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O resgate da planetização/globalização

02/04/2017

Hoje há uma forte confrontação com o processo de globalização, exacerbado por Donald Trump que reforçou fortemente “o América em primeiro lugar”, melhor dito, “só a América”. Move uma guerra contra as corporações globalizadas em favor das corporações dentro dos USA.

Importa entender que se trata de uma luta contra os grandes conglomerados econômico-financeiros que controlam grande parte da riqueza mundial na mão de um número pequeníssimo de pessoas. Segundo J. Stiglitz, prêmio Nobel de economia, temos a ver com 1% de bilhardários contra 99% de dependents e empobrecidos.

Este tipo de globalização é de natureza econômico-financeira, dinossáurica, no dizer de Edgar Morin, a fase de ferro da globalização. Mas a globalização é mais que a economia. Trata-se de um processo irreversível, uma nova etapa da evolução da Terra a quando a descobrimos, vendo-a de suas naves espaciais, a partir de fora, como no-lo testemunharam os astronautas Aí fica claro que Terra e Humanidade formam uma única entidade complexa.

Impactante é o testemunho do astronauta norteamericano John W.Young, por ocasião da quinta viagem à Lua no dia 16 de abril de 1972:”Lá embaixo, está a Terra, este planeta azul-branco, belíssimo, resplandecente, mossa patria humana. Daqui da Lua eu o seguro na palma de minha mão. E desta perspectiva não há nele brancos ou negros, divisões entre leste e oeste, comunistas e capitalistas, norte e sul. Todos formamos uma única Terra. Temos que aprender a amar esta planeta do qual somos parte”.

A partir desta experiência, soam proféticas e provocativas as palavras de Pierre Teihard de Chardin ainda em 1933:”A idade das nações passou. Se não quisermos morrer, é hora de sacudirmos os velhos preconceitos e construir a Terra. A Terra não se tornará consciente de si mesma por nenhum outro meio senão pela crise de conversão e de transformação”. Esta crise se instalou nas nossas mentes: somos agora responsáveis pela única Casa Comum que temos. Ao inventarmos os meios de nossa própria auto-destruição, aumentou ainda mais nossa responsabilidade pelo todo do planeta.

Se bem repararmos esta consciência irrompeu já nos albores do século XVI, precisamente em 1521, quando Magalhães fez pela primeira vez o périplo do globo terrestre, comprovando empicamente que a Terra é de fato redonda e podemos alcançá-la a partir de qualquer ponto de onde estivermos.

Inicialmente a globalização realizou-se na forma de ocidentalização do mundo. A Europa deu início à aventura colonialista e imperialista de conquista e dominação de todas as terras descobertas e a descobrir, postas serviço dos interesses europeus corporificados na vontade de poder que bem podemos traduzir como vontade de enriquecimento ilimitado, de imposição da cultura branca, de suas formas políticas e de sua religião cristã. A partir das vítimas desse processo, essa aventura se fez sob grande violência, de genocídios, etnocídios e de ecocídios. Ela significou para a maioria dos povos um trauma e uma tragédia, cujas consequências se fazem sentir até os dias de hoje, também entre nós que fomos colonizados, que introduzimos a escravidão e nos rendemos às grandes potências imperialistas.

Hoje temos que resgatar o sentido positivo e irrenunciável da planetização, palavra melhor que globalizção, devido à sua conotação econômica. A ONU no dia 22 de abril de 2009 oficializou a nomenclatura de Mãe Terra para dar-lhe um sentido de algo vivo que deve ser respeitado e venerado como o fazemos com nossas mães. O Papa Francisco divulgou a expressão Casa Comum para mostrar a profunda unidade da espécie humana habitando num mesmo espaço comum.

Esse processo é um salto para frente no processo da geogênese. Não podemos retroceder e fecharmo-nos, como pretende Trump, nos nossos limites nacionais com uma consciência diminuída. Temos que adequarmo-nos a esse novo passo que a Terra deu, esse super-organismo vivo, segundo a tese de Gaia. Nós somos o momento de consciência e de inteligência da Terra. Por isso somos a Terra que sente, pensa, ama, cuida e venera. Somos os únicos entre os seres da natureza cuja missão ética é de cuidar desta herança bem-aventurada, faze-la um lar habitável para nós e para toda a comunidade de vida.

Não estamos correspondendo a este chamado da própria Terra. Por isso temos que despertar e assumir essa nobre missão de construir a verdadeira  planetização.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: Como cuidar da Casa Comum, Vozes 2017.

 

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13 Comentários leave one →
  1. Carlos Alberto permalink
    02/04/2017 1:07

    A planetizacao ou globalização só tem servido para enriquecer ainda mais os mais ricos. Não é esse tipo de globalização que desejamos. Queremos que o nosso maior bem, o planeta Terra, forneça de forma igualitária riqueza para todos os homens. Devemos protegê-la sim. Claro. Mas devemos nos lembrar que para salvá-la, devemos salvar primeiro a todos os homens que nela habitam.

  2. 02/04/2017 8:36

    O discurso de Trump não pode ter outros significados subjacentes, considerado o binômio conservação/mudança? Não seria uma forma de se buscar negociar os resultados do que parece uma corrida ao enriquecimento ilimitado, conforme mencionado no texto pois, possivelmente já não se tem um ou mais trilionários? Apenas procurando entender…

  3. JOSE SEBASTIAO PEDROSA permalink
    02/04/2017 9:57

    Planetização ou globalização? Sentido ético, sentindo econômico. Planetização como idéia de bem comum faz sentido. Planetização como ideal de “sem fronteiras” é o mesmo que globalização. É uma forma nova forma de colonização onde o aparente direito de ir e vir está presente é um engano. Na realidade os estados-aparelhos continuam existindo. Estados organismos de políticas universais, ludibriam os homens ditando regras do bem estar. Introduz e mantém o homem cativo do estado, liberdade dirigida. Simbolizam o bem estar no consumo, no ideal de sem fronteiras ,sem limites , sem identidade. Identidade para quê? Somos universais , não precisamos de nossa cultura? Etnia? Símbolos? E da própria terra como lugar e como ecossistema onde interage homem-terra. Etc.

  4. Manoel Mendonça permalink
    02/04/2017 12:10

    São apenas argumentos de pelo menos metade dos habitantes, e quanto à outra metade que discorda? Devemos subjuga-los e obriga-los a nos obedecerem? Caso isto aconteça, estaremos apenas trocando os opressores.

  5. 02/04/2017 13:25

    Maravilhoso escrito. Receio, porém, que os danos ecológicos já causados são impossíveis de serem retrocedidos, desencadeando uma reação em cadeia irreversível rumo à hecatombe do nosso atual estilo de vida e da nossa civilização do séc. XXI. Isto é uma opinião corroborada por inúmeros cientistas ecológicos. As sementes desta conclusão estão definidas na monumental obra COLAPSO, de Jared Diamond

  6. 02/04/2017 13:39

    Republicou isso em Zefacilitador.

  7. 02/04/2017 19:34

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Mais um belo texto do Leonardo Boff a instigar nossa reflexão sobre a responsabilidade que temos em relação à nossa casa-comum, a nossa Mãe-Terra: “O resgate da planetização/globalização
    02/04/2017 – Leonardo Boff.

    Hoje há uma forte confrontação com o processo de globalização, exacerbada por Donald Trump que reforçou fortemente “o América em primeiro lugar”, melhor dito, “só a América”. Move uma guerra contra as corporações globalizadas em favor das corporações dentro dos USA.

    Importa entender que se trata de uma luta contra os grandes conglomerados econômico-financeiros que controlam grande parte da riqueza mundial na mão de um número pequeníssimo de pessoas. Segundo J. Stiglitz, prêmio Nobel de economia, temos a ver com 1% de biliardários contra 99% de dependentes e empobrecidos.

    Este tipo de globalização é de natureza econômico-financeira, dinossáurica, no dizer de Edgar Morin, a fase de ferro da globalização. Mas a globalização é mais que a economia. Trata-se de um processo irreversível, uma nova etapa da evolução da Terra e quando a descobrimos, vendo-a de suas naves espaciais, a partir de fora, como no-lo testemunharam os astronautas, aí fica claro que Terra e Humanidade formam uma única entidade complexa.

    Impactante é o testemunho do astronauta norte-americano John W.Young, por ocasião da quinta viagem à Lua no dia 16 de abril de 1972:”Lá embaixo, está a Terra, este planeta azul-branco, belíssimo, resplandecente, nossa pátria humana. Daqui da Lua eu o seguro na palma de minha mão. E desta perspectiva não há nele brancos ou negros, divisões entre leste e oeste, comunistas e capitalistas, norte e sul. Todos formamos uma única Terra. Temos que aprender a amar esta planeta do qual somos parte”.

    A partir desta experiência, soam proféticas e provocativas as palavras de Pierre Teilhard de Chardin ainda em 1933:”A idade das nações passou. Se não quisermos morrer, é hora de sacudirmos os velhos preconceitos e construir a Terra. A Terra não se tornará consciente de si mesma por nenhum outro meio senão pela crise de conversão e de transformação”. Esta crise se instalou nas nossas mentes: somos agora responsáveis pela única Casa Comum que temos. Ao inventarmos os meios de nossa própria auto-destruição, aumentou ainda mais nossa responsabilidade pelo todo do planeta.”
    (Continua; clique no linque para ler mais)

  8. Marízia Costa Carmo Lippi permalink
    03/04/2017 0:07

    Belíssima colocação na qual entendemos que Deus é nosso Pai e, nós somos todos irmãos, que um dia nos expulsamos do Paraíso, mas o Amor, o Pai que nos colocou na linda Casa Comum, providenciou o Salvador, que nos quer todos irmãos. Que o Trump se converta e muitos outros , que respeitem a Vontade do Pai.

  9. Marízia Costa Carmo Lippi permalink
    03/04/2017 0:09

    Belíssima colocação! Que seja feita a Vontade Soberana de Deus!

  10. 08/04/2017 20:50

    Leonardo Boff
    Nunca falamos do planeta Terra como nos nossos atuais dias do século XXI.
    Tenho a impressão que uma Geopolítica está prestes a nascer.
    A idéia do Heliocentrismo remonta ao séc, III., com Aristarco de Samos que perseguido, teve que abandonar tal novidade para o mundo. Em l500 baseado nestas idéias, retoma Aristarco de Samos e o traz para a sua grande obra De Revoluonibus de Copénico. Este só não foi perseguido porque morreu no mesmo dia do lançamento desta obra: “Sobre a Revolução das Órbitas Terrestre”.
    Mais tarde, após 100 anos, que fez o grande trabalho de teorização foi Galileu Galilei. Foi condenado à morte. Isto só não aconteceu porque retratou-se, ficou em prisão domiciliar, ficou cego de Glaucoma..
    Esse processo de aceitação do Heliocentrismo, ao todo, levou uns dezoito séculos.Esta verdade teórica teve que esperar muitos séculos. Depois do amadurecimento da Ciência, da Política, da Economia que foi possível sua legitimação final.
    O Heliocentrismo terá que unir-se ao Geocentrismo.
    odéciomendesrocha

  11. Luiz Augusto permalink
    14/04/2017 20:05

    Penso que o governo Trump está fadado ao mais fragoroso fracasso. Representa o extertor do conservadorismo americano.

    • Marizia Lippi permalink
      20/04/2017 11:26

      “O Espírito do Senhor estás sobre mim, pelo que ungiu ; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor.” (Lucas 4, 18).

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