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Um lado pouco conhecido de Fidel Castro

02/12/2016

Cada coisa ou pessoa têm muitos lados. Como disse certa feita, cada ponto de vista é a vista de um ponto. Cada um ocupa um ponto neste planeta e na sociedade na qual está inserido. A partir deste ponto vê a realidade que este ponto permite ver. Assim que não podemos absolutizar nenhum ponto de vista como se fosse o único. É o que dá origem aos fundamentalismos e às discriminações.
Tal pensamento vale aos muitos pontos de vista que se estão fazendo da saga de Fidel Castro. Nenhum ponto pode cobrir todas vistas.
Há um outro elemento ser considerado. Cada ser humano possui sua porção de luz e sua porção de sombra. Ou dito no dialeto da nova antropologia: cada ser humano é sapiens e simultaneamente demens. Vale dizer, cada ser humano é portador de inteligência e de um sentido de vida. É seu momento sapiens. E simultaneamente mostra desvios e contradições. É seu momento demens. Ambos sempre ocorrem juntos. Isso não é um defeito de nossa construção. É um dado objetivo de nossa realidade humana que deve sempre ser tomda em conta. Também vale quando ajuizamos a figura complexa de Fidel Castro: suas luzes e suas sombras.
Quero me referir alguns pontos a partir dos quais se me permitiu uma vista singular de Fidel Castro. O primeiro deles é a negação da TINA (There is No Alternative). O sistema imperante de viés capitalista diz:”não há alternativa a ele”. Ele representa a culminância das sociedades humanas. Fidel Castro mostrou que com o socialismo pode haver uma alternativa diferente daquela capitalista, hoje em radical crise de autoreprodução. A fúria dos USA contra Cuba e Fidel de destruir o socialismo cubano era para mostrar que não pode haver uma outra alternativa. Bem ou mal, com defeitos que conhecemos, o socialismo se apresenta como uma outra forma possível de organizar a sociedade.
Um segundo ponto a ressaltar, foi seu interesse pela Teologia da Libertação. Chegou a confessar que se no seu tempo houvesse a Teologia da Libertação (só começou partir de 1970) teria assumido esta leitura para montar a sociedade cubana. Sob pressão da Guerra Fria, foi obrigado a ficar do lado da URSS e daí ter que assumir o marxismo. Leu e anotou nossas principais obras, de Gustavo Gutiérrez, de Frei Betto, de meu irmão Frei Clodovis e das minhas. Os livros estavam todos anotados com várias cores. E ao lado uma lista com questões ou expressões sobre as quais pedia esclarecimentos.
Outro ponto relevante foi o convite que me fez, durante o tempo do “silêncio obsequioso” que me foi imposto em 1984 pelo ex-Santo Ofício. Foi o de passar 15 de férias com ele na ilha para aprofundar as questões da religião, da América Latina e do mundo. Era amigo do Núncio Apostólico. Logo que cheguei, na minha frente, lhe disse ao telefone:”Boff está aqui comigo. Eu mesmo vou zelar para que observe o “silêncio obsequioso”. Só vai falar comigo”. Efeitivamente visitamos toda a ilha com conversações que iam noite a dentro. Anotei quase tudo em três grossos cadernos, pois queria transformer o material num livro. Uns dias após a minha volta de Cuba, deixei os três cadernos no bagageiro do carro, enquanto ia trocar umas palavras com o Card. Dom Aloisio Lorscheider, hospedado na casa de um amigo em Copacana, coisa de uns 15 minutos. Ao regressar, o bageiro fora arrombado, não levaram nada, apenas os três cadernos. Minha suspeita é que órgãos de segurança daqui ou de fora sequestraram o material.
O outro dado mostra a dimensão de ternura de Fidel Castro, coisa que muitos testemunham. Tenho uma sobrinha com um tipo de reumatismo que nenhum medico conseguia tratar. Falei com o Fidel se era possível tentá-la em Cuba. Pediu-me todos laudos medicos daqui. Ele mesmo se encarregou de falar com médicos cubanos. Efetivamente não havia cura. Cada vez que me encontrava, a primeira coisa que pedia era: “como vai a Lola, sua sobrinha?” Essa memoria carinhosa e terna não é frequente em chefes de Estado. Geralmente onde predomina o poder não vigora o amor nem floresce a ternura. Com Fidel era diferente. Alegrou-se enormente quando lhe contei que um medico brasileiro inventou uma vacina cujo efeito colateral era curar este tipo de reumatismo.
São pequenos gestos que mostram que o poder não precisa fatalmente obscurecer essa dimensão tão profunda que é o enternecimento e a preocupação pelo destino do outro.
O legado de sua pessoa carismática permanecerá como referência para aqueles que se recusam a reproduzir a cultura do capital e com as injustiças que a acompanham, de ordem social e ecológica.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor.

11 Comentários leave one →
  1. Bárbara Sordi permalink
    02/12/2016 22:15

    Gostaria de saber qual é essa vacina é quem é o médico, pois tenho reumatismo há anos e já tentei de tudo…Por favor se puder me responder, fico imensamente grata.
    grata tbm pela atenção.
    forte abraço de quem o admira muito

    • 05/12/2016 3:25

      Barbara, telefone para meu irmão Waldemar que ele lhe pode dar os dados- (24) 2248-5150 Petrópolis

  2. Francisco Ferraz Martins Filho permalink
    03/12/2016 10:31

    Caro Boff, tenho um grande respeito e admiração por você, assim como por Fidel. Os seus textos, suas reflexões, suas entrevistas e seu testemunho nos últimos quarenta anos me ajudaram a ser mais consciente e amoroso. Tenho 58 anos e caminhei em toda a minha vida em sintonia com o ideal socialista, conheci a Teologia da libertação na década de 70 quando fui seminarista. Aprendi muito com Dom Cândido Padim, padre Oscar Beozzo, padre Edir Maria Soares que me ensinou a respeitar o Candomblé e a Umbanda e muitos outros. Conheci pessoalmente Gustavo Gutierrez e Dom Pedro Casaldáliga no Instituto Teológico de Lins. Vibrei e sofri com a caminhada do PT. Mas tenho uma angústia gigantesca quando não percebo nenhuma crítica, nem sua nem de Frei Betto nem de outros teólogos da libertação em relação à questão dos direitos humanos em Cuba e ao recurso da pena de morte praticada por Fidel. Você fez uma crítica severa em relação à execução de Osama Bin Laden que eu concordo plenamente. Mas como ficam as execuções ordenadas por Fidel, ou seria possível que elas não existiram? A revolução cubana foi um grande avanço social para o mundo e a América Latina, será que denunciar as violações aos direitos humanos seria fragilizar essa conquista? Será que dá para pensar, por exemplo, que todos os que foram executados mereciam a morte porque eram contrarrevolucionários e sem a pena de morte a revolução não se firmaria? Certa vez Frei Betto comentou que tem críticas a Cuba, mas deixa para fazê-las em Cuba, porque é amigo de Fidel. Essa conivência é coerente aos valores evangélicos da Teologia da Libertação? Gostaria de uma resposta. Será que essa resposta é proibida? Faço essas reflexões com muita angústia, mas com a esperança de receber um retorno sério e corajoso.

  3. Maria do Rocio Macedo permalink
    03/12/2016 13:23

    Sem conhecer esses pontos que foram iluminados neste seu texto, Boff, sempre SENTI haver em Fidel algo de muito forte em relação aos menos capazes, aos menos favorecidos; havia ternura, em seu olhar, para quem quisesse e pudesse captá-la!

  4. Antonio Costa Netto permalink
    04/12/2016 8:54

    NINGUÉM É DE TODO BOM, BEM COMO DE TODO MAL. SOMOS CAPAZES DE OFERECER SEMPRE O MELHOR, EMBORA O MELHOR NEM SEMPRE SEJA BOM PARA TODOS. FIDEL É A FIGURA QUE DEIXA SUA MARCA DE CONTESTAÇÃO E ALTERNATIVA CONSTRUTIVA NUMA REALIDADE MARCADA PELA EXPLORAÇÃO.

  5. Paulo de Tarso permalink
    04/12/2016 20:04

    Caro Frei , e sobre as pessoas que ele fuzilou ? Aonde fica a ternura ?

  6. 04/12/2016 20:06

    Caro Frei , e as pessoas que ele fuzilou ? Como fica a ternura nesses casos ?

    • 05/12/2016 3:16

      Paulo, fuzilou pessoas que colocavam brinqquedos nas escolas com explosivos e muitos morreram ou perderam membros. E outros,pagos pelos USA que espalharam um fungo no fumo e perdeu-se quase toda uma safra do unico produto de exportação. E assim outros…Sou contra o paredón e a pena de morte, mas deve-se tomar em conta o contexto historico. A ternura de Fidel não pode ser negada porque era caracteristica de sua personalidade.

  7. Aristóteles Barros da Silva permalink
    05/12/2016 8:32

    Entre aqueles que nutrem uma antipatia gratúita pelo Comandante Fidel Castro, reina a alegação de que o Comando da Revolução mandou prender e até fuzilar muita gente que agia contra a Revolução. Como é que os cubanos deveriam recepcionar estadunidenses que almejavam acabar com os sonhos cubanos, na base da artilharia – ar, terra e mar? Basta observar que estadunidenses lá estão, encastelados em Guantánamo, a mostrar que o imperialismo filosofa o “faça o que digo; não faça o que faço”. A cada ação corresponde uma reação. A dos cubanos e cubanas tem sido de defesa, somente de defesa, ao longo de todos esses anos de sofrimento por perseguição sistematica de governos estadunidenses e seus apoiadores, dificultando o comércio e as relações de Cuba com o mundo. Isso é covardia dos imperialistas! Fidel Castro enfrentou esses covardes com galhardia e inteligência!

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