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A tolerância necessária e urgente

20/02/2017

Hoje no mundo e mesmo no Brasil impera muita intolerância, face a alguns partidos como o PT ou aos de base socialista e comunista. Intolerância severa, por vezes criminosa, que algumas igrejas neopentecostais alimentam e propalam contra as religiões afro-brasileiras, satanizando-as e até invadindo e danificando terreiros, como ocorreu na Bahia há alguns anos. Há intolerância que leva a crimes especialmente contra o grupo LGBT. Vítima de intolerância é também o Papa Francisco, atacado e caluniado até com cartazes espalhados pelos muros de Roma, porque se mostra misericordioso e acolhe a todos, especialmente os mais marginalizados,coisa que os conservadores não estão acostumados a ver no figurino tradicional dos papas.

O cristianismo das origens, da Tradição do Jesus histórico – contrariamente à intolerância da inquisição e de uma visão meramente doutrinária da fé – era extremamente tolerante. Jesus ensinou que devemos tolerar que o joio cresça junto com o trigo. Só na colheita far-se-á a separação. São Pedro, já feito apóstolo, seguia ainda os costumes judeus: não podia entrar na casa de pagãos nem comer certos alimentos, pois isso o tornaria impuro. Mas, ao ser convidado por um oficial romano, de nome Cornélio, acabou visitando-o e constatou sua profunda piedade e seu cuidado pelos pobres. Então concluiu:”Deus me mostrou que nenhum homem deve ser considerado profano e impuro; agora reconheço deveras que não há em Deus discriminação de pessoas mas lhe é agradável quem, em qualquer nação, tiver reverência face a Deus e praticar a justiça”(Atos 10,28-35).

Desse relato se deduz que o diálogo e o encontro entre as pessoas que buscam uma orientação religiosa, como no caso do oficial romano, invalidam o preconceito de coibir algum contacto com o diferente.

Do fato resulta também que Deus é encontrado infalivelmente lá onde “em qualquer nação houver reverência face ao Sagrado e se praticar a justiça”, pouco importa sua inscrição religiosa.

Ademais Jesus ensinou que a adoração a Deus vai para além dos templos, porque “os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade e são estes que o Pai deseja”(Jo,4,23). Existe, portanto, a religião do Espírito. Vale dizer: todos os que vivem valores não materiais e são fiéis à verdade estão seguramente no caminho que conduz a Deus. Cada um, em sua cultura e tradição, vive à sua maneira, a vida espiritual e se orienta pela verdade. Este merece ser respeitado e positivamente tolerado.

Suspeito que não há maior tolerância do que esta atitude de Jesus, abandonada ao largo da história, pela Igreja-poder institucional (parte da Igreja-povo-de-Deus) que discriminou judeus, pagãos, a herejes e tantos que levou à fogueira da Inquisição. No Brasil temos o caso clamoroso do jesuita Pe.Gabriel Malagrida, (1689-1761), com fama de santidade que missionou o norte do Brasil. Por razões políticas foi morto pela Inquisição em Lisboa por “garrote, e depois de morto,       que seja seu corpo queimado e reduzido a pó e cinza, para que dele e de sua sepultura não haja memória alguma”.

Eis um exemplo de completa intolerância, hoje atualizada pelo Estado Islâmico (EI) que degola a quem não se converter ao islamismo rígido interpretado por ele.

Em fim, que é a tolerância hoje tão violada?

Há, fundamentalmente, dois tipos de tolerância, uma passiva e outra ativa.

A tolerância passiva representa a atitude de quem permite a coexistência com o outro não porque o deseje e veja algum valor nisso, mas porque não o consegue evitar. Os diferentes se fazem indiferentes entre si.

A tolerância ativa consiste na atitude de quem positivamente convive com o outro porque tem respeito a ele e consegue ver suas riquezas que sem o diferente jamais veria. Entrevê a possibilidades da partilha e da parceria e assim se enriquece em contato e na convivência com o outro.

Há um dado inegável: ninguém é igual ao outro, todos têm uma marca que diferencia. Por isso existe a biodiversidade, as milhões formas de vida. O mesmo e mais profundamente vale para o nível humano. Aqui as diferenças mostram a riqueza da única e mesma humanidade. Podemos ser humanos de muitas formas.

O ser humano deve ser tolerante como toda a realidade o é. A intolerância será sempre um desvio e uma patologia e assim deve ser considerada. Produz efeitos destrutivos por não acolher as diferenças.

A tolerância é fundamentalmente a virtude que subjaz à democracia. Esta só funciona quando houver tolerância com as diferenças partidárias, ideológicas ou outras, todas elas reconhecidas como tais. Junto com tolerância está a vontade de buscar convergências através do debate e da disposição ao compromisso que constitui a forma civilizada e pacífica de equacionar conflitos e oposições. Esse é um ideal ainfa a ser alcançado.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu Convivência, Respeito e Tolerância, Vozes 2006.

 

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14 Comentários leave one →
  1. ednice cruz permalink
    20/02/2017 2:11

    Suas mensagens são lições que leio, releio, na tentativa de que se constituam minha prática de vida.

  2. adenir permalink
    20/02/2017 8:49

    Uma fonte se torna rio quando as águas vão se expandindo pelas margens. A cidade do Rio de Janeiro começou com uma CERCA entre o Pão de Açúcar e o morro Cara de Cão . Esta CERCA estabelecia os limites de uma FORTALEZA dos portugueses para enfrentar os franceses e tamoios que ocuparam a Baía de Guanabara. Depois da FORTALEZA veio a CAPELA . Era a FORÇA em nome de DEUS. Daí a ORDEM em nome do PROGRESSO. O AMOR fica esquecido. O ser hu -mano fica na INVISIBILIDADE DO ÓBVIO assim como a natureza e beleza. Os vírus campeiam pelas insalubridades e faltas de saneamentos básicos. As BASES se deterioram e somente as milenares rochas conseguem deter as águas dos oceanos que circulam pelo mundo em tsunamis. Águas que atravessam as duzentas milhas e que vão crescendo e se ex-pandindo com o universo em aquecimento mesmo em áreas congeladas sobre o rio de ferro e enxofre entre o Alaska e a Sibéria. Um MURO entre americanos do norte e do centro-sul se estende por vários caminhos do mundo provocando a população mundial que protestou até à queda do muro de Berlim em 1989. Governos sem plataformas transferem con-flitos para as estrelas e ideias ultrapassadas. A falta de OBJETIVOS enfraquecem a educação. A mentira e irrealidade vem para roubar, matar e destruir a nação. Assim como toda discriminação que descarta o ser humano criado para a cooperação e convivência. O sapateiro precisa do alfaiate. O alfaiate precisa do sapateiro. A INTERDEPENDÊNCIA é BÁSICA . Natural e universal, assim como, as águas que correm do rio para o oceano junto às correntes. Abraços.

  3. Oscar Morales permalink
    20/02/2017 12:42

    Hola, buenas tardes, quiero informar que algo ocurre con la página que no se puede traducir al español o castellano.

    Agradeceré verificar esto, entiendo un poco de portugués, pero hay palabras que no comprendo, eso cambia la estructura del texto y pierde frescura y lozanía.

    No quiero dejar de recibir estos interesantes comentarios.

    • 24/02/2017 21:35

      Oscar, tienes que esperar un poco. María José Gavito Milano siempre me traduce los textos que apareceran después de una semana o dos en este blog. Puedes notartelo. Gracias por tu interés. lboff

  4. 20/02/2017 17:49

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Leonardo Boff: “A tolerância necessária e urgente”

  5. Marízia Costa Carmo Lippi permalink
    20/02/2017 22:25

    Acolher o diferente é enriquecedor. Todos apresentam algo de original, de único , dádiva do Criador. A intolerância empobrece, cria divisão.

  6. 21/02/2017 15:37

    Republicou isso em Zefacilitador.

  7. Urbano Xavier Nunes permalink
    21/02/2017 20:46

    Quando menino em Cascatinha ia nos terreiros comer doce no dia de São Cosme e Damião.As Mães me davam muita atenção e carinho.No Grupo de Jovens sempre defendi a tolerância.Fui educado por Tios e Padrinhos,meus pais prediletos pois por eles consegui muita vitória e uma vida de raiz na Matriz com nossos queridos Padres Cirilo Calaon e também Padre Dilson Passos Junior.Esses nos fizeram ver como é importante tolerar uns aos outros.Jovem fui ao terreiro ver uma apresentação de todos os orixás,voltei par o Padre e disse que todos pareciam dançar alegremente.Continuo sendo Católico e não abro mão de ter diálogo com todos.Passo para meus filhos.Parabéns pelo texto,desculpe minha simplicidade.

  8. 22/02/2017 23:04

    Sou tolerante, eu acho… Mesmo sendo de orientação socialista acabo por render-me à idolatria do mercado; mesmo sentindo repugnância em relação ao trato dos governos neoliberais nos países explorados pela “globalização” ainda não desci a mão em nenhum coxinha defensor do PSDB/PMDB; neste ano de “crise”, enquanto professor, ainda não incentivei nenhuma greve (enfaticamente), mesmo estando com um ano e quase dois meses de salário sem reajuste (medida de contenção de gastos do governo do estado do Pará – PSDB)…

    E como diz a canção de C. e C. “a gente vai levando, a gente vai levando”…

    O problema é que coisas assim me tornam intolerantes em relação a religião… Principalmente quando vemos os coxinhas, seja de qual religião for, aproveitando-se da ignorância dos fiéis para aumentarem tanto o próprio poder dentro e fora dessas instituições, quanto o próprio poder da instituição, que na maioria dos casos é fé apenas institucional, sem obras… Fé pela fé… Religião pela religião… Dízimo e, pior, domínio ideológico apenas objetivando a onipotência da instituição, já que a maioria dos fiéis é miserável econômica e educacionalmente e, por isso, maleáveis… Aceitam enquanto verdade o que os seus líderes dizem sem nenhum tipo que questionamento, sem o famoso pensamento crítico.

    Além da minha intolerância à política neoliberal e antidemocrática, do nosso e de muitos outros países, acho que esta, a religiosa, é a que mais me incomoda… Não sou ateu, e acredito na contribuição milionária de todas as religiões durante toda a história humana, mas o novo mundo amoral no qual estamos vivendo precisará de muito mais que um inferno com demônios, fogo e enxofre para tornar-se melhor. E enquanto as religiões não assumirem o seu verdadeiro papel de instituições pelo e para o Povo de Deus e não deixarem de bajular os poderosos/opressores (esperando mais do que é de César) não encontraremos o caminho para o Reino de Deus.

  9. 08/03/2017 6:40

    Palavra muito importante do momento, eu tava refletindo muito sobre ela também. Quero fazer minha primeira tatuagem (resolvi esse preconceito) e fiquei refletindo sobre algo que preciso muito trabalhar em mim e adquirir nessa vida, e que me trouxesse uma lembrança e uma força (por mais que eu saiba que isso é uma representação e não resolve as coisas) Uma das tatuagens que escolhi fazer é a palavra tolerância, não no mesmo contexto do texto mas ao mesmo tempo é também, porque respeito todas as religiões mesmo não tendo uma depois de ter passado por duas, e agora procurar mais a espiritualidade dentro de mim. (Inclusive tenho começado a ler seus livros e gosto muito) Mas preciso aprender a tolerância com os jovens da minha idade que não tem os mesmos valores que eu e preferem viver de um jeito muito diferente, desregrado, valorizando muito o prazer, e dando vazão a todas as vontades e descontroles. Mas tem seus outros valores, que também me faltam, como a alegria por exemplo, a autenticidade, sinceridade e disposição pra vida, e talvez falte algo neles que eu tenho mais também. Quero entender que cada um está no seu estágio de desenvolvimento, e não julgar as pessoas pelas suas ações que estão um pouco confusas e perdidas.Enfim, enxergar mais o valor e as qualidades do outro e olhar mais para os meus defeitos do que do outro, e poder aprender com eles o necessário e compartilharmos e nos completarmos juntos, agregando os valores.Um abraço pra você! =)

    • 10/03/2017 18:03

      Daniella: Entendo sua busca especialmente suas últimas linhas. Creio que todos somos inteiros (temos pés e cabeça) mas não somos completos. Essa tarefa se fará durante a vida. Esta, a vida, é a melhor escola e às vezes nos dá duras lições. Isso vale especialmente aos jovens, idade dourada e da descoberta da liberdade de experimentar e de gozar o que a existência pode oferecer. Mas é uma fase e a própria vida vai mostrar que devem ganhar o seu sustento, que nada do que vale se alcança sem sacrificios. Os romanos diziam a suas crianças: nihil vita dedit mortalibus sine magno labore: a vida não deu nada aos mortais sem grande trabalho”. Creio que vc está no caminho certo. Devemos ser tolerantes conosco mesmo face a nossas imperfeições e com os outros que também participam desta condição humana. Lboff

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