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Frei Betto: legados de Fidel

22/08/2017

Fidel Castro é uma figura polêmica, por muitos títulos. Mas ele como todos também passou. Deixou um legado que Frei Betto sem grandiloquência nos transmite. Juntos, frei Betto e eu, nos tempos sombrios da ditadura militar íamos, não sem riscos, a Cuba a convite de Fidel. Cumpríamos uma dupla tarefa: conseguir um encontro e um diálogo entre a Conferência dos Bispos de Cuba com o Governo e outra de darmos cursos sobre democracia social, ética, direitos humanos e marxismo sem a carga ideológica, como método de análise da realidade na perspectiva das vítimas dos sistemas de dominação. Depois de anos, finalmente houve um reconciliação entre a Igreja e Fidel o que fez com que os Papas todos, João Paulo II, Bento XVI e Francisco chegassem a visitar a ilha. Com muitas palestras e cursos conseguimos, mais o Frei Betto que eu, a mudar a visão de mundo, aberta ao transcendente, à realidade da religião e da existência de Deus. Foram dezenas de bíblias que levávamos para lá e outros livros religiosos. Mesmo aqueles que combatem o sistema político de Cuba e a pessoa de Fidel Castro, não faria mal se lessem esse texto de Frei Betto que era amigo e bem próximo do lider cubano. Todos somos sujeitos a preconceitos, mas somos eticamente obrigados a nos orientar por conceitos, os mais verdadeiros possíveis. LBoff

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O líder máximo da Revolução Cubana, Fidel Castro, faria 91 anos em 13 de agosto de 2017. Faleceu em novembro do ano anterior. No aniversário de 90 anos estive em sua casa, em Havana. Participei, em seguida, da homenagem festiva que lhe foi prestada no Teatro Karl Marx. Embora com o organismo frágil, tinha a cabeça tão lúcida e ágil de quando o conheci, em 1980.

Mantivemos uma amizade ininterrupta por todos esses anos posteriores ao nosso encontro em Manágua, na comemoração do primeiro aniversário da Revolução Sandinista. Mesmo após deixar o governo, Fidel me convidava à sua casa. Nossos papos, em companhia de Dalia, sua esposa, abrangiam os mais variados temas, de política à cosmologia.

Com seu testemunho de vida, discursos e artigos, Fidel nos deixou um rico legado. Seu testamento, lido pelo irmão Raúl Castro, em Havana, por ocasião das pompas fúnebres, surpreendeu a todos. Na contramão do culto à personalidade, tão cultivado pela tradição comunista, Fidel registrou por escrito não admitir que o seu nome fosse dado a nenhuma obra (escola, hospital etc.) ou logradouro (rua, avenida etc.) públicos. Nem que se fizesse qualquer imagem, busto ou estátua de sua figura.

Tal decisão condiz com a sentença que mais o encantava na obra de Martí: “Toda a glória do mundo cabe em um grão de milho.” Não por acaso a sua tumba, em Santiago de Cuba, conforme desejo dele, é um monólito em forma de grão de milho.

Fidel foi um revolucionário vitorioso. Isso se deve também à sua total falta de dogmatismo, o que lhe permitiu unificar a esquerda cubana – Movimento 26 de Julho, Diretório Estudantil e Partido Comunista – no mesmo objetivo de derrubar a ditadura de Batista.

Não era homem de gabinete. Sentia-se melhor no meio do povo, a quem esclarecia e politizava com seus longos discursos. Gostava de visitar cooperativas agrícolas, fábricas, escolas e hospitais. E deixava que seus interlocutores se sentissem à vontade para manifestar-lhe críticas e sugestões.

Jamais conheceu o medo. Atacou o quartel Moncada, em 1953, ele e seus companheiros, movidos pelo ideal de acender o estopim do processo revolucionário cubano, mesmo sabendo o risco e que ceifou a vida de uns tantos revolucionários. Consciente de seu papel histórico, fez de seu célebre texto, “A história me absolverá”, sua peça de defesa, já que, como advogado, teve o direito de atuar em causa própria.

Mais do que Marx, foi José Martí o grande inspirador de Fidel, cujo caráter só se pode entender quem conhece a obra de Martí e a índole da formação que lhe imprimiram os padres jesuítas durante uma década de sua formação escolar. De Martí, herdou a inteligência; dos jesuítas, a educação da vontade.

A invasão de Cuba pela Baía dos Porcos, em 1961, patrocinada por Washington, induziu Cuba a estreitar seus vínculos com a União Soviética, em tempos da bipolaridade criada pela Guerra Fria. Fidel sempre se manifestou agradecido à solidariedade soviética. No entanto, soube preservar a soberania cubana frente à ingerência dos russos. Embora o ateísmo tenha sido adotado por um período no sistema de ensino do país, e como condição de ingresso no Partido Comunista de Cuba, jamais o governo revolucionário fechou uma única igreja ou fuzilou um padre ou pastor, apesar do envolvimento de alguns em graves atentados contrarrevolucionários. Ao contrário, em suas viagens ao exterior, Fidel fazia questão de abrir espaço em sua agenda para encontros com líderes religiosos. Compreendia a importância da natureza religiosa do povo latino-americano e o seu caráter estratégico.

Impactado pela participação dos cristãos no processo sandinista, e pela emergência da Teologia da Libertação, Fidel reverteu a tradição comunista, tão crítica e arredia ao fenômeno religioso. Surpreendeu a esquerda mundial ao se referir positivamente à religião, destacando seus aspectos libertadores, na entrevista que me concedeu em 1985, contida no livro “Fidel e a religião” (São Paulo, Fontanar, 2016).

Fidel não temia a crítica e não se furtava à autocrítica. Por diversas ocasiões, em momentos cruciais da Revolução, convocou o povo a se manifestar livremente em campanhas de retificação do processo revolucionário. Inclusive em nossas conversas pessoais disse-me um dia que eu não apenas tinha o direito de expressar minhas críticas à Revolução, como também o dever.

Nesse rico legado nos deixado por ele se destaca que não se pode ter a ilusão de aplacar a agressão do tigre apenas arrancando-lhe os dentes. O poder do capitalismo de exercer o domínio imperial e de cooptar muitos que lhe fazem oposição é muito maior do que se supõe. Por isso, aqueles que ainda acreditam que não haverá futuro para a humanidade fora da partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano devem se perguntar por que os EUA, que invadiram o Iraque, o Afeganistão, a Líbia e tantos outros países, não o fizeram em relação à pequena ilha do Caribe, após a fracassada tentativa da Baía dos Porcos. A resposta é uma só: nos outros países, os EUA derrubaram governos. Em Cuba, como no Vietnã, teria que obter o impossível: derrubar um povo. E um povo não se derrota.

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.

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7 Comentários leave one →
  1. 22/08/2017 20:48

    Espetacular, Frei Betto! Obrigado, Professor Leonardo Boff! Fidel Castro foi inigualável em seu amor ao povo cubano e aos povos da América Latina e Caribe. Daqueles que entregam a própria pele para demonstrar suas verdades.

  2. 22/08/2017 23:09

    “Ama e faze o que quiseres.” (Santo Agostimho)

  3. Nepal permalink
    22/08/2017 23:27

    “Mais do que Marx, foi José Martí o grande inspirador de Fidel”. Muito bem sintetizado nesta frase.

  4. adenir permalink
    23/08/2017 7:41

    FORA DA VIDA E DA HISTÓRIA
    Há sessenta e três anos Getúlio Vargas deixava a vida para entrar na história. GETÚLIO MATOU VARGAS é o nome do filme que se repetiu com suicídio do filho Maneco em
    1999 e Getúlio Neto que se suicidou em 2017. Ao meu lado tenho o livro JOÃO
    SALDANHA – UMA VIDA EM JOGO que narra os detalhes da última viagem de João Saldanha para a Copa de 1990 na Itália como uma corrida sem volta, pois o JOÃO
    SEM MEDO vivia com ajuda de remédios para respirar. Não lembrou as palavras dos médicos e nem as do médico dos médicos : TEMEI ANTES… E O DEPOIS…a última
    crônica de Saldanha termina com A ESTUPIDEZ SIDERÚRGICA que nos fez perder a
    Copa de 90 na Itália. Também LULA vem com a conversa de se matar caso fique convencido de culpa pelas acusações que tem recebido. Coisas do NORTE E DO SUL…
    quando LULA nasceu o Brasil só tinha Norte e Sul. A divisão regional veio depois dos
    anos sessenta. O peso destas tragédias sobra para o povo que é enganado com salário mínimo, preços mínimos e outros PRESENTES DE GREGOS E ROMANOS que a
    cavalaria de Deodoro e Figueiredo tem legado ao Brasil desde o século XIX. SEMI-PRESIDENCIALISMO através de Decreto é mais abusivo que o Decreto de gênero da
    Dilma para ser chamada de PRESIDENTA. Fogem às regras do jogo e da linguagem brasileira. No fundo além do poço o que falta mesmo é ATUALIZAÇÃO. A começar da
    MÍDIA que é quadro na parede e que nem sabe que de muitas redes os sonhos se
    tornam REALIDADES E COISAS PÚBLICAS. Abraços. adenir

  5. 23/08/2017 14:36

    Republicou isso em Zefacilitador.

  6. 25/08/2017 10:13

    Grande Mestre Leonardo Boff, suas palavras assim como as de Frei Bretto, são um refrigério para a alma e uma fortaleza de esperança neste mundo tão infeliz. Saudações fraternas!

    • 26/08/2017 19:36

      Thiago, obrigado por suas palavras pois me animam no meio das tantas ofensa gratuitas que recebo. Mas seguiremos na luta por políticas que resgatem a dignidade dos pobres, começando matando-lhes a fome. um abraço fraterno lboff

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