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A falta que Betinho nos faz

12/08/2017

No dia 9 de agosto ocorreram várias celebrações pelos 20 anos da morte do sociólogo e ativista social Herbert de Souza, vulgo, Betinho. Uma delas foi feita na UFRJ/Coppe na Ilha do Fundão conjuntamente com a Coep (Comité de Entidades no Combate à Fome e pela Vida). Presente estava a companheira de vida, Maria Nakano, além de muitos professores e alunos. No Jardim da Cidadania foi decerrada uma placa de homenagem e se plantou um duplo pé de Manacá, árvore da preferência de Betinho. Houve várias falas. Uma coube a mim, resumida neste artigo.

Há mortos que recordamos com saudade mas há també mortos que celebramos com júbilo. Estes não estão ausentes, são apenas invisíveis. É o caso do Betinho. Em suas próprias palavras, sua vida foi uma sucessão infinita de sortes: hemofílico, sobreviveu à turbercolose e por fim se confrontou corajosamente com a Aids. Militou na esquerda católica contra a ditadura militar, viveu no exílio no Chile, no Canadá e no México. Regressou em 1997 recebido por uma multidão, reconhecido como o irmão do Henfil, genial cartunista. Almir Blanc e João Bosco imortalizaram o Betinho com a canção sempre cantada “Esperança Equilibrista” sobre “a volta do irmão do Henfil”.

Betinho foi um homem de grandes sonhos e de não menores realizações: a fundação da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, a Coep em colaboração com o engenheiro de Furnas André Spitz, , com o Coppe e o Coep ajudou a formar o Comité de Entidades Públicas no Comabate à Fome, Comités da Cidadania pelo Brasil afora, o Natal sem Fome e a ABIA para o estudo da Aids entre outras. Entre 1993-2005 a Ação da Cidadania distribuíu 30.351 toneladas de alimentos, beneficiando cerca de 3 mihões de famílias.

Sua prioridade absoluta, verdadeira obsesão humanitarian, era o combate à fome. Costumava responder aos que o criticavam de certo assistencialismo que “a fome tem pressa”, não permite esperar a grande revolução. Com razão dizia Gandhi que a fome é “a forma de violência mais assassina que existe”. Isso Betinho queria evitar a todo custo. Dar de comer nunca pode ser um gesto apenas assistencialista, mas de um humanismo em grau zero. Juntos dizíamos com frequência:”o pão que tenho em minhas mãos, é material; mas o pão que entrego ao faminto é espiritual, pois vai carregado de amor, de compaixão e de humanidade e salva a vida”.

Ao regressar ao país, optou pela sociedade civil e não pelos partidos e pela participação no Estado. Na sociedade civil via a presença de potencial de solidariedade e de criatividade que poderia ser mobilizado em favor das grandes causas nacionais: cobrar ética na política, reconstruir a democracia pela base, participativa e popular, a urgência da reforma agrária em terras do campo e da cidade, o combate à fome, o incentivo à educação na linha de Paulo Freire, a introdução, por primeiro, da internet no Brasil.

Betinho era um indignado contra a anti-realidade brasileira dos milhões de marginalizados, castigados com a fome e as doenças da fome. Mas não era um resignado. Logo lançava projetos para pô-los em prática, sempre com um sentido de trabalho coletivo e solidário.

Se vivesse hoje com a desordem social provocada pelo infame golpe parlamentar, jurídico e mediático, atrás do qual se escondem as classes oligárquicas, que Darcy Ribeiro considerava as mais insensíveis e reacionárias do mundo, o que vem sendo repetido por Jessé Souza, Betinho estaria seguramente na rua mobilizando o povo, os movimentos, os que ainda acreditam no Brasil, para defender a nossa frágil democracia e salvar os direitos sonegados aos trabalhadores, aos futuros aposentados, exigindo a demarcação dos territórios indígenas, impugnando as privatizações, especialmente do pré-sal e acusando como crime de lesa-pátria a venda de terras nacionais a estrangeiros.

Os escândalos da corrupção milionária atingindo a maioria dos partidos e as grandes empresas, o levaria seguramente a retomar com vigor o tema sobre o qual tanto se debatia: a ética na política e a transparência em todas as coisas. Que falta nos faz o Betinho, órfãos de liberanças confiáveis. O ódio que atravesa nosso tecido social seria incompreensível a ele que pregava o amor aos mais invisíveis aos quais entregou a pouca vida que tinha.

Se alguém quer saber o que é o espírito, deve olhar para aquele corpo mirrado e alquebrado que, no entanto, irradiava vida, coragem, esperança e sentido de humanidade para com todos. Era espírito puro na sua expressão melhor de inteligêrncia, criatividade, sonho, compaixão.

Deixou-nos o desafio de “recriar o Brasil e de refundar a nação” a partir do povo em cuja solidariedade acreditava e em sua alegria de viver da qual participava. Repetia: sem sonho e sem esperança não há vida nem futuro.

Betinho é uma figura de que o Brasil e a humanidade podem se orgulhar. Ele era e é um Justo entre os povos, especialmente, entre os pobres. Sua inspiração nos fará sair enriquecidos da atual crise.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu com Anselm Grün, O divino em nós, Vozes 2017.

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2 Comentários leave one →
  1. 13/08/2017 14:37

    Betinho partiu cedo demais, deixando o Brasil um pouco mais órfão de – JUSTIÇA!

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  1. Texto compartilhado de Leonardo Boff | Vida , viagens e amor pelos animais - Sérgio Lúcio Maria

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