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Dez possíveis lições após o impeachment

23/09/2016

          Seguramente é cedo ainda para tirar lições do questionável impeachment que inaugurou uma nova tipologia de golpe de classe via parlamento. Estas primeiras lições poderão servir aos que amam a democracia e respeitam a soberania popular, expressa por eleições livres e não em ultimo lugar ao PT e aliados. Os que detêm o ter, o poder e o saber que se ocultam atrás dos golpistas se caracterizam por não mostrar apreço à democracia e por  se lixar pela situação de gritante desigualdade do povo.

Primeira lição é alimentar resiliência, vale dizer, resistir, aprender dos erros e derrotas e dar a volta por cima. Isso implica severa autocrítica, nunca feita com rigor pelo PT. Precisa-se ter claro sobre qual  projeto de país se quer implementar.

Segunda lição: reafirmar a democracia, aquela que  ganha as ruas e praças, contrariamente da democracia de baixa intensidade, cujos representantes, com exceções, são comprados pelos poderosos para defender seus interesses corporativos..

Terceira lição: convencer-se de que um presidencialismo de coalizão é um logro, pois desfigura o projeto e induz à corrupção. A alternativa é uma coalização dos governantes com os movimentos sociais e setores dos partidos populares e a partir deles pressionar os parlamentares.

Quarta lição: convencer-se de que o capitalismo neoliberal, na atual fase de altíssima concentração de riqueza, está dilacerando as sociedades centrais e destruindo as nossas. O neoliberalismo atenuado, praticado nos últimos 13 anos pelo PT e aliados permitiu fazer a maior transformação social na história do Brasil com a melhoria de vida de quase 40 milhões de pessoas, com o aumento dos salários, com facilidade de crédito, com  desonerações fiscais, mas mostrou-se, no fundo,  insuficiente. Grande erro do PT foi: nunca ter explicado que aquelas ações sociais eram fruto de uma política de Estado. Por isso criou antes consumidores que cidadãos conscientes. Permitiu adquirirem bens pessoais (a linha branca) mas melhorou pouco o capital social: educação, saúde, transporte e segurança. Bem disse frei Betto: gerou-se “um paternalismo populista que teve início quando se trocou o Fome Zero, um programa emancipatório, pelo Bolsa Família compensatório; passou-se a dar o peixe sem ensinar a pescar”. No atual governo pós golpe, a radicalizada política econômica neoliberal de ajustes severos, recessiva e lesiva aos direitos sociais seguramente vai devolver à fome e à miséria os que dela foram tirados.

Quinta lição: é urgente dar centralidade à educação e à saúde. O governo Lula-Dilma avançou na criação de universidades e escolas técnicas. Mas cuidou pouco da qualidade seja da educação seja da saúde. Um povo doente e ignorante nunca dará um salto rumo a uma properidade sustentável. Tanto o filho/a de rico quanto de pobre tem direito de frequenter a mesma escola de qualidade.

Sexta lição: colocar-se corajosamente ao lado das vítimas da voracidade neoliberal, denunciando sua perversidade, desmontando sua lógica excludente, indo para as ruas, apoiando demonstrações e greves dos movimentos sociais e de outros segmentos.

Sétima lição: colocar sob suspeita tudo o que vem de cima, geralmente fruto de políticas de conciliação de classes, feitas de costas e à custa do povo. Estas políticas vem sob o signo do mais do mesmo. Preferem manter o povo na ignorância para facilitar a dominação  e combatem qualquer espírito critico.

Oitava lição: é urgente a projeção de uma utopia de um outro Brasil, sobre outras bases, a principal delas, a originalidade e a força de nossa cultura, dando centralidade à vida da natureza, à vida humana e à vida da Mãe Terra, base de uma biocivilização. O desenvolvimento/crescimento é necessário para atender, não os desejos, mas as necessidades humanas; deve estar a serviço, não do mercado, mas da vida e da salvaguarda de nossa riqueza ecológica. Concomitante a isso urge reformas básicas, da política, da tributação, da burocracia, da reforma do campo e da cidade etc.

Nona lição: para implementar essa utopia faz-se indispensável uma coligação de forças políticas e sociais (movimentos populares, segmentos de partidos, empresários nacionalistas, intelectuais, artistas e igrejas) interessadas em  inaugurar o novo viável, que dê corpo à utopia de outro tipo de Brasil.

Décima lição: esse novo viável tem um nome: a radicalização da democracia que é o socialismo de cunho ecológico, portanto, ecosocialismo. Não aquele totalitário da Rússia e o desfigurado da China que, na verdade, negam a natureza do projeto socialista. Mas o ecosocialismo que visa realizar potencialmente o nobre sonho de cada um dar o que pode e de receber o que precisa, inserindo a todos,  a natureza incluída.

Esse projeto deve ser implementado já agora. Como expressou a ancestral sabedoria chinesa, repetida por Mao: “se quiser dar mil passos, comece já agora pelo primeiro”. Sem o que jamais se fará uma caminhada rumo ao destino desejado. A atual crise nos oferece esta especial oportunidade que não deverá ser desperdiçada. Ela é dada poucas vezes na história e agora é uma delas.

*Teólogo, filósofo, escritor e articulista do JB on line. Escreveu: Que Brasil queremos? Vozes 2000.

 

8 Comentários leave one →
  1. 23/09/2016 8:10

    Um grande inspirador consciente das necessidades dos brasileiros que procuro com suas publicações fazer com que possamos refletir na responsabilidade de reconstrução de uma sociedade mais justa. Me sinto dentro desta parafernália grotesca no qual no com horror não consigo significar, agradeço muitíssimo quando alguém como meu querido Boff com tanta posse fala por todos nós brasileiros que temos que tomar na raça o rumo desta nação e que não existe amanhã, tem que ser hoje. Os educadores estão sendo silenciosamente cesurado em qualquer acolhimento que tenha um pouco mais de suas expressões politicas e este despreparo por isso o golpe. Fomos pegos de surpresa pois o ladrão já estava morando em nossas casas. Fazemos muito pouco diante da transformação que é preciso. Além do desejo temos que ter um espirito de luta cidadã.

  2. 23/09/2016 8:12

    Um grande inspirador consciente das necessidades dos brasileiros que procuro com suas publicações fazer com que possamos refletir na responsabilidade de reconstrução de uma sociedade mais justa. Me sinto dentro desta parafernália grotesca no qual no com horror não consigo significar, agradeço muitíssimo quando alguém como meu querido Boff com tanta posse fala por todos nós brasileiros que temos que tomar na raça o rumo desta nação e que não existe amanhã, tem que ser hoje. Os educadores estão sendo silenciosamente cesurado em qualquer acolhimento que tenha um pouco mais de suas expressões politicas e este despreparo por isso o golpe. Fomos pegos de surpresa pois o ladrão já estava morando em nossas casas. Fazemos muito pouco diante da transformação que é preciso. Além do desejo temos que ter um espirito de luta cidadã.

  3. adenir balmant permalink
    23/09/2016 9:05

    LIÇÃO PARA SE COPIAR MUITAS VEZES
    A RUA É ESPAÇO DE PRUDÊNCIA E SIMPLICIDADE. NA VINÍCÍUS DE MORAIS COM A IMPRUDENTE DE MORAIS É PRECISO BELEZA E GRAÇA. FICAR À MERCE E MIRA DE BOMBAS, TIROS, ATROPELAMENTOS, ETC…NÃO É PRUDENTE, NEM INTELIGENTE. AS
    RUAS SÃO MELHORES USADAS COM PASSEIOS E CAMINHADAS COMO O POVO FAZ DIARIAMENTE. MELHOR AINDA CAMINHAR COM CRISTO NO REINO DE DEUS. UMA MÃO DE PROTESTO E OUTRA MÃO DE CHAMADA PARA A VIDA.

  4. Sônia Regina Martins permalink
    23/09/2016 15:50

    Concordo com a análise do Leonardo Boff, aliás, tenho muita simpatia pelas posições dos teólogos da Libertação. Embora, eu não compartilhe da fé cristã, na verdade, conheço pouco,tenho formação de esquerda. Tenho muito apreço pela linha de análise dos teólogos, pois, além de lutarem por uma sociedade igualitária e democrática, fazem uma crítica consistente ao projeto de poder impregnado nos partidos de esquerda, a sua preocupação com uma prática ética, verdadeira, humanista me encanta e me convence.

  5. 26/09/2016 0:38

    Amigo, o sistema de voto obrigatório precisa ser modificado para não obrigatório. A palavra socialismo não comprar a realidade que o senhor aponta como ” democrática”. Não ocorreu golpe maior do que quando em 2002 Lulla ao assumir o poder, manteve o mesmo plano de Paulo Renato para a educação. O capitalismo é o culpado por várias situaçoes negativas citadas. Mas foi o mesmo capitalismo que deu os cofres cheios de dinheiro nas maos dos corruptos que se transformaram em acumuladores capitalistas rapidamente. Inermes gestores. O problema é a egolatria. Os egolatras. O egoísmo, que é o contrário do amor. De qualquer modo me diga se souber: quantas empresas lucrativas os dirigentes do Pt têm? E os dirigentes dos outros partidos? Quantas propriedades têm os sindicatos? Por que nao investigamos isso?

  6. Marcelo permalink
    26/09/2016 6:52

    Muito interessante chamar “neoliberalismo atenuado “ao goberno do PT

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  1. DEZ POSSÍVEIS LIÇÕES APÓS O IMPEACHMENT | LIVRE IMPRENSA

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