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Síntese do Manifesto convivialista: declaração de interdependência

18/07/2016

Por todas as partes do mundo buscam-se alternativas ao sistema econômico-financeiro vigente e mesmo, ao tipo de civilização que temos, pois o nosso modo de habitar o planeta e aproveitar de seus bens e serviços naturais chegaram a um ponto crítico.A Terra já não suporta o tipo de exploração  a que  a submetemos. Por todas as partes, estão emergindo revoluções silenciosas de grupos que ensaiam o novo e formas diferentes de produzir, de consumir, de repartir e de conviver. Essas revoluções podem significar lentamente um acúmulo de energia, capaz de apresentar-se como uma alternativa suficientemente poderosa para criar um modo novo de ser, mais amigo da vida e preocupado com o futuro comum, da Terra e da humanidade. Uma dessas iniciativas, à qual eu mesmo  subscrevi e que me venho batendo há anos, vem sobre o nome de convivialismo: um conjunto de valores e princípios éticos, políticos, econômicos e espirituais que colocam como centro não o crescimento ilimitado mas o equilíbrio entre a ação humana e a biocapacidade da Terra e da natureza. A base é uma relação não-violenta para com a natureza e entre os seres humanos, o respeito a tudo o que existe e vive e a cooperação entre todos ao invés da acumulação e da concorrência. Para ler todo texto basta wntrar na internet e ler o documento: http://www.lesconvivialistes.org   Lboff

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Jamais a humanidade dispôs de tantos recursos materiais e competências técnicas e científicas. Considerada em sua globalidade, ela é rica e poderosa, como ninguém nos séculos anteriores poderia imaginar. Nada comprova que ela esteja mais feliz. Porém, nenhuma pessoa deseja voltar atrás, pois todos percebem que, cada vez mais, novas possibilidades de realização pessoal e coletiva se abrem todos os dias.

Mas, por outro lado, ninguém pode mais acreditar que essa acumulação de poder possa prosseguir indefinidamente, tal qual em uma lógica de progresso técnico inalterada, sem se voltar contra ela mesma e sem ameaçar a sobrevivência física e moral da humanidade. As primeiras ameaças que nos assaltam são de ordem material, técnica, ecológica e econômica. Ameaças entrópicas. Somos muito mais incapazes de sequer imaginar respostas para o segundo tipo de ameaças. Ameaças essas de ordem moral e política. Ameaças que podemos qualificar como antrópicas.

O problema primordial

A constatação está aí: a humanidade soube realizar progressos técnicos e científicos fulgurantes, mas ela permanece ainda incapaz de resolver seu problema essencial: como gerir a rivalidade e a violência entre os seres humanos? Como incitá-los a cooperar, permitindo-lhes ao mesmo tempo se opor sem se massacrar? Como criar obstáculos à acumulação de poder, de agora em diante ilimitada e potencialmente auto-destrutiva, sobre os homens e sobre a natureza? Se a humanidade não souber rapidamente responder a essa questão, ela desaparecerá. Muito embora todas as condições materiais estejam reunidas para que ela prospere, contato que tomemos definitivamente consciência de suas finitudes.

Dispomos de múltiplos elementos para resposta: aqueles que sustentaram ao longo de séculos as religiões, as morais, as doutrinas políticas, a filosofia e as ciências humanas e sociais. E as iniciativas que seguem no sentido de uma alternativa à organização atual do mundo são inumeráveis, produzidas por dezenas de milhares de organizações ou associações e por dezenas ou centenas de milhões de pessoas. Essas iniciativas se apresentam sob nomes, sob formas ou em escalas infinitamente variadas: a defesa dos direitos do homem, do cidadão, do trabalhador, do desempregado, da mulher ou das crianças; a economia social e solidária com todas suas componentes: as cooperativas de produção ou de consumo, o mutualismo, o comércio justo, as moedas paralelas ou complementares, os sistemas de troca local, as diversas associações de apoio mútuo; a economia da contribuição digital (Linux, Wikipedia etc.); o decrescimento e o pós-desenvolvimento; os movimentos slow food, slow town, slow science; a reivindicação do buen vivir, a afirmação dos direitos da natureza e o elogio à pachamama; o altermundialismo, a ecologia política e a democracia radical, os indignados, Occupy Wall Street; a busca por indicadores de riqueza alternativos, os movimentos de transformação pessoal, de simplicidade voluntária, de abundância frugal, de diálogo de civilizações, as teorias do care, os novos pensamentos dos communs etc.

Para que essas iniciativas tão ricas possam se contrapor, com força suficiente, às dinâmicas mortíferas de nosso tempo e para que elas não sejam confinadas a um papel de simples contestação ou de atenuação, torna-se crucial reunir suas forças e suas energias, daí a importância de destacar e nomear o que elas têm em comum.

Do convivialismo

Elas têm em comum a busca por um convivialismo, por uma arte de viver juntos (con-vivere) que habilita os humanos a cuidar um dos outros e da Natureza, sem negar a legitimidade do conflito, mas fazendo dele um fator de dinamismo e de criatividade. Um meio de evitar a violência e as pulsões de morte. Para encontrar esse meio, precisamos, a partir de agora, e com toda urgência, de uma base doutrinal mínima partilhável que permita responder simultaneamente e em escala planetária, ao menos, a quatro questões essenciais (mais uma):

A questão moral: o que é permitido aos indivíduos esperar e o que devem eles se proibir?

A questão política: quais são as comunidades políticas legítimas?

A questão ecológica: o que nos é permitido retirar da natureza e o que devemos lhe restituir?

A questão econômica: qual quantidade de riqueza material nos é permitido produzir, e como devemos produzir, de modo a sermos coerentes com as respostas dadas às questões moral, política e ecológica?

Cada um é livre para adicionar ou não a essas quatro questões aquela concernente ao sobrenatural ou ao invisível: a questão religiosa ou espiritual. Ou ainda: a questão do sentido.

Considerações gerais:

A única ordem social legítima universalizável é aquela que se inspira em um princípio de comum humanidade, de comum socialidade, de individuação e de oposição ordenada e criadora.

Princípio de comum humanidade: acima das diferenças de cor de pele, de nacionalidade, de língua, de cultura, de religião ou de riqueza, de sexo ou de orientação sexual, há somente uma humanidade, que deve ser respeitada na pessoa de cada um de seus membros.

Princípio de comum socialidade: os seres humanos são seres sociais para quem a maior riqueza existente é a riqueza de suas relações sociais.

Princípio de individuação: em conformidade com os dois primeiros princípios, a política legítima é aquela que permite a cada um afirmar da melhor maneira sua individualidade singular em devir, desenvolvendo sua potência de ser e de agir sem prejudicar a dos outros.

Princípio de oposição ordenada e criadora: porque todos têm vocação para manifestar sua individualidade singular, é natural que os humanos possam se opor. Mas só é legítimo fazê-lo enquanto isso não coloca em risco o plano da comum socialidade que torna essa rivalidade fecunda e não destrutiva.

Desses princípios gerais decorrem:

Considerações morais

O que é permitido a cada indivíduo esperar é o reconhecimento de sua igual dignidade para com todos os outros seres humanos, é ter acesso a condições materiais suficientes para levar a cabo sua concepção de vida boa, respeitando as concepções dos outros

O que lhe é proibido é cair em desmedida (a hubris dos Gregos), i.e. violar o princípio de comum humanidade e por em perigo a comum socialidade

Concretamente, é dever de cada um lutar contra a corrupção.

Considerações politicas

Na perspectiva convivialista, um Estado, ou um governo, ou uma instituição política nova só podem ser tidos como legítimos se:

– Respeitam os quatro princípios de comum humanidade, de comum socialidade, de individuação e de oposição ordenada, e se facilitam a realização das considerações morais, ecológicas e econômicas que deles decorrem;

Mais especificamente, Estados legítimos garantem a todos seus cidadãos mais pobres um mínimo de recursos, uma renda básica, seja lá qual for sua forma, que os protege da abjeção da miséria, bem como impedem progressivamente aos mais ricos, via instauração de uma renda máxima, de cair na abjeção da extrema riqueza, ultrapassando um nível que tornaria inoperantes os princípios de comum humanidade e de comum socialidade.

Considerações ecológicas

O Homem não pode mais se considerar como dono e senhor da Natureza. Tendo em conta que longe de se opor a ela, ele faz parte dela, ele deve estabelecer com a Natureza, ao menos metaforicamente, uma relação de dom/contra-dom. Para legar às gerações futuras um patrimônio natural preservado, ele deve assim devolver à Natureza tanto ou mais do que dela toma ou recebe.

Considerações econômicas

Não há correlação comprovada entre riqueza monetária ou material, de um lado, e felicidade ou bem-estar, de outro. O estado ecológico do planeta torna necessário buscar todas as formas possíveis de prosperidade sem crescimento. É necessário para isso, em uma perspectiva de economia plural, instaurar um equilíbrio entre Mercado, economia pública e economia de tipo associativo (social e solidária), dependendo se os bens ou os serviços a serem produzidos são individuais, coletivos ou comuns.

Que fazer?

Não podemos negar que, para obtermos êxito, será necessário enfrentar forças consideráveis e terríveis, tanto financeiras quanto materiais, tanto técnicas, científicas ou intelectuais quanto militares ou criminosas. Contra essas forças colossais e frequentemente invisíveis e ilocalizáveis, as três principais armas serão:

– A indignação experimentada em face da desmedida e da corrupção, e a vergonha, sendo necessária ser sentida por aqueles que diretamente ou indiretamente, ativamente ou passivamente, violam os princípios de comum humanidade e de comum socialidade.

– O sentimento de pertencimento a uma comunidade humana mundial.

– Muito além das “escolhas racionais” de uns e de outros, a mobilização dos afetos e das paixões.

Ruptura e transição

Toda política convivialista concreta e aplicada deverá necessariamente levar em consideração:

O imperativo da justiça e da comum socialidade, que implica a supressão das desigualdades vertiginosas irrompidas no mundo desde os anos 1970 entre os mais ricos e o resto da população

A preocupação de dar vida aos territórios e às localidades, e assim de reterritorializar e de relocalizar o que a globalização desterritorializou e deslocalizou em demasia.

A absoluta necessidade de preservar o meio ambiente e os recursos naturais.

A obrigação imperiosa de fazer o desemprego desaparecer e oferecer a todos uma função e uma atribuição reconhecidas entre as atividades úteis à sociedade.

A tradução do convivialismo em respostas concretas deve articular, na prática, as respostas à urgência de melhorar as condições de vida das camadas populares, e de construir uma alternativa ao modo de existência atual tão carregado de múltiplas ameaças. Uma alternativa que cessará de fazer crer que o crescimento econômico ilimitado ainda poderia ser a solução para todos nossos males.

Subscreveram até a presente data de 18/07/2016 cerca de 3200 personalidades de muitos países,inclusive do Brasil.

Claude Alphandéry, Geneviève Ancel, Ana Maria Araujo (Uruguai), Claudine Attias-Donfut, Geneviève Azam, Akram Belkaïd (Argélia),Yann-Moulier-Boutang, Fabienne Brugère, Alain Caillé, Barbara Cassin, Philippe Chanial, Hervé Chaygneaud-Dupuy, Eve Chiapello, Denis Clerc, Ana M. Correa (Argentina), Thomas Coutrot, Jean-Pierre Dupuy, François Flahault, Francesco Fistetti (Itália),Anne-Marie Fixot, Jean-Baptiste de Foucauld, Christophe Fourel, François Fourquet, Philippe Frémeaux, Jean Gadrey,Vincent de Gaulejac, François Gauthier (Suíça), Sylvie Gendreau (Canadá), Susan George (Estados Unidos), Christiane Girard (Brasil), Françoies Gollain (Reino Unido), Roland Gori, Jean-Claude Guillebaud, Paulo Henrique Martins (Brasil), Dick Howard (Estados Unidos), Marc Humbert, Éva Illouz (Israel), Ahmet Insel (Turquia), Geneviève Jacques, Florence Jany-Catrice, Hervé Kempf, Elena Lasida, Serge Latouche, Jean-Louis Laville, Camille Laurens, Jacques Lecomte, Didier Livio, Gus Massiah, Dominique Méda, Margie Mendell (Canadá), Pierre-Olivier Monteil, Jacqueline Morand, Edgar Morin, Chantal Mouffe (Reino Unido), Osamu Nishitani (Japão), Alfredo Pena-Vega, Bernard Perret, Elena Pulcini (Itália), Ilana Silber (Israel), Roger Sue, Elvia Taracena (México), Frédéric Vandenberghe (Brasil), Patrick Viveret, Zhe Ji (China) Leonardo Boff (Brasil)

 

Causas da escandalosa falta de ética no Brasil

15/07/2016

       O país, sob qualquer ângulo que o considerarmos, é contaminado por uma espantosa falta de ética. O bem é só bom quando é um bem para mim e para os outros; não é um valor buscado e vivido por si mesmo; mas o que predomina é a esperteza, o dar-se bem, o ser espertinho, o jeitinho e a lei de Gerson.

Os vários escândalos que se deram a conhecer, revelam um falta de consciência ética alarmante. Diria, sem exagero, que o corpo social brasileiro está de tal maneira putrefato que onde quer que aconteça algum pequeno arranhão já mostra sua purulência.

A falta de ética se revela nas mínimas coisas, desde as mentirinhas ditas em casa aos pais, a cola na escola ou nos concursos, o subordo de agentes da polícia rodoviária quando alguém é surpreendido numa infração de trânsito, desviar dinheiros públicos, beneficiar-se de cargos, enganar nos preços, em jogar lixo na calçada e até em fazer pipi na rua.

Essa falta generalizada de ética deita raízes em nossa pré-história.É uma consequência perversa do que foi a colonização. Ela impôs ao colonizado a submissão, a total dependência à vontade do outro e a renúncia a ter a sua própria vida. Estava entregue ao arbítrio do invasor. Para escapar da punição, se obrigava a mentir, a esconder intenções e a fingir. Isso levava a uma corrupção da mente. A ética da submissão e do medo leva fatalmente a uma ruptura com a ética (cf. J. Le Goff, O medo no Ocidente), quer dizer, começa a faltar com a verdade, a nunca poder ser transparente e, quando pode, prejudica seu opressor. O colonizado se obrigou, como forma de sobrevivência, a mentir e a encontrar um “jeitinho” de burlar a vontade do senhor. A Casa Grande e a Senzala são um nicho, produtor de falta de ética: pela relação desigual de senhor e de escravo. O ethos do senhor é profundamente anti-ético: ele pode dispor do outro como quiser pois é apenas uma “peça” como se dizia, a todo momento estava pronto a abusar sexualmente das escravas e a vender seus filhos pequenos para que não tivessem apego a eles. Nada de mais cruel, anti-ético e perverso do que a destruição dos laços de mãe e filhos.

Esse tipo de ética desumana criou hábitos e práticas que, de uma forma ou de outra, continuam,no inconsciente coletivo de nossa sociedade.

A abolição da escravatura ocasionou uma maldade ética imperdoável: alforiaram-se os escravos, mas sem fornecer-lhes um pedacinho de terra, uma casinha e um instrumento de trabalho. Foram lançados diretamente na favela. E hoje por causa de sua cor e pobreza são discriminados, humilhados e as primeiras vítimas da violência policial e social.

A situação, em sua estrutura, não mudou com a República. Os antigos senhores coloniais foram substituídos pelos coronéis e senhores de grandes fazendas e capitães da indústria. Aí as pessoas eram ultra-exploradas e feitas totalmente dependentes. Os comportamentos não eram éticos no sentido do respeito mínimo às pessoas e à garantia de seus direitos básicos. A relação era de medo e de uso de violência ou repressão. Foram feitos carvão para a produção como costumava dizer Darcy Ribeiro.

As relações de produção capitalista (em si altamente questionáveis eticamente pela relação desigual entre capital e trabalho) que se introduziram no Brasil pelo processo de industrializção e modernização foram selvagens. Nosso capitalismo nunca foi civilizado pois nunca foi possível uma verdadeira luta de classes (que tem suas regras), no sentido de equilibrar os interesses antagônicos. Ele guardou sua voracidade de acumulação como nas origens no século XVIII e XIX o que se vê claramente no sistema bancário atual, cujas taxas de juros são das mais altas do mundo e os lucros exorbitantes.

A exploração impiedosa da força de trabalho, os baixos salarios são situações eticamente malévolas pelo grau de desumanidade e de injustiça que encerram impondo privações e muito sofrimento às famílias.

Como superar essa situação que nos envergonha? Ela dura séculos e foi praticamente naturalizada. Como ouvi de uma pessoa ilustrada que acusava como corrupto um politico honrado que eu defendia. Sua resposta foi típica: se roubou foi esperto e se não roubou foi um bobo. Assim não dá…

Antes de fazer qualquer sugestão minima, importa fazer uma auto-crítica. Que educação deram as centenas de escolas católicas e cristas e as 16 universidades católicas (pontifícias ou não) a seus estudantes? Bastava terem-lhe ensinado o mínimo da mensagem de Jesus de amor aos pobres contra sua pobreza e comprometê-los em mudanças necessárias para que sua situação hoje fosse menos malvada.

Elas se transformaram, em boa parte, nem todas, em chocadeiras dos opressores. De lá sairam diretores de empresas exploradores, economistas de um liberalism feroz e funcionários públicos sem senso do bem comum, Segundo o motto estabelecido: “o que é de todos não é de ninguém, portanto, posso me apropriar dele tranquilamente”.

A catequese foi doutrinalesca, interessada mais na reta doutrina e menos no reto comportamento. Criou-se um cristianismo cultural que até prescinde da fé. Não foi um cristianismo de fé comprometida com a justiça social e com o destino das grandes maiorias pobres e discriminadas.

Como é possível que num país majoritariamente cristão vigore tanta injustiça, insensibilidade, discriminação social e humilhação de negros e pobres? Alguma coisa errada ocorreu em nossos processos de transmissão da mensagem libertadora e humanizadora de Jesus a ponto de os corruptos e corruptores cristãos, quase todos cristãos, sequer terem a má consciência do que fazem. É a resposta que o deputado Severino Cavalcanti, cassado de seu mandato por corrupção, deu a alguém que lhe perguntou se ia se suicidar: “não me suicido porque sou cristão”. Que signfificou para ele o fato de ser cristão? Nada.

Por isso, os que sairam das escolas cristãs não se distinguiramk pela incidência social numa perspectiva de transformação. São antes pela manutenção do status quo do que por mudanças.

Nem por isso queremos olvidar nomes notáveis em vários estratos sociais para os quas o cristianismo foi uma escola de humanização e de compromisso com a sorte dos mais vulneráveis. Infelizmente não foram eles que definiram o rumo de nossa história de corrupção.

Para superarmos a crise da ética não bastam apelos moralizantes, sempre tão fáceis, mas uma transformação da sociedade. Antes de ser ética, a questão é política, pois esta, a política, é estruturada em relações profundamente anti-éticas.

Já faríamos muito se assumíssemos a pregação do primo de Jesus, seu precursos, São João Batista. Aos que lhe perguntavam o que deviam fazer, respondia:”Quem tiver duas túnicas, dê uma a quem não tem nenhuma, e o mesmo faça a quem não tem alimentos”. Traduzindo para a nossa situação seria: “seja solidário e não deixe de ajudar os mais necessitados”. Aos cobradores de impostos lhes dizia:” Não exija mais do que a taxa definida”. À polícia respondia:”não pratiques torturas nem chantagens contra ninguém (delação premiada?) e contente-se com seu salário.”

Deixando para trás o permanente valor da mensagem ética de João Batista,diria para ser brevíssimo: tudo deve começar pela família. Criar caráter (um dos sentidos de ética) nos filhos e filhas, formá-los na busca do bem e da verdade para não se deixarem seduzir pela lei de Gerson e evitar, sistematicamente, o jeitinho. Princípio básico de toda e qualquer ética: tratar sempre humanamente a cada ser humano.

Tomar absolutamente sério a lei áurea que é testemunhada em todas as tradições culturais e religiosas: “não faça ao outro o que não quer que te façam a ti”. Ou “ame o próximo como a ti mesmo” que na versão do evangelho de São Jão e de São Francisco é assim traduzida:”ame o outro mais que a ti mesmo”; “que eu procure mais consolar que ser consolado, mais compreender do que ser comprendido, mais amar do que ser amado.”

Siga o preceito de Kant: que o princípio que te leva fazer o bem, seja válido também para os outros.    Oriente-se pelos dez mandamentos, escritos na Bíblia como forma de ordenar a vida social do Povo de Deus e, que no fundo, são universalmente válidos. Traduzidos para hoje: o “não matar” significa, venere a vida, cultive uma cultura da não violência. O “não roubar”: aja com justiça e correção e lute por uma ordem econômica justa. O “não cometer adultério”: amem-se e respeitem-se mutuamene, e obriguem-se a uma cultura da igualdade e pareceria entre o homem e a mulher.

Isso é o mínimo que poderíamos fazer para arejar um pouco a atmosfera ética de nosso país.

Repetindo o grande Aristóteles, o mestre da ética ocidental:”não refletimos para saber o que seja a ética, mas para tornarmo-nos pessoas éticas”.

Leonardo Boff foi professor de ética na UERJ e em Heidelberg.

Dois meses de golpe neoliberal: contra o povo e a democracia: J.P.Stedile

12/07/2016
João Pedro Stedile, do Movimento dos Sem Terra, é um bom analista da conjuntura nacional. É polêmico, mas não deixa de fazer análises objetivas, a partir dos Sem Terra. A luta deles é cobrar o que a Constituição prescreve: a reforma agrária que nunca é feita. Por isso ocupam terras para poder morar, trabalhar e tirar o sustento. Não basta distribuir terras, mas levar a democracia para o campo, com tecnologias,sementes, preços, escolas e infra-estrutura que fixe o agricultor no campo.Assim haveria menos favelização de nossas cidades, pois já agora, por nunca ter sido feita reforma agrária, 83% da população vive nas cidades, melhor, nas periferias marginalizadas. Vale apena ouvir o outra lado do contencioso político em andamento para podermos fazer a nossa própria opinião: lboff
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João Pedro Stedile08 de Julho de 2016 às 18:11 em Brasil de Fato
O segundo núcleo, lumpenburguês*, é formado pelos parlamentares dos partidos conservadores e liderados por Cunha-Temer-Jucá - Créditos: Lula Marques/Agência PT
O segundo núcleo, lumpenburguês*, é formado pelos parlamentares dos partidos conservadores e liderados por Cunha-Temer-Jucá / Lula Marques/Agência PT

Segundo economistas, os golpistas estão disputando R$ 200 bi do orçamento

O Brasil vive uma grave crise econômica, política, social e ambiental, mas já passamos por crises históricas semelhantes nas décadas de 30, 60 e 80. Todas elas exigiram grandes debates na sociedade, enorme participação política e disputas típicas da luta de classe. Seu desenlace sempre foi lento e só se concretizou em torno de um novo projeto, que conseguisse aglutinar uma base social para o sustentar, ou por meio de ações militares comandadas pelas classes dominantes.

E neste momento? O que está acontecendo?

A classe dominante não tem um projeto de país. O governo Temer/Cunha é apenas uma tentativa de aplicar rapidamente medidas de interesse de uma fração da classe capitalista, que está dividida em três núcleos de direção política.

Um núcleo do poder econômico, que é hegemonizado pelo capital financeiro e pelas empresas transnacionais, quer aplicar a receita neoliberal. Mas é um projeto antinacional e antipopular.

O segundo núcleo, lumpenburguês*, é formado pelos parlamentares dos partidos conservadores e liderados por Cunha-Temer-Jucá. Ele se move apenas por interesses mesquinhos e individualistas.

Por fim, há um terceiro núcleo, que atua por motivações ideológicas e também tem vínculos internacionais. Esse grupo é composto pela Rede Globo, pelo juiz Sérgio Moro, pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal, entre eles há divergências e contradições. Pois se movem por interesses próprios, não em torno de um projeto de país.

Na ausência de um projeto e diante do agravamento da crise, resolveram dar um golpe institucional na presidenta Dilma. Tomaram de assalto o governo, com a conivência do Poder Judiciário, para tentar aplicar um programa neoliberal de emergência.

Desde então, todos os dias, o governo golpista toma medidas contra os trabalhadores e seus direitos. Seu objetivo principal é recompor a taxa de lucro e o processo de acumulação concentrada da riqueza no Brasil, a favor dos bancos e das grandes empresas transnacionais. Para isso, estão atacando os direitos dos trabalhadores e os direitos sociais em geral, além de aumentar o desemprego, que é uma forma de rebaixar os salários e dominar a classe trabalhadora.

Estão assaltando os cofres públicos e limitando os gastos sociais para, com isso, destinar os recursos antes reservados para educação, saúde e Previdência para as iniciativas de interesse exclusivo dos capitalistas. Segundo os economistas, os golpistas estão disputando cerca de R$ 200 bilhões do orçamento da União.

Já os R$ 400 bilhões destinados ao pagamento de juros aos bancos são intocáveis. Querem aumentar a idade mínima de aposentadoria para até 70 anos, como defendeu o impostor Temer, mas nenhuma palavra foi dita sobre os R$ 62 bilhões de isenção da Previdência dado às empresas, somente em 2015.

Outra fonte de recursos privados será o patrimônio público. Estão retomando o processo de privatização, começando pelo pré-sal (com a revogação da Lei da partilha, já aprovada na Câmara) e pelo setor elétrico. Estão desmontando os serviços públicos, a ver pelas ameaças às escolas públicas, ao Sistema Único de Saúde (SUS) e ao Programa Mais Médicos. Avisaram que nossas terras serão entregues ao capital estrangeiro. Fecharam o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e estão acabando com as políticas para a agricultura familiar e a reforma agrária.

Seus apoiadores nas ruas diziam lutar contra a corrupção. Devem estar envergonhados. Já tiveram três ministros exonerados por conta de denúncias, sem contar outros que estão arrolados em processos de desvios de dinheiro público. Jucá disse claramente que o golpe era apenas para parar a Operação Lava Jato. Cunha renunciou à presidência da Câmara para salvar sua pele e seus dólares. Nunca houve governo envolvido com tantas denúncias de corrupção como este.

Os movimentos populares reunidos na Frente Brasil Popular temos defendido sistematicamente que o primeiro passo é garantir o respeito à democracia. Ou seja, que a presidenta Dilma reassuma o comando do governo, mas que publique logo em seguida uma carta de compromisso com um novo programa, que defenda as necessidades do povo e da soberania nacional.

O segundo passo é a presidenta Dilma reorganizar um ministério em diálogo com a sociedade e aplicar um programa que segure a crise econômica e resolva os problemas do povo.

O terceiro é fazer uma reforma política, para reconstruir e democratizar o sistema eleitoral brasileiro de modo que o povo possa de fato eleger os seus verdadeiros representantes. Como o atual Congresso não quer nem tem moral para aprovar os projetos de reforma política que dormem em suas gavetas, a única saída seria convocar via plebiscito uma assembleia constituinte exclusiva para fazer rapidamente a reforma política, antes das eleições de 2018.

E em quarto lugar, precisamos seguir construindo um novo projeto popular para o Brasil, a partir de um amplo debate de ideias com todos os setores da sociedade brasileira. Embora isso leve tempo, é o único caminho para sairmos verdadeiramente da crise.

Essa estratégia só terá forças se conseguirmos motivar as massas da classe trabalhadora a participar ativamente e se mobilizarem nas ruas. Temos defendido que é necessario organizar grandes mobilizações nacionais da classe trabalhadora, contra o golpe, o desemprego e as medidas que ameaçam a soberania nacional que os golpistas estão tomando.

O ideal é viabilizarmos uma greve geral da classe trabalhadora como forma de protesto e de alterar a atual correlação de forças.

As Frente Brasil Popular e Povo sem Medo acordaram também realizar uma grande mobilização no dia 5 de agosto no Rio de Janeiro e em outras capitais do país durante a abertura das Olimpíadas.

O desfecho dessa crise, é ainda uma icógnita, mas a luta será prolongada e árdua.

* O conceito de “lumpen-burguesia” surge pela primeira vez no final dos anos 1950 através de alguns textos de “Ernest Germain”, pseudônimo de Ernest Mandel, ao se referir à burguesia brasileira, que o autor considerava uma classe semicolonial, “atrasada”, não completamente “burguesa”

A violência:uma contribuição a suas várias interpretações – II Parte

11/07/2016

                                             Segunda Parte

 Superação Histórico-Social da Violência?

Se a violência em uma origem histórica, cultural, social e radical, é mediante outro tipo de história, de cultura, de sociedade e de radicalidade que ela será minimizada e controlada em seu aspecto destrutivo.

Importa reconhecer, como têm feito tantos analistas, especialmente René Girard, que a violência comporta um componente de mistério que se subtrai à análise científica: por que tanta violência na história da natureza e das sociedades? por que toda ordem, para se manter, tem de produzir desordem, exclusão, punição e vítimas? por que, na história, até hoje, predominou o desejo mimético concorrencial, e não o desejo mimético cooperativo? Chegará o dia da predominância do desejo mimético cooperativo? Não estaríamos às suas portas, com a alenta e contraditória emergência de uma sociedade mundial, numa consciência planetária e numa única casa comum, o planeta Terra?

Girard confessa, num encontro com teólogos, sociólogos e antropólogos ligados à teologia de libertação latino-americana, ocorrido na Universidade de Piracicaba, de 25 a 29 de junho de 1990:

“Todos estamos de acordo em resistir ao desejo mimético. Mas isso parece provar que as forças geradoras da violência neste mundo, por razões misteriosas – que eu tento compreender – ao nível da própria organização do mundo como tal, num certo sentido, são mais poderosas que a harmonia e a unidade. Este é o aspecto sempre presente do pecado original, enquanto para além de qualquer concepção mítica, representa um nome para a violência na história” (cf. René Girard com teólogos da libertação. Petrópolis: Vozes, 1991, ps. 59).

         Apesar dessa força negativa, repugna ao ser humano pessoal e social entregar-se aos mecanismos da violência. Sempre de novo cria formas de resistência e de libertação. Por isso, Girard insiste na possibilidade histórica de uma outra lógica, não mais a da exclusão, mas a do diálogo e a de mais ampla inclusão; numa palavra, a de uma cultura radicalmente democrática.

Se no ser humano há o desejo mimético para o mal, vigora nele também o desejo mimético para o bem. Ao invés da exclusão do rival, pode-se fazer uma aliança com ele, elaborar uma estratégia de solidariedade e de comunhão. Desse transfundo nascem todas as possíveis formas de superação da violência.

Há dois desafios básicos para a história brasileira que, bem equacionados, teriam como efeito a diminuição considerável das estruturas de violência e também o controle sobre a vontade de violência dos cidadãos particulares: a gestação de um povo e a criação de uma democracia social.

Gestação de um povo a partir de movimentos e associações sociais

          No Brasil, desde o início, houve a presença do aparelho de Estado, que veio transplantado para cá para organizar e garantir a exploração colonial. Os colonizadores, muitos celerados, marginais e aventureiros, não vinham para criar uma nação, mas para fundar uma empresa comercial para enricar rapidamente, tornar-se fidalgos (filhos de algo), regressar a Portugal e desfrutar da riqueza acumulada. Submeteram primeiro os índios, e depois introduziram os negros africanos como mão-de-obra escrava. Criou-se aqui uma massa humana negada como sujeito histórico, sem consciência libertária e sem um projeto de futuro. Essa massa foi sempre manipulada pelas elites, humilhada e desprezada até os dias atuais.

A grande contribuição, especialmente a partir dos anos 30, foi a organização do trabalho industrial e o surgimento de associações de trabalhadores. O processo fez-se nesta linha: do seio da massa, sob a atuação de líderes carismáticos, agentes de educação popular e agentes religiosos, formaram-se comunidades, associações e movimentos populares de todo o tipo. Nesses espaços, foram surgindo atores sociais conscientes, críticos, com vontade de modificar a realidade circundante e de gestar as sementes de um outro tipo de sociedade, mais participativa, popular e democrática.

A articulação dessas associações gerou o movimento popular brasileiro. Ele está fazendo da massa um povo organizado. E povo só existe quando se elabora uma consciência coletiva, se desenha um projeto nacional e se instauram as práticas para implementá-lo. Desafio histórico dos intelectuais orgânicos e da pedagogia popular é gestar, mediante a organização da massa, as associações, as comunidades, os movimentos de toda ordem (por terra, casa, saúde, escola, direitos humanos, sindicalismo militante, etc.), o povo brasileiro. Ele ainda não se constituiu totalmente. Predominam as massas deserdadas e destituídas. Elas gritam e querem ser povo participante e organizado. Mas, lentamente, como fruto da luta popular e de seus aliados, está nascendo, finalmente, o povo brasileiro.

Esse povo, pela participação social nos movimentos e pela militância dos partidos ligados à sua causa e luta, obriga a sociedade política e escutá-lo, a negociar, e destarte a diminuir os níveis de violência estrutural.

Criação de Uma Democracia Social, de Base e Popular

        Outro desafio é a construção do quadro político-institucional para situar o povo nascido da luta de libertação histórica. Trata-se da democracia social e participativa. Somos herdeiros de uma sociedade escravagista e patrimonialista, de um Estado paternalista, beneficiente, mas nada participativo e pouco orientado pelas demandas populares. Possuímos uma fraca democracia delegatícia, cheia de vícios políticos, corrupta, feita, em muitos lugares, de currais eleitorais e da compra direta de votos. Se tomarmos como referência a igualdade, o respeito aos direitos e a justiça social, ela se parece antes a uma farsa que uma realidade histórica.

Como fruto da organização social, já se produziram partidos populares, como o PT, ou segmentos populares de partidos progressistas e até liberais-burgueses ou tradicionalmente de esquerda, que podem postular reformas profundas na sociedade e conquistar o poder de Estado, seja municipal, estadual ou federal.

Essa democracia participativa está sendo ensaiada nos movimentos sociais. Mas ela é querida para o corpo de todo da sociedade. Ela se baseia, fundamentalmente, nestes quatro pés, com os de uma mesa.

participação a mais ampla possível de todos, de baixo para cima, de tal sorte que cada um possa se entender como cidadão e sujeito da história que está ajudando a construir;

  • igualdade, que resulta dos graus cada vez mais profundos e amplos de participação; igualdade inicial de permitir que um maior número de cidadãos tenha chances de viver melhor, preparar-se profissionalmente, participar na cultura. Em face das desigualdades subsistentes, deve vigorar a solidariedade social;
  • respeito às diferenças de toda ordem, como expressão da riqueza humana e social; por isso, uma sociedade democrática deve ser pluralista, multiétnica, pluri-religiosa e com vários tipos de propriedade;
  • valorização da subjetividade humana – o ser humano não é apenas um ator social, é uma pessoa, nó de relações para todos os lados, no mundo e junto com outros. A comunhão e a espiritualidade são valores sociais inestimáveis para a auto-realização pessoal e para humanizar as instituições e as estruturas sociais.

Esta mesa, entretanto, está assentada sobre uma base, sem a qual ela não se sustenta: uma nova relação para com a natureza e para com a Terra, nossa Casa Comum. Em outras palavras, esta democracia deverá incorporar o momento ecológico fundado num outro paradigma. O vigente, centrado no poder e da dominação em função da acumulação ilimitada, encontrou um limite insuperável: os limites da Terra e de seus bens e serviços não renováveis. Uma Terra limitada não suporta um projeto ilimitado de crescimento. Por forçar estes limites, estamos tirando o equilíbrio da Terra e devastando seus ecossistemas. O aquecimento global e os eventos extremos vividos nos últimos anos mostram a febre e a doença da Terra.

Esta consciência dos limites que cresce mais e mais, nos obriga a pensar num novo paradigma de produção, de consumo e de repartição dos recursos escassos entre os humanos e também com a comunidade de vida (seres vivos como animais, aves, florestas que também são criadas pela Terra e que precisam de seus nutrientes).

Esse novo paradigma se baseia em algo da essência da vida, especialmente, da vida humana que é o cuidado, a solidariedade e a corresponsabilidade coletiva. Especialmente, o cuidado é fundamental porque comporta uma relação não agressiva e protetora da natureza e da Mãe Terra.

Esta nova consciência fez com que, a própria ONU tenha oficializado os direitos da natureza e o reconhecimento de que a Terra é efetivamente mãe. Ambos possuem valor em si mesmo, independente do uso que fazemos deles, e por isso são sujeitos de direitos que devem ser respeitados. A democracia deverá ser enriquecida com esses novos cidadãos; será uma democracia participativa e sócio-cósmica.

Esse tipo de democracia assim enriquecida – construída de baixo para cima, participativa, solidária, dialogal, humano-espiritual e ecológica – é capaz de orientar uma convivência menos agressiva, com mais colaboração e tolerância. Numa palavra, com significativa diminuição das causas que produzem violência entre as pessoas, na sociedade e na natureza.

Desse duplo processo – da constituição de um povo e da fundação de uma democracia participativa e sócio-cósmica – elabora-se a cidadania e a con-cidadania.          Cidadania pela qual as pessoas se sentem portadoras de direitos e deveres diante do Estado, que ajudam a constituir; e con-cidadania pela qual os cidadãos se unem a outros cidadãos para dinamizar a sociedade, para além daquilo que vem sendo feito pelo Estado.

Esses dois tipos de cidadania fazem das pessoas sujeitos históricos ativos que deixam para trás o caráter de massa e entram a compor a sociedade como o conjunto dos cidadãos organizados em Estado e socialmente auto-organizados (sociedade civil) e cuidadosos dos bens e serviços naturais. Agora se poderá falar com propriedade de história de um povo, e não apenas de heróis ou de classes hegemônicas.

Conclusão: contra a Resignação e por Uma Esperança Histórica

Estamos em face de um longo caminho civilizatório. Importa trilhá-lo, pois só assim conferimos um rosto humano à nossa história marcada por tantas barbaridades, cujos efeitos nos alcançam até o dias de hoje. A história é criativa e sempre aberta a formas mais altas de convivialidade. Cada geração deve dar a sua contribuição para essa aventura coletiva.

Não esposamos a resignação de Freud, que, numa carta-resposta a perguntas de Einstein, de 1932, sobre a persistência da violência nas relações humanas, escreveu: “Esfaimados, pensamos no moinho que tão lentamente mói, que poderíamos morrer de fome antes de receber a farinha”.

Não estamos condenados a morrer de fome, pois certamente o desígnio da história não é forçar-nos a ser lobos uns dos outros, mas concidadãos e sócios na justiça, na participação, no diálogo e na paz, no cuidado de nossa Casa comum, num convívio onde sejam menos difíceis a amizade e o amor.

Contrariando Freud, diria que a fila do moinho ela existe e persiste porque há farinha, e farinha para todos. Ela é suficiente não só para todos os humanos, mas também para os outros seres vivos que conosco compartem a aventura terrenal e cósmica.

O desejo mimético pode ser de colaboração, altruísmo e solidariedade. Repartiremos a farinha, mesmo sendo pouca, segundo critérios de justiça e de compaixão – no sentido budista da palavra, que significa compartilhar da vida, da luta, da alegria e do sofrimento da existência humana, social e planetária. E a história das religiões e das tradições espirituais testificam que, quando o pouco é repartido, ele se multiplica e se transforma em muito, a ponto de sobrar, como no relato bíblico da multiplicação dos cinco pães e dos dois peixes.

Vamos restabelecer a re-ligação originária para com a natureza e a Mãe Terra, cuidando na Casa Comum como nos tem ensinado o Papa Francisco em sua esplêndida encíclica Laudato Sí, sobre a ecologia (2015).

A Terra não precisa ser um vale de lágrimas. Ela pode transformar-se num lar comum, onde há fogo e óleo para todos ao redor da mesma mesa, a desfrutar da convivialidade e da comensalidade humanas e da bondade de todas as coisas.

Cabe terminar com estas consoladoras palavras do Papa Francisco em sua encíclica Laudato Sí:” caminhemos cantando, que nossas lutas e a nossa preocupação pelo planeta não nos tirem a alegria da esperança”(n. 245). FIM

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e professor emérito de ética e filosofia da religião da UERJ e portador do Prêmio Nobel Alternativo da Paz pelo Parlamento sueco e membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra e professor visitante em várias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca.

 

A violência: uma contribuição a suas várias interpretações

11/07/2016

                          A violência: uma contribuição a suas várias interpretações

A violência é crescente no mundo, particularmente depois das duas guerras contra o Afeganistão e o Iraque levadas a efeito pelos USA e seus aliados, após o atentado em 2001 às Torres Gêmeas em Nova York. Ela é particularmente forte no Brasil. Os fatos conhecidos de assaltos de rua e em prédios, de sequestros, de extermínio de crianças abandonadas e de chacinas por parte de grupos e até de policiais não podem ser entendidos como episódios. Suas raízes, como veremos, alcançam mais profundas.

O Brasil comparece como um dos países mais violentos do mundo. Só no ano de 2015 foram assassinados 66 mil pessoas, a maioria delas negros e habitantes pobres das periferias. Isso é mais que as vítimas das guerras do Iraque, do Afeganistão e atualmente da Síria.

Uma análise mais cuidadosa mostra uma conexão de tais fatos com a totalidade social. Esta é marcada por um modelo altamente predatório de capitalismo não civilizado, que leva a uma acumulação espantosa de riqueza à custa da degradação da força de trabalho, de falta de justiça social e da devastação da natureza.

O número dos excluídos é cada vez maior especialmente nesta fase atual de grande crise econômica e financeira (2015) associada à crise política, ética e de uma espantosa corrupção que envolve as grandes empreiteiras e empresas como a Petrobrás, a Eletronuclear e outras, além de parte significativa da classe política da Câmara e do Senado.

É um luxo hoje ser explorado pelo sistema do capital, que compra de forma aviltada a força de trabalho, remunerando-a miseravelmente com a pequena vantagem de, por lei, oferecer um mínimo de seguridade social. Apesar das políticas de inclusão dos governos Lula-Dilma há milhões que vivem no mercado informal, fora de qualquer benefício social que lhes tranquilize em relação ao futuro. Tal situação configura, objetivamente, um estado de violência. Mais que atos de violência, têm a ver com estruturas permanentes e continuadas de violência. Vamos analisar-lhes as causas por vários caminhos diferentes. É uma pequena contribuição ao tema tão presente e avassalador na realidade nacional e internacional.

Primeira Parte

Causas Históricas: Um Pecado de Origem, Nosso Passado Escravocrata e Colonial.

O Brasil tem, no seu começo, um pecado original: a violência da conquista e da invasão. Fomos e continuamos a ser, de certa forma, colônia. A estratégia da atual globalização hegemonizada pelos países centrais é recolonizar toda a América Latina, quer dizer, reduzi-la a uma produtora e exportadora de commodities, reservando para si a invenção e a tecnologia, vendida cara para o resto do mundo.

De qualquer forma a colonização implica um ato de extrema violência organizada, sistemática e continuada: é colocar toda uma nação, com sua população, com sua cultura, com tudo o que tem, à depredação do outro. O colonizado assiste ao congelamento de sua história. É obrigado a internalizar o outro e o seu mundo de valores e a sua forma de ver o mundo, de organizar a sociedade e de pensar e venerar a divindade.

Todo poder totalitário cria um contra-poder, seja simbólico, seja real. A aceitação da dominação nunca foi pacífica. Nossa história está cheia de revoltas frustradas, mas nunca totalmente dominadas.

José Honório Rodrigues, em Conciliação e reforma, um desafio histórico-cultural (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965), conta a história brasileira a partir das vítimas. Destrói o mito do brasileiro como pacífico e cordial.

Na história pátria, observa ele, notamos o seguinte paradoxo:

“(…) a maioria dominante – conservadora ou liberal – foi sempre alienada, antiprogressista, antinacional e não contemporânea(…). A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao País, chamou-o de tudo – Jeca-Tatu -, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence”(p.16).

         Por outro lado, as maiores construções são fruto da ação popular:

“(…) a unidade linguística e política, a expansão e a integridade territoriais, a homogeneidade cultural, a tolerância racial e religiosa. No povo, não nas elites poderosas, prevaleceu o espírito de conciliação que atenuava os antagonismos raciais e sociais. Se a massa indígena e negra, mestiça e cabocla era nas relações humanas essencialmente conciliadora, era entretanto inconciliável nas relações políticas. Mostraram um rude inconformismo, que gerou grande derramamento de sangue, a ponto de Capistrano de Abreu escrever que no fim do período colonial, o povo foi capado e recapado, sangrado e ressangrado”(p.30).

         A história recente do Brasil está em continuidade com seu passado, sendo que quase sempre escrita apenas pela mão branca.   Nela não falaram – e, se falaram, não foram ouvidos – os negros, os índios, os mulatos, as mulheres e os pobres em geral.

Há ainda um agravante: temos vivido sob o modo de produção escravagista. É a maior violência que uma sociedade pode conhecer: a redução do outro a peça, a escravo, com senhorio de vida e morte sobre ele. Durante praticamente quatro séculos, convivemos com a escravidão. Tivemos apenas um século para desfazer suas perversas consequências. Procura-se desatar um nó que na verdade deve ser cortado, como se corta, de vez, um tumor.

Estudos sobre a escravidão urbana mostram as raízes de alguns hábitos culturais e policialescos ainda hoje existentes. O escravo urbano era alugado para serviços na rua e vigiado pela polícia no lugar do dono; por causa disso, a polícia comumente desconfia até hoje do negro e aplica-lhe violência quando o prende ou detém (cf. Leila Mezan Alegranti, O feitor ausente. Petrópolis: Vozes, 1988; Ronaldo Vainfas, Ideologia e escravidão: os letrados e a sociedade escravista no Brasil colonial. Petrópolis: Vozes, 1986). Importante é a obra de Jacob Gorender; A escravidão reabilitada (São Paulo: Ática, 1990), que critica a moderna produção histórico-social sobre o tema, que pretende mostrar a escravidão em tons mais benevolentes. Ao invés de rebeliões, resistência e acomodação, o regime escravocrata seria equitativo, doce, na linha do patriarcalismo pintado por Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freire. Gorender destrói o imaginário mistificador e reincidente dessa interpretação com dados irrefutáveis.

Na formação de uma sociedade urbana livre, a violência caracteriza o Estado em sua relação para com o movimento operário e sindical. Maus tratos e torturas eram frequentes contra operários e líderes sindicais. Se brasileiros, eram desterrados para lugares longínquos (Ilha Grande, Fernando de Noronha, etc.); se estrangeiros, eram devolvidos aos países de origem.

A sociedade mostra uma contradição absurda: por um lado, não consegue criar emprego para todos; e por outro, prende, por vadiagem, aqueles que encontra na rua e que não conseguem mostrar uma carteira de trabalho assinada. O Estado detém, sabidamente, o uso legítimo da violência. Mas aqui há um uso injusto e perverso que contradiz a legitimidade do Estado como Estado Democrático de Direito, fruto de um pacto social de cidadania que ganhou corpo na Constituição de 1988.

A questão social foi, durante muito tempo, tratada como caso de polícia, e não como caso político. Em alguns lugares, a polícia prende e maltrata quem se enquadra em algum dos seguintes “pês: pobre, preto e prostituta. O grave reside nisto: essa violência histórica, na base da dominação do outro e de sua escravização, formou a subjetividade coletiva de nossas elites. Elas criaram a mentalidade de que o povo nada vale; de que o negro deve ser tratado com violência, porque sempre foi assim; de que, na verdade, não deveria receber nada, nem o salário mínimo, pois historicamente sempre serviu gratuitamente aos senhores. E entendem o salário como ato de generosidade por parte do patrão, e não como expressão de justiça. O mecanismo de violência social reside, primeiramente, nas estruturas mentais da classe dominante.

Resumindo, numa palavra: violenta foi a conquista, violenta foi a relação para com o índio, violenta a relação para com o negro, violenta para com o trabalhador organizado, violenta para com todos os que quiseram mudar esta situação e sempre violente os pobres até os dias atuais.

Causas Culturais da Violência

A cultura hoje dominante foi imposta pelos dominadores históricos do povo brasileiro; por isso é dominante. O eixo estruturador dessa cultura, como foi visto há muito pelos filósofos sociais, é a vontade de poder/dominação. Usou-se a violência dura como forma de manter a dominação; e depois a doce, para garantir a hegemonia. É socialmente aceito o uso da violência nesse tipo de cultura dominante. A persistência do modo de produção capitalista se deve principalmente porque ele criou uma cultura produtivista e consumista, hoje difundida no mundo inteiro.

Essa dominação obriga a três atitudes: ou ao submetimento para sobreviver, implicando a traição da própria história; ou a resistência, a rebelião e a clandestinidade, com a consequente possibilidade de perseguição, de cárcere, de tortura e de morte; ou o disfarce, o simulacro e o “jeitinho”- sobrevive adaptando-se e, ao mesmo tempo, aproveitando todos os espaços, frestas e contradições da dominação para manter e preservar a própria identidade.

Criou-se uma cultura do medo, hoje dominante; cultura da segurança dos grupos abastados, das grades, do exército paralelo de defesa dos opulentos, causadores do conflito básico da sociedade. E do outro lado, gangues, organizações de assaltantes, crime organizado. Essas duas realidades se implicam dialeticamente.

Há uma cultura da corrupção de colarinho branco. Há o mundo do crime organizado no estrato empresarial. No mercado e dentro do próprio aparelho de Estado. Essa política, para ser efetiva, necessita corromper a imprensa, a justiça, as autoridades de controle e a polícia.

Há, também, dialeticamente, um outro tipo de violência, que vem das organizações da criminalidade, baseadas na vontade de enriquecer por meio do crime ou mediante o tráfico de drogas, o jogo e a venda de armas e produtos importados. Esta é movida por propósitos individualistas de enriquecimento rápido e pela busca desenfreada de prazer. Aqui funcionam duas regras básicas: a da força bruta das armas de fogo, cada vez mais potentes e sofisticadas, e a posse de muito dinheiro, com o qual tudo se compra.

Há hoje quadrilhas, nos grandes centros urbanos, que se articulam numa organização central; há hierarquia, e os cabeças devem obediência a comandos mais altos. Ali se decide sobre a vida e a morte dos membros das várias gangues. Vigora uma lógica de submetimento total; caso contrário, funciona o mecanismo da eliminação física. Mata-se para mostrar coragem e disposição; mata-se pelo prazer de matar; mata-se para eliminar um adversário do amigo, e assim dar-lhe um agrado ou fazer-lhe uma surpresa; mata-se por qualquer erro, porque deu “derrame”, deu “volta”, porque criou incômodo no arranjo de poder das quadrilhas. A relação do chefe com os subordinados é de total dominação, respectivamente de dependência. Nas guerras entre quadrilhas, produz-se um verdadeiro extermínio de um e de outro lado. A lógica é a da guerra total. No conjunto da CEHAB, no Rio (com 150 mil habitantes), em 13 anos morreram 722 jovens com idade entre 13 e 25 anos (Cf. Alba Zaluar, A criminalização de drogas e o reencantamento do mal. In: Revista do Rio de Janeiro, UERJ, n. 1, 1993, p. 8-15; aqui, 12).

Causas Políticas Da Violência: A Sociedade de Exclusões

       O tipo de sociedade vigente vem organizada na espoliação violenta da mais-valia do trabalho e na exclusão de grande parte da população. O conflito real é entre o capital e o trabalho, que dá origem a uma desenfreada luta de classes, com a dominação permanente dos donos do poder desde o início de nossa história. Essa luta cria violência em todos os campos:

  • no campo econômico, com os baixos salários e a privatização da verba pública;
  • no campo político, mediante a produção de uma cidadania menor, que se expressa pela corrida aos cargos públicos por parte dos partidos que dão sustentação ao governo e se valem de benesses públicas; pelos sindicatos pelegos, cooptados ou desnaturados em sua função; pela guerra no campo por falta de reforma agrária e devido às dificuldades de organização participativa;
  • no campo cultural, pelo desprezo à cultura popular e pela dominação da cultura da mídia de massa sobre a população, influenciada pelos estereótipos da cultura globalizada de origem norte-americana;
  • no campo religioso, pelo não-reconhecimento das religiões populares, afros; pela manipulação dos sentimentos religiosos do povo por líderes que transformam os templos em verdadeiras casas de câmbio ou em programas de televisão que propiciam o fundamentalismo e à guerra religiosa; e ainda pela folclorização da piedade popular;
  • no campo educacional, com a escola negada a milhões de pessoas, o que explica o alto índice de analfabetismo real ou funcional e com os professores desestimulados;
  • no campo sanitário, pela falta de cuidado com a saúde do povo, sem hospitais, postos de saúde, remédios e dentistas apesar da criação do SUS e das UPAS. O Brasil real é feito de doentes e de sobreviventes da grande tribulação que os afeta secularmente.

A modernização conservadora, sob a influência do ajustes estruturais, leva a substituir a preocupação pelo desenvolvimento por aquela da estabilização e do combate à inflação sempre beneficiando o mercado e as grandes fortunas. Segundo dados do IBGE de 2013 são 10% da população que controlam 42% renda nacional. Jessé de Souza fornece-nos o número, exatamente 77.440 pessoas de biblionários que influenciam as políticas oficiais, pressionam o Estado e o Parlamento, constituindo o verdadeiro poder oculto do país (Jessé Souza, A tolice da inteligência brasileira, Leya 2015).

Quando vê seus interesses contrariados, não lhes custa, de tempos em tempo, passar por cima da Constituição e dar um golpe de classe, seja usando a força militar como em 1964, seja como em 2016 o impeachment de uma Presidenta eleita, Dilma Rousseff com mais de 54 milhões de votos, contra a qual, pessoalmente não se pode apontar nenhum crime, usando o Parlamento e o Judiciário.

Pouco considera os custos sociais (congelamento da miséria e a pobreza); cobra a integração econômica no mercado mundial, com descaso pela soberania nacional e popular; impõe um diálogo Norte-Sul, mas exclui da agenda os temas da fome mundial, da dívida externa e seus perversos efeitos sociais e atualmente a grave questão do aquecimento global e a degradação crescente das bases físico-químicas que sustentam a vida.

Todo esse processo tem por efeito prolongar a herança trágica e exclusão de milhões de brasileiros que, para sobreviver, têm de continuamente cometer o ilegal, viver do comércio informal, de pequenos roubos e delitos. Sobre eles caem pesadas punições legais e sociais (cf. Ribeiro, H. A identidade do brasileiro: capado, sangrado e festeiro. Petrópolis: Vozes, 1994).

Causas Psicossociais da Violência: O Desejo de Compensação

As classes dominantes internalizaram dentro de si a convicção de que elas tudo podem. E de que são impunes. O autoritarismo ligado à impunidade e, por isso, à corrupção, que tudo acoberta, é uma das origens da violência, como o viu bem a pesquisadora Alba Zaluar (cf. Estatísticas macabras. In: Jornal do Brasil de 1.9.1994, p. 11).

As classes dominadas internalizaram o caráter violento, injusto e desigual de sua situação. Elas não veem seu direito à segurança realizado; têm de se defender por si mesmas. Usam da violência – que, na verdade, é antiviolência, reação a uma violência anterior – como estratégia de sobrevivência e também como meio político de recuperar o que lhes foi negado ou expropriado. Vingam-se assaltando e destruindo. Esse processo, geralmente, não é conscientizado nem racionalizado pelas classes dominadas, no sentido de ser fruto de uma reflexão anterior. É uma reação da lógica do inconsciente, que busca uma compensação e até uma vingança pelo mal de que foram vítimas. Psicanalistas enfatizaram esse tipo de violência (cf. R. Amoretti (org). Psicanálise e violência. Petrópolis: Vozes, 1992)

Rubem Fonseca retratou bem essa situação no seu livro de contos O cobrador (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979). O personagem é um empobrecido da classe média, também chamado na linguagem comum de “marginal”, por praticar atos ilícitos. Ele entende ser sua missão conquistar à força o que julga ter-lhe sido roubado pela sociedade dominante. Por isso, diz:

“Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim, sorvete, bola de futebol. Estão me devendo meia, cinema, filé mignon… Estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume… Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei… sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo” (p. 168, 174, 176, 181).

Aqui há o princípio de um pensamento social construído a partir da criminalidade social. Descobre-se a sociedade de desiguais como causadora da pobreza. Usa-se ainda a força individual, a fim de alcançar a compensação para interesse particular. É uma visão individualista. Por isso, ela não é revolucionária. Na verdade, ela reforça uma visão conservadora, porque, se por um lado questiona a estrutura social iníqua – o que é um problema político -, por outro, não percebe que esta deve ser mudada coletivamente para impedir a perpetuação da injustiça e da desigualdade. O indivíduo busca o seu, pela violência, para se compensar, sem mudar nada no sistema. Um problema político demanda uma solução política, e não meramente individualista.

Político seria organizar grupos marginais no sentido de querer transformar semelhante sociedade mediante processos de conscientização e criação de “organizações orgânicas”, com práticas transformadoras, a partir de um projeto de nova sociedade. Esse discurso apenas apontou em alguns líderes “marginais”, como, há tempos, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Ao serem presos após um enfrentamento com policiais, declararam que as favelas precisavam de um Lenin e de um Che Guevara. Numa palavra: de revolucionários para instaurar uma nova sociedade sem favelas. Dias após foram todos mortos.

Mas a burguesia e o Estado temem exatamente esse tipo de raciocínio. Pois este, sim, é revolucionário e os ameaça como um todo. Enquanto ficar individualizada, a violência não mete medo. Pelo contrário, o Estado pode aplicar tranquilamente as leis e punir os marginais. E a burguesia se sente segura em sua ordem que, na verdade, é ordem político-jurídica dentro de uma grande desordem social da qual ela é sua principal causa.

A burguesia gosta de dramatizar a violência pelos jornais, pela TV, mostrando os níveis de perversidade dos crimes e o número de vítimas feitas. Consegue elevar a violência urbana ao nível de problema nacional e, num certo tempo, de segurança nacional.

Na verdade, olhando-se os números, morre muito mais gente em acidentes de tráfego (cerca de 50 mil anualmente), em acidentes de trabalho e em consequência da fome e das doenças da fome do que vítimas de assaltos. Aqueles números não ameaçam os detentores do sistema e a ordem que os beneficia. Tal realidade violenta, que mata a cada minuto, não é dramatizada, e por isso é feita socialmente suportável.

A violência urbana vem dramatizada visando a um efeito político: conseguir a perseguição, a prisão e eventualmente a morte dos criminosos. Dessa forma, a classe dominante consegue fazer esquecer que ela está assentada sobre uma violência originária, provocada por ela mesma. Encontra bodes expiatórios nos criminosos comuns. Daí a importância da vigilância, do controle e da repressão, com aparato e circunstância, sobre as populações periféricas ou “marginais” ao sistema. (cf. L. Moscatelli. Política da repressão: força e poder de uma justiça de classe. Rio de Janeiro: Achiamé, 1982).

Causas Individuais da Violência: a Agressividade humana

Há também violência por razões subjetivas em pessoas individuais e em grupos. É conhecida uma clássica discussão científica sobre a origem da agressividade humana. Freud, Einstein. Lorenz, Fromm e outros a abordaram explicitamente. Ultimamente, René Girard, como abordaremos com mais detalhe, pretende estabelecer a arqueologia da violência social.

Para Freud, a agressividade é expressão da dramaticidade da vida humana, cujo motor é a luta renhida entre o princípio de vida (eros) e o princípio de morte (thánatos). Sentindo-se ameaçada, a pessoa se antecipa e agride ou eventualmente mata a outra. Para Freud, é impossível aos humanos controlar totalmente o princípio de morte. Por isso, sempre haverá violência na sociedade. Mas por leis, pela religião, pela educação e, de modo geral, pela cultura pode-se diminuir sua virulência e controlar seus efeitos perversos (cf. Sobre mais além do princípio do prazer. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. 5).

Para Lorenz, a agressividade é um instinto como outros e destina-se a proteger a vida. Mas ela ganhou autonomia, porque a razão construiu a arma mediante a qual a pessoa ou o grupo potencializa sua força e assim pode se impor aos demais. E criou-se uma lógica própria da violência. A solução é encontrar substitutivos: voltar à razão dialogante, aos substitutivos, como o esporte, a democracia, o autodomínio crítico do próprio entusiasmo que leva à cegueira e, daí, à eliminação dos outros.

Mas Lorenz reconhece que a guerra somente desaparecerá quando se der aos homens, por outro modo, aquilo que era conquistado mediante a força bruta (cf. Das sogenannte Böse: Zur Naturgeschichte der Aggression. Viena, 1964).

Essa reflexão nos reconduz ao chão da história. Devemos ser realistas. Da forma como o ser humano está cultural e socialmente estruturado, ele traz consigo consideráveis fatores de violência objetiva. Estes poderão ser minimizados, controlados, mas não totalmente eliminados. E assim chegamos a um ponto radical da análise que importa enfrentar: a raiz originária da violência, a a estrutura do desejo humano articulado para a rivalidade e que gera as desigualdades sociais e, assim, conflito e violência. Além disso verificou-se historicamente a ruptura da re-ligação com todas as coisas, tornando-nos inimigos delas e assim passaos a agredi-ls. Analisemos essas perspectivas.

A causa profunda da Violência: A Hipótese no Desejo Mimético

O formulador dessa interpretação é René Girard (1923-), professor de Letras, antropólogo e filósofo francês que vive nos EUA (A violência e o sagrado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990; Le bouc émissaire. Paris: Grasset, 1982; Des choses cachées depuis la fondation du monde. Paris: Grasset, 1978, e outros). Vamos nos deter com mais detalhe nesta interpretação pelo seu alto valor explicativo.  Analisando grandes obras literárias e mitos transculturais, Girard observou o seguinte mecanismo: na raiz de tudo, está a estrutura do desejo humano, coisa que os grandes mestres e pensadores sempre viram (Isaías, Aristóteles, Freud, sábios budistas…). O desejo constitui a grande mola propulsora das transformações e da busca do novo.

Mas há uma particularidade, observa Girard, que escapou à análise, geralmente de cunho privatista e subjetivista: no desejo não há apenas dois termos, o sujeito desejante e o objeto desejado; há sempre o outro, o terceiro, que, segundo Girard, funciona como rival. O rival deseja o mesmo objeto que o outro, não por acaso ou por mera coincidência, mas por uma estrutura de fundo, ligada ao próprio desejo humano. Este é tendencialmente infinito. Deseja-se não somente isto e aquilo, mas a totalidade, tudo. É um projeto aberto ao infinito.

Por isso, o ser humano não sabe concretamente o que deseja. O ser, o todo, a parte? Aristóteles já observava que o objeto do desejo é o ápeiron, o todo indeterminado. Por essa porta, entra Girard ao dizer: o desejo se determina somente a partir do rival. Cada pessoa deixa o vago e ganha configuração concreta. Portanto, o desejo é essencialmente mimético. Eis a palavra-chave de Girard: o desejo mimético (mimesis = imitação). O ser humano desejo o que o outro deseja. Um imita o outro.

O desejo mimético, entretanto, é gerador de conflito, pois os dois desejam o mesmo objeto. Entram em rivalidade. Cada um quer tomar exclusivamente para si o objeto e com isso realizar o seu desejo. Para tal efeito, sente-se obrigado a excluir o outro. Esse conflito se agiganta quando entram grupos que coletivamente desejam. Quanto mais pessoas e grupos desejam o mesmo objeto, mais cresce a rivalidade, mais aumenta o conflito, mais se aguça a violência.

O desejo mimético funciona como um feedback: eu imito meu rival; meu rival me imita. O modelo vai tornar-se o modelo de seu modelo. Então, tudo se torna recíproco. Por que essa reciprocidade? pergunta-se Girard. Ele constata que essa reciprocidade, no bem e no mal, nunca foi devidamente analisada pelos antropólogos que dela se ocupam. A partir dela, surge a seguinte lógica: quanto mais se deseja o mesmo objeto, mais se procura imitar o outro e mais e mais se procura destruir o outro, ou destruir o objeto desejado pelo outro ou por todos os outros.

O auge do mimetismo e, com isso, o auge da violência, é alcançado quando os rivais se unem e criam a unanimidade mimética. Todos se unem contra um só, sobre o qual todos realizam o bouling e descarregam sua violência. Os muitos têm diante de si apenas um rival, que importa abater. Ele será a vítima.

O desejo mimético é, pois, essencialmente vitimatório. Produz vítimas por todos os campos onde se expressa o desejo concorrencial humano.

O processo vitimatório é extremamente fecundo. Para Girard, a produção da vítima funda a sociedade e a cultura. Vejamos as razões dessa surpreendente afirmação.

Quando todos (menos um, feito vítima) se unem para descarregar a violência em cima da vítima, criam uma comunidade. Descarregam toda a violência em cima dela. Disso resulta a paz e a harmonia, vistas como graça alcançada pela própria vítima, que, com sua morte, trouxe tal benefício. A vítima aparece como causa da desordem (todos se unem para eliminá-la) e, ao mesmo tempo, causa do retorno da ordem (porque agora, morta, não ameaça a mais ninguém, e todos desaguaram sobre ela sua violência e assim se apaziguaram).

Girard afirma que a criação da vítima (o bode expiatório) é fundadora da comunidade e da cultura. Todos se unem para punir a vítima. A razão reside nisso: se a violência fosse deixada por si mesma, criar-se-ia uma cadeia ininterrupta de violência e de vingança. Um teria de matar o outro, porque esse outro, matou, e assim indefinidamente, como, aliás, aparece claramente nas tragédias gregas. A criação da vítima faz com que todos descarreguem a violência nela, e assim se constitui a comunidade sem violência autodevoradora.

Os gregos chamavam de phármakos (donde vem a palavra farmácia, loja de produtos curativos e farmacêuticos) às vítimas humanas. Eram pessoas que a sociedade mantinha a expensas do erário e que eram sacrificadas em momentos de crise. Nessa ocasião, eram levadas pelas ruas, em todos os cantos da cidade, para absorver as impurezas do ambiente. Eram pessoas a um tempo desprezíveis e respeitáveis. Desprezíveis porque incorporavam toda a perversidade da comunidade. Respeitáveis porque, mediante a sua sacrificação, alcançar-se-ia o apaziguamento da comunidade. Com sua sacrificação, produzir-se-ia um efeito “farmacêutico”, isto é, curativo. Toda a hostilidade e violência latente da cidade ficava drenada e apaziguada pela vítima.

Inicialmente, sacrificava-se um filho, um deficiente físico, um prisioneiro, um escravo, enfim, alguém da família humana. Depois, substituiu-se a vítima por um animal que guardasse certa analogia com os humanos – o cordeiro ou o bode expiatório em quem se pudesse descarregar toda a vingança. A vítima tem sempre uma função vicária: ela está no lugar de toda a comunidade, que, ao descarregar sobre ela sua violência, chega à paz e à concórdia social.

Com o processo civilizatório, procurou-se substituir a vítima pela lei. Não basta sacrificar de vez em quando. O processo do desejo mimético sempre está ativo. Então surge a lei, que cria o interdito e a proibição, e destarte se rompe a cadeia da violência e da vingança. A lei cumpre a função de ordem social. A comunidade, agora, em vez de matar as pessoas (vítimas), aplica-lhes as leis e as penas da lei. Com isso, a sociedade se apazigua, como outrora, quando matava de verdade. Agora mata simbolicamente, impondo penas, isolando as pessoas em cadeias e, em casos-limite, condenando-as legalmente à morte.

Nessa passagem do sacrifício à lei, cria-se, segundo Girard, o rito. Pelo rito se recorda e se celebra o benefício que a vítima trouxe com sua morte; vale dizer, a paz, o apaziguamento e a coes         ao da comunidade. Por fim, elabora-se o mito, que é a narração plástica e dramática de todo esse processo ritualizado.

Lei, rito e mito, consoante René Girard, estão na base de toda cultura e das instituições que dela derivam. Essas três pilastras visam a fechar a boca da vítima; são construídas pelos que sacrificaram a vítima e a mantêm como vítima.

Hoje não fazemos sacrifícios como outrora. Mas temos também nossas vítimas, dentro de mecanismos sacrificialistas quem sabe até mais perversos. Como tese geral, devemos dizer: onde há instituições, rebrota a violência. As instituições são sistemas auto-reguladores e sacrificiais.   Punem, excluem e até eliminam quem não se ajusta a elas. Elas concretizam leis e normas estruturadas, possuem seus ritos e elaboram um mito justificador de sua fundação.

Especialmente sacrificiais são, na atualidade, o sistema econômico e o mercado. Já Adam Smith, pai da economia política, dizia: toda sociedade civilizada deixa morrer aqueles que não chegam a garantir sua subsistência. Quem está no sistema, no conjunto articulado de leis, normas e instituições, vive; quem não está, é alijado e morre.

A harmonia, portanto, está baseada em algo terrível: deixar morrer aqueles que não entram na harmonia. Então, a ordem instituída produz desordem. E vive como ordem na medida em que exclui todos os que não são capazes de entrar nela e nela se manter. Assim é no mercado auto-regulador: quem é forte no mercado, vive e progride; quem é fraco, é apeado, eliminado e excluído do mercado. Quando, portanto, celebra-se a capacidade auto-reguladora do mercado, significa que se está celebrando sua sacrificialidade. O desemprego é necessário para salvar empresas. Poupar empregados, não demiti-los é ser não-sacrificialista. Mas há um preço: ser ineficaz, ficar economicamente fraco, perder na concorrência e se auto-sacrificar, morrendo empresarialmente.

Nesta mesma lógica, cobrar a dívida externa implica gerar um genocídio inconsciente. Por ter de pagar a dívida externa, um governo vê-se obrigado a reduzir os investimentos sociais – em merendas nas escolas, em saúde pública, em saneamento básico (investimentos sem retorno financeiro, apenas social), em segurança -, o que produz a doença e a morte de muitíssimas pessoas, sobretudo velhos e crianças.

Como, entretanto, argumentam os representantes do sistema financeiro? Seria irresponsável não cobrar a dívida externa. Finalmente, há contratos em jogo e existe uma legislação internacional. Ninguém, na esfera dos negócios, dá nada a ninguém. Logo, cobremo-la. Em outras palavras: seria irresponsável não querermos o genocídio implícito. Permitamo-lo. Bem como os nazistas argumentavam: é irresponsável não matar judeus. Existe a legislação sobre a pureza racial. Portanto, matemo-los. É legal. Mas é justo?

Aqui aparece o mecanismo sacrificialista do sistema econômico atual em sua forma contemporânea, neoliberal e mundializada (cf. F. Hinkelhammert. La lógica de la expulsíon del mercado capitalista y el proyecto de liberación. Costa Rica: Pasos, 1992). Ele sacrifica mais pessoas do que os astecas sacrificaram nas pirâmides ou os cananeus à sua estátua de Moloc. Ocorre que os agentes do mercado não reconhecem tal fato. Mas o níveis de miséria, fome e exclusão dos países empobrecidos o comprova irrefutavelmente, pelos índices dos mesmos organismos do mercado, como o Banco Mundial e o FMI.

Aqui caberia uma palavra sobre a necessidade da planificação ao lado do livre mercado auto-regulador. O mercado se auto-regula à custa de sacrifícios crescentes. É função do Estado, como gerenciador do bem comum, numa perspectiva realista, planificar, a fim de reduzir essa voracidade a níveis suportáveis, particularmente em três áreas: garantindo pleno emprego (tendencialmente), cuidando da distribuição da renda e zelando pela preservação da natureza.

A essência ética da opção socialista democrática reside nisso: em não entregar aos mecanismos pretensamente auto-reguladores do mercado a consecução das metas sociais fundamentais. Pelo socialismo democrático se pretender garantir razoavelmente o princípio da destinação comum dos bens da natureza, inclusive os frutos do trabalho humano, formando o bem comum social e ecológico. A crise de 2007-2008 mostrou a falácia do mercado autoregulador. O colapso do Banco Lehman Brothers que levou a uma crise generalizada econômico-financeira foi superado pela intervenção do Estado que impediu a ruina do sistema do capital.

A teoria de Girard acerca do desejo mimético nos permite entender melhor os mecanismos de reprodução da violência. A violência dos marginalizados e oprimidos é reflexo mimético da violência primeira e modelar das classes dominantes, que impedem a realização do desejo das maiorias. Os oprimidos são violentos porque se encontram, à sua revelia, enquadrados numa sociedade violenta. Eles são feitos vítimas sobre as quais a classe dominante descarrega toda a sua violência e elabora a paz entre os lobos. Sua violência é uma reação a uma violência primeira.

A classe dominante (e é dominante porque usa permanentemente a violência), inventa continuamente bodes expiatórios. Precisa inventá-los para esconder sua própria violência. Ora são os pobres, ora os negros, ora os sem-terra, ora os marxistas, ora os subversivos, ora os golpistas ora a Igreja progressista, ora as esquerdas, ora os refratários à modernização neoliberal e à privatização. Objetivando aniquilar a vítima, pode descarregar sobre ela sua violência, aplicar-lhe as leis, puni-la de mil formas, até pela exclusão sistemática do processo de produção e consumo, como vem ocorrendo atualmente em nível mundial. Mais ainda: cria uma interpretação ideológica da situação de permanente crise do Brasil, no sentido de ela ser consequência da escravidão, da miscigenação, do nosso substrato latino-católico-medieval. Tais álibis visam a ocultar o fato de que é ela a causadora principal (não exclusiva) da herança de exclusão que estigmatiza historicamente nossa realidade social.

Na verdade, se bem olharmos, os únicos que trabalharam de fato, de sol a sol, e construíram quase tudo o que existe neste País foram os negros, um dia escravizados. Hoje eles são difamados como preguiçosos, vadios, refratários a todo tipo de trabalho, só pensando em carnaval e em samba. Trata-se de profunda injustiça e mentira histórica. Mas são recursos do desejo mimético das classes dominantes, criando bodes expiatórios para mascarar a própria violência e ocultar a falta de solidariedade e de sentido de justiça histórica com as quais se reparariam as perversidades perpetradas contra os negros e os pobres na história do Brasil.

Por outro lado, as vítimas coletivas não aceitam essa condenação e procuram se defender dentro do mesmo círculo férreo de violência, agora de antiviolência mimética. O círculo fica sempre vicioso, sem chances de ser virtuoso. Isso implicaria uma revolução nas relações sociais, baseadas não mais no desejo mimético, mas no desejo solidário e comunitário.

Certamente, não é fatal que o terceiro, o rival que também deseja, deseja só para si, com exclusão do outro. Há uma atitude alternativa. Ele pode entrar numa parceria com os outros desejantes. Pode construir a solidariedade e a comunhão ao redor do mesmo objeto desejado. Emergiria então outro tipo de sociedade originária; não violenta, mas solidária; não individualista, mas comunional; não dilacerada, mas integrada.

René Girard entrevê no fenômeno cristão a superação da prática sacrificialista. Jesus inaugura outro desejo mimético (desiderio desideravi…desejei ardentemente comer esta páscoa convosco”, do evangelho de Lucas 22,15), aquele da doação e da auto-entrega. Ao sacrifício que elimina o outro, Jesus apresenta o dom de si, livre, amoroso e total, a ponto de se auto-sacrificar por ele. Essa atitude, que rompe a violência, inaugura uma nova comunhão e uma nova comunidade humana, na qual a colaboração, na qual a colaboração e o amor são a lei e a norma. A competitividade é somente o sentido do melhor e do mais generoso em função de todos.

A causa última da violência sistêmica: a ruptura da re-ligação universal

Temos considerado as várias interpretações da violência de caráter generalizado e, de certa forma, misterioso. Mas temos que chegar à última: a ruptura permanente da re-ligação básica que o ser humano introduziu, alimentou e perpetuou com o conjunto do universo e com seu Criador. É aqui que tem o seu lugar a reflexão teológica que possui séculos de existência e que ocupou as mentes mais brilhantes do pensamento, como um Orígenes, um Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Lutero, Calvino e modernamente Karl Barth e Karl Rahner.

Temos a ver aqui com uma dimensão profundamente misteriosa e trágica da história humana e universal. A tradição judeo-cristã chama a essa frustração fundamental de pecado do mundo e a teologia no seguimento de Santo Agostinho que inventou esta expressão: pecado original ou queda original. O original aqui não não tem nada a ver com as origens históricas deste anti-fenômeno, portanto, ao ontem. Mas ao que é originário no ser humano, ao que afeta seu fundamento e sentido radical de ser, portanto, ao agora de sua condição humana.

Pecado também não pode ser reduzido a uma mera dimensão moral ou a um ato falho do ser humano. Temos a ver com uma atitude globalizadora, portanto, com uma subversão de todas as relações nas quais ele está inserido. Trata-se de uma dimensão ontológica que concerne ao ser humano, entendido como um nó de relações. Esse nó se encontra distorcido e viciado, prejudicando todos os tipos de relação.

Importa enfatizar que o pecado original é uma interpretação de uma experiência fundamental, uma resposta a um enigma desafiante. Por exemplo, existe o esplendor de uma cerejeira em flor no Japão e simultaneamente um tsunami em Fukushima que tudo arrasa. Existe uma Madre Teresa de Calcutá que salva moribundos das ruas e um Hitler que envia seis milhões de judeus para as câmaras de gás. Por que esta contradição? Os filósofos e os teólogos continuam quebrando a cabeça para encontrar uma resposta. E até hoje não a encontraram.

Sem entrar nas muitas possíveis interpretações, assumimos uma, pois ganha mais e mais o consenso dos pensadores religiosos: a imperfeição como momento do processo evolucionário. Numa formulação vinda da matemática mas aplicável a toda a realidade: o teorema de Gödel da implenitude te todas as coisas. Nada está completo e fechado. A equação nunca se fecha totalmente.

Teologicamente falando, Deus não criou o universo pronto uma vez por todas, um acontecimento passado, rotundamente perfeito. Senão deslanchou um processo em aberto e perfectível que fará uma caminhada rumo a formas cada vez mais complexas, sutis e perfeitas. Esperamos que um dia chegará a seu ponto Ômega.

A imperfeição não é um defeito mas uma marca da evolução. Ela não traduz o desígnio último de Deus sobre sua criação, mas um momento dentro de um imenso processo. O paraíso terrestre não significa saudade de uma idade de ouro perdida, mas a promessa de um futuro que ainda virá. A primeira página das Escrituras, na verdade, é a última. Vem no começo como uma espécie de maquete do futuro, para que os leitores/as se encham de esperança acerca do fim bom de toda a criação.

São Paulo via a condição decaída da criação como um submetimendo “à vaidade” (mataiótes), não por causa do ser humano, mas por causa de Deus mesmo. O sentido exegético de “vaidade” aponta para o processo de amadurecimento. A natureza não alcançou ainda sua maturidade. Por isso na fase atual se encontra ainda longe da meta a ser alcançada. Daí que a “criação inteira geme até o presente e sofre dores de parto”( Rm 8,22). O ser humano participa deste processo de amadurecimento, gemendo também (Rm 8, 23).

A criação inteira espera ansiosa pelo pleno amadurecimento dos filhos e filhas de Deus. Pois entre eles e resto da criação vigora uma profunda interdependência e re-ligação Quando isso ocorrer, a criação chega também a sua maturidade, pois, como diz Paulo, “participará da gloriosa liberdade dos filhos e filhas de Deus” (Cf. Rm 8, 20).

Então se realiza o desígnio terminal de Deus. Somente agora Deus poderá proferir a esperada palavra: “e viu que tudo era bom”. Por ora, estas palavras são profecias e promessas para o futuro, porque nem tudo é bom. Bem disse o filósofo Ernst Bloch, o do princípio esperança: “o gênesis está no fim e não no começo”. O atraso do ser humano no seu amadurecimento implica no atraso da criação. Seu avanço implica um avanço da totalidade. Ele pode ser um instrumento de libertação ou de emperramento do processo evolucionário.

É aqui que reside o drama: evolução quando chega ao nível humano, alcança o patamar da consciência e da liberdade. O ser humano foi criado criador. Pode intervir na natureza para o bem, cuidando dela ou para o mal devastando-a. Ele começou, quem sabe, desde o surgimento do homo habilis há 2,7 milhões de anos, quando ele criou o instrumento com o qual intervinha sem respeitar nos ritmos da natureza. No começo podia ser apenas um ato. Mas a repetição criou uma atitude de falta de cuidado. Ao invés de estar junto com as coisas, convivendo, colocou-se acima delas, dominando. E houve um crescendo até aos dias atuais.

Com isso rompeu com a solidariedade natural entre todos os seres. Contradisse o desígnio do Criador que quis o ser humano como con-criador e que por seu gênio completasse a criação imperfeita. Este colocou-se no lugar de Deus. Sentiu-se pela força da inteligência e da vontade um pequeno “deus” e comportar-se como se fora Deus de verdade. Nessa hybris, nessa arrogância se encontra a raiz última da agressividade e da violência.

Esta é a grande ruptura com a natureza e com o Criador que subjaz à estrutura de todas as socidades e hoje, à crise ecológica. O problema está no tipo de ser humano que se forjou na história, mais uma “força geofísica de destruição”(E.Wilson) que um fator de cuidado e preservação. Paul Creutzen, prêmio Nobel de química cunhou a expressão o antropoceno como uma nova era geológica, segundo a qual o ser humano surge como o grande agressor sistemático do sistema-vida e do sistema-Terra.

A cura reside na re-ligação com todas as coisas renunciando a todo tipo de violência. Em seu lugar colocar o seu oposto que é o cuidado e corresponsabilidade para com todas as coisas. Não necessariamente precisa ser mais religioso, mas mais humilde, sentindo-se parte da natureza, mais responsável por sua sustentabilidade e amigo da vida. Ele precisa voltar à Terra da qual se exilou e sentir-se seu guardião e cuidador. Então será refeito o contrato natural que tira as bases da violência social e entre os seres humanos e a natureza.

E se ainda se abrir ao Criador, saciará sua sede infinita e colherá como fruto a paz, não mais ameaçada pela violência (fim da primeira parte)

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e professor emérito de ética e filosofia da religião da UERJ e portador do Prêmio Nobel Alternativo da Paz pelo Parlamento sueco e membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra e professor visitante em várias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca.

 

 

A violência: uma contribuição a suas váriasi nterpretações – I. Parte

11/07/2016

A violência: uma contribuição a suas váriasi nterpretações- I. Parte

A violência é crescente no mundo, particularmente depois das duas guerras contra o Afeganistão e o Iraque levadas a efeito pelos USA e seus aliados, após o atentado em 2001 às Torres Gêmeas em Nova York. Ela é particularmente forte no Brasil. Os fatos conhecidos de assaltos de rua e em prédios, de sequestros, de extermínio de crianças abandonadas e de chacinas por parte de grupos e até de policiais não podem ser entendidos como episódios. Suas raízes, como veremos, alcançam mais profundas.

O Brasil comparece como um dos países mais violentos do mundo. Só no ano de 2015 foram assassinados 66 mil pessoas, a maioria delas negros e habitantes pobres das periferias. Isso é mais que as vítimas das guerras do Iraque, do Afeganistão e atualmente da Síria.

Uma análise mais cuidadosa mostra uma conexão de tais fatos com a totalidade social. Esta é marcada por um modelo altamente predatório de capitalismo não civilizado, que leva a uma acumulação espantosa de riqueza à custa da degradação da força de trabalho, de falta de justiça social e da devastação da natureza.

O número dos excluídos é cada vez maior especialmente nesta fase atual de grande crise econômica e financeira (2015) associada à crise política, ética e de uma espantosa corrupção que envolve as grandes empreiteiras e empresas como a Petrobrás, a Eletronuclear e outras, além de parte significativa da classe política da Câmara e do Senado.

É um luxo hoje ser explorado pelo sistema do capital, que compra de forma aviltada a força de trabalho, remunerando-a miseravelmente com a pequena vantagem de, por lei, oferecer um mínimo de seguridade social. Apesar das políticas de inclusão dos governos Lula-Dilma há milhões que vivem no mercado informal, fora de qualquer benefício social que lhes tranquilize em relação ao futuro. Tal situação configura, objetivamente, um estado de violência. Mais que atos de violência, têm a ver com estruturas permanentes e continuadas de violência. Vamos analisar-lhes as causas por vários caminhos diferentes. É uma pequena contribuição ao tema tão presente e avassalador da realidade nacional e internacional.

                                                               PRIMEIRA PARTE

Causas Históricas: Um Pecado de Origem, Nosso Passado Escravocrata e Colonial.

O Brasil tem, no seu começo, um pecado original: a violência da conquista e da invasão. Fomos e continuamos a ser, de certa forma, colônia. A estratégia da atual globalização hegemonizada pelos países centrais é recolonizar toda a América Latina, quer dizer, reduzi-la a uma produtora e exportadora de commodities, reservando para si a invenção e a tecnologia, vendida cara para o resto do mundo.

De qualquer forma a colonização implica um ato de extrema violência organizada, sistemática e continuada: é colocar toda uma nação, com sua população, com sua cultura, com tudo o que tem, à depredação do outro. O colonizado assiste ao congelamento de sua história. É obrigado a internalizar o outro e o seu mundo de valores e a sua forma de ver o mundo, de organizar a sociedade e de pensar e venerar a divindade.

Todo poder totalitário cria um contra-poder, seja simbólico, seja real. A aceitação da dominação nunca foi pacífica. Nossa história está cheia de revoltas frustradas, mas nunca totalmente dominadas.

José Honório Rodrigues, em Conciliação e reforma, um desafio histórico-cultural (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965), conta a história brasileira a partir das vítimas. Destrói o mito do brasileiro como pacífico e cordial.

Na história pátria, observa ele, notamos o seguinte paradoxo:

“(…) a maioria dominante – conservadora ou liberal – foi sempre alienada, antiprogressista, antinacional e não contemporânea(…). A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao País, chamou-o de tudo – Jeca-Tatu -, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que continua achando que lhe pertence”(p.16).

         Por outro lado, as maiores construções são fruto da ação popular:

“(…) a unidade linguística e política, a expansão e a integridade territoriais, a homogeneidade cultural, a tolerância racial e religiosa. No povo, não nas elites poderosas, prevaleceu o espírito de conciliação que atenuava os antagonismos raciais e sociais. Se a massa indígena e negra, mestiça e cabocla era nas relações humanas essencialmente conciliadora, era entretanto inconciliável nas relações políticas. Mostraram um rude inconformismo, que gerou grande derramamento de sangue, a ponto de Capistrano de Abreu escrever que no fim do período colonial, o povo foi capado e recapado, sangrado e ressangrado”(p.30).

         A história recente do Brasil está em continuidade com seu passado, sendo que quase sempre escrita apenas pela mão branca.   Nela não falaram – e, se falaram, não foram ouvidos – os negros, os índios, os mulatos, as mulheres e os pobres em geral.

Há ainda um agravante: temos vivido sob o modo de produção escravagista. É a maior violência que uma sociedade pode conhecer: a redução do outro a peça, a escravo, com senhorio de vida e morte sobre ele. Durante praticamente quatro séculos, convivemos com a escravidão. Tivemos apenas um século para desfazer suas perversas consequências. Procura-se desatar um nó que na verdade deve ser cortado, como se corta, de vez, um tumor.

Estudos sobre a escravidão urbana mostram as raízes de alguns hábitos culturais e policialescos ainda hoje existentes. O escravo urbano era alugado para serviços na rua e vigiado pela polícia no lugar do dono; por causa disso, a polícia comumente desconfia até hoje do negro e aplica-lhe violência quando o prende ou detém (cf. Leila Mezan Alegranti, O feitor ausente. Petrópolis: Vozes, 1988; Ronaldo Vainfas, Ideologia e escravidão: os letrados e a sociedade escravista no Brasil colonial. Petrópolis: Vozes, 1986). Importante é a obra de Jacob Gorender; A escravidão reabilitada (São Paulo: Ática, 1990), que critica a moderna produção histórico-social sobre o tema, que pretende mostrar a escravidão em tons mais benevolentes. Ao invés de rebeliões, resistência e acomodação, o regime escravocrata seria equitativo, doce, na linha do patriarcalismo pintado por Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freire. Gorender destrói o imaginário mistificador e reincidente dessa interpretação com dados irrefutáveis.

Na formação de uma sociedade urbana livre, a violência caracteriza o Estado em sua relação para com o movimento operário e sindical. Maus tratos e torturas eram frequentes contra operários e líderes sindicais. Se brasileiros, eram desterrados para lugares longínquos (Ilha Grande, Fernando de Noronha, etc.); se estrangeiros, eram devolvidos aos países de origem.

A sociedade mostra uma contradição absurda: por um lado, não consegue criar emprego para todos; e por outro, prende, por vadiagem, aqueles que encontra na rua e que não conseguem mostrar uma carteira de trabalho assinada. O Estado detém, sabidamente, o uso legítimo da violência. Mas aqui há um uso injusto e perverso que contradiz a legitimidade do Estado como Estado Democrático de Direito, fruto de um pacto social de cidadania que ganhou corpo na Constituição de 1988.

A questão social foi, durante muito tempo, tratada como caso de polícia, e não como caso político. Em alguns lugares, a polícia prende e maltrata quem se enquadra em algum dos seguintes “pês: pobre, preto e prostituta. O grave reside nisto: essa violência histórica, na base da dominação do outro e de sua escravização, formou a subjetividade coletiva de nossas elites. Elas criaram a mentalidade de que o povo nada vale; de que o negro deve ser tratado com violência, porque sempre foi assim; de que, na verdade, não deveria receber nada, nem o salário mínimo, pois historicamente sempre serviu gratuitamente aos senhores. E entendem o salário como ato de generosidade por parte do patrão, e não como expressão de justiça. O mecanismo de violência social reside, primeiramente, nas estruturas mentais da classe dominante.

Resumindo, numa palavra: violenta foi a conquista, violenta foi a relação para com o índio, violenta a relação para com o negro, violenta para com o trabalhador organizado, violenta para com todos os que quiseram mudar esta situação e sempre violente os pobres até os dias atuais.

Causas Culturais da Violência

A cultura hoje dominante foi imposta pelos dominadores históricos do povo brasileiro; por isso é dominante. O eixo estruturador dessa cultura, como foi visto há muito pelos filósofos sociais, é a vontade de poder/dominação. Usou-se a violência dura como forma de manter a dominação; e depois a doce, para garantir a hegemonia. É socialmente aceito o uso da violência nesse tipo de cultura dominante.Importa reconhecer que a permanência do modo de produção capitalista se reproduz e se prolonga graças aqo que criou e globalizou: a cultura do capital com seu produtivismo e consumismo.

Essa dominação obriga a três atitudes: ou ao submetimento para sobreviver, implicando a traição da própria história; ou a resistência, a rebelião e a clandestinidade, com a consequente possibilidade de perseguição, de cárcere, de tortura e de morte; ou o disfarce, o simulacro e o “jeitinho”- sobrevive adaptando-se e, ao mesmo tempo, aproveitando todos os espaços, frestas e contradições da dominação para manter e preservar a própria identidade.

Criou-se uma cultura do medo, hoje dominante; cultura da segurança dos grupos abastados, das grades, do exército paralelo de defesa dos opulentos, causadores do conflito básico da sociedade. E do outro lado, gangues, organizações de assaltantes, crime organizado. Essas duas realidades se implicam dialeticamente.

Há uma cultura da corrupção de colarinho branco. Há o mundo do crime organizado no estrato empresarial. No mercado e dentro do próprio aparelho de Estado. Essa política, para ser efetiva, necessita corromper a imprensa, a justiça, as autoridades de controle e a polícia. É o que foi visto de forma exemplar com o chamado “petrolão”, a corrupção em altíssimo grau na Petrobrás e em praticamente em todas as empresas, com corruptor e corruptores e seus mediadores os doleiros.

Há, também, dialeticamente, um outro tipo de violência, que vem das organizações da criminalidade, baseadas na vontade de enriquecer por meio do crime ou mediante o tráfico de drogas, o jogo e a venda de armas e produtos importados. Esta é movida por propósitos individualistas de enriquecimento rápido e pela busca desenfreada de prazer. Aqui funcionam duas regras básicas: a da força bruta das armas de fogo, cada vez mais potentes e sofisticadas, e a posse de muito dinheiro, com o qual tudo se compra.

Há hoje quadrilhas, nos grandes centros urbanos, que se articulam numa organização central; há hierarquia, e os cabeças devem obediência a comandos mais altos. Ali se decide sobre a vida e a morte dos membros das várias gangues. Vigora uma lógica de submetimento total; caso contrário, funciona o mecanismo da eliminação física. Mata-se para mostrar coragem e disposição; mata-se pelo prazer de matar; mata-se para eliminar um adversário do amigo, e assim dar-lhe um agrado ou fazer-lhe uma surpresa; mata-se por qualquer erro, porque deu “derrame”, deu “volta”, porque criou incômodo no arranjo de poder das quadrilhas. A relação do chefe com os subordinados é de total dominação, respectivamente de dependência. Nas guerras entre quadrilhas, produz-se um verdadeiro extermínio de um e de outro lado. A lógica é a da guerra total. No conjunto da CEHAB, no Rio (com 150 mil habitantes), em 13 anos morreram 722 jovens com idade entre 13 e 25 anos (Cf. Alba Zaluar, A criminalização de drogas e o reencantamento do mal. In: Revista do Rio de Janeiro, UERJ, n. 1, 1993, p. 8-15; aqui, 12).

Causas Políticas Da Violência: A Sociedade de Exclusões

         O tipo de sociedade vigente vem organizada na espoliação violenta da mais-valia do trabalho e na exclusão de grande parte da população. O conflito real é entre o capital e o trabalho, que dá origem a uma espantosa desigualdade social e a uma desenfreada luta de classes, com a dominação permanente dos donos do poder desde o início de nossa história. Essa luta cria violência em todos os campos:

  • no campo econômico, com os baixos salários e a privatização da verba pública;
  • no campo político, mediante a produção de uma cidadania menor, que se expressa pela corrida aos cargos públicos por parte dos partidos que dão sustentação ao governo e se valem de benesses públicas; pelos sindicatos pelegos, cooptados ou desnaturados em sua função; pela guerra no campo por falta de reforma agrária e devido às dificuldades de organização participativa;
  • no campo cultural, pelo desprezo à cultura popular e pela dominação da cultura da mídia de massa sobre a população, influenciada pelos estereótipos da cultura globalizada de origem norte-americana;
  • no campo religioso, pelo não-reconhecimento das religiões populares, afros; pela manipulação dos sentimentos religiosos do povo por líderes que transformam os templos em verdadeiras casas de câmbio ou em programas de televisão que propiciam o fundamentalismo e à guerra religiosa; e ainda pela folclorização da piedade popular;
  • no campo educacional, com a escola negada a milhões de pessoas, o que explica o alto índice de analfabetismo real ou funcional e com os professores desestimulados;
  • no campo sanitário, pela falta de cuidado com a saúde do povo, sem hospitais, postos de saúde, remédios e dentistas apesar da criação do SUS e das UPAS. O Brasil real é feito de doentes e de sobreviventes da grande tribulação que os afeta secularmente.

A modernização conservadora, sob a influência do ajustes estruturais, leva a substituir a preocupação pelo desenvolvimento por aquela da estabilização e do combate à inflação sempre beneficiando o mercado e as grandes fortunas. Segundo dados do IBGE de 2013 são 10% da população que controlam 42% renda nacional. Jessé de Souza fornece-nos o número, exatamente 77.440 pessoas de biblionários que influenciam as políticas oficiais, pressionam o Estado e o Parlamento, constituindo o verdadeiro poder oculto do país (Jessé Souza, A tolice da inteligência brasileira, Leya 2015).

Quando vê seus interesses contrariados, não lhes custa, de tempos em tempo, passar por cima da Constituição e dar um golpe de classe, seja usando a força militar como em 1964, seja como em 2016 o impeachment de uma Presidenta eleita, Dilma Rousseff com mais de 54 milhões de votos, contra a qual, pessoalmente não se pode apontar nenhum crime, usando o Parlamento e o Judiciário.

Pouco considera os custos sociais (congelamento da miséria e a pobreza); cobra a integração econômica no mercado mundial, com descaso pela soberania nacional e popular; impõe um diálogo Norte-Sul, mas exclui da agenda os temas da fome mundial, da dívida externa e seus perversos efeitos sociais e atualmente a grave questão do aquecimento global e a degradação crescente das bases físico-químicas que sustentam a vida.

Todo esse processo tem por efeito prolongar a herança trágica e exclusão de milhões de brasileiros que, para sobreviver, têm de continuamente cometer o ilegal, viver do comércio informal, de pequenos roubos e delitos. Sobre eles caem pesadas punições legais e sociais (cf. Ribeiro, H. A identidade do brasileiro: capado, sangrado e festeiro. Petrópolis: Vozes, 1994).

Causas Psicossociais da Violência: O Desejo de Compensação

As classes dominantes internalizaram dentro de si a convicção de que elas tudo podem. E de que são impunes. O autoritarismo ligado à impunidade e, por isso, à corrupção, que tudo acoberta, é uma das origens da violência, como o viu bem a pesquisadora Alba Zaluar (cf. Estatísticas macabras. In: Jornal do Brasil de 1.9.1994, p. 11).

As classes dominadas internalizaram o caráter violento, injusto e desigual de sua situação. Elas não veem seu direito à segurança realizado; têm de se defender por si mesmas. Usam da violência – que, na verdade, é antiviolência, reação a uma violência anterior – como estratégia de sobrevivência e também como meio político de recuperar o que lhes foi negado ou expropriado. Vingam-se assaltando e destruindo. Esse processo, geralmente, não é conscientizado nem racionalizado pelas classes dominadas, no sentido de ser fruto de uma reflexão anterior. É uma reação da lógica do inconsciente, que busca uma compensação e até uma vingança pelo mal de que foram vítimas. Psicanalistas enfatizaram esse tipo de violência (cf. R. Amoretti (org). Psicanálise e violência. Petrópolis: Vozes, 1992)

Rubem Fonseca retratou bem essa situação no seu livro de contos O cobrador (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979). O personagem é um empobrecido da classe média, também chamado na linguagem comum de “marginal”, por praticar atos ilícitos. Ele entende ser sua missão conquistar à força o que julga ter-lhe sido roubado pela sociedade dominante. Por isso, diz:

“Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim, sorvete, bola de futebol. Estão me devendo meia, cinema, filé mignon… Estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume… Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei… sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo” (p. 168, 174, 176, 181).

Aqui há o princípio de um pensamento social construído a partir da criminalidade social. Descobre-se a sociedade de desiguais como causadora da pobreza. Usa-se ainda a força individual, a fim de alcançar a compensação para interesse particular. É uma visão individualista. Por isso, ela não é revolucionária. Na verdade, ela reforça uma visão conservadora, porque, se por um lado questiona a estrutura social iníqua – o que é um problema político -, por outro, não percebe que esta deve ser mudada coletivamente para impedir a perpetuação da injustiça e da desigualdade. O indivíduo busca o seu, pela violência, para se compensar, sem mudar nada no sistema. Um problema político demanda uma solução política, e não meramente individualista.

Político seria organizar grupos marginais no sentido de querer transformar semelhante sociedade mediante processos de conscientização e criação de “organizações orgânicas”, com práticas transformadoras, a partir de um projeto de nova sociedade. Esse discurso apenas apontou em alguns líderes “marginais”, como, há tempos, na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Ao serem presos após um enfrentamento com policiais, declararam que as favelas precisavam de um Lenin e de um Che Guevara. Numa palavra: de revolucionários para instaurar uma nova sociedade sem favelas. Dias após foram todos mortos.

Mas a burguesia e o Estado temem exatamente esse tipo de raciocínio. Pois este, sim, é revolucionário e os ameaça como um todo. Enquanto ficar individualizada, a violência não mete medo. Pelo contrário, o Estado pode aplicar tranquilamente as leis e punir os marginais. E a burguesia se sente segura em sua ordem que, na verdade, é ordem político-jurídica dentro de uma grande desordem social da qual ela é sua principal causa.

A burguesia gosta de dramatizar a violência pelos jornais, pela TV, mostrando os níveis de perversidade dos crimes e o número de vítimas feitas. Consegue elevar a violência urbana ao nível de problema nacional e, num certo tempo, de segurança nacional.

Na verdade, olhando-se os números, morre muito mais gente em acidentes de tráfego (cerca de 50 mil anualmente), em acidentes de trabalho e em consequência da fome e das doenças da fome do que vítimas de assaltos. Aqueles números não ameaçam os detentores do sistema e a ordem que os beneficia. Tal realidade violenta, que mata a cada minuto, não é dramatizada, e por isso é feita socialmente suportável.

A violência urbana vem dramatizada visando a um efeito político: conseguir a perseguição, a prisão e eventualmente a morte dos criminosos. Dessa forma, a classe dominante consegue fazer esquecer que ela está assentada sobre uma violência originária, provocada por ela mesma. Encontra bodes expiatórios nos criminosos comuns. Daí a importância da vigilância, do controle e da repressão, com aparato e circunstância, sobre as populações periféricas ou “marginais” ao sistema. (cf. L. Moscatelli. Política da repressão: força e poder de uma justiça de classe. Rio de Janeiro: Achiamé, 1982).

Causas Individuais da Violência: a Agressividade humana

Há também violência por razões subjetivas em pessoas individuais e em grupos. É conhecida uma clássica discussão científica sobre a origem da agressividade humana. Freud, Einstein. Lorenz, Fromm e outros a abordaram explicitamente. Ultimamente, René Girard, como abordaremos com mais detalhe, pretende estabelecer a arqueologia da violência social.

Para Freud, a agressividade é expressão da dramaticidade da vida humana, cujo motor é a luta renhida entre o princípio de vida (eros) e o princípio de morte (thánatos). Sentindo-se ameaçada, a pessoa se antecipa e agride ou eventualmente mata a outra. Para Freud, é impossível aos humanos controlar totalmente o princípio de morte. Por isso, sempre haverá violência na sociedade. Mas por leis, pela religião, pela educação e, de modo geral, pela cultura pode-se diminuir sua virulência e controlar seus efeitos perversos (cf. Sobre mais além do princípio do prazer. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. 5).

Para Lorenz, a agressividade é um instinto como outros e destina-se a proteger a vida. Mas ela ganhou autonomia, porque a razão construiu a arma mediante a qual a pessoa ou o grupo potencializa sua força e assim pode se impor aos demais. E criou-se uma lógica própria da violência. A solução é encontrar substitutivos: voltar à razão dialogante, aos substitutivos, como o esporte, a democracia, o autodomínio crítico do próprio entusiasmo que leva à cegueira e, daí, à eliminação dos outros.

Mas Lorenz reconhece que a guerra somente desaparecerá quando se der aos homens, por outro modo, aquilo que era conquistado mediante a força bruta (cf. Das sogenannte Böse: Zur Naturgeschichte der Aggression. Viena, 1964).

Essa reflexão nos reconduz ao chão da história. Devemos ser realistas. Da forma como o ser humano está cultural e socialmente estruturado, ele traz consigo consideráveis fatores de violência objetiva. Estes poderão ser minimizados, controlados, mas não totalmente eliminados. E assim chegamos a um ponto radical da análise que importa enfrentar: a raiz originária da violência, a a estrutura do desejo humano articulado para a rivalidade e que gera, assim, conflito e violência. Além disso verificou-se historicamente a ruptura da re-ligação com todas as coisas, tornando-nos inimigos delas e assim passaos a agredi-ls. Analisemos essas perspectivas.

A causa profunda da Violência: A Hipótese no Desejo Mimético

O formulador dessa interpretação é René Girard (1923-), professor de Letras, antropólogo e filósofo francês que vive nos EUA (A violência e o sagrado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990; Le bouc émissaire. Paris: Grasset, 1982; Des choses cachées depuis la fondation du monde. Paris: Grasset, 1978, e outros). Vamos nos deter com mais detalhe nesta interpretação pois possui alto valor explicativo.  Analisando grandes obras literárias e mitos transculturais, Girard observou o seguinte mecanismo: na raiz de tudo, está a estrutura do desejo humano, coisa que os grandes mestres e pensadores sempre viram (Isaías, Aristóteles, Freud, sábios budistas…). O desejo constitui a grande mola propulsora das transformações e da busca do novo.

Mas há uma particularidade, observa Girard, que escapou à análise, geralmente de cunho privatista e subjetivista: no desejo não há apenas dois termos, o sujeito desejante e o objeto desejado; há sempre o outro, o terceiro, que, segundo Girard, funciona como rival. O rival deseja o mesmo objeto que o outro, não por acaso ou por mera coincidência, mas por uma estrutura de fundo, ligada ao próprio desejo humano. Este é tendencialmente infinito. Deseja-se não somente isto e aquilo, mas a totalidade, tudo. É um projeto aberto ao infinito.

Por isso, o ser humano não sabe concretamente o que deseja. O ser, o todo, a parte? Aristóteles já observava que o objeto do desejo é o ápeiron, o todo indeterminado. Por essa porta, entra Girard ao dizer: o desejo se determina somente a partir do rival. Cada pessoa deixa o vago e ganha configuração concreta. Portanto, o desejo é essencialmente mimético. Eis a palavra-chave de Girard: o desejo mimético (mimesis = imitação). O ser humano desejo o que o outro deseja. Um imita o outro.

O desejo mimético, entretanto, é gerador de conflito, pois os dois desejam o mesmo objeto. Entram em rivalidade. Cada um quer tomar exclusivamente para si o objeto e com isso realizar o seu desejo. Para tal efeito, sente-se obrigado a excluir o outro. Esse conflito se agiganta quando entram grupos que coletivamente desejam. Quanto mais pessoas e grupos desejam o mesmo objeto, mais cresce a rivalidade, mais aumenta o conflito, mais se aguça a violência.

O desejo mimético funciona como um feedback: eu imito meu rival; meu rival me imita. O modelo vai tornar-se o modelo de seu modelo. Então, tudo se torna recíproco. Por que essa reciprocidade? pergunta-se Girard. Ele constata que essa reciprocidade, no bem e no mal, nunca foi devidamente analisada pelos antropólogos que dela se ocupam. A partir dela, surge a seguinte lógica: quanto mais se deseja o mesmo objeto, mais se procura imitar o outro e mais e mais se procura destruir o outro, ou destruir o objeto desejado pelo outro ou por todos os outros.

O auge do mimetismo e, com isso, o auge da violência, é alcançado quando os rivais se unem e criam a unanimidade mimética. Todos se unem contra um só, sobre o qual todos realizam o bouling e descarregam sua violência. Os muitos têm diante de si apenas um rival, que importa abater. Ele será a vítima.

O desejo mimético é, pois, essencialmente vitimatório. Produz vítimas por todos os campos onde se expressa o desejo concorrencial humano.

O processo vitimatório é extremamente fecundo. Para Girard, a produção da vítima funda a sociedade e a cultura. Vejamos as razões dessa surpreendente afirmação.

Quando todos (menos um, feito vítima) se unem para descarregar a violência em cima da vítima, criam uma comunidade. Descarregam toda a violência em cima dela. Disso resulta a paz e a harmonia, vistas como graça alcançada pela própria vítima, que, com sua morte, trouxe tal benefício. A vítima aparece como causa da desordem (todos se unem para eliminá-la) e, ao mesmo tempo, causa do retorno da ordem (porque agora, morta, não ameaça a mais ninguém, e todos desaguaram sobre ela sua violência e assim se apaziguaram).

Girard afirma que a criação da vítima (o bode expiatório) é fundadora da comunidade e da cultura. Todos se unem para punir a vítima. A razão reside nisso: se a violência fosse deixada por si mesma, criar-se-ia uma cadeia ininterrupta de violência e de vingança. Um teria de matar o outro, porque esse outro, matou, e assim indefinidamente, como, aliás, aparece claramente nas tragédias gregas. A criação da vítima faz com que todos descarreguem a violência nela, e assim se constitui a comunidade sem violência autodevoradora.

Os gregos chamavam de phármakos (donde vem a palavra farmácia, loja de produtos curativos e farmacêuticos) às vítimas humanas. Eram pessoas que a sociedade mantinha a expensas do erário e que eram sacrificadas em momentos de crise. Nessa ocasião, eram levadas pelas ruas, em todos os cantos da cidade, para absorver as impurezas do ambiente. Eram pessoas a um tempo desprezíveis e respeitáveis. Desprezíveis porque incorporavam toda a perversidade da comunidade. Respeitáveis porque, mediante a sua sacrificação, alcançar-se-ia o apaziguamento da comunidade. Com sua sacrificação, produzir-se-ia um efeito “farmacêutico”, isto é, curativo. Toda a hostilidade e violência latente da cidade ficava drenada e apaziguada pela vítima.

Inicialmente, sacrificava-se um filho, um deficiente físico, um prisioneiro, um escravo, enfim, alguém da família humana. Depois, substituiu-se a vítima por um animal que guardasse certa analogia com os humanos – o cordeiro ou o bode expiatório em quem se pudesse descarregar toda a vingança. A vítima tem sempre uma função vicária: ela está no lugar de toda a comunidade, que, ao descarregar sobre ela sua violência, chega à paz e à concórdia social.

Com o processo civilizatório, procurou-se substituir a vítima pela lei. Não basta sacrificar de vez em quando. O processo do desejo mimético sempre está ativo. Então surge a lei, que cria o interdito e a proibição, e destarte se rompe a cadeia da violência e da vingança. A lei cumpre a função de ordem social. A comunidade, agora, em vez de matar as pessoas (vítimas), aplica-lhes as leis e as penas da lei. Com isso, a sociedade se apazigua, como outrora, quando matava de verdade. Agora mata simbolicamente, impondo penas, isolando as pessoas em cadeias e, em casos-limite, condenando-as legalmente à morte.

Nessa passagem do sacrifício à lei, cria-se, segundo Girard, o rito. Pelo rito se recorda e se celebra o benefício que a vítima trouxe com sua morte; vale dizer, a paz, o apaziguamento e a coes         ao da comunidade. Por fim, elabora-se o mito, que é a narração plástica e dramática de todo esse processo ritualizado.

Lei, rito e mito, consoante René Girard, estão na base de toda cultura e das instituições que dela derivam. Essas três pilastras visam a fechar a boca da vítima; são construídas pelos que sacrificaram a vítima e a mantêm como vítima.

Hoje não fazemos sacrifícios como outrora. Mas temos também nossas vítimas, dentro de mecanismos sacrificialistas quem sabe até mais perversos. Como tese geral, devemos dizer: onde há instituições, rebrota a violência. As instituições são sistemas auto-reguladores e sacrificiais.   Punem, excluem e até eliminam quem não se ajusta a elas. Elas concretizam leis e normas estruturadas, possuem seus ritos e elaboram um mito justificador de sua fundação.

Especialmente sacrificiais são, na atualidade, o sistema econômico e o mercado. Já Adam Smith, pai da economia política, dizia: toda sociedade civilizada deixa morrer aqueles que não chegam a garantir sua subsistência. Quem está no sistema, no conjunto articulado de leis, normas e instituições, vive; quem não está, é alijado e morre.

A harmonia, portanto, está baseada em algo terrível: deixar morrer aqueles que não entram na harmonia. Então, a ordem instituída produz desordem. E vive como ordem na medida em que exclui todos os que não são capazes de entrar nela e nela se manter. Assim é no mercado auto-regulador: quem é forte no mercado, vive e progride; quem é fraco, é apeado, eliminado e excluído do mercado. Quando, portanto, celebra-se a capacidade auto-reguladora do mercado, significa que se está celebrando sua sacrificialidade. O desemprego é necessário para salvar empresas. Poupar empregados, não demiti-los é ser não-sacrificialista. Mas há um preço: ser ineficaz, ficar economicamente fraco, perder na concorrência e se auto-sacrificar, morrendo empresarialmente.

Nesta mesma lógica, cobrar a dívida externa implica gerar um genocídio inconsciente. Por ter de pagar a dívida externa, um governo vê-se obrigado a reduzir os investimentos sociais – em merendas nas escolas, em saúde pública, em saneamento básico (investimentos sem retorno financeiro, apenas social), em segurança -, o que produz a doença e a morte de muitíssimas pessoas, sobretudo velhos e crianças.

Como, entretanto, argumentam os representantes do sistema financeiro? Seria irresponsável não cobrar a dívida externa. Finalmente, há contratos em jogo e existe uma legislação internacional. Ninguém, na esfera dos negócios, dá nada a ninguém. Logo, cobremo-la. Em outras palavras: seria irresponsável não querermos o genocídio implícito. Permitamo-lo. Bem como os nazistas argumentavam: é irresponsável não matar judeus. Existe a legislação sobre a pureza racial. Portanto, matemo-los. É legal. Mas é justo?

Aqui aparece o mecanismo sacrificialista do sistema econômico atual em sua forma contemporânea, neoliberal e mundializada (cf. F. Hinkelhammert. La lógica de la expulsíon del mercado capitalista y el proyecto de liberación. Costa Rica: Pasos, 1992). Ele sacrifica mais pessoas do que os astecas sacrificaram nas pirâmides ou os cananeus à sua estátua de Moloc. Ocorre que os agentes do mercado não reconhecem tal fato. Mas o níveis de miséria, fome e exclusão dos países empobrecidos o comprova irrefutavelmente, pelos índices dos mesmos organismos do mercado, como o Banco Mundial e o FMI.

Aqui caberia uma palavra sobre a necessidade da planificação ao lado do livre mercado auto-regulador. O mercado se auto-regula à custa de sacrifícios crescentes. É função do Estado, como gerenciador do bem comum, numa perspectiva realista, planificar, a fim de reduzir essa voracidade a níveis suportáveis, particularmente em três áreas: garantindo pleno emprego (tendencialmente), cuidando da distribuição da renda e zelando pela preservação da natureza.

A essência ética da opção socialista democrática reside nisso: em não entregar aos mecanismos pretensamente auto-reguladores do mercado a consecução das metas sociais fundamentais. Pelo socialismo democrático se pretender garantir razoavelmente o princípio da destinação comum dos bens da natureza, inclusive os frutos do trabalho humano, formando o bem comum social e ecológico. A crise de 2007-2008 mostrou a falácia do mercado autoregulador. O colapso do Banco Lehman Brothers que levou a uma crise generalizada econômico-financeira foi superado pela intervenção do Estado que impediu a ruina do sistema do capital.

A teoria de Girard acerca do desejo mimético nos permite entender melhor os mecanismos de reprodução da violência. A violência dos marginalizados e oprimidos é reflexo mimético da violência primeira e modelar das classes dominantes, que impedem a realização do desejo das maiorias. Os oprimidos são violentos porque se encontram, à sua revelia, enquadrados numa sociedade violenta. Eles são feitos vítimas sobre as quais a classe dominante descarrega toda a sua violência e elabora a paz entre os lobos. Sua violência é uma reação a uma violência primeira.

A classe dominante (e é dominante porque usa permanentemente a violência), inventa continuamente bodes expiatórios. Precisa inventá-los para esconder sua própria violência. Ora são os pobres, ora os negros, ora os sem-terra, ora os marxistas, ora os subversivos, ora os golpistas ora a Igreja progressista, ora as esquerdas, ora os refratários à modernização neoliberal e à privatização. Objetivando aniquilar a vítima, pode descarregar sobre ela sua violência, aplicar-lhe as leis, puni-la de mil formas, até pela exclusão sistemática do processo de produção e consumo, como vem ocorrendo atualmente em nível mundial. Mais ainda: cria uma interpretação ideológica da situação de permanente crise do Brasil, no sentido de ela ser consequência da escravidão, da miscigenação, do nosso substrato latino-católico-medieval. Tais álibis visam a ocultar o fato de que é ela a causadora principal (não exclusiva) da herança de exclusão que estigmatiza historicamente nossa realidade social.

Na verdade, se bem olharmos, os únicos que trabalharam de fato, de sol a sol, e construíram quase tudo o que existe neste País foram os negros, um dia escravizados. Hoje eles são difamados como preguiçosos, vadios, refratários a todo tipo de trabalho, só pensando em carnaval e em samba. Trata-se de profunda injustiça e mentira histórica. Mas são recursos do desejo mimético das classes dominantes, criando bodes expiatórios para mascarar a própria violência e ocultar a falta de solidariedade e de sentido de justiça histórica com as quais se reparariam as perversidades perpetradas contra os negros e os pobres na história do Brasil.

Por outro lado, as vítimas coletivas não aceitam essa condenação e procuram se defender dentro do mesmo círculo férreo de violência, agora de antiviolência mimética. O círculo fica sempre vicioso, sem chances de ser virtuoso. Isso implicaria uma revolução nas relações sociais, baseadas não mais no desejo mimético, mas no desejo solidário e comunitário.

Certamente, não é fatal que o terceiro, o rival que também deseja, deseja só para si, com exclusão do outro. Há uma atitude alternativa. Ele pode entrar numa parceria com os outros desejantes. Pode construir a solidariedade e a comunhão ao redor do mesmo objeto desejado. Emergiria então outro tipo de sociedade originária; não violenta, mas solidária; não individualista, mas comunional; não dilacerada, mas integrada.

René Girard entrevê no fenômeno cristão a superação da prática sacrificialista. Jesus inaugura outro desejo mimético (desiderio desideravi…desejei ardentemente comer esta páscoa convosco”, do evangelho de Lucas 22,15), aquele da doação e da auto-entrega. Ao sacrifício que elimina o outro, Jesus apresenta o dom de si, livre, amoroso e total, a ponto de se auto-sacrificar por ele. Essa atitude, que rompe a violência, inaugura uma nova comunhão e uma nova comunidade humana, na qual a colaboração, na qual a colaboração e o amor são a lei e a norma. A competitividade é somente o sentido do melhor e do mais generoso em função de todos.

A causa última da violência sistêmica: a ruptura da re-ligação universal

Temos considerado as várias interpretações da violência de caráter generalizado e, de certa forma, misterioso. Mas temos que chegar à última: a ruptura permanente da re-ligação básica que o ser humano introduziu, alimentou e perpetuou com o conjunto do universo e com seu Criador. É aqui que tem o seu lugar a reflexão teológica que possui séculos de existência e que ocupou as mentes mais brilhantes do pensamento, como um Orígenes, um Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Lutero, Calvino e modernamente Karl Barth e Karl Rahner.

Temos a ver aqui com uma dimensão profundamente misteriosa e trágica da história humana e universal. A tradição judeo-cristã chama a essa frustração fundamental de pecado do mundo e a teologia no seguimento de Santo Agostinho que inventou esta expressão: pecado original ou queda original. O original aqui não não tem nada a ver com as origens históricas deste anti-fenômeno, portanto, ao ontem. Mas ao que é originário no ser humano, ao que afeta seu fundamento e sentido radical de ser, portanto, ao agora de sua condição humana.

Pecado também não pode ser reduzido a uma mera dimensão moral ou a um ato falho do ser humano. Temos a ver com uma atitude globalizadora, portanto, com uma subversão de todas as relações nas quais ele está inserido. Trata-se de uma dimensão ontológica que concerne ao ser humano, entendido como um nó de relações. Esse nó se encontra distorcido e viciado, prejudicando todos os tipos de relação.

Importa enfatizar que o pecado original é uma interpretação de uma experiência fundamental, uma resposta a um enigma desafiante. Por exemplo, existe o esplendor de uma cerejeira em flor no Japão e simultaneamente um tsunami em Fukushima que tudo arrasa. Existe uma Madre Teresa de Calcutá que salva moribundos das ruas e um Hitler que envia seis milhões de judeus para as câmaras de gás. Por que esta contradição? Os filósofos e os teólogos continuam quebrando a cabeça para encontrar uma resposta. E até hoje não a encontraram.

Sem entrar nas muitas possíveis interpretações, assumimos uma, pois ganha mais e mais o consenso dos pensadores religiosos: a imperfeição como momento do processo evolucionário. Numa formulação vinda da matemática mas aplicável a toda a realidade: o teorema de Gödel da implenitude te todas as coisas. Nada está completo e fechado. A equação nunca se fecha totalmente.

Teologicamente falando, Deus não criou o universo pronto uma vez por todas, um acontecimento passado, rotundamente perfeito. Senão deslanchou um processo em aberto e perfectível que fará uma caminhada rumo a formas cada vez mais complexas, sutis e perfeitas. Esperamos que um dia chegará a seu ponto Ômega.

A imperfeição não é um defeito mas uma marca da evolução. Ela não traduz o desígnio último de Deus sobre sua criação, mas um momento dentro de um imenso processo. O paraíso terrestre não significa saudade de uma idade de ouro perdida, mas a promessa de um futuro que ainda virá. A primeira página das Escrituras, na verdade, é a última. Vem no começo como uma espécie de maquete do futuro, para que os leitores/as se encham de esperança acerca do fim bom de toda a criação.

São Paulo via a condição decaída da criação como um submetimendo “à vaidade” (mataiótes), não por causa do ser humano, mas por causa de Deus mesmo. O sentido exegético de “vaidade” aponta para o processo de amadurecimento. A natureza não alcançou ainda sua maturidade. Por isso na fase atual se encontra ainda longe da meta a ser alcançada. Daí que a “criação inteira geme até o presente e sofre dores de parto”( Rm 8,22). O ser humano participa deste processo de amadurecimento, gemendo também (Rm 8, 23).

A criação inteira espera ansiosa pelo pleno amadurecimento dos filhos e filhas de Deus. Pois entre eles e resto da criação vigora uma profunda interdependência e re-ligação Quando isso ocorrer, a criação chega também a sua maturidade, pois, como diz Paulo, “participará da gloriosa liberdade dos filhos e filhas de Deus” (Cf. Rm 8, 20).

Então se realiza o desígnio terminal de Deus. Somente agora Deus poderá proferir a esperada palavra: “e viu que tudo era bom”. Por ora, estas palavras são profecias e promessas para o futuro, porque nem tudo é bom. Bem disse o filósofo Ernst Bloch, o do princípio esperança: “o gênesis está no fim e não no começo”. O atraso do ser humano no seu amadurecimento implica no atraso da criação. Seu avanço implica um avanço da totalidade. Ele pode ser um instrumento de libertação ou de emperramento do processo evolucionário.

É aqui que reside o drama: evolução quando chega ao nível humano, alcança o patamar da consciência e da liberdade. O ser humano foi criado criador. Pode intervir na natureza para o bem, cuidando dela ou para o mal devastando-a. Ele começou, quem sabe, desde o surgimento do homo habilis há 2,7 milhões de anos, quando ele criou o instrumento com o qual intervinha sem respeitar nos ritmos da natureza. No começo podia ser apenas um ato. Mas a repetição criou uma atitude de falta de cuidado. Ao invés de estar junto com as coisas, convivendo, colocou-se acima delas, dominando. E houve um crescendo até aos dias atuais.

Com isso rompeu com a solidariedade natural entre todos os seres. Contradisse o desígnio do Criador que quis o ser humano como con-criador e que por seu gênio completasse a criação imperfeita. Este colocou-se no lugar de Deus. Sentiu-se pela força da inteligência e da vontade um pequeno “deus” e comportar-se como se fora Deus de verdade. Nessa hybris, nessa arrogância se encontra a raiz última da agressividade e da violência.

Esta é a grande ruptura com a natureza e com o Criador que subjaz à estrutura de todas as socidades e hoje, à crise ecológica. O problema está no tipo de ser humano que se forjou na história, mais uma “força geofísica de destruição”(E.Wilson) que um fator de cuidado e preservação. Paul Creutzen, prêmio Nobel de química cunhou a expressão o antropoceno como uma nova era geológica, segundo a qual o ser humano surge como o grande agressor sistemático do sistema-vida e do sistema-Terra.

A cura reside na re-ligação com todas as coisas renunciando a todo tipo de violência. Em seu lugar colocar o seu oposto que é o cuidado e corresponsabilidade para com todas as coisas. Não necessariamente precisa ser mais religioso, mas mais humilde, sentindo-se parte da natureza, mais responsável por sua sustentabilidade e amigo da vida. Ele precisa voltar à Terra da qual se exilou e sentir-se seu guardião e cuidador. Então será refeito o contrato natural que tira as bases da violência social,  entre os seres humanos e a natureza.

E se ainda se abrir ao Criador, saciará sua sede infinita e colherá como fruto a paz, não mais ameaçada pela violência (fim da primeira parte)

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e professor emérito de ética e filosofia da religião da UERJ e portador do Prêmio Nobel Alternativo da Paz pelo Parlamento sueco e membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra e professor visitante em várias universidades estrangeiras como Basel, Heidelberg, Harvard, Lisboa e Salamanca.

 

 

Voltar ao primeiro artigo da Constituição

10/07/2016

Quando há uma crise generalizada como esta que estamos vivendo e sofrendo sem perspectiva de uma saída que crie consenso, não temos outra alternativa senão voltar à fonte do poder politico, expressão da soberania de um povo. Temos que resgatar todo o valor do primeiro artigo da Constituição, parágrafo único:”Todo poder emana do povo”.

O povo é, pois, o sujeito ultimo do poder. Em momentos em que uma nação se encontra num voo cego e perdeu o rumo de seu destino, este povo deve ser convocado para dizer que tipo de país quer e que tipo de democracia deseja: esta com um presidencialismo de coalizão, feito de negócios e negociatas para garantir uma suficiente base parlamentar ou uma democracia de verdade, na qual os representantes eleitos representam efetivamente os eleitores e não os interesses corporativos e empresariais que lhe garantiram a eleição? Urge avançar mais: precisamos dar forma política à vontade de participação por parte do povo organizado nos destinos do país, mostrada nas jornadas de 2013.

No fundo volta a questão básica: vamos nos alinhar aos que detém o poder mundial (inclusive de matar todo mundo) ou vamos construir o nosso caminho autônomo, soberano e aberto à nova fase planetizada da humanidade?

O primeiro projeto prolonga a história ocorrida até os dias de hoje: desde a Colônia, passando pelo Império e pela República sempre fomos mantidos subalternos. Os ibéricos não vieram para fundar aqui uma sociedade mas para montar uma grande empresa internacional privada, uma verdadeira. agro-indústria, destinada a abastecer o mercado mundial. Essa lógica perdura até os dias atuais: tentar transformar nosso eventual futuro em nosso conhecido passado. Ao Brasil cabe ser o grande fornecedor de commodities sem ou com parca tecnologia e valor agregado, num processo de recolonização.

Lamentavelmente este é o intento do atual governo interino, especialmente do PSDB que claramente se alinha a um severo neoliberalismo que implica diminuição do Estado, ataque aos direitos sociais em favor do mercado e uma inescrupulosa privatização de bens públicos como o pré-sal entre outros.

O projeto alternativo finca suas raízes na cultura brasileira e no aproveitamento de nossa imensa riqueza que nos pode sustentar como nação independente, soberana e aberta a todas as demais nações. Seríamos uma grande potência, não militarista, nos trópicos, com uma economia, entre as maiores do mundo com um mercado interno vigoroso.

Curiosamente, as jornadas de junho de 2013 e posteriormente, mostraram que o povo percebeu os limites da formação social para os negócios. Quer ser sociedade, quer outras prioridades sociais, quer outra forma de ser Brasil. Numa palavra, quer ser uma sociedade de humanos,de cidadãos ativos, coisa diversa da sociedade de negócios. Tal propósito implica refundar o Brasil sobre outras bases.

Mas quem escutou, de verdade,  o clamor das ruas, especialmente, dos jovens? Efetivamente ninguém, pois tudo ficou mais ou mewnos como antes.

O que, na verdade, nos faltou em nossa história, foi uma verdadeira revolução como houve na França, na Itália e em outros países que desse um novo rumo ao Brasil com novos sujeitos de poder. Mas o tempo das revoluções passou. Hoje preferimos falar em processos de transformação, como tentei elaborar junto um cosmólogo canadense, Mark Hathaway em nosso livro O Tao da libertação:explorando a ecologia da transformação (Vozes 2012, livro premiado nos USA com a medalha de ouro em ciência e cosmologia). Mas as transformações atingem o coração do sistema e dão origem a um novo paradigma de exercício de poder visando antes de tudo a preservação das bases ecológicas que sustentam nossa vida, a civilização, a natureza e o planeta Terra, tida como um super Ente vivo. Mas este seria outro tema que que nos levaria longe.

Importa reconhecer que a história nunca é uma continuidade, algo que cresce organicamente de uma para outra coisa. Ela é feita de descontinuidades e rupturas radicais, transformações que derrubam uma ordem e instauram uma nova.

No Brasil, como sempre lamentava Celso Furtado, nunca tivemos essa ruptura. O que predominou em todo o tempo até hoje é a política de conciliação entre os poderosos e as elites que controlam o ter, o saber e o poder.  O povo sempre ficou de fora como incômodo aos acertos feitos por cima e contra ele.

O que está ocorrendo agora com a tentativa de impeachment da Presidenta Dilma Roussef, legitimamente eleita, é de dar continuidade a esta política de conciliação das elites, do capital rentista e financeiro, daqueles 10%, segundo o IBGE de 2013 que controlam 42% da renda nacional, articulados com o judiciário e com a grande mídia conservadora.  Jessé Souza do IPEA os enumera: são 71.440 super ricos que, por trás manejam o Estado e os rumos da economia na perspectiva de seus intersses, absolutamente egoistas, conservadores e anti-populares.

Não lhes importa a perversa desigualdade social, uma das maiores do mundo, que se traduz em favelização de nossas cidades, violência incontrolável, geração de humilhação, preconceito e degradação social por falta de infra-etrutura, de saúde, de escola e de transporte.

Se o Brasil foi fundado como empresa e para continuar como empresa transnacionalizada, é hora de se refundar como sociedade de cidadãos criativos e conscientes de seus valores.

O meu sonho é que a atual crise com o sofrimento que encerra, não seja em vão. Que ela crie as bases para o que Paulo Freire chamaria de “o inédito viável”: nunca mais coalização entre os poucos ricos de costas para as grandes maiorias. Que se busque viabilizar o que prescreve a Constituição em seu terceiro artigo (IV):”promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.”

Leonardo Boff é articulista do Jornal do Brasil online e escritor.

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