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Semana no meio-ambiente: garantir o futuro da vida e da Terra

07/06/2019

No mundo inteiro e também entre nós se celebra com eventos e discussões ecológicas a Semana do Meio-Ambiente. Logicamente, não nos satisfaz o meio-ambiente, pois queremos o ambiente inteiro.

O Papa em sua encíclica “Sobre cuidar da Casa Comum”(2015) superou este reducionismo e propôs uma ecologia integral que recobre o ambiental, o social, o político, o mental, o cotidiano e o espiritual. Como disseram grandes expoentes do discurso ecolo[ogico: com este documento dirigido à humanidade e não apenas aos cristãos, o Papa Francisco se coloca na ponta da discussão ecológica mundial. Em sua detalhada exposição, segue o ritual metodológico da Igreja de Libertação e sua teologia: o ver, o julgar, o agir e o celebrar.

Fundamenta suas afirmações (ver) com os dados mais seguros das ciências da Terra e da vida; submete a uma rigorosa análise crítica (julgar) ao que ele chama de “paradigma tecnocrático”(n.101), produtivista, mecanicista, racionalista, consumista e individualista cujo “estilo de vida só pode desembocar em catástrofes”(n.161); o julgar implica uma leitura teológica onde o ser humano emerge como cuidador e guardador da Casa Comum (todo o capítulo II). Coloca com fio condutor a tese básica da cosmologia, da física quântica e da ecologia o fato de que “tudo está relacionado e, todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa…que nos une também com terna afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”(n.92). Parte para práticas alternativas (agir) demandando com urgência uma “radical conversão ecológica”(n.5) no nosso modo de produzir, de consumir “alegrando-nos com pouco”(n.222) “com sobriedade consciente”(n.223), “na convicção de que quanto menos, tanto mais”(n.222); enfatiza a importância de “uma paixão pelo cuidado do mundo”, “uma verdadeira mística que nos anima”(celebrar) para assumirmos nossas responsabilidades face ao futuro da vida.

Atualmente se trava uma batalha acirrada entre duas visões com respeito à Terra e à natureza que afetam nossa compreensão e nossas práticas. Elas se fazem presentes em quase todos os debates.

A predominante que constitui o núcleo do paradigma da modernidade, vê a natureza como algo que nos foi destinado, cujos bens e serviços (o sistema prefere “recursos”, os andinos “bondades da natureza”) estão disponíveis para nosso uso e bem estar. O ser humano está numa posição adâmica de quem se considera “mestre e senhor”(Descartes) da natureza, fora e acima dela. Considera a Terra, uma realidade sem propósito (res extensa), uma espécie de baú cheio de bens e serviços infinitos que sustentam um projeto de desenvolvimento/crescimento também infinito. Desta atitude de “dominus” (dono) surgiu o mundo técnico-científico que tantos benefícios nos trouxe. Mas ao mesmo tempo criou uma máquina de morte que, com armas químicas, biológicas e nucleares, nos pode destruir a todos e pôr em risco a biosfera.

A outra visão, contemporânea, que possui mais um século de vigência mas que nunca conseguiu fazer-se hegemônica, entende que somos parte da natureza e que a Terra é viva. Ela se comporta como um super-organismo vivo, auto-regulado, combinando os fatores físico-químicos e ecológicos de forma tão sutil e articulada que sempre mantém e reproduz a vida. O ser humano é parte da natureza e aquela porção da Terra que num elevadíssimo processo de complexidade começou a sentir, pensar, amar e a venerar. Nossa missão é cuidar deste grande “Ethos”(em grego significa casa) que é a Casa Comum. Somos o “frater”(irmão) de todos. Devemos produzir para atender as demandas humanas mas em consonância com os ritmos de cada ecossistema, cuidando sempre que os bens e serviços possam ser usados com uma sobriedade compartida, visando as futuras gerações.

Numa mesa redonda com representantes de vários saberes, discutia-se formas de proteção da natureza. Havia um cacique pataxó do Sul da Bahia que falou por último e disse: “não entendo o discurso de vocês, todos querem proteger a natureza; eu sou a natureza e me protejo”. Aqui está a nuance: todos falavam sobre a natureza como quem está de fora, ninguém sentindo-se parte dela. O indígena sentia-se natureza. Protegê-la é proteger a si mesmo que é natureza.

Esse debate está ainda em curso. O futuro aponta para a segunda visão, a de olhar a Terra como Gaia, Pachamama, Grande Mãe e Casa Comum. Lentamente vamos tomando consciência de que somos natureza e defendê-la significa defender a nós mesmos e a nossa própria vida. Caso contrário, a primeira visão, a Terra e natureza como baú de “recursos infinitos”, nos poderá levar a um caminho sem retorno.

Leonardo Boff  escreveu:”Como cuidar da Casa Comum”, Vozes 2018.

 

 

5 Comentários leave one →
  1. Marízia Costa Carmo Lippi permalink
    08/06/2019 23:13

    A sabedoria e a beleza da criação apontam para o Criador. É impossível não percebe-lO.Foi-nos prometido o Salvador que aqui esteve por 33 anos, presença que corroborou a sabedoria e a beleza do Criador. Nós O vemos na criação a todo momento. Onde nem sempre o vemos é naquele ser criado à Sua imagem e semelhança , no ser humano. O livre arbítrio que nos distingue, como também o espírito, nos leva a estados que nos tornam dissemelhantes a Ele, especialmente nas atitudes de desamor. Por exemplo o extermínio preocupante das abelhas por meio de pesticidas, agrotóxicos…Albert Einstein alertou que o extermínio das abelhas levará ao extermínio da humanidade…consequência da ambição do dinheiro por parte do “capetalista”(expressão de Frei Luiz Maria Alves Sartori). Oro por perdão, conversão e santificação da humanidade criada e amada por Deujs!

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  2. 16/06/2019 17:45

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Semana do meio-ambiente: garantir o futuro da vida e da Terra

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  3. 30/09/2019 16:21

    O ser humano precisa assumir rapidamente a responsabilidade por impedir a destruição na nossa casa, o planeta Terra.

    Recentemente, escrevi um artigo em meu blog sobre a importância que a menina Greta tem tido em movimentar esse debate. Se puder, visite: https://senhorconteudo.home.blog/2019/09/25/5-atitudes-de-greta-thunberg-que-podem-nos-inspirar/

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  4. Marízia Costa Carmo Lippi permalink
    07/10/2019 13:08

    Penso que seria muito oportuno para todos nós, neste início do Sínodo da Amazônia, lermos os primeiros capítulos de GÊNESIS . Nossa origem comum a todo o criado, exceto no que se refere à nossa imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1,26).

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