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A democracia brasileira sob perigoso ataque

21/07/2017

O pressuposto básico de toda democracia é: o que interessa a todos, deve poder ser decidido por todos, seja direta, seja indiretamente por representantes. Como se depreende, democracia não convive com a exclusão e a desigualdade que é profunda no Brasil.

Verdadeiro é o juízo de Pedro Demo, brilhante sociólogo da Universidade de Brasíia em sua Introdução à sociologia:Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que a ela sirva do começo até o fim. Políitico é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniquados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima…Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação”(p.330.333).

Não obstante, não desistimos de querer gestar uma democracia enriquecida, especialmente a partir dos movimentos sociais de base, proclamando o ideal de uma sociedade na qual todos possam caber, a natureza incluída. Será uma democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos), cotidiana, vivida em todos os relacionamentos: na família, na escola, na comunidade, nos movimentos sociais, nos sindicatos, nos partidos e, evidentemente, na organização do Estado democrático de direito, se costuma dizer. Portanto, pretende-se uma democracia mais que delegatícia que não começa e termina no voto, mas uma democracia como modo de relação social inclusiva, como valor universal (N.Bobbio) e que incorpora os direitos da natureza e da Mãe Terra, daí um democracia ecológico-social.

Esse último aspecto, o ecológico-social, nos obriga superar um limite interno ao discurso corrente da democracia: o fato de ser ainda antropocêntrica e sociocêntrica, vale dizer, centrada apenas nos seres humanos e na sociedade. O antropocentrismo e sociocentrismo representam um reducionismo. Pois o ser humano não é um centro exclusivo, nem mesmo a sociedade, como se todos os demais seres não entrassem na nossa existência, não tivessem valor em si mesmo e somente ganhassem sentido e valor enquanto ordenados ao ser humano e à sociedade.

Ser humano e sociedade constituem um elo, entre outros, da corrente da vida. Sem as relações com a biosfera, com o meio-ambiente e com as precondições físico-químicas não existem nem subsistem. Elementos tão importantes, devem ser incluidos em nossa compreensão de democracia contemporânea na era da nascente geosociedade e da conscientização ecológica e planetária segundo a qual natureza, ser humano e sociedade estão indossoluvelmente relacionados: possuem um mesmo destino comum como bem se diz na encíclica ecológica do Papa Francisco “cuidando da Casa Comum” e na Carta da Terra.

A perspectiva ecológico-social tem, ademais, o condão de inserir a democracia na lógica geral das coisas. Sabemos hoje pelas ciências da Terra e da vida, que a lei básica que subjaz à cosmogênse e a todos os eco-sistemas é a cooperação de todos com todos, a sinergia, a simbiose e a interrelação entre todos, não é a vitória do mais forte ou do mais adaptável.

Ora, a democracia é o valor e o regime de convivência que melhor se adequa à natureza humana cooperativa e societária. Aquilo que vem inscrito em sua natureza.em seu DNA, é transformado em projeto político-social consciente. Oferece o fundamento da democracia: a cooperação, o respeito aos direitos e a solidariedade sem restrições. Realizar a democracia significa avançar mais e mais no reino do especificamente humano. Significa re-ligar-se também mais profundamente com a Terra e com o Todo.

Isso é o ideal buscado. No entanto, o que estamos assistindo nos dias atuais é o contrário: um ataque frontal à democracia a nível mundial e nacional. O avanço do neoliberalismo ultrararadical que mais e mais concentra poder em pouquíssimos grupos, depreda sem piedade a natureza, radicaliza o consumismo individualista e visa a alinhar os demais países à lógica do Império norteamericano, solapa as bases da democracia em qualquer uma de suas formas.

O golpe parlamentar, jurídico e mediático, dado no Brasil se inscreve dentro desse ideário. Já não conta a Constituição e os direitos, mas se instaura um regime de exceção onde os juízes determinam a esfera da política. Bem disse o cientista político da UFMG Juarez Guimarães: ”Acho errado chamar Moro de juiz parcial. Na verdade, é um juiz corrompido politicamente. Ele está exercendo o seu mandato de juiz de forma partidária, contra a Constituição e contra o povo brasileiro”

Os golpistas abandoram a democracia e a soberania popular em favor do domínio puro e simples do mercado, dos rentistas e da diminuição das funções do Estado. Isso foi denunciado recentemente pelo nosso melhor estudioso da democracia Wanderley Guilherme dos Santos em seu livro, silenciado pela midia empresarial,”Democracia impedida” e pelo citado cientista político Juarez Guimarães numa entrevista publicada, recentemente, no Sul21.

Ninguém pode prever o que virá nos próximos tempos. Se os golpistas levarem até o fim seu projeto de privatizações radicais a ponto de desgraçarem a vida de boa parte da população, poderemos conhecer revoltas sociais.

Num sentido melhor, fazem sentido as palavras do editor da Carta Capital Mino Carta:o golpe de uma quadrilha a serviço da Casa Grande teve o condão de despertar a consciência nacional”. Cuidado: uma vez despertada, esta consciência pode alijar seus opressores e buscar um outro caminho no qual possamos diminuir as perversas desigualdades sociais e gozarmos de mais justiça para todos.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor.

 

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7 Comentários leave one →
  1. 21/07/2017 2:53

    Republicou isso em Não ao Golpe2.

  2. adenir permalink
    21/07/2017 6:32

    Zizinho e Pelé foram expoentes do futebol profissional brasileiro no século XX. Friedenreich os precedeu na passagem do futebol amador para o profissional até a década de trinta. Pelé tem Zizinho como seu grande mestre. Ambos confundiram ESQUEMA de jogo com SISTEMA de jogo. Zizinho publicou um livro em WM que foi o esquema por ele adotado. O que se viu e o que se vê é que até o nadador João Havelange passou na frente deles, driblou Garrincha e consentiu que Médici tirasse Saldanha da Seleção Brasileira. A DEMO ateniense servia à DEMAgogia que matou Sócrates e tem isolado a liderança Socrática no futebol brasileiro. Foi a RES PUBLICA de Platão adotada em Roma que levou os aristocratas do Senado a assassinarem covardemente Júlio César. A RES PUBLICA é o SISTEMA com ESQUEMAS aristocráticos e escravistas que enganaram Joaquim Nabuco e colocaram os negros brasileiros para subirem os morros aumentando suas pressões arteriais. Atando suas mãos. Com os pés livres para fugir da polícia aprenderam chutar a bola e vencer o resto do mundo. Democracia e sistema republicano não são bons conselheiros para o povo brasileiro que precisa de PODER PUBLICO, DIREITOS INALIENÁVEIS e MELHORES CONDIÇÕES DE VIDA com ESTRUTURAS E INFRA-ESTRUTURAS que deem SUPORTE ás suas necessidades básicas.

  3. adenir permalink
    21/07/2017 7:27

    PRESENTES DE GREGO
    A DEMOCRACIA E A RES PUBLICA Ateniense se não forem bem adaptadas tornam-se CAVALOS DE TRÓIA e PRESENTES DE GREGOS. Principalmente para países CONTINENTAIS como o Brasil. As ILHAS são como laboratórios. Os CONTINENTES são farmácias, hospitais e espaços de vida, liberdade e busca da felicidade.

  4. Marízia Costa Carmo Lippi permalink
    21/07/2017 12:30

    Admirável e abençoada análise da conjuntura mundial e nacional: “democracia ecológico-social”, expressão perfeita, nós somos compostos também químico-físico. Há absoluta interdependência entre o CRIADO: SER AMORIZADO !

  5. 21/07/2017 14:52

    Não tenho bem certeza se essa Consciência foi desperta, o suficiente!

  6. 21/07/2017 17:02

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Um grande artigo para leitura e reflexão, do Leonardo Boff: “O pressuposto básico de toda democracia é: o que interessa a todos, deve poder ser decidido por todos, seja direta, seja indiretamente por representantes. Como se depreende, democracia não convive com a exclusão e a desigualdade, que é profunda no Brasil.

    Verdadeiro é o juízo de Pedro Demo, brilhante sociólogo da Universidade de Brasília em sua Introdução à sociologia:”Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que a ela sirva do começo até o fim. Político é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniguados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima…Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação”(p.330.333).

    Não obstante, não desistimos de querer gestar uma democracia enriquecida, especialmente a partir dos movimentos sociais de base, proclamando o ideal de uma sociedade na qual todos possam caber, a natureza incluída. Será uma democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos), cotidiana, vivida em todos os relacionamentos: na família, na escola, na comunidade, nos movimentos sociais, nos sindicatos, nos partidos e, evidentemente, na organização do Estado democrático de direito, se costuma dizer.

    Portanto, pretende-se uma democracia mais que delegatória, que não começa e termina no voto, mas uma democracia como modo de relação social inclusiva, como valor universal (N. Bobbio) e que incorpora os direitos da natureza e da Mãe Terra, daí um democracia ecológico-social.

    Esse último aspecto, o ecológico-social, nos obriga superar um limite interno ao discurso corrente da democracia: o fato de ser ainda antropocêntrica e sociocêntrica, vale dizer, centrada apenas nos seres humanos e na sociedade. O antropocentrismo e sociocentrismo representam um reducionismo. Pois o ser humano não é um centro exclusivo, nem mesmo a sociedade, como se todos os demais seres não entrassem na nossa existência, não tivessem valor em si mesmo e somente ganhassem sentido e valor enquanto ordenados ao ser humano e à sociedade.”

    (Continua; clique no linque para ler tudo)

  7. Felipe Kosloski permalink
    21/07/2017 19:17

    O problema que vejo é quando o povo se volta para os opressores disfarçados de idealistas mas com os mesmos projetos anti democráticos, como os Kataguiri da vida.

    Grande leitura da realidade Boff, suas reflexões nos amenizam e faz ver uma luz.

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