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Lula e Bolsonaro: o confronto de dois projetos

14/11/2019

A liberação do ex-presidente Lula da prisão em tempos do presidente Bolsonaro suscitou um confronto dramático entre dois projetos de Brasil. Mais que opostos, eles são antagônicos. Sem forçar os termos, parece a atualização da visão do mundo dos gnósticos que liam a história como luta entre o bem e o mal ou segundo “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho, entre o amor e o ódio.

Efetivamente o projeto de Bolsonaro se funda na difusão de ódio aos homoafetivos, aos LGBTI, aos negros e aos pobres em geral e na exaltação de ditaduras ao ponto de magnificar notórios torturadores. Lula afirma que nele não há ódio mas amor que o levou e leva a implementar políticas sociais de inclusão de milhões de marginalizados garantindo-lhes os mínimos vitais.

Há que se reconhecer que este cenário projeta uma visão pouco dialética, cindindo a história entre a sombra e a luz Mas infelizmente assim é, embora rejeite este tipo de dualismo.

Tudo isso acontece num contexto de ascenso mundial do conservadorismo, do fundamentalismo político e religioso e da exacerbação da lógica do capital que se expressa num neoliberalismo ultra radical, feito opção axial do governo Bolsonaro. Observemos que este radicalismo neoliberal formulado pela escola de Viena e de Chicago, donde vem Paulo Guedes, sustenta que “não há direitos fora das leis do mercado e que a pobreza não é um problema ético mas uma incompetência técnica, pois os pobres são indivíduos que, por culpa própria, perderam a competição com os outros”. Desse pressuposto teórico, se deriva que não há porquê ocupar-se com políticas para os pobres. É um governo de ricos para ricos.

Contraditoriamente, Lula afirma a centralidade da justiça social a partir das grandes maiorias vitimadas pela ordem capitalista. Propõe uma democracia social e participativa com a inclusão dessas maiorias. Quis realizar este projeto com um presidencialismo de coalizão de partidos, o que considero seu grande equívoco, ao invés de apoiar-se nos movimentos sociais, donde veio, como o fez com sucesso o presidente da Bolívia, deposto por um golpe classista e racista, Evo Morales Ayma.

No Brasil, o racismo e a intolerância que sempre estavam aí mas recolhidos no armário irromperam explicitamente. Eles se ocultavam sob o nome de “cordialidade do brasileiro”. Mas como bem observou Sérgio Buarque de Hollanda (em Raizes do Brasil) esta cordialidade pode significar tanto lhaneza e amor, quanto violência e ódio, posto que ambos se albergam no coração, por isso “cordial”.

Surfando nesta onda nacional e internacional se elegeu Jair Bolsonaro e se condenou e prendeu o ex-presidente Lula, mediante a lawfare, pelo corpo judiciário que levava avante a Lava Jato.

Jair Bolsonara, mesmo depois de eleito, utiliza-se com frequência dos fake news, da mentira direta e governa com os filhos de forma autoritária e por vezes boçal.

Lula comparece como um reconhecido carismático que fala ao coração das massas desesperançadas, propondo uma democracia social, o Estado de direito e a urgência de resgatar o que foi desmantelado.

Tudo depende em que estilo se dará este confronto. Bolsonaro evita o confronto direto, pois sabe de suas poucas luzes. Confiou-o aos ministros da Justiça, Sérgio Moro e o da Fazenda, Paulo Guedes,  melhor apetrechados.

O que Lula, ao meu ver, precisa evitar é o confronto no mesmo patamar de Bolsonaro. Importa por à luz o que Bolsonaro oculta e não pode usar: a crueza dos fatos, a tragédia que assola as grandes maiorias humilhadas e ofendidas. Não cabe um discurso de resposta a Bolsonaro pois ele mesmo é autodestrutivo. Mas de forma positiva falar ao coração das massas destituídas, denunciando objetivamente as maldades perpetradas por medidas excludentes, contrárias aos direitos e à própria vida.

Para resumir um longo arrazoado: inteligente seria assumir a atitude do melhor homem que o Ocidente gerou: o pobre e humilde Francisco de Assis. Realisticamente sabia que a realidade é contraditória, composta do dia-bólico (o que divide) e do sim-bólico (o que une). Não recalca o lado escuro de nossa realidade. Mas fortalece de tal forma o lado luminoso para que ele inunde a mente e o coração. Proclama: “onde houver ódio, que eu leve o amor/onde houver discórdia, que eu leve a união/ onde onde houver desespero que eu leve a esperança/ onde houver trevas, eu leve a luz.”

Esta opção supõe a convicção de que nenhum governo pode perdurar assentado no ódio, na mentira e no desprezo dos humildes da Terra. A verdade, a reta intenção e o amor desinteressado pronunciarão a palavra final. Não Caim mas Abel, não Judas mas Jesus, não Brilhante Ustra mas Vladimir Herzog.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.

 

 

20 Comentários leave one →
  1. Marízia Costa Carmo Lippi permalink
    14/11/2019 14:55

    A descrição do estado atual da nossa realidade política é perfeita! Parabens. Infelizmente muitos sofrendo, doze milhões de desempregados… Com a Justiça Divina Lula está em liberdade. O AMOR se expressa publicamente, e a recíproca é verdadeira: Lula ama o Povo e o Povo ama o Lula! “Deus é Amor”(1 João 4,8).Apesar dos “capetalistas” (Fr. Luiz M. A. Sartolri), predomina o amor! }Aleluia! Papa Francisco comemora no domingo dia 17 o Dia Internacional do Pobre. Seria maravilhoso se Lula estivesse lá. Estou tentando há dias passar este recado. Se puder fale com ele. Abraço Fraterno.

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  2. Licia Souza permalink
    14/11/2019 15:17

    Excelente

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  3. João Batista Carvalho Filho permalink
    14/11/2019 15:22

    Não meu carissimo e respeitavel, Boff, Bolsonaro pode ser tosco e grosso, rodeado de liberais e filhos politicos que pouco contribuem para estabilidade do pai, mas tem o credito de uma massa que o fortaleceu e o apoia todos os dias, pois o seu Salvador da Pátria que tambem foi de muitos e inclusive meu, nos traiu e megulhou na lama das propinas e da deshonra, da mentira e da mão grande para enriquecimento da familia e dos asseclas. Jogou seu cretido das urmas de 38 milhoes de votos nas mãos de uma dislexia e desorientada que concluiu de vez a obra da desgraça nacional. Bolsonaro pode ser o que o sr define e pode ter até acréscimo, mas cresceu nas sombras do desgoverno Lula e da DIlma que assopalaram a nação num coluio imoral e degradante de propinas e corrupção que contaminou todo o organismo da nação. Agora é se calar e dormir sob o lencol das penas que sofreu e ainda sofrerá o LARAPIO de espécie rara e sobretudo cinico e mentiroso, mente tanto que se apresenta como candidato, pois nem elegível pode ser pois é um condenado e cheio de processos ainda em ndamento. Uma vergonha nosso país ter tido no seu maior cargo publico um nefasto e uma nefasta deste nível.

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  4. Daniel permalink
    14/11/2019 16:42

    Não entendo a utilidade de se comparar a visão de um presidência atual, que representa os
    “políticos de bem do brasil”, vulgo velha corja…. com um ex-presidente, condenado, livre apenas por um STF corrupto e sem nenhuma vergonha na cara.

    O ideal seria esquecermos estas figuras insólitas que resgatam a figura do político fanfarrão brasileiro. Não deem mais abertura para estes assassinos de colarinho branco… vamos virar a página, e mirar um Brasil diferente.

    Chega disso por favor, chega de defender assassinos como bolsonaros e lulas… tanta gente morrendo por não ter acesso a saúde,nem a coisas básicas como saneamento básico, e esses sujeitos passeando de jato, e engordando com o que há de mais caro nos mercados.

    Analogia entre Lula e Luz é para acabar… isso insulta nosso povo.

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    • 15/11/2019 23:48

      Daniel, a sua leitura dos dois projetos, vai contra os milhares que caminham na rua e por todos aqueles que sofreram e sofrem as consequencias do ajuste fical e do dominio do neoliberalismo radical no governo de Bolsonaro.

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      • Daniel permalink
        16/11/2019 12:01

        Com toda a certeza nao me identifico com o atual projeto de governo.

        Mas nao por este motivo devemos nos inclinar a nos identificar com as diretrizaes de um condenado, que comprou a sua liberdade a preco de sangue do povo, de um STF que beira o ridiculo.

        Lula nao e luz, Bolsonaro tampouco… abordagens sem escrupulos que fazem o povo sangrar na miseria.

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  5. CLAUDICEA RIBEIRO DOS SANTOS permalink
    14/11/2019 16:43

    Em um mundo carente de ideias é bom ler esta reflexão…

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  6. NARA ZANOLI permalink
    15/11/2019 10:51

    sempre bello lucido e pieno di speranza
    Bravo Leonardo continua così

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  7. Rosemere Feitosa permalink
    15/11/2019 11:37

    Professor Leonardo Boff a muito tempo faço leitura de suas obras . Um forte abraço !

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  8. Ciliento Gaetano permalink
    15/11/2019 21:37

    Querido irmao Leonardo, tamben aqui na Italia temos um politico louco, salvini, que fala e age como o vosso bolsonaro. Mala tempora currunt, os filhos das trevas sao mais espertos dos filhos da luz. Ontem na cidade de Bologna na Italia mais de 12000 pessoas manifestaram o proprio pensamento contra salvini e toda a direita, apresentandose com um peixe, uma sardinha pendurada no pescoso, gritando qui nessuno abbocca, non siamo come le sardine che possono essere pescate facilmente. Isso nos da speranza que nunca morre. Deus te abencoe sempre, eu rezo por voce todos os dias perto de nosso Senhor Jesus.

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  9. Amaurih permalink
    16/11/2019 9:51

    O ódio está nessa postagem, que usa das calúnias comuns criadas por adversários sem ética, que parte da falta de princípio que indica que qualquer político dispensa votos de qualquer minoria. Calúnia baixa, desonesta e vil, que envolve quem a repete. Ódio? político nenhum odeia que pode lhe dar votos…

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  10. Marta permalink
    18/11/2019 0:11

    Esse artigo deu força a minha critica a Lula no seu discurso. Tambem penso assim, o Brasil precisa de pessoas que vejam o Brasil e de liderança que traga uniao, cooperação e esperança

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  11. Clóvis Garcia permalink
    18/11/2019 15:55

    Agradeço pelas suas lúcidas reflexoes que nos ajudam a pensar em meio a manipulaçao da midia nacional e internacional que massacram o pensamnto critico!

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  12. 20/11/2019 17:31

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Leonardo Boff: Lula e Bolsonaro: o confronto de dois projetos
    14/11/2019
    A liberação do ex-presidente Lula da prisão em tempos do presidente Bolsonaro suscitou um confronto dramático entre dois projetos de Brasil. Mais que opostos, eles são antagônicos. Sem forçar os termos, parece a atualização da visão do mundo dos gnósticos que liam a história como luta entre o bem e o mal ou segundo “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho, entre o amor e o ódio.

    Efetivamente o projeto de Bolsonaro se funda na difusão de ódio aos homoafetivos, aos LGBTI, aos negros e aos pobres em geral e na exaltação de ditaduras ao ponto de magnificar notórios torturadores. Lula afirma que nele não há ódio mas amor que o levou e leva a implementar políticas sociais de inclusão de milhões de marginalizados garantindo-lhes os mínimos vitais.

    Há que se reconhecer que este cenário projeta uma visão pouco dialética, cindindo a história entre a sombra e a luz Mas infelizmente assim é, embora rejeite este tipo de dualismo.

    Tudo isso acontece num contexto de ascenso mundial do conservadorismo, do fundamentalismo político e religioso e da exacerbação da lógica do capital que se expressa num neoliberalismo ultra radical, feito opção axial do governo Bolsonaro. Observemos que este radicalismo neoliberal formulado pela escola de Viena e de Chicago, donde vem Paulo Guedes, sustenta que “não há direitos fora das leis do mercado e que a pobreza não é um problema ético mas uma incompetência técnica, pois os pobres são indivíduos que, por culpa própria, perderam a competição com os outros”. Desse pressuposto teórico, se deriva que não há porquê ocupar-se com políticas para os pobres. É um governo de ricos para ricos.

    Contraditoriamente, Lula afirma a centralidade da justiça social a partir das grandes maiorias vitimadas pela ordem capitalista. Propõe uma democracia social e participativa com a inclusão dessas maiorias. Quis realizar este projeto com um presidencialismo de coalizão de partidos, o que considero seu grande equívoco, ao invés de apoiar-se nos movimentos sociais, donde veio, como o fez com sucesso o presidente da Bolívia, deposto por um golpe classista e racista, Evo Morales Ayma.

    No Brasil, o racismo e a intolerância que sempre estavam aí mas recolhidos no armário irromperam explicitamente. Eles se ocultavam sob o nome de “cordialidade do brasileiro”. Mas como bem observou Sérgio Buarque de Hollanda (em Raizes do Brasil) esta cordialidade pode significar tanto lhaneza e amor, quanto violência e ódio, posto que ambos se albergam no coração, por isso “cordial”.

    Surfando nesta onda nacional e internacional se elegeu Jair Bolsonaro e se condenou e prendeu o ex-presidente Lula, mediante a lawfare, pelo corpo judiciário que levava avante a Lava Jato.

    Jair Bolsonara, mesmo depois de eleito, utiliza-se com frequência dos fake news, da mentira direta e governa com os filhos de forma autoritária e por vezes boçal.

    Lula comparece como um reconhecido carismático que fala ao coração das massas desesperançadas, propondo uma democracia social, o Estado de direito e a urgência de resgatar o que foi desmantelado.

    Tudo depende em que estilo se dará este confronto. Bolsonaro evita o confronto direto, pois sabe de suas poucas luzes. Confiou-o aos ministros da Justiça, Sérgio Moro e o da Fazenda, Paulo Guedes, melhor apetrechados.

    O que Lula, ao meu ver, precisa evitar é o confronto no mesmo patamar de Bolsonaro. Importa por à luz o que Bolsonaro oculta e não pode usar: a crueza dos fatos, a tragédia que assola as grandes maiorias humilhadas e ofendidas. Não cabe um discurso de resposta a Bolsonaro pois ele mesmo é autodestrutivo. Mas de forma positiva falar ao coração das massas destituídas, denunciando objetivamente as maldades perpetradas por medidas excludentes, contrárias aos direitos e à própria vida.

    Para resumir um longo arrazoado: inteligente seria assumir a atitude do melhor homem que o Ocidente gerou: o pobre e humilde Francisco de Assis. Realisticamente sabia que a realidade é contraditória, composta do dia-bólico (o que divide) e do sim-bólico (o que une). Não recalca o lado escuro de nossa realidade. Mas fortalece de tal forma o lado luminoso para que ele inunde a mente e o coração. Proclama: “onde houver ódio, que eu leve o amor/onde houver discórdia, que eu leve a união/ onde onde houver desespero que eu leve a esperança/ onde houver trevas, eu leve a luz.”

    Esta opção supõe a convicção de que nenhum governo pode perdurar assentado no ódio, na mentira e no desprezo dos humildes da Terra. A verdade, a reta intenção e o amor desinteressado pronunciarão a palavra final. Não Caim mas Abel, não Judas mas Jesus, não Brilhante Ustra mas Vladimir Herzog.

    Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.

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  13. Isabel da Fontoura Pinho permalink
    06/12/2019 15:10

    Fantástico seu texto, resolutivo, inovador e, humano claro. É a saída para a delicadeza que enfrentam nossos políticos. Um abraço esperançoso, Isabel

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