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A alma brasileira está doente

11/04/2019

Tudo que é sadio pode ficar doente. A doença sempre remete à saúde. Esta é a referência maior e funda a dimensão essencial da vida em sua normalidade.

As dilacerações sociais, as ondas de ódio, ofensas, insultos, palavras de baixo calão que estão dominando nas mídias sociais ou digitais e mesmo nos discursos públicos, revelam que a alma brasileira está enferma.

As mais altas instâncias de poder se comunicam com a população usando notícias falsas (fake news), mentiras diretas e imagens que se inscrevem no código da pornografia e da escatologia. Esta atitude revela a falta de decência e do sentido de dignidade e respeitabilidade, inerentes aos mais altos cargos de uma nação. No fundo,perdeu-se um valor essencial, o respeito a si e aos outros, marca imprescindível de uma sociedade civilizada.

A razão deste descaminho se deve ao fato de que a dimensão do Numinoso ficou obscurecida. O “Numinoso” (numen em latim é o lado sagrado das coisas) se revela através de experiências que nos envolvem totalmente e que conferem densidade à vida mesmo no meio dos maiores padecimentos. Ele possui um imenso poder transformador. A experiência entre duas pessoas que se amam e a paixão que as torna fascinantes, configuram uma experiência do Numinoso. O encontro profundo com uma pessoa que no meio de uma grave crise existencial nos acendeu uma luz, representa uma experiência do Numinoso. O choque existencial face a uma pessoa, portadora de carisma, por sua palavra convincente ou por suas ações corajosas, nos evoca a dimensão do Numinoso. A Presença inefável que se faz sentir face à grandeur do universo ou de uma noite estrelada, suscita em nós o Numinoso. Igualmente os olhos brilhantes e profundos de um recém nascido.

O Numinoso não é uma coisa, mas a ressonância das coisas que tocam o profundo de nosso ser e que por isso se tornam preciosas. Transformam-se em símbolos que nos remetem a Algo para além delas mesmas. As coisas, além de serem o que são, transfiguram-se em realidades simbólicas, repletas de significações. Por um lado nos fascinam e atraem e por outro nos enchem de respeito e de veneração. Elas produzem em nós um novo estado de consciência e humanizam nossos comportamentos.

Esse Numinoso, na linguagem dos místicos como do maior deles, o Mestre Eckhart ou de Teresa d’Ávila, bem como da psicologia do profundo à la C.G. Jung é representado pelo Sol interior ou pelo nosso Centro irradiador. O Sol possui a função de uma arquétipo central. Como o Sol atrai à sua órbita todos os planetas, assim o  arquétipo-Sol  satelisa ao seu redor as nossas significações mais profundas. Ele constitui o Centro vivo e irradiante de nossa interioridade. O Centro é um dado-síntese da totalidade de nossa vida que se impõe por si mesmo. Ele fala dentro de nós, nos adverte, nos apoia e  como o Grande Ancião ou a Grande Anciã nos aconselha a seguir os caminhos mais certos. E então nunca seremos defraudados.

O ser humano pode fechar-se a este Centrou ou a este Sol. Pode até negá-los mas jamais pode aniquilá-los. Eles estão ai como uma realidade imanente à alma.

Esse Centro ou o seu arquétipo, o Sol, nos conferem equilíbrio, harmonia pessoal e social e a convivência dos contrários sem se  exacerbarem pela intolerância e pelos comportamentos de exclusão.

Ora, foi esse Centro  que  se perdeu na alma brasileira. Ofuscamos o Sol interior, apesar de ele, continuamente, estar aí presente, como o Cristo do Corcovado. Mesmo escondido por entre as nuvens, ele continua lá com os braços abertos. Assim o nosso Sol interior.

Ao perder nosso Centro e ao ofuscar a irradiação do Sol interior, perdemos o equilíbrio e a justa medida, bases de qualquer ética, da sociedade e de toda convivência. Desequilibrados, andamos errantes, pronunciando palavras desconectadas de toda civilidade e compostura. Apequenamo-nos e abandonamos a lei áurea de toda ética:”trate humanamente a todos e a cada um dos seres humanos.” Nesse momento no Brasil, muitos e muitos não tratam humanamente a seus semelhantes. De eventuais adversários no campo das ideias e das opções políticas ou sexuais são feitos  inimigos aos quais  cabe combater e eventualmente exterminar.

Temos, urgentemente, que curar nossa alma ferida, resgatar  nosso Centro e nosso Sol interior, mediante a acolhida das diferenças sem permitir que se tornem desigualdades, através do diálogo aberto, da empatia  face aos diferentes principalmente aos que mais sofrem. Como dizia o perfil de uma mulher inteligente no twitter:”ao  colocarmo-nos no lugar do outro, fazemos do mundo (da sociedade) um lugar para todos”. Esta é nossa urgência, caso não quisermos conhecer a barbárie.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu Virtudes para um outro mundo possível (3 vol), Vozes 2012.

 

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15 Comentários leave one →
  1. 11/04/2019 11:36

    Bom dia. Adorei saber do “Numinoso”. Concordo com sua avaliação e lamento muito a obscuridade na qual entramos nestes últimos meses. Mas ouso citar Jacques Lacan lembrando que ele nos ensina acerca das três paixões do ser quais sejam: o amor, o ódio e a ignorância. Será que saímos do amor enquanto “Sagrado/ Numinoso” para nos apaixonar pela ignorância e pelo ódio que nos conduz às trevas? abraços de grande admiração.

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  2. Isabel cristina permalink
    11/04/2019 14:35

    Necessária reflexão em tempos tenebrosos!

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  3. 11/04/2019 15:14

    Excelente!

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  4. 11/04/2019 18:53

    Brilhante Boff ! Desde o impeachment vergonhoso de Dilma a sociedade vem passando por estímulos desenfreados a confrontos, ódios, violência. Estimulado apela mídia que imaginou que acabaria com o PT fora do jogo. Mas foi um tiro no pé, ela mesma está sendo achincalhada por um projeto de governo para incendiar este País. Difícil imaginar o que teremos à frente mas façamos a nossa parte. Nós, os verdadeiros homens de bem

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  5. Marízia Costa Carmo Lippi permalink
    11/04/2019 21:21

    Reflexão bela, oportuna e benéfica às nossas almas extremamente sofridas! “Para Vós nos criaste Senhor, e, inquieto está o nosso coração enquanto não repousar em Vós”(Santo Agostinho).

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    • Fátima permalink
      14/04/2019 3:00

      Empatia . Sem ela não sairemos desse lugar que o Brasil entrou , tempos difíceis. ☹️

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  6. Amaurih permalink
    11/04/2019 23:02

    A cura não vai vir com vingança, ainda mais em se sabendo que as práticas de desconstrução da moral do adversário não é prática que se iniciou nessas eleições, e sabemos onde teve início…

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  7. Isabel da Fontoura Pinho permalink
    14/04/2019 15:42

    Seu texto é lindo, um chamamento ao que ainda temos de bom e verdadeiro em nós.Abraço, Isabel

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  8. Isabel da Fontoura Pinho permalink
    15/04/2019 9:41

    Ainda sobre o texto, achei o alerta: ! tudo que é sadio pode ficar doente, de uma total profundidade, nunca se resolveu a maldade com doses de maldade, a sociedade está muito doente e, precisamos mais do que nunca de saúde , de medidas e soluções cautelosas, sem equilíbrio não vamos a lugar nenhum. Abraço esperançoso,Isabel

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  9. 15/04/2019 19:46

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Eis aqui mais um excelente texto do Leonardo Boff, cuja leitura e reflexão sobre o mesmo eu definitivamente recomendo a vocês!
    Segue aqui o trecho inicial. Para ler o texto na íntegra, clique no linque:
    “A alma brasileira está doente” – 11/04/2019
    Tudo que é sadio pode ficar doente. A doença sempre remete à saúde. Esta é a referência maior e funda a dimensão essencial da vida em sua normalidade.

    As dilacerações sociais, as ondas de ódio, ofensas, insultos, palavras de baixo calão que estão dominando nas mídias sociais ou digitais e mesmo nos discursos públicos, revelam que a alma brasileira está enferma.

    As mais altas instâncias de poder se comunicam com a população usando notícias falsas (fake news), mentiras diretas e imagens que se inscrevem no código da pornografia e da escatologia. Esta atitude revela a falta de decência e do sentido de dignidade e respeitabilidade, inerentes aos mais altos cargos de uma nação. No fundo,perdeu-se um valor essencial, o respeito a si e aos outros, marca imprescindível de uma sociedade civilizada.”

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  10. Isabel da Fontoura Pinho permalink
    15/04/2019 19:58

    Achei seu pensamento ” tudo que é sadio pode ficar doente” de uma profundidade imensa. Na atual conjuntura não podemos desiquilibrar, apenas reativos não chegaremos a lugar nenhum. E, depois, já temos uma história e, sabemos seu final, aproveitemos a experiência para a construção de uma vida melhor, com responsabilidade e muita concentração na escolha do caminho a ser seguido.Abraço esperançoso,Isabel

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  11. sinone sarmento lima permalink
    16/04/2019 11:38

    Ótimo texto!
    A alma do mundo está doente, dizemos nós. A nossa alma adoece dia a dia e não percebemos porque não nos incluímos nela.
    A nossa Codependência existe e precisamos identificá-la onde. Existe um ponto de referência. Não sei se física, emocional, da alma ou espiritual.
    BUM!
    Aonde vamos?
    Enquanto não despertarmos a alma familiar e o coração social, permaneceremos assim, só circulando, circulando. O Brasil é resultado disso.Quais os cuidados com a Pátria-mãe? O adoecimento gradativo dos séculos e paliativos cultivados de um Brasil Colônia até hoje.
    Escrevemos sempre os problemas. Sempre apontamos e apontamos o negativo brasileiro. Como muito bem colocou, o centro do sol existe no nosso interior. Precisamos falar sobre isso todos os dias, porque todos os dias o sol desponta e vivos estamos. O sol é o nosso norte e deixá-lo à deriva não é saudável. Trevas nunca.Vivemos catástrofes pelo fogo e pela água constantemente. Sinais de desequilíbrio estão querendo dizer algo. Como diriam os budistas que precisamos superar os venenos do orgulho, da inveja, obsusidade mental,carência e raiva. Quando descobrirmos esse sol de dentro nos tornaremos mais ricos.

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    • 16/04/2019 23:07

      Simone, agradeço esta excelente reflexão que, oxalá, ajude a outras pessoas a tomarem consciência e buscar a saúde para a nossa alma coletiva.Lboff

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