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A ameaça à convivência humana nos dias de hoje

17/02/2017

A onda de ódio que grassa no mundo, claramente no Brasil, as discriminações contra afrodescendentes, nordestinos, indígenas, mulheres, LGBT e membros do PT sem falar dos refugianos e imigrantes rejeitados na Europa e pelas medidas autoritárias do presidente Donald Trump contra imigrantes muçulmanos, estão rasgando o tecido social da convivência humana a nível nacional e internacional.

A convivência é um dado essencial de nossa natureza, enquanto humanos, pois nós não existimos, co-existimos, não vivemos, con-vivemos. Quando se dilaceram as relações de convivência algo de inumano e violento acontece na sociedade e em geral em nossa civilização em franca decadência.

A cultura do capital hoje globalizada não oferece incentivos para cultivarmos o “nós” da convivência, mas enfatiza o “eu” do individualismo em todos os campos. A expressão maior deste individualismo coletivo é a palavra de Trump:”em primeiro lugar (first) os USA” que bem interpretada é “só (only) os USA.”

Precisamos resgatar a convivência de todos com todos que moramos numa mesma Casa Comum, pois temos uma origem e um destino comuns. Divididos e discriminados percorreremos um caminho que poderá ser trágrico para nós e para a vida na Terra.

Notoriamente a palavra “convivência”como reconhecem pesquisadores estrangeiros (por exemplo o professor da universidade de Heidelberg, T. Sundermeier, Konvivenz und Differenz,1995) tem seu nascedouro em duas fontes brasileiras: na pedagogia de Paulo Freire e nas Comunidades Eclesiais de Base.

Paulo Freire parte da convicção de que a divisão mestre/aluno não é originária. Originária é a comunidade aprendente, onde todos se relacionam com todos e todos aprendem uns dos outros, convivendo e trocando saberes. Nas CEBs é essencial o espírito comunitário e a convivência igualitária de todos os participantes. Mesmo o bispo e os padres sentam-se juntos na mesma roda e todos falam e decidem. Nem sempre o bispo tem a última palavra.

Que é a convivência? A própria falavra contem em si o seu significado: deriva de conviver que significa conduzir a vida junto com outros, participando dinamicamente da vida deles, de suas lutas, avanços e retrocessos. Nessa convivência se dá o aprendizado real como construção coletiva do saber, da visão do mundo, dos valores que orientam a vida e das utopias que mentém aberto o futuro.

A convivência não anula as diferenças. Ao contrário, é a capacidade de acolhê-lhas, deixá-las ser diferentes e mesmo assim viver com elas e não apesar delas. A convivência só surge a partir da relativização das diferenças em favor dos pontos em comum. Então surge a convergência necessária, base concreta para uma convivência pacífica, embora sempre haja níveis de tensão, por causa das legítimas diferenças.

Vejamos alguns passos rumo à convivência:

Em primeiro lugar, superar a estranheza pelo fato de alguém não ser de nosso mundo. Logo perguntamos: de onde vem? Que veio fazer? Não devemos criar constrangimentos, nem enquadrar o estranho mas acolhe-lo cordialmente.

Em segundo lugar, evitar fazer-se logo uma imagem do outro e dar lugar a algum preconceito (se é negro, muçulmano, pobre). É difícil mas é incondicional para a convivência. Enstein bem dizia: “é mais fácil desintegrar um átomo do que tirar um preconceito da cabeça de alguém”. Mas podemos tirar.

Em terceiro lugar, procurar construir uma ponte com o diferente que se faz pela pelo diálogo e pela compreensão de sua situação.

Em quarto lugar, é fundamental conhecer a língua ou rudimentos dela. Se não for possível, prestar atenção aos símbolos pois revelam, geralmente, mais do que as palavras. Eles falam do profundo dele e do nosso.

Por ultimo, esforçar-se para fazer do estranho um companheiro (com quem se comparte o pão), de quem se procura conhecer sua história e seus sonhos. Ajudá-lo a sentir-se inserido e não excluído. O ideal é faze-lo um alidado na caminhada do povo e daquela terra que o acolheu, pelo trabalho e convivência.

Acrescentamos ainda que não se deve restringir à convivência apenas à dimensão humana. Ela possui uma dimensão terrenal e cósmica. Trata-se de conviver com a natureza e seus ritmos e dar-se conta de que somos parte do universo e de suas energias que a cada momento nos atravessam.

A convivência poderá fazer da geosociedade menos centrada sobre si mesma e mais aberta para cima e para frente, menos materialista e mais humanizada, um espaço social no qual seja menos difícil a convivência e a alegria de conviver.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: Convivência, respeito e tolerância, . Vozes 2006.

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11 Comentários leave one →
  1. adenir permalink
    18/02/2017 5:40

    TIRANDO O ESPINHO
    Há uns cinquenta anos estou na luta pelas causas ambientais. Os estudos de Josué de Castro sobre Geografia e Medicina abriram meus olhos. Travei neste período uma grande batalha contra o cigarro que me seduzia. Há dezessete anos vivo sem esta ESTUPIDEZ SIDERÚRGICA que levou João Saldanha para outros gramados. Há seis anos vivo sem nevralgias e dores de cabeça depois do uso do LEITE DE ALPISTE(vide Google). No momento estou na luta com a HEMOGLOBINA GLICADA. A alteração no sangue que provoca uma série de disfunções. Uma manga Palmer pela manhã ajuda a adoçar a vida e abrir os olhos para o dia que vai raiando. A vida tem uma dialética onde precisamos estar sempre do lado da OPOSIÇÃO. Com um pé atrás e prontos para a partida como BOLT. As
    razões e consciências não podem ficar na racionalização somente. A objetividade e prática tem que fazer parte. INVISIBILIDADE DO ÓBVIO é cegueira. Os micro-organismos dos vírus estão no meio ambiente com os ciscos e traves que alteram a visão. VER SEM ÓCULOS É MELHOR. Ajuda enxergar alguns vírus que atravessam nosso caminho.
    Assim como Paulinho da Viola lembra o apóstolo Paulinho de Tarso que queria tirar o ESPINHO DO PEITO…mas ficou apenas com a GRAÇA DE DEUS que basta. Abraços. adenir – Publicado no GRUPO PÚBLICO PRONOMINAL NO FACEBOOK- com a música ONDE A DOR NÃO TEM RAZÃO de Paulinho da Viola.

  2. Iram oliveira permalink
    18/02/2017 11:29

    Por que então os petistas teimam em agir de modo contrário ao que o senhor prega ? A resposta é clara: são corruptos, mentirosos, covardes, aproveitadores, exploradores, imorais e amorais como o senhor.

  3. 18/02/2017 12:38

    Uma visão humorada do assunto, ainda incompleta:

    Donald Trump nao eh a voz da maioria porque ele perdeu as eleições por uma diferença de quase 3 milhões de votos. Diga-se de passagem, somente isso porque queriam que votássemos na Hillary movidos por ódio contra as posições preconceituosas do outro candidato.

    Essa não foi uma motivação suficiente porque, embora ela no final da campanha tenha falado tudo o que queríamos ouvir de um candidato, somente parcela da população acreditou que estivesse sendo sincera.

    Diga-se de passagem, mais de ano antes das eleições tive o pressentimento de que ela não seria candidata suficiente para derrotar o quadro de baixo astral que os republicanos vinham descrevendo a administração Obama, e contra ela havia o fato de ser política de carreira, e todo o mal presente seria atribuído a ela.

    (Ao final do meu texto: TRUMPANDO O ELEITOR, me meu blog: https://val51mabar.wordpress.com/, republiquei uma carta que escrevi ao, então, presidente Obama falando exatamente isso.)

    Mas, infelizmente, o pensamento humanista que vem sendo tao carinhosamente planejado pelos intelectuais esclarecidos não tem sido suficiente para derrotar o velho ditado: “Mateus, primeiro o meu!”

    No fundo o que venceu as eleições e o que o Donald Trump esta tentando impor eh essa filosofia que, sabemos, mais cedo ou mais tarde ira terminar em desgracas!

  4. Maria Conceição Pascoal permalink
    18/02/2017 13:41

    O Ser Humano é um “Ser Social” e portanto nasce com as limitações e as potencialidades de precisarmos uns dos outros para sobrevivermos e progressivamente ao longo da vida, utilizamos os nossos recursos para potenciar a relação com o meio ambiente.
    A ideologia marxista fundamentava-se numa perspectiva de que o Ser Humano quando conseguisse atingir os meios para a sua sobrevivência, iria partilhar os recursos e numa interacção com o mesmo nível de respeito com toda a natureza. Os que, em nome do dinheiro valorizam as diferenças e os direitos de uns sobre os outros, estão a criar as maiores cisões, as maiores exclusões e segregações. Tudo se faz em nome do dinheiro para conseguir destruir o interesse comum. Só há pobres, só há classes privilegiadas, porque há quem defenda o direito de ser superior aos outros. Não deixarão de haver lutas raciais enquanto houver quem se sinta com direitos a ser superior e a dividir para reinar.

  5. 18/02/2017 16:58

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Mais um texto essencial do Leonardo Boff! Leiam o trecho inicial: “A onda de ódio que grassa no mundo, claramente no Brasil, as discriminações contra afrodescendentes, nordestinos, indígenas, mulheres, LGBT e membros do PT, sem falar dos refugiados e imigrantes rejeitados na Europa e pelas medidas autoritárias do presidente Donald Trump contra imigrantes muçulmanos, estão rasgando o tecido social da convivência humana a nível nacional e internacional.
    A convivência é um dado essencial de nossa natureza, enquanto humanos, pois nós não existimos, co-existimos, não vivemos, con-vivemos. Quando se dilaceram as relações de convivência, algo de inumano e violento acontece na sociedade e, em geral, em nossa civilização em franca decadência.
    A cultura do capital, hoje globalizada, não oferece incentivos para cultivarmos o “nós” da convivência, mas enfatiza o “eu” do individualismo, em todos os campos. A expressão maior deste individualismo coletivo é a palavra de Trump:”em primeiro lugar (first) os USA”, que bem interpretada é “só (only) os USA.”
    Precisamos resgatar a convivência de todos com todos, que moramos numa mesma Casa Comum, pois temos uma origem e um destino comuns. Divididos e discriminados percorreremos um caminho que poderá ser trágico para nós e para a vida na Terra.
    Notoriamente a palavra “convivência”, como reconhecem pesquisadores estrangeiros (por exemplo o professor da universidade de Heidelberg, T. Sundermeier, em Konvivenz und Differenz,1995) tem seu nascedouro em duas fontes brasileiras: na pedagogia de Paulo Freire e nas Comunidades Eclesiais de Base.” (continua; clique no link para ler tudo).

  6. 18/02/2017 19:33

    Republicou isso em Jacaranda.

  7. Marízia Costa Carmo Lippi permalink
    18/02/2017 22:10

    Deus é nosso Pai, somos todos irmãos. Abraão é pai dos Judeus, Cristãos e Muçulmanos .. “Busquemos o que nos une e não o que nos separa” (Papa João XXIII). Temos mais razões para nos unirmos do que para nos separarmos.

  8. 19/02/2017 21:03

    Republicou isso em Zefacilitador.

  9. 16/03/2017 5:47

    Acho que a convivência é uma das coisas principais que viemos aprender aqui nesse mundo, e um dos maiores desafios também. A história e a atualidade mostram como essa dificuldade sempre esteve e está presente. A questão do etnocentrismo, a nossa cultura é sempre melhor do que a do outro, e assa lógica se dá também e principalmente na religião, a nossa é a unica onde está Deus, a melhor, a que representa a verdade e a salvação, a que está certa, o do outro está enganada e é inferior. E da mesma forma como o nosso jeito de ser é melhor do que o do outro. Cada dificuldade pra conviver a sua maneira, algumas mais ligadas as questões sociais e outras mais ligadas a questões subjetivas, mas que não deixam de ter origem no condicionamento do nosso pensamento social. As crianças não tem isso né, a gente vai crescendo e vai se perdendo da gente e do outro. E é tao difícil essa intolerância com a diferença que a gente vai adquirindo e toda decadência que ela em grande escala trás pro mundo, que fica cada vez mais desanimador conviver. E as pessoas começam a se isolar cada vez mais. Pra alguns, inclusive pra mim, é uma delícia se isolar e ficar na sua em paz, mas é muito fácil ser bom e espiritualizado no seu quarto, mas infelizmente não pode ser assim. Santo Antão se isolou buscando a espiritualidade a maior parte da sua vida, mas depois teve que voltar ao mundo dos homens, pra conviver e levar alguma coisa a eles e talvez provar na carne todos os seus aprendizados e sua espiritualidade. Na convivência está um dos maiores desafios, e talvez a graduação que precisamos ganhar pra evoluirmos como humanidade e como espíritos.Obedecendo as leis dessa sabedoria de Deus que nos rege e nos ensina pela vida de dureza, como uma pedra bruta que vai sendo lapidada até se tornar um diamante. Eita sabedoria difícil de aprender, mas já que vem da sabedoria, esse método deve ser bem valioso. Continuemos na luta … mas tá desanimador =/ ..

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