilhoso texto, caro Leonardo. Depois de muito pensar, chegamos, enfim, a compreender que Deus é o Supremo Mistério. Obrigado pelo texto.

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