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2016: l’anno in cui hanno cercato di uccidere la speranza del popolo brasiliano

07/01/2017

La situazione sociale, politica ed economica in Brasile merita una seria riflessione sul tentativo perverso di uccidere la speranza del popolo brasiliano, promosso da una banda (questo è il nome) di politici, in maggioranza corrotti o accusati di corruzione, che spudoratamente si sono messi al servizio dei veri esecutori del colpo di stato perpetrato contro la presidente Dilma Rousseff: la vecchia oligarchia del denaro e del privilegio che non ha mai accettato che qualcuno del piano inferiore potesse diventare presidente del Brasile e che includesse socialmente milioni di figli e figlie della povertà.

Ovviamente ci sono politici coraggiosi ed etici ed anche imprenditori progressisti della nuova generazione che pensano al Brasile e alla sua gente. Ma ancora non sono riusciti ad accumulare la forza sufficiente per dare un’altra direzione alla politica e un senso sociale allo stato attuale di aspetto neoliberista e protettore dei patrimoni.

Riferendosi alla corruzione tutti pensano a Lava Jato e Petrobras. Ma dimenticano o viene intenzionalmente negata dai media conservatori e legittimata dall’ordine costituito, un’altra corruzione peggiore, che si è rivelata esattamente il giorno di Natale, quando, insieme alla nascita di Cristo si narra l’uccisione di bambini innocenti da parte di re Erode, attualizzata oggi dai corrotti che mandano in rovina il paese.

Wagner Rosario, Segretario del Ministero della Trasparenza, rivela che negli ultimi tredici anni gli schemi di corruzione, frode e sottrazione di risorse dell’Unione destinate agli stati, ai comuni e alle organizzazioni non governative, e diretti ai piccoli comuni con basso indice di sviluppo, può superare un milione di volte il furto di Petrobras scoperto nella operazione Lava Jato. Sono 4 mila milioni nascosti che, in uno studio econometrico, possono essere convertiti in un miliardo di reais. I punti più colpiti sono la salute (“merenda”) e l’istruzione (abbandono della scuola).

Il segretario dice: “Io chiamo questo uccisione della speranza. Quando viene tolta la merenda ai bambini, viene tolta la possibilità di crescita di quel comune a medio e lungo termine. Si sta uccidendo un’intera generazione.”

La nazione ha bisogno di conoscere questo massacro e non si lasci ingannare da coloro che si nascondono, controllano e distorcono le informazioni perché sono anti-sistema.

Ma non si può vivere solo sulle disgrazie che hanno rovinato gran parte dell’anno 2016. Torniamo a quello che ci permette di vivere e sognare: la speranza.

Per capire la speranza dobbiamo superare il comune modo di vedere la realtà. Noi pensiamo che la realtà sia ciò che è lì, dato e compiuto. Ci dimentichiamo che ciò che viene dato è sempre compiuto ma non è tutta la realtà. Il reale è di più. Appartiene anche al reale il potenziale, quello che ancora non è ma può diventare. Questo aspetto potenziale viene espresso dalla utopia, dai sogni, dalle prospettive di un mondo migliore. È il campo dove la speranza fiorisce. Avere speranza è credere che questo potenziale può essere trasformato in reale, non automaticamente, ma per mezzo della prassi umana. Pertanto, l’utopia che nutre la speranza non è in antitesi con la realtà. Rivela il suo lato potenziale, nascosto, che vuole uscire e divenire storia.

Faccio mio il motto del grande scienziato e fisico quantistico Carl Friedrich von Weizsäcker, la cui società da lui fondata mi ha onorato a fine novembre a Berlino con un premio per il tentativo di unire il grido della Terra con il grido dei poveri: “non vi annuncio ottimismo, ma speranza.”

La speranza è un bene scarso oggi in tutto il mondo e in particolare in Brasile. Coloro che illegittimamente hanno cambiato la direzione del paese, imponendo un ultra-liberalismo, stanno uccidendo la speranza del popolo brasiliano. Le misure adottate puniscono principalmente la stragrande maggioranza che vede letteralmente smontate conquiste sociali storiche.

Qui ci soccorre il filosofo tedesco Ernst Bloch che ha introdotto il “principio speranza”. Questa speranza è più di una virtù tra le altre. Si tratta di un motore che abbiamo dentro di noi che alimenta tutte le altre virtù e ci proietta in avanti, dando origine a nuovi sogni di una società migliore.

Questa speranza darà energia alla popolazione colpita per resistere, scendere in piazza, protestare chiedendo cambiamenti che facciano bene al paese, a cominciare dalle persone più bisognose.

Poiché la maggior parte dei brasiliani sono cristiani, trovo opportuno ricordare le parole di Riobaldo di Guimarães Rosa: “Esistendo Dio, tutto da speranza, il mondo ha una soluzione… Avendo Dio è meno grave avere un po’ di trascuratezza, perché alla fine può andare tutto bene. Ma se non avete Dio, allora non avete possibilità per niente”.

Avere fede è avere nostalgia di Dio. Avere speranza è sapere che Egli è accanto a noi, anche se invisibile, facendoci sperare contro ogni speranza.

Traduzione di S. Toppi e M. Gavito

O desmonte do sistema de Defesa Nacional

02/01/2017

Precisamos superar o nosso complexo de “vira-latas” e tomarmos consciência da importância geopolítica e estratégica do Brasil no conjunto das nações do mundo. Somos uma das maiores nações em termos geográficos e populacionais. Somos a sétima economia do mundo com um mercado interno de 204 milhóes de brasieiros. Mas mais que tudo, somos um reserva de bens e serviços naturais como nenhum país do mundo possui em termos de terras férteis, de água doce, de florestass úmidas, de biodiverdade e de riqueza populacional pluri-etnica. Tal fato não passa desapercebido pelas potências que se arrogaram o poder de decidir o caminho por onde deve andar o planeta, o sistema-vida e o sistema-Terra. É por isso que nosso país, seu governo, as grandes empresas são vigiadas e espionadas. Ademais somos a grande potência do Atlântico Sul voltada para a África. Para onde irá o Brasil? Que posição tomará face aos problemas mundiais? Fará um caminho próprio, baseado na sua riqueza natural e histórica, influenciando outros países? Estas são as preocupações das potênciais que têm sob seu controle o processo de globalização . Transcrevemos essse artigo para nos alertar da importância que possuimos em termos de defesa de nossa soberania nacional. E também denunciar aqueles grupos e poderes que querem se alinhar a um dos poderes mundiais dominantes renunciando à construção de nosso próprio caminho e de nossa identidade nacional e desta forma dar uma contribuição à inteira humanidade. O estudo foi feito por um economista JOSÉ ALVARO DE LIMA CARDOSO, recomendado pelo nosso maor analista das políticas internacionais LUIS ALBERTO MONIZ BANDEIRA. Recomendo a leitura para melhorar nosso quadro de análise de nossa realidade nacional no contexto global: Lboff

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Nesta altura dos acontecimentos até as pedras sabem que o interesse imperialista nas matérias primas do Brasil (petróleo, minerais, água, biodiversidade da Amazônia) foi um dos carros-chefe do golpe. No entanto, além do interesse econômico imediato – nas matérias-primas e na eliminação de direitos e redução de salários – o golpe tem decisivo componente geopolítico, com cada vez maiores evidências do envolvimento direto das forças de inteligência norte-americanas (CIA, FBI, NSA). Está cada vez melhor documento, por exemplo, o envolvimento da equipe da Lava Jato com estratégias montadas em instituições de inteligência dos EUA.

Ao contrário de 1964, quando a censura e a repressão impediam a circulação de informações, neste golpe, apesar da democracia ter sido restringida, está sendo possível denunciar suas entranhas enquanto ele se desenrola (apesar da blindagem da mídia). Sabemos, por exemplo, da relação de Sérgio Moro com a comunidade de informações dos EUA. Moro fez cursos no Departamento de Estado, dos EUA, em 2007. No ano seguinte fez um programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard. Em 2009 participou da conferência regional sobre “Illicit Financial Crimes”, promovida pela Embaixada dos Estados Unidos. Foi treinado, segundo o historiador Moniz Bandeira, em ação multi-jurisdicional e práticas de investigação pelos estadunidenses. Inclusive em demonstrações reais, segundo o historiador Moniz Bandeira, de como preparar testemunhas para delação.

Tivemos a informação também, ainda antes do impeachment, que Sérgio Moro, e o procurador-geral da República Rodrigo Janot, atuam em parceria com órgãos dos Estados Unidos contra empresas brasileiras. E que Sergio Moro recentemente autorizou o compartilhamento da delação premiada do ex- diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, com investigadores de Londres em processo contra a Petrobrás. Segundo informações divulgadas na imprensa, Sergio Moro tem autorizados conversas feitas diretamente com cada delator da Lava Jato e o Departamento de Justiça dos EUA, sem passar pelo Estado brasileiro, como prevê a lei. Ou seja, os responsáveis pela operação Lava Jato permitem o acesso a órgãos do Estado norte-americano, a informações sigilosas, que são utilizadas para atacar e processar judicialmente a Petrobrás e outras empresas brasileiras. Como podemos nominar esse tipo de atitude? Como podemos chamar também a prisão do Vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, principal responsável pela conquista da independência na tecnologia do ciclo de combustível, que colocou o Brasil em posição de destaque na matéria, no mundo?

Não foi por acaso que na preparação do golpe, nos últimos anos, foi estimulado no povo brasileiro o complexo de vira-latas e se depreciou de forma sistemática tudo que poderia significar orgulho pelo País ou amor pela pátria. A campanha foi tão eficiente que idiotas saíram nas manifestações pró impeachment vestidos com as cores ou enrolados na bandeira dos EUA. Somente um processo sofisticado de manipulação da população poderia possibilitar o apoio a uma operação entreguista como a Lava Jato, pensada para quebrar a Petrobrás e o seu entorno, que gerou R$ 140 bilhões em prejuízo para a economia, provocando a demissão de milhares de trabalhadores, liquidando com dezenas de projetos na área de energia, indústria naval, infraestrutura e defesa. Recentemente, membros do Ministério Público Federal vieram a público para colocar sob suspeição o programa de construção de 36 caças estratégicos com a Suécia, colocando em dúvida a lisura de um ex-presidente da República e dos militares que participaram do negócio.

O golpe e o entreguismo estão só no começo. No apagar das luzes de 2016, o presidente golpista determinou à Comissão Aeronáutica Brasileira na Europa (CABE) a contratação, com urgência, de serviços de sensoriamento remoto por satélite. O custo de importação do equipamento está estimado em cerca de R$ 300 milhões. Segundo informações da imprensa, os membros da CABE estranharam a ordem, visto que este tipo de serviço para as Forças Armadas, só pode ser realizado por empresas nacionais ou constituídas sob as leis brasileiras, com sede e administração no País. Salvo raras exceções.

A ordem, que partiu da Casa Civil, tem graves implicações também no campo da soberania e segurança nacional. Segundo informações, a divisão de licitações e contratos da Aeronáutica classificou como ilegal a determinação, visto que esse tipo de fornecimento tem que ser feito por empresas brasileiras, inscritas no Ministério da Defesa. Os oficiais da Força Aérea, segundo os jornais, estão intrigados com o pedido da Presidência da República, que está se metendo diretamente nesse tipo de assunto, e atropelando regras que, dentre outras coisas, exigem a presença de empresas nacionais no processo. O que pode explicar essa entrega voluntária da vigilância do território brasileiro a empresas estrangeiras, senão entreguismo e subserviência? O que representa, do ponto de vista da segurança e soberania, buscar apoios em outros países, se empresas nacionais sabidamente têm condições de fornecer com excelência esse tipo de serviço? É que este não é um golpe qualquer. A agressão imperialista que o Brasil está sofrendo pode se comparar às guerras contra o Iraque e a Líbia, as técnicas de desestabilização utilizadas são semelhantes.

José Alvaro de Lima Cardoso, economista.

 

2016: el año en que intentaron matar la esperanza del pueblo brasilero

31/12/2016

La situación social, política y económica de Brasil merecería una reflexión seria sobre el intento perverso de matar la esperanza del pueblo brasilero, promovido por una banda (ese es el nombre) de políticos, en su gran mayoría corruptos o acusados de tal, que de forma desvergonzada se pusieron al servicio de los verdaderos forjadores del golpe perpetrado contra la Presidenta Dilma Rousseff: la vieja oligarquía del dinero y del privilegio que jamás aceptó que alguien del piso de abajo llegase a ser Presidente de Brasil y que incluyese socialmente a millones de los hijos e hijas de la pobreza.

Obviamente hay políticos valerosos y éticos, así como empresarios de la nueva generación, progresistas, que piensan en Brasil y en su pueblo. Pero estos todavía no han conseguido acumular fuerza suficiente para dar otro rumbo a la política y un sentido social al Estado vigente, de cariz neoliberal y patrimonialista.

Al referirse a la corrupción todos piensan en Lava Jato y en Petrobrás. Pero olvidan o les es negada intencionalmente por los medios de comunicación conservadores y legitimadores del establishment, otra corrupción mucho peor, revelada exactamente el día de Navidad en el que junto con el nacimiento de Cristo se narra la matanza de niños inocentes por el rey Herodes, actualizada hoy por los corruptos que dilapidan el país.

Wagner Rosario, secretario del Ministerio de la Transparencia, nos revela que en los últimos trece años los esquemas de corrupción, fraudes y desvíos de recursos de la Unión, destinados a los Estados, municipios y ONGs y dirigidos a pequeños municipios con bajo Índice de Desarrollo Humano, pueden superar un millón de veces el robo en la Petrobrás descubierto en la operación Lava Jato. Son 4 mil millones camuflados que pueden transformarse, en un estudio econométrico, en un billón de reales. Las áreas más afectadas son la salud (merienda) y la educación (abandono de las escuelas).

Dice el Secretario: «yo llamo a eso asesinato de la esperanza. Cuando se retira la merienda a un niño, se quita la posibilidad de crecimiento de aquel municipio a mediano y largo plazo. Se está matando a toda una generación»( O Estado de São Paulo 25/12/2016).

La nación precisa saber de esta matanza y no dejarse engañar por los que ocultan, controlan y deforman las informaciones porque son anti-sistémicas.

Pero no se puede vivir solo de las desgracias que mancharon gran parte del año 2016. Volvámonos hacia aquello que nos permite vivir y soñar: la esperanza.

Para entender la esperanza tenemos que superar el modo común de ver la realidad. Pensamos que la realidad es lo que está ahí, dado y hecho. Olvidamos que lo dado es siempre hecho y no es todo lo real. Lo real es mayor. Pertenece también a lo real lo potencial, lo que aún no es pero puede llegar a ser. Ese lado potencial se expresa mediante la utopía, los sueños, las proyecciones de un mundo mejor. Es el campo donde florece la esperanza. Tener esperanza es creer que ese potencial puede transformarse en real, no automáticamente, sino por la práctica humana. Por lo tanto, la utopía que alimenta la esperanza no se antagoniza con la realidad. Ella revela su lado potencial, lo abscóndito que quiere salir afuera para hacer historia.

Hago mío el lema del gran científico, físico cuántico y reconocido pacifista Carl Friedrich von Weizsäcker, cuya sociedad fundada por él me honró a finales de noviembre en Berlín con un premio por el intento de unir el grito de la Tierra con el grito del pobre: «no anuncio optimismo, sino esperanza».

La esperanza es un bien escaso hoy en todo el mundo y especialmente en Brasil. Los que cambiaron ilegítimamente los rumbos del país, imponiendo un ultraliberalismo, están asesinando la esperanza del pueblo brasilero. Las medidas tomadas castigan principalmente a las grandes mayorías que ven las conquistas sociales históricas literalmente desmontadas.

Aquí nos socorre el filósofo alemán Ernst Bloch que introdujo el “principio esperanza”. Esta, la esperanza, es más que una virtud entre otras. Es un motor que tenemos dentro de nosotros que alimenta todas las demás virtudes y nos lanza hacia delante, suscitando nuevos sueños de una sociedad mejor.

Esta esperanza va a proporcionar las energías para que la población afectada pueda resistir, salir a las calles, protestar y exigir cambios que hagan bien al país, comenzando por los que más necesitan.
Como la mayoría es cristiana son oportunas las palabras del sabio Riobaldo de Guimarães Rosa: «Con Dios existiendo, todo da esperanza, el mundo se soluciona… Teniendo a Dios es menos grave descuidarse un poquito, pues al final todo sale bien. Pero si no se tiene a Dios, entonces no hay licencia para cosa alguna».

Tener fe es tener saudades de Dios. Tener esperanza es saber que Él está a nuestro lado, aunque invisible, haciéndonos esperar contra toda esperanza.

*Leonardo Boff es articulista del JB online y escribió Teología del cautiverio y de la Liberación, Paulinas 1978.

Traducción Mª José Gavito Milano

2016:o ano em que se tentou matar a esperança do povo brasileiro

30/12/2016

         A situação social, política e econômica do Brasil mereceria uma reflexão severa sobre a tentativa perversa de matar a esperança do povo brasileiro, promovida por uma corja (esse é o nome) de políticos, em sua grande maioria corruptos ou acusados de tal, que, de forma desavergonhada, se pôs a serviço dos verdadeiros forjadores do golpe perpretado contra a Presidenta Diloma Rousseff: a velha oligarquia do dinheiro e do privilégio que jamais aceitou que alguém do andar de baixo chegasse a ser Presidente do Brasil e fizesse a inclusão social de milhões dos filhos e filhas da pobreza.

         Obviamente há politicos valorosos e éticos, bem como empresários da nova geração, progressitas que pensam no Brasil e em seu povo. Mas estes não conseguiram ainda acumular força suficiente para dar outro rumo à politica e um sentido social ao Estado vigente, de cariz neoliberal e patrimonialista.

         Ao se referir à corrupção todos pensam logo no Lava Jato e na Petrobrás. Mas esquecem ou lhes é negada, intencionalmente pela mídia conservadora e legitimadora do establishment, a outra corrupção, muito pior, revelada exatamente no dia de Natal que junto com o nascimento de Cristo se narra a matança de meninos inocentes pelo rei Herodes, hoje atualizado pelos corruptos que delapidam o país (O Estado de São Paulo 25/12/2016).

         Wagner Rosário, secretário do Ministério da Transparência, nos revela que nos últimos treze anos esquemas de corrupção, de fraudes e desvios de recursos da União, repassados aos Estados, municípios e ONGs e direcionados a pequenos municípios com baixo Indice de Desenvolvimento Humano podem superar um milhão de vezes o rombo na Petrobrás descoberto na Lava Jato. São 4 bilhões mas camuflados que podem se transformar, num estudo econométrico, em um trilhão de reais. As áreas mais afetadas são a saúde (merenda) e a educação (abandono das escolas).

       Diz o Secretário: “A gente chama isso de assassinato da esperança. Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município a médio e a longo prazo. É uma geração inteira que você está matando”.

         A nação precisa saber desta matança e não se deixar mentir por aqueles que ocultam, controlam e distorcem as informações porque são anti-sistêmicas.

         Mas não se pode viver só de desgraças que macularam grande parte do ano de 2016. Voltemo-nos para aquilo que nos permite viver e sonhar: a esperança.

         Para entender a esperança precisamos ultrapassar o modo comum de vermos a realidade. Pensamos que a realidade é o que está aí, dado e feito. Esquecemos que o dado é sempre feito e não é todo o real. O real é maior. Pertence ao real também o potencial, o que ainda não é e que pode vir a ser. Esse lado potencial se expressa pela utopia, pelos sonhos, pelas projeções de um mundo melhor. É o campo onde floresce a esperança. Ter esperança é crer que esse potencial pode se transformar em real, não automaticamente, mas pela prática humana. Portanto, a utopia que alimenta a esperança não se antagoniza com a realidade. Ela revela seu lado potencial, o abscôndito que quer vir para fora e fazer história.

         Faço meu o lema do grande cientista e físico quântico Carl Friedrich von Weizsäcker cuja sociedade fundada por ele me honrou em final de novembro em Berlim com um prêmio pelo intento de unir o grito da Terra com o grito do pobre:”não anuncio otimismo, mas esperança”.

         Esperança é um bem escasso hoje no mundo inteiro e especialmente no Brasil. Os que mudaram ilegitimamente os rumos do país, impondo um ultraliberalismo, estão assassinando a esperança do povo brasileiro. As medidas tomadas só penalizam as grandes maiorias que veem as conquistas sociais históricas sendo literalmente desmontadas.

         Aqui nos socorre o filósofo alemão (Ernst Bloch) que introduziu o “princípio esperança”. Esta, a esperança, é mais que uma virtude entre outras. É um motor que temos dentro de nós que alimenta todas as demais virtudes e que nos lança para frente, suscitando novos sonhos de uma sociedade melhor.

        Esta esperança vai fornecer as energias para a população afetada poder resisitir, sair às ruas, protestar e exigir mudanças que façam bem ao país, a começar pelos que mais precisam.

         Como a maioria é cristã valem as palavras do sábio Riobaldo de Guimarães Rosa:”Com Deus existindo, tudo dá esperança, o mundo se resolve…Tendo Deus é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim, dá certo. Mas se não tem Deus, então, a gente não tem licença para coisa nenhuma”.

         Ter fé é ter saudades de Deus. Ter esperança é saber que Ele está ao nosso lado, ainda que invisível, fazendo-nos esperar contra toda a esperança.

Leonardo Boff é articulista do JB online e escreveu Teologia da libertação e do cativeiro, Vozes 2014.

Weihnachten zur Zeit des Herodes

29/12/2016

Dieses Jahr wird Weihnachten anders sein. Normalerweise ist es ein Fest, an dem sich die Familie trifft. Christen feiern das Christkind, das kam, um unser Menschsein anzunehmen und es besser zu machen.

In Wahrheit jedoch ist es der Ort, an dem die schreckliche Figur des Herodes des Großen (73 v.Chr. – 4 n. Chr.) auftrat, den man mit dem Ermorden der unschuldigen Kinder in Verbindung bringt. Als er hörte, dass in seinem Königreich Judäa ein neuer König geboren worden war, fürchtete er um seine Macht. So befahl er das Ermorden aller kleinen Jungen unter zwei Jahren. Dann hören wir eine der traurigsten Stellen in der Bibel: „Ein Geschrei war in Rama zu hören, lautes Weinen und Klagen. Rahel weinte um ihre Kinder und wollte sich nicht trösten lassen, denn sie waren dahin“ (Mt. 2,18).

Die Geschichte vom Ermorden der Unschuldigen geht in anderer Form weiter. Die ultrakapitalistische Politik, die die gegenwärtige brasilianische Regierung ausübt, indem sie Rechte annulliert, Gehälter kürzt, soziale Errungenschaften wie das Gesundheitswesen, Bildung, soziale Sicherheit und Renten zurückfährt und für die nächsten 20 Jahre die Entwicklungsmöglichkeiten einfriert, hat zur Konsequenz das perverse und langsame Ermorden der Unschuldigen, die zum Großteil aus den Armen unseres Landes Brasilien bestehen.

Die tödlichen Folgen, die aus der Entscheidung resultieren, den Markt als wichtiger zu erachten als unbekannte Personen, sind für den Gesetzgeber nicht neu. Innerhalb von wenigen Jahren werden wir eine Klasse von Superreichen haben (zurzeit sind es 1.440 gemäß der IPEA, d. h. ca. 0,05 % der Bevölkerung Brasiliens), eine Mittelklasse, die befürchtet, ihren Status zu verlieren, und Millionen von brasilianischen Armen sowie die Ausgeschlossenen, die aus der Armut ins Elend fielen. Dies impliziert hungernde Kinder, die wegen Unterernährung und völlig vermeidbaren Krankheiten sterben, Erwachsene, die weder einen Zugang zu Medikamenten noch zum öffentlichen Gesundheitswesen haben und zum vorzeitigen Sterben verurteilt sind. Dieses Abschlachten hat einen Urheber: ein Großteil der heutigen Gesetzgeber von der sogenannten „PEC des Todes“ können nicht von der Schuld freigesprochen werden, der heutige Herodes des brasilianischen Volkes zu sein.

Der wohlhabenden Elite und den Privilegierten gelang die Rückkehr. Mit der Unterstützung der korrupten Parlamentarier, mit dem Rücken zum Volk und taub für die Proteste auf den Straßen, durch eine Koalition der Mächte, bestehend aus Polizisten, der Staatsanwaltschaft, der Militärpolizei und Teilen der Justizgewalt und der körperschaftlichen und reaktionären Massenmedien und nicht ohne den Rückhalt durch die imperiale Macht, die sich für Brasiliens Reichtum interessiert, erzwangen sie die Ausgrenzung von Präsidentin Dilma Rousseff. Der wahre Motor dieses Coups besteht aus dem Finanzkapital, den Banken und Darlehensgebern (die nicht von der Politik der Haushaltsanpassungen betroffen sind).

Der Politikwissenschaftler Jesse Souza prangert nicht grundlos an: Brasilien ist die Bühne, auf der der Konflikt zwischen zwei Projekten ausgetragen wird: der Traum der Mehrheiten eines großen und starken Landes und der Realität einer raubgierigen Elite, die alles an sich reißen und den Reichtum des Landes in die Taschen einer Handvoll Leute stecken will. Die wohlhabende Elite regiert einfach nur deshalb, weil sie in der Lage ist, alle anderen Eliten zu „kaufen“ (FSP 16.04.2016).

Es ist traurig zu sehen, dass dieser Prozess des Plünderns eine Folge der alten Versöhnungspolitik zwischen den Begüterteten untereinander und mit den Regierenden ist, die aus den Kolonial- und Unabhängigkeitszeiten stammt. Die Präsidenten Lula da Silva und Dilma Rousseff beherrschten oder benutzten nicht die schlaue Strategie dieser regierenden Minderheit, die unter dem Vorwand der Regierbarkeit nach der Versöhnung untereinander und mit der Regierung strebt und dabei dem Volk einige Privilegien einräumt, sofern das Wachstum ihres Reichtums dabei noch auf dem Höchstlevel verbleibt.

Der Historiker José Honorio Rodrigues, der ausführlich die Klassenversöhnung studierte, die immer auf dem Rücken des Volks ausgetragen wird, sagt ganz richtig: Die staatliche Führung war in ihren aufeinanderfolgenden Generationen immer reformistisch, elitär und individualistisch … Die Kunst des Diebstahls ist wohlbekannt und uralt und wird von diesen Minderheiten praktiziert, nicht vom Volk. Das Volk stiehlt nicht. Das Volk wird bestohlen … Das Volk ist herzlich, die Oligarchie ist brutal und erbarmungslos … der große Erfolg der brasilianischen Geschichte beruht auf dem brasilianischen Volk, und die große Enttäuschung sind die brasilianischen Herrscher ((Conciliação e Reforma no Brasil, 1965. pp. 114-119).

Wir erleben in Brasilien die Wiederholung dieser üblen Tradition, aus der wir uns nie befreien werden, ohne eine Gegen-Macht zu stärken, die von unten kommen muss und in der Lage ist, diese perverse Elite zu bekämpfen und einen anderen Staatstypus zu schaffen mit einer anderen Art von republikanischer Politik, in der das Allgemeingut über den individuellen und den unternehmerischen Gütern steht.

Das diesjährige Weihnachtsfest ist ein Weihnachten unter dem Zeichen des Herodes. Dennoch halten wir daran fest, dass das göttliche Kind der befreiende Messias ist und dass der Stern uns wohlwollend auf bessere Wege führen wird.

Leonardo Boff Theologe und Philosoph und von der Erdcharta Kommission  

 

The Nativity in the time of Herod

26/12/2016

The Nativity this year will be different from other Nativities. Generally, it is the holiday of familial fraternizing. For Christians, it is the celebration of the Divine Child who came to assume our humanity and make it better.

However, in truth, in its place there appeared the horrible figure of Herod the Great, (73 BC– 4 BC), linked to the killing of the innocents. Jealous of his power, he heard that a baby king was born in his kingdom, Judah. And he ordered the killing of all little boys under two years. Then were heard some of the saddest words in the Bible: “In Rama was there a voice heard, lamentation, and weeping, and great mourning, Rachel weeping for her children, and would not be comforted, because they are not.” (Mt 2,18).

This story of the killing of the innocents continues, in another form. The ultra capitalist policies imposed by the present Brazilian government, revoking rights, reducing salaries, cutting social benefits such as health care, education, social security, pensions and freezing for 20 years the possibilities of development have as a consequence the perverse and slow killing of the innocent, of whom great majority are the poor of our country, Brazil.

The lethal consequences flowing from the decision to consider the market more important than persons are not unknown to the legislators. Within a few years we will have a class of super-rich (there are now 1,440, according to the IPEA, about 0.05% of the population of Brazil), a middle class afraid of losing its status and millions of Brazilian poor and the excluded, who fell from poverty into misery. This implies hungry children who die from malnourishment and totally preventable diseases, adults who can find neither medicines nor access to public health, condemned to die prematurely. This slaughter has an author: a large part of the current legislators from the so-called “The PEC of death” cannot be exempted from the guilt of being the present day Herod of the Brazilian people.

The monied elites and the privileged managed to return. Supported by corrupt parliamentarians, with their backs to the people and deaf to the clamor in the streets, through a coalition of forces consisting of constables, the Public Ministry, the Military Police and parts of the Judiciary and the corporative and reactionary mass media, and not without the backing of the imperial power interested in Brazilian wealth, forced the marginalization of President Dilma Rousseff. The real motor of the coup is the financial capital, banks and lenders (who are not affected by the policies of fiscal adjustments).

The political scientist Jesse Souza denounces with reason: Brazil is the stage of a dispute between two projects: the dream of the majorities of a great and strong country and the reality of a rapacious elite that wants to usurp the work of everyone and sack the wealth of the country to line the pockets of half a dozen. The monied elite rules, by the simple fact of being able to “buy” all other elites (FSP 16/4/2016).

It is sad to show that this process of pillaging is a consequence of the old politics of conciliation between those with money, among themselves and with the governments, that comes from the times of the Colony and Independence. Presidents Lula da Silva and Dilma Rousseff did not accomplish or did not know how to overcome the sagacious art of this ruling minority that, with the pretext of governability, seeks conciliation among themselves and with the government, ceding some benefits to the people at the price of maintaining untouched the nature of their process of accumulating wealth at the highest levels.

Historian Jose Honorio Rodrigues, who studied in depth class conciliation, always on the backs of the people, rightly says: the national leadership, in their successive generations, was always reformist, elitist and individualistic … The art of thievery is well-known and ancient, practiced by those minorities and not by the people. The people does not steal. The people is stolen … The people is cordial, the oligarchy is cruel and pitiless…; the great success of Brazilian history is the Brazilian people, and the great deception are the Brazilian leaders (Conciliação e Reforma no Brasil, 1965. pp. 114-119).

We are living in Brazil a repetition of this malefic tradition, from which we will never liberate ourselves without strengthening an anti-power, coming from below, capable of defeating this perverse elite and of creating a different type of State, with a different type of republican politics, where the common good prevails over individual and corporative good.

The Nativity this year is a Nativity under the sign of Herod. Still, we believe that the divine Child is the liberating Messiah and the Star will generously show us better paths.

Leonardo Boff Theologian-Philosopher and of theEarthcharter Commission

Free translation from the Spanish sent by
Melina Alfaro, alfaro_melina@yahoo.com.ar.
Done at REFUGIO DEL RIO GRANDE, Texas, EE.UU.

Uma geração inteira está sendo morta: especialmente pela corrupção na saúde e na educação

26/12/2016

O país precisa saber desta terrível matança que está ocorrendo com o desvio dos recursos da União repassados aos Estados, municípios e ONGs: é quase um trilhão de reais nos últimos anos. A corrupção do Lava-Jato se transforma em fichinha face a este terrível atentado contra a população mais pobre. Não podemos ser enganados e mentidos pela mídia e outros meios de comunicação que somente focam a corrupção das empreiteiras do Lava Jato, ocultando a outra corrupção maior e mais perversa porque condena à morte por mingua milhares e milhares de pessoas. Ou o Brasil se reforma de cima abaixo ou seremos condenados a virar lentamente uma África, pela irresponsabilidade de nossos políticos que dão infinitamente mais valor à acumulação privada ou corporativa de riqueza do que ao cuidado com quem mais precisa, em geral, ao povo brasileiro. Este sofreu a colonização, a escravidão e agora a sistemática depredação dos meios de vida por parte de uma oligarquia egoista ao extremo, inumana e cruel. Como está, o Brasil não pode continuar. A atual crise é oportunidade de uma mudança, desde que seja radical. Lboff

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‘É assassinato da esperança’, diz executivo da Controladoria sobre desvios da merenda

Wagner Rosário, secretário do Ministério da Transparência, Fiscalização e CGU, estima que esquemas de fraudes e desvios de recursos públicos que atingem pequenos municípios com baixo IDH podem superar ‘um milhão de vezes’ o rombo na Petrobrás descoberto na Lava Jato   

Julia Affonso

25 Dezembro 2016 | 06h3

Wagner Rosario. Foto: Adalberto Carvalho/CGU

Todos os recursos repassados pela União para Estados, municípios e Organizações Não-Governamentais são fiscalizados pelo Ministério da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União. Cerca de 1400 auditores monitoram, no País, desvios de verba, fraude a licitação, falsificação de documentos e tudo mais que encontrarem de irregular pelo caminho. E não acham tudo.

Em 13 anos, a CGU deflagrou, em parceria com a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, 247 ações de investigação de verbas federais. O prejuízo mínimo é estimado em R$ 4 bilhões. A pasta identificou que 67% das fraudes ocorreram nas áreas da saúde e da educação de municípios carentes, que detêm reduzido Índice de Desenvolvimento Humano.

“As consequências são muito mais altas do que bilhões de desvios em obras. Não são só R$ 4 bilhões. Um estudo econométrico da consequência disso para um País chega na casa de trilhão. São R$ 4 bilhões camuflados, pode transformar isso em uma quantidade um milhão de vezes maior do que os prejuízos que a Petrobrás apresenta”, alerta o secretário-executivo da Transparência, Wagner de Campos Rosário, em referência à Operação Lava Jato, que abriu a caixa preta do grande esquema de propinas instalado na estatal petrolífera entre 2004 e 2014.

Além das fraudes milionárias, a CGU achou obras paralisadas e abandonadas, má conservação de equipamentos, armazenagem inadequada de medicamentos e falta de infraestrutura nas escolas.

“Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município a médio e longo prazo. É uma geração inteira que você está matando”, adverte Rosário, há 8 anos na Controladoria-Geral da União.

VEJA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA

ESTADÃO: Quanto perde um País que tem 67% de R$ 4 bilhões desviados da Saúde e da Educação?

WAGNER DE CAMPOS ROSÁRIO, SECRETÁRIO-EXECUTIVO DO MINISTÉRIO DA TRANSPARÊNCIA: Condena o País a uma situação que nós vivemos hoje. Uma desigualdade social muito grande, pessoas sem condições mínimas de dignidade humana. Enquanto a gente não tiver um desenvolvimento dessas crianças, em um nível intelectual aceitável, a gente não vai ter reflexo no crescimento e desenvolvimento do País. Os países que saíram de uma situação semelhante à nossa e trilharam um caminho de desenvolvimento e melhoria de qualidade de vida da população tiveram essas mudanças em momentos críticos. Em alguns foi uma guerra, uma crise, cada um tem a sua história. Eu acho que esse momento crítico a gente está vivendo no País. Hoje é um momento de inflexão para que as pessoas parem para observar que a atuação de cada cidadão é importante. Os órgãos de defesa do Estado são essenciais. Mas enquanto a população não verificar que benefícios particulares não podem estar acima dos benefícios coletivos, não se sentir parte de uma sociedade, não vai ter uma vitória. A gente hoje está submetida ao ciclo vicioso da corrupção. Altos níveis de desigualdade social, pessoas que não acreditam nos seus representantes, isso gera um problema que as pessoas não acreditam que é possível mudar. A gente pode mudar como cidadão, acabar com a cultura do ‘jeitinho’. Enquanto a população não mudar, o País não vai andar. Isso é mais importante que as leis. Não adianta exigir que as pessoas que nos representam mudem, porque elas vão ter exatamente o comportamento que nós temos.

ESTADÃO: Os esquemas têm mais facilidade de se infiltrar em cidades mais pobres?

WAGNER ROSÁRIO: Acredito que sim. Em uma população com menor nível de educação, o controle social vai ser menor. A pessoa não tem muita noção se aquele gasto pode ou não pode. Torna-se mais fácil desviar recursos ali. Para pessoas que foram submetidas a um Estado de extrema pobreza por muito tempo, um saco de arroz é muito. Pessoas que já têm acesso a coisas básicas, talvez aquele pouco que você dê seja muito pouco, ela não vai aceitar. O nível de cobrança aumenta. A melhoria da educação, da qualidade de vida, de uma série de coisas, é essencial. Municípios que já chegaram a um nível maior de educação não toleram níveis de corrupção maiores. É muito mais fácil você agradar uma pessoa que não tem nada, nem o que comer, do que uma pessoa que tem condições básicas, com tudo. Na área de saúde, por exemplo, quando a gente pega os números de desvios, a maioria das fraudes é em saneamento básico, saúde da família e atenção básica à saúde. Saneamento básico é básico. Isso vai influenciar a expectativa de vida das pessoas, onde não tem saneamento as pessoas vivem menos. É uma coisa puxando a outra. Nos municípios mais pobres é mais fácil se manter a corrupção.

ESTADÃO: Muitas vezes as investigações da CGU pegam desvios de R$ 50 mil, R$ 100 mil em prefeituras. Qual o impacto da perda desses valores para os municípios?

WAGNER ROSÁRIO: A gente tem alguns critérios que pautam nosso trabalho e são conhecidos por todos os auditores: criticidade, materialidade e relevância. A gente sempre olha se aquele recurso realmente tem valor. Se eu tenho que fiscalizar R$ 10 bilhões ou R$ 100 mil, eu vou em R$ 10 bilhões. Mas tem recursos que a criticidade me faz olhar para eles. Por exemplo, merenda escolar. Os valores para municípios são pequenos, só que eles impactam muito forte no futuro do município. Eu tenho que fiscalizar, como não fiscalizar isso? A gente chama isso de assassinato da esperança. Quando você retira merenda de uma criança, você tira a possibilidade de crescimento daquele município a médio e a longo prazo. É uma geração inteira que você está matando. A gente tem trabalhos que não são de investigação, mas geram benefícios financeiros muito maiores. Muitas vezes a gente é obrigado a abrir um pouco mão do critério de materialidade e atuar em criticidade. É um dilema que a gente vive aqui. Vamos pautar pela materialidade, pela criticidade ou pela relevância daquele tipo de gasto? Muitas das vezes a gente tem valores baixos nesses trabalhos. Eu não posso largar isso de lado, porque é o futuro daquele município e do País. Você tem que fazer aquilo chegar lá, essa é a luta.

ESTADÃO: São 247 operações de investigação e um prejuízo mínimo estimado em R$ 4 bilhões. A que valor pode-se chegar?

WAGNER ROSÁRIO: É um prejuízo mínimo, é o que a gente levantou durante as investigações. A gente foca muito nos prejuízos identificados financeiros. Os não-financeiros são muito maiores. Se fôssemos fazer um estudo econométrico das consequências, por exemplo, que você gera a um município que desvia dinheiro da merenda escolar, em que as crianças não têm o desenvolvimento básico cognitivo, qual é o custo disso para um município no futuro? Isso não está quantificado e é muito difícil quantificar. Nós temos alguns índices que mostram isso. Quando a gente pega esses Índices de Desenvolvimento Humano ou Ideb, você verifica que, normalmente, esses locais apresentam baixos níveis básicos de expectativa de vida, expectativa de estudo, de anos médio em escola. Na Operação Mascotch (em Alagoas), a gente fez entrevistas com professores que disseram que a alimentação ali era dia sim, dia não. Só aí são 50% de recursos desviados (da merenda). Quando era sim, normalmente serviam só parte. Você imagina uma criança que já é pobre, que não tem estímulo ao estudo e com fome. Qual é a probabilidade dessa criança ter um rendimento adequado na escola? Você matou uma geração. É uma fraude que às vezes não é alta, mas as consequências são muito mais altas do que bilhões de desvios em obras. Não são só R$ 4 bilhões. Um estudo econométrico da consequência disso para um País chega na casa de trilhão. São R$ 4 bilhões camuflados, pode transformar isso em uma quantidade um milhão de vezes maior do que os prejuízos que a Petrobrás apresenta.

ESTADÃO: A corrupção que tira a merenda e o transporte escolar afeta o desenvolvimento do município e dos habitantes?

WAGNER DE CAMPOS ROSÁRIO: Não há dúvida. Essa é uma das consequências da corrupção, retirar a possibilidade de desenvolvimento, de crescimento. Mantém a pobreza, gera uma descrença da população nos seus representantes, colocando em risco até o Estado Democrático. As pessoas têm de ter confiança nos seus governantes. Você tem uma desconfiança generalizada, isso tudo afeta o crescimento e gera a manutenção da pobreza naqueles municípios.

ESTADÃO: Nessas operações, mais de 700 cidades foram afetadas, a maioria no Nordeste. Por quê?

WAGNER ROSÁRIO: Cerca de 46% das operações estão no Nordeste, 23% na Região Norte. Nós temos algumas informações que talvez nos ajudem a entender o porquê. Muitas dessas operações aconteceram em recursos da Educação e Saúde. O Fundeb é um recurso a princípio vinculado a Estado e município. Quando a União complementa o dinheiro, nós fiscalizamos. Praticamente nós não fiscalizamos o Fundeb quando não existe complementação da União. Distrito Federal e Espírito Santo não têm complementação da União. Quando você vai analisar quem recebe, Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte, a maioria está no Nordeste e dois Estados do Norte. A gente verifica que chegam mais recursos da União nesses locais e, com isso, a gente fiscaliza mais. Talvez se tivesse mais recursos do Fundeb em outros Estados, a gente teria verificado mais problemas nos outros Estados. Essa é uma das explicações. A outra é que quando você vem para a Região Sul e Sudeste, além dos municípios, você tem muita aplicação de recursos em estatais, tem muitos órgãos públicos. Nós fiscalizamos isso. Nós não temos tempo e equipe para verificar a execução do gasto público municipal dos recursos federais. A gente fiscaliza mais isso no Nordeste. Praticamente não tem órgão público, poucas estatais, quando tem alguma coisa é Universidade. Essas são duas variáveis, portanto, que devem ser levadas em consideração.

ESTADÃO: Os dados apontam uma recorrência de fraudes semelhantes nos mesmos municípios por anos. O que fazer?

WAGNER ROSÁRIO: Essa é uma pergunta que vale muito. Os órgãos de controle têm se especializado nesse tipo de fraude, talvez torne mais fácil identificar. Em alguns Estados a gente verifica que a fraude em merenda escolar parece recorrente. Merenda escolar facilita muito a fraude, por ser um tipo de gasto de consumo, é perecível. Se eu te perguntar o que você comeu na semana passada, talvez você não se lembre mais. É difícil você provar. Se a pessoa alega que deu a merenda, você vai pegar como prova uma criança de 8 anos? Isso é uma das coisas que talvez leve as pessoas a fraudar esse tipo de gasto. Transporte escolar a mesma coisa. A dificuldade de quem chega de fora é como verificar se aquelas crianças realmente moram naqueles pontos que estão dizendo. Ou se aquele transporte realmente é feito naquelas condições. É um tipo de trabalho que a gente tem de ir até a ponta e tentar identificar ao máximo. É um trabalho bem meticuloso, chegando de surpresa muitas das vezes para poder pegar os problemas.

ESTADÃO: Como avalia a capacidade de gestão dos recursos pelos municípios? Algumas cidades não chegam a usar o montante total da verba destinada pela União.

WAGNER ROSÁRIO: É comum isso, e a gente tem trabalho de fomentos à gestão. Não adianta ter um trabalho de controle federal forte e um controle estadual e municipal fraco. Como também não adianta ter um controle forte com gestões fracas. Os órgãos de controle estão se juntando, se unindo para tentar fomentar a parte de governança, fazer com que os gestores pensem no futuro. Isso é difícil, ainda está no início. Nós temos problemas graves de gestão, pessoas que não têm conhecimento da legislação para gestão dos recursos e ocasiona isso. Muitas vezes não é a corrupção, mas é a péssima gestão aliada ao fato de que a pessoa não consegue gastar aquela verba.

ESTADÃO: Uma gestão que não sabe administrar os recursos também atrapalha o crescimento do município?

WAGNER ROSÁRIO: Totalmente. Esses gestores são escolhidos pela população através do voto. É importantíssimo a população prestar atenção nisso. Gerir recursos, principalmente públicos, é difícil. A gente precisa ter pessoas preparadas. Esse é um desafio a ser vencido.

ESTADÃO: As operações identificaram esquemas que atuam simultaneamente em 35 cidades, às vezes 50. Há relação com a geografia dos Estados, o fato de os municípios serem muito próximos?

WAGNER ROSÁRIO: Já tivemos casos que foram em seis Estados diferentes, como na Operação Saúde. Fornecimento de medicamentos com duas fornecedoras na mesma cidade no Rio Grande do Sul. Um esquema de corrupção e pagamento de propina para poder vender remédio naqueles locais, entregar remédios vencidos. Fizemos uma operação nacional. Os municípios idem. Às vezes, em uma região, você tem uma determinada empresa que vence todas as licitações de alimentação escolar, remédio ou obras naquela região. Você começa a investigação e vê que o esquema está distribuído pelos municípios da região. A gente não vai a todos, porque você ficaria 10 anos investigando. A gente tenta matar o esquema. Seleciona quatro ou cinco municípios, realiza o trabalho, confirma as fraudes, deflagra com a Polícia e o Ministério Público. Por mais que outros municípios não estejam envolvidos naquela deflagração eles estariam se nós tivéssemos mais tempo para investigar. Nós não temos perna para mandar auditores para 50 municípios. O mais urgente é estancar aquela sangria e tentar tocar a investigação já com aquele esquema de fraude de recursos pelo menos interrompido. Quando você vai ver é um único esquema com o mesmo grupo empresarial atuando nos vários municípios. Aquilo ali é só uma amostra, teria muito mais municípios. As cidades que não estão na operação vão ser beneficiadas, porque aquele esquema vai ser quebrado.

ESTADÃO: Ao longo dos anos, as operações têm sido deflagradas com cada vez mais parcerias entre os órgãos. Qual a importância disso?

WAGNER ROSÁRIO: A corrupção é totalmente ligada à criminalidade organizada. Você tem divisão de funções, de tarefas. Pessoas que executam a corrupção, que vão lavar o dinheiro. Há um grupo organizado. O Estado é dividido por órgãos, cada um com uma atribuição. O Ministério da Transparência consegue entrar na aplicação do recurso público e identificar a fraude. A Polícia Federal tem uma expertise muito grande na parte de investigação criminal. O Ministério Público entra com essa ação e também realiza investigação. A Receita Federal sabe da parte tributária. Nenhum órgão é capaz de saber tudo. A gente tem que trabalhar em conjunto, isso gera aproveitamento. Quando você junta essas pessoas em torno de uma mesa e planeja conjuntamente, os trabalhos têm outro nível.

 

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