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Quarenta anos da Teologia da Libertação

09/08/2011

Teologia da Libertação celebra neste ano de 2011 40 anos de existiencia. Em 1971 Gustavo Gutiérrez publicana no Peru seu livro fundador “Teologia da Libertação.Perspectivas”. Eu publicava também em 1971 em forma de artigos, numa revista de religiosas – Grande Sinal – para escapar da repressão militar o meu Jesus Cristo Libertador, depois lançado em livro. Ninguém sabia um do outro. Mas estávamos no mesmo espírito. Desde então surgiram três gerações de teólogos e teólogas que se inscrevem dentro da Teologia da Libertação. Hoje ela está em todos os continentes e representa um modo diferente de fazer teologia, a partir dos condenados da Terra e da periferia do mundo.Aqui vai um pequeno balanço destes 40 anos de prática e de reflexão libertadoras.

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A Teologia da Libertação participa da profecia de Simeão a respeito do menino (Jesus): ela será motivo de queda e de elevação, será um sinal de contradição (Lc 2,34). Efetivamente a Teologia da Libertação é uma teologia incomprendida, difamada, perseguida e condenada pelos poderes deste mundo. E com razão. Os poderes da economia e do mercado a condenam porque cometeu um crime para eles intolerável: optou por aqueles que estão fora do mercado e são zeros econômicos. Os poderes eclesiásticos a condenaram por cair numa “heresia”prática ao afirmar que o pobre pode ser construtor de uma nova sociedade e também de outro modelo de Igreja. Antes de ser pobre, ele é um oprimido ao qual a Igreja deveria sempre se associar em seu processo de libertação. Isso não é politizar a fé mas praticar uma evangelilzação que inclui também o político. Consequentemente, quem toma partido pelo pobre-oprimido sofre acusações e marginalizações por parte dos poderosos seja civis, seja religiosos.
Por outro lado, a Teologia da Libertação representa uma benção e uma boa nova para os pobres. Sentem que não estão sós, encontraram aliados que assumiram sua causa e suas lutas. Lamentam que o Vaticano e boa parte dos bispos e padres construam no canteiro de seus opressores e se esquecem que Jesus foi um operário e pobre e que morreu em consequência de suas opções libertárias a partir de sua relação para com o Deus da vida que sempre escuta o grito dos oprimidos.
De qualquer forma, numa perspectiva espiritual, é para um teólogo e uma teóloga comprometidos e perseguidos uma honra participar um pouco da paixão dos maltratados deste mundo.

1. A centralidade do pobre e do oprimido

O punctum stantis et cadentis da Teologia da Libertação é o pobre concreto, suas opressões, a degradação de suas vidas e os padecimentos sem conta que sofre. Sem o pobre e o oprimido não há Teologia da Libertação. Toda opressão clama por uma libertação. Por isso, onde há opressão concreta e real que toca a pele e faz sofrer o corpo e o espírito ai tem sentido lutar pela libertação. Herdeiros de um oprimido e de um executado na cruz, Jesus, os cristãos encontram em sua fé mil razões por estarem do lado dos oprimidos e junto com eles buscar a libertação. Por isso a marca registrada da Teologia da Libertação é agora e será até o juizo final: a opção pelos pobres contra sua pobreza e a favor de sua vida e liberdade.
A questão crucial e sempre aberta é esta: como anunciar que Deus é Pai e Mãe de bondade num mundo de miseráveis? Este anúncio só ganhará credibilidade se a fé cristã ajudar na libertação da miséria e da pobreza. Então tem sentido dizer que Deus é realmente Pai e Mãe de todos mas especialmente de seus filhos e filhas flagelados.
Como tirar os pobres-oprimidos da pobreza, não na direção da riqueza, mas da justiça? Esta é uma questão prática de ordem pedagógico-política. Identificamos três estratégias.
A primeira interpreta o pobre como aquele que não tem. Então faz-se mister mobilizar aqueles que têm para aliviar a vida dos que não têm. Desta estratégia nasceu o assistencialismo e o paternalismo. Ajuda mas mantém o pobre dependente e à mercê da boa vontade dos outros. A solução tem respiração curta.
A segunda interpreta o pobre como aquele que tem: tem força de trabalho, capacidade de aprendizado e habilidades. Importa formá-lo para que possa ingressar no mercado de trabalho e ganhar sua vida. Enquandra o pobre no processo produtivo, mas sem fazer uma crítica ao sistema social que explora sua força de trabalho e devasta a natureza, criando uma sociedade de desiguais, portanto, injusta. É uma solução que ajuda favorece o pobre, mas é insuficiente porque o mantém refém do sistema, sem libertá-lo de verdade.
A terceira interpreta o pobre como aquele que tem força histórica mas força para mudar o sistema de dominação por um outro mais igualitário, participativo e justo, onde o amor não seja tão difícil. Esta estratégia é libertária. Faz do pobre sujeito de sua libertação. A Teologia da Libertação, na esteira de Paulo Freire, assumiu e ajudou a formular esta estratégia. É uma solução adequada à superação da pobreza. Esse é o sentido de pobre da Teologia da Libertação.
Só podemos falar de libertação quando seu sujeito principal é o próprio oprimido; os demais entram como aliados, importantes, sem dúvida, para alargar as bases da libertação. E a Teologia da Libertação surge do momento em que se faz uma reflexão crítica à luz da mensagem da revelação desta libertação histórico-social.

2.Teologia da Libertação e movimentos por libertação

Entretanto, só entenderemos adequadamente a Teologia de Libertação se a situarmos para além do espaço eclesial e dentro do movimento histórico maior que varreu as sociedades ocidentais no final dos anos 60 do século passado. Um clamor por liberdade e libertação tomou conta dos jovens europeus, depois norte-americanos e por fim dos latino-americanos.
Em todos os âmbitos, na cultura, na política, nos hábitos na vida cotidina derrubaram-se esquemas tidos por opressivos. Como as igrejas estão dentro do mundo, membros numerosos delas foram tomados por este Weltgeist. Trouxeram para dentro das Igrejas tais anseios por libertação. Começaram a se perguntar: que contribuição nós cristãos e cristãs podemos dar a partir do capital específico da fé cristã, da mensagem de Jesus que se mostrou, segundo os evangelhos, libertador? Esta questão era colocada por cristãos e cristãs que já militavam politicamente nos meios populares e nos partidos que queriam a transformação da sociedade.
Acresce ainda o fato de que muitas Igrejas traduziram os apelos do Concilio Vaticano II de abertura ao mundo, para o contexto latinoamericano, como abertura para o sub-mundo e uma entrada no mundo dos pobres-oprimidos. Deste impulso, surgiram figuras proféticas, nasceram as CEBs, as pastorais sociais e o engajamento direto de grupos cristãos em movimentos políticos de libertação. Para muitos destes cristãos e cristãs e mesmo para uma significativa porção de pastores não se tratava mais de buscar o desenvolvimento. Este era entenddo como desenvolvimento do subdsenvolvimento, portanto, como uma opressão. Demandava, portanto, um projeto de libertação.
Portanto, a Teologia da Libertação não caiu do céu nem foi inventada por algum teólogo inspirado. Mas emergiu do bojo desse movimento maior mundial e latino-americano, por um lado político e por outro eclesial. Ela se propôs pensar as práticas eclesiais e políticas em curso à luz da Palavra da Revelação. Ela comparecia como palavra segunda, crítica e regrada, que remetia à palavra primeira que é a prática real junto e com os oprimidos. Alguns nomes seminais merecem ser aqui destacados que, por primeiro, captaram a relevância do momento histórico e souberam encontrar-lhe a fórmula adequada, Teologia da Libertação: Gustavo Gutiérrez do Peru, Juan Luiz Segundo do Uruguai, Hugo Asmann do Brasil e Enrique Dussel e Miguez Bonino, ambos da Argentina. Esta foi a primeira geração. Seguiram-se outras.

3. Os muitos rostos dos pobres e oprimidos

A Teologia da Libertação partiu diretamente dos pobres materiais, das classes oprimidas, dos povos desprezados como os indígenas, negros marginalizados, mulheres submetidas ao machismo, das religiões difamadas e outros portadores de estigmas sociais. Mas logo se deu conta de que pobres-oprimidos possuem muitos rostos e suas opressões são, cada vez, específicas. Não se pode falar de opressão-libertação de forma generalizada. Importa qualificar cada grupo e tomar a sério o tipo de opressão sofrida e sua correspondente libertação ansiada.
Desmascarou-se o sistema que subjaz a todas estas opressões, construido sobre o submetimento dos outros e da depredação da natureza. Dai a importância do diálogo que a Teologia da Libertação conduziu com a economia políica capitalista. De grande relevância crítica foi a releitura da história da América Latina a partir das vítimas, desocultando a perversidade de um projeto de invasão coletivo no qual o colono ou o militar vinha de braço dado com o missionário. Esse casamento incestuoso produziu, segundo o historiador Oswald Spengler, o maior genocídio da história. Até hoje nem as potências outrora coloniais nem a Igreja institucional tiveram a honradez de reconhecer esse crime histórico, muito menos de fazer qualquer gesto de reparação.
Sem entrar em detalhes, surgiram várias tendências dentro da mesma e única Teologia da Libertação: a feminista, a indígena, a negra, a das religiões, a da cultura, a da história e da ecologia. Logicamente, cada tendência se deu ao trabalho de conhecer de forma crítica e científica seu objeto, para poder retamente avaliá-lo e atuar sobre ele de forma libertadora à luz da fé.

4. Como fazer uma teologia de libertação

Aqui cabe uma palavra sobre o como fazer uma teologia que seja libertadora, quer dizer, cabe abordar o método da Teologia da Libertação. O método seja talvez uma de suas contribuições mais notáveis que este modo de fazer teologia trouxe ao quefazer teológico universal. Parte-se antes de mais nada de baixo, da realidade, a mais crua e dura possível, não de doutrinas, documentos pontifícios ou de textos bíblicos. Estes possuem a função de iluminação mas não de geração de pensamento e de práticas.
Face à pobreza e à miséria, a primeira reação foi, tipicamente, jesuânica, a do miserior super turbas, de compaixão que implica transportar-se à realidade do outro e sentir sua paixão. É aqui que se dá uma verdadeira experiência espiritual de encontro com aqueles que Bartolomeu de las Casas no México e Guamán Poma de Ayala no Peru chamavam de os Cristos flagelados da história. Há um encontro de puro espírito com o Cristo crucificado que quer ser baixado da cruz. Esta experiência espiritual de compaixão só é verdadeira se der origem a um segundo sentimento o de iracundia sagrada que se expessa: “isso não pode ser, é inaceitável e condenável; deve ser superado”.
Destes sentimentos surge imediatamente a vontade de fazer alguma coisa. É nesse momento que entra a racionalidade que nos ajuda a evitar enganos, fruto da boa vontade mas sem crítica. Sem análise corre-se o risco do assistencialismo e do mero reformismo que acabam por reforçar o sistema. O conhecimento dos mecanismos produtores da pobreza-opressão nos mostra a necesidade de uma transformação e libertação, portanto de algo novo e alternativo. Em seguida, buscam-se as mediações concretas que viabilizam a libertação, sempre tendo como protagonista principal o próprio pobre. Aqui entra a funcionar outra lógica, aquela das metas, das táticas e estratégias para alcançá-las, das alianças com outros grupos de apoio e da avaliação da correlação de forças, do juizo prudencial acerca da reação do sistema e de seus agentes e da possibilidade real de avanço. Alcançada a meta, vale a celebração e a festa que congraçam as pessoas, lhes conferem sentimento de pertença e do reconhecimento da própria força transformadora. Então constatam empiricamente que um fraco mais um fraco não são dois fracos, mas um forte, porque a união faz a força histórica transformadora.
Resumindo: estes são os passos metodológicos da Teologia a Libertação: (1) um encontro espiritual, vale dizer, uma experiência do Crucificado sofrendo nos crucificados. (2) uma indignação ética pela qual se condena e rejeita tal situação como desumana que reclama superação;(3) um ver atento que implica uma análise estrutural dos mecanismos produtores de pobreza-opressão; (4)um julgar crítico seja aos olhos da fé seja aos olhos da sã razão sobre o tipo de sociedade que temos, marcada por tantas injustiças e a urgência de transformá-la; (5) um agir eficaz que faz avançar o processo de libertação a partir dos oprimdiso; (5) um celebrar que é um festejar coletivo das vitórias alcançadas.
Esse método é usado na linguagem do cotidiano seja pelos meios populares que se organizam para resistir e se libertar, seja pelos grupos intermediários dos agentes de pastoral, de padres, bispos, religiosos e religiosas e leigos e leigas cujo discurso é mais elaborado, seja pelos próprios teólogos que buscam rigor e severidade no discurso.

5. Contribuições da Teologia da Libertação para a teologia universal

A Teologia da Libertação, por causa da perspectiva dos pobres que assumiu, revelou dimensões diferentes e até novas da mensagem da revelação. Em primeiro lugar, ela propiciou a reapropriação da Palavra de Deus pelos pobres. Em suas comunidades e círculos bíblicos aprenderam comparar página da Bíblia com a página da vida e dai tirar consequências para sua prática cotidiana. Lendo os Evangelhos e se confrontando com o Jesus de Nazaré, artesão, factotum e campones mediterrâno, perceberam a contradição entre a condição pobre de Jesus e a riqueza da grande instituição Igreja. Esta está mais próxima do palácio de Herodes do que da gruta de Belém. Com respeito aprenderam a fazer suas críticas ao exerício centralizado do poder na Igreja e ao fechamento doutrinal face a questões importantes para a sociedade como é a moral familiar e sexual.
A Teologia da Libertação nos fez descobrir Deus como o Deus da vida, o Pai e Padrinho dos pobres e humildes. A partir de sua essência, como vida, se sente atraido pelos que menos vida têm. Deixa sua transcendência e se curva para dizer:”ouvi a opressão de meu povo…desci para libertá-lo”(Ex 3,7). A opção pelos pobres encontra seu fundamento na própria natureza de Deus-vida.
Revelou-nos também a Jesus como libertador. Ele é libertador, não porque assim o chamam os teólogos da libertação, mas por causa do testemunho dos Apóstolos. Ele libertou do pecado mas também da doença, da fome e da morte. Jesus não morreu. Foi assassinado porque viveu uma prática libertária que ofendia as convenções e tradições da época. Anunciou uma proposta – o Reino de Deus – que implicava uma revolução em todas as relações; não apenas entre Deus e os seres humanos, mas também na sociedade e nos cosmos. O Reino de Deus se contrapunha ao Reino de César, o que representava um ato político de lesa-majestade. O Imperador revindicava para si o título de Deus e até de “Deus de Deus”, coisa que o credo cristão mais tarde atribuirá a Cristo. A ressurreição, ao lado de outros significados, emerge como a inauguração do “novissimus Adam”(1Cor 15,45), como uma “revolução na evolução”.
Permitiu-nos identificar em Maria, não apenas aquela humilde serva do Senhor que diz fiat mas a profetiza que clama pelo Deus Go’El, o vingador dos injustiçados, aquele que derruba dos tronos os poderosos e eleva os humildes (Lc 1, 51-52). Ela clarificou também a missão da Igreja que é atualizar permanentemente, para os tempos e lugares diferentes, a gesta libertadora de Jesus e manter vivo seu sonho de um Reino de Deus que começa pelos últimos, os pobres e excluidos e que se estende até à criação inteira será finalmente resgatada, onde vige a justiça, o amor incondicional, o perdão e a paz perene.

6. A Teologia da Libertação como revolução espiritual

As reflexões que acabamos de fazer nos permitem dizer: a Teologia da Libertação produziu uma revolução teológico-espiritual. Não houve muitas revoluções espirituais no Cristianismo. Mas sempre que elas ocorrem, se resignificam os principais conteúdos da fé, como assinalamos acima, emerge uma nova vitalidade e a mensagem cristã libera dimensões insuspeitadas, gerando vida e santidade.
É a primeira teologia histórica que nasceu na periferia do cristianismo e distante dos centros metropolitanos de pensamento. Ela denota uma maturação inegável das Igrejas-filhas que conseguem articular, com sua linguagem própria, a mensagem cristã, sem romper a unidade de fé e a comunhão com as Igrejas-mães.
Nunca na história do cristianismo os pobres ganharam tanta centralidade. Eles sempre estiveram ai na Igreja e foram destinatários dos cuidados da caridade cristã. Mas aqui se trata de um pobre diferente, que não quer apenas receber mas dar de sua fé e inteligência. Trata-se do pobre que pensa, que fala, que se organiza e que ajuda a construir um novo modelo de Igreja-rede-de-comunidades. Os pastores de estilo autoritário não temem o pobre que silencia e obedece. Mas tremem diante do pobre que pensa, fala e participa na definição de novos rumos para a comunidade. São cristãos com consciência de sua cidadania eclesial.
A irradiação da Teologia da Libertação alcançou o aparelho central da Igreja Católica, o Vaticano. Influenciadas pelos setores mais conservadores da própria Igreja latinoamericana e das elites políticas conservadoras, as instâncias doutrinárias sob o então Card. Joseph Ratzinger reagiram, em 1984 e 1986, com críticas contra a Teologia da Libertação.
Mas se bem repararmos, não se fazem condenações cerradas. Tais autoridades chamam a atenção para dois perigos que acossam este tipo de teologia: a redução da fé à política e o uso não-crítico de categorias marxistas. Perigos não são erros. Evitados, eles deixam o caminho aberto e nunca invalidam a coragem do pensamento criativo. Apesar das suspeitas e manipulações que se fizeram destes dois documentos oficiais, a Teologia da Libertação pôde continuar com sua obra.
Por esta razão entendemos que o Papa João Paulo II, com mais espírito pastoral que doutrinal, tenha enviado uma Mensagem ao Episcopado do Brasil no dia 6 de abril de 1986 na qual declara que esta a Teologia da Libertação, em condições de opressão, “não é somente útil mas também necessária”.
Mas sobre a figura do então Card. Joseph Ratzinger pesa uma acusação irremissivel, que seguramente passará negativamente para a história da teologia: a de ter-se revelado inimigo da inteligência dos pobres e de seus aliados e de ter condenado a primeira teologia surgida na periferia da Igreja e do mundo que conferia centralidade à dignidade dos oprimidos.
Efetivamente, proibiu que mais de cem teólogos de todo o Continente elaborassem uma coleção de 53 tomos- Teologia e Libertação – como subsídio a estudantes e a agentes de pastoral que atuavam na perspectiva dos pobres. Mais que um erro de governo, foi um delito contra a eclesialidade e um escárneo aos pobres pelos quais deverá responder diante de Deus. Também para ele vale o dito: na tarde sua vida, os pobres serão seus juizes dos quais esperamos que tenham para com o Cardeal mais misericórdia que severidade, diante de tanta ignorância e arrogância de quem se poderia esperar apoio entusiasmado e acompanhamento diligente.
Ao contrário, muitos teólogos foram postos por ele sob vigilância, advertidos, marginalizados em suas comunidades, acusados, proibidos de exercer o ministério da palavra, afastados de suas cátedras ou submetidos a processos doutrinários com “silêncio obsequioso”. Esta rigidez não dminuiu ao fazer-se Papa, mas continuou com renovado fervor. Et est videre miseriam.
A Teologia da Libertação devolveu dignidade e relevância à tarefa da Teologia. Conferiu-lhe um inegável caráter ético. Os teólogos desta corrente, sem renunciar ao estudo e à pesquisa, se associaram à vida e a causa dos condenados da Terra. No apoio a seus movimentos correram riscos. Muitos conheceram a prisão, a tortura e outros o martírio. Ousamos dizer que a Teologia da Libertação junto com a Igreja da Libertação que lhe subjaz é um dos poucos movimentos eclesiais que no século XX conheceu o martírio, curiosamente praticados por cristãos repressores, atingindo leigos e leigas, religosas e religiosos, pastores, teólogos e teólogas não poupando mesmo bispos como Dom Angelelli da Argentina e Dom Oscar Arnulfo Romero de El Salvador. É o sinal da verdade desta opção pelos pobres.
Por fim, a Teologia da Libertação chama as demais teologias à sua responsabilidade social no sentido de colaborarem na gestação de um mundo mais justo e fraterno. Sua missão não se esgota numa diligência ad intra, ao espaço eclesial. Se ela não quiser escapar da indiferença e do cinismo deve se deixar mover pelo grito dos oprimidos que sobe das entranhas da Terra. Poucos são os que escutam esse clamor. Uma teologia que silencia diante do tragédia dos milhõs de famélicos e condenados a morrer antes do tempo, não tem nada a dizer sobre Deus ao mundo.

7. A Teologia da Libertação como revolução cultural

Por fim, a Teologia não representou apenas uma revolução espiritual. Ela significou também uma revolução cultural. Contribuiu para que os pobres ganhassem visibilidade e consciência de suas opressões. Gestou cristãos que se fazeram cidadãos ativos e a partir de sua fé se empenharam em movimentos sociais, em sindicatos e em partidos no propósito de dar corpo a um sonho, que tem a ver com o sonho de Jesus, o de construir uma convivência social na qual o maior número possa participar e todos juntos possam forjar um futuro bom para a humanidade e para a natureza.
É mérito da Igreja da Libertação com sua Teologia da Libertação subjacente ter contribuido decididamente na construção do Partido dos Trabalhadores, do Movimento dos Sem Terra, do Conselho Indigenista Missionário, da Comissão da Pastoral da Terra, da Pastoral da Criança, dos Hansenianos e dos portadores do virus HIV que foram os instrumentos para praticar a libertação e assim realizar os bens do Reino. Aqui o cristianismo mostrou e mostra a primazia da ortopraxis sobre a ortodoxia e a importância maior das práticas sobre as prédicas.
Nascida na América Latina, esta teologia se expandiu por todo o terceiro mundo, na Africa, na Asia, especialmente naquelas Igrejas particulares que penetraram no universo dos pobres e oprimdos e em movimentos dos paises centrais ligados à solidariedade internacional e ao apoio às lutas dos oprimidos, na Europa e nos Estados Unidos. De forma natural, ela se associou ao Forum Social Mundial e encontrou lá visibilidade e espaço de contribuição às grandes causas vinculadas ao um outro mundo possível e necessário, articulando o discurso social com o discurso da fé.
Em todas as questões abordadas, a preocupação é sempre essa: como vai a caminhada dos pobres e dos oprimdos no mundo? Como avança o Reino com seus bens e que obstáculos encontra pela frente, vindos da própria instituição eclesial, não raro tardia em tomar posições e insensível aos problemas do homem da rua e aqueles derivados principalmente das estratégias dos poderosos, decididos em manter invisíveis e silenciados os oprimidos para continuarem sua perversa obra de acumulação e dominação.

8. O futuro da Teologia da Libertação

Que futuro tem e terá a Teologia da Libertação? Muitos pensam e lhe interessa pensar assim que ela é coisa dos anos 70 do século passado e que já perdeu atualidade e relevância. Só mentalidades cínicas podem alimentar tais desejos, totalmente alienadas com o que passa com o planeta Terra e com o destino dos pobres no mundo. O desafio central para o pensamento humanitário e para a Teologia da Libertação é exatamente o crescente aumento do número de pobres e o acelerado aquecimento global e a opressão dos pobres. Lamentavelmente, cada vez menos pessoas, grupos e igrejas estão dispostos a ouvir seu clamor canino que se dirige ao céu. Uma Igreja e uma teologia que se mostram insensíveis a esta paixão se colocam a quilômetros luz da herança de Jesus e da libertação que ele anunciou e antecipou.
A Teologia da Libertação não morreu. Ela é atualmente mais urgente do que quando surgiu no final dos anos 60 do século XX. Apenas ficou mais invisível pois saiu do foco das polêmicas que interessam a opinião pública. Enquanto existirem neste mundo pobres e oprimidos haverá pessoas, cristãos e Igrejas que farão suas as dores que afligem a pele dos pobres, suas as angústias que lhes entristecem a alma e seus os golpes que lhes atingem o coração. Estes atualizarão os sentimentos que Jesus teve para com a humanidade sofredora.
No contexto atual de degradação da Mãe Terra e da devastação continuada do sistema-vida, a Teologia da Libertação entendeu que dentro da opção pelos pobres deve incluir maximamente a opção pelo grande pobre que é o Planeta Terra.
Ele é vítima da mesma lógica que explora as pessoas, subjuga as classes, domina as nações e devasta a natureza. Ou nos libertamos desta lógica perversa ou ela nos poderá levar a uma catástrofe social e ecológica de dimensões apocalípticas, não excluída a possibilidade até da extinção da espécie humana. A inclusão desta problemática, quiça, a mais desafiante de nosso tempo, fez nascer uma vigorosa Ecoteologia da Libertação. Ela se soma a todas as demais iniciativas que se empenham por um outro paradigna de relação para com a natureza, com outro tipo de produção e com formas mais sóbrias e solidárias de consumo.
Que futuro tem a Teologia da Libertação? Ela tem o futuro que está reservado aos pobres e oprimidos. Enquanto estes persistirem há mil razões para que haja um pensamento rebelde, indignado e compassivo que se recusa aceitar tal crueldade e impiedade e se empenhará pela libertação integral.
Ela não terá lugar dentro do atual sistema capitalista, máquina produtora de pobreza e de opressão. Ela só poderá existir na forma de resistência, sob perseguições, difamações e martírios. Mesmo assim, porque nenhum sistema é absolutamente fechado, ela poderá colocar cunhas por onde o pobre e o oprimido construirão espaços de liberdade. Por isso, a Teologia da Libertação possui uma clara dimensão política: ela quer a mudança da sociedade para que nela se possam realizar os bens do Reino e os seres humanos possam conviver como cidadãos livre e participantes.
Que futuro tem a Teologia da Libertação denro do tipo de Igreja-instituição que possuimos? Mantido o atual sistema, cujo eixo estruturador é a sacra potestas, o poder sagrado, centralizado somente na hierarquia, ela só poderá ser uma teologia no cativeiro e relegada à marginalidade. Ela é disfuncional ao pensamento oficial e ao modo como a Igreja se organiza hierarquicamente: de um lado o corpo clerical que detém o poder sagrado, a palavra e a direção, e do outro, o corpo laical, sem poder, obrigado a ouvir e a obedecer. Na esteira do Concílio Vaticano II, a Teologia da Libertação se baseia num conceito de Igreja comunhão, rede de comunidades Povo de Deus e poder sagrado como serviço.
Esta visão de Igreja foi nos últimos decênios praticamente anulada por uma política curial de volta à grande disciplina e pelo reforço à estrutura hierárquica de orgnização eclesial.
Assim se fecharam as portas à conciliação tentada pelo Concílio Vaticano II entre Igreja Povo de Deus e Igreja Hierárquica, entre Igreja-poder e Igreja-comunhão. O difícil equilíbrio alcançado foi logo rompido ao se entender a comunhão como comunhão hierárquica, o que anula o conteúdo inovador deste conceito que supõe a participação equânime de todos e a hierarquia funcional de serviços e não a hiierarquia ontológica de poderes. A burocracia vaticana e os Papas Wojtyla e Ratzinger nterpretaram o Vaticano II à luz do Vaticano I centralizando novamente a Igreja ao redor do poder do Papa e esvaziando os poucos órgãos de colegialidade e participação.
Não devemos ocultar o fato de que ao optar pelo poder a Igreja institituição optou pelos que também têm poder, numa palavra, os ricos. Os pobres perderam centralidade. A eles está reservada a assistência e a caridade que nunca faltaram. Mas quem opta pelo poder fecha as portas e as janelas ao amor e à misericórdia. Lamentavelmente ocorreu com o atual modelo de Igreja, burocrático, frio e nas questões concernentes à sexualidade, a homoafetividade, à AIDS e ao divórcio, sem misericórdia e humanidade.
Nestas condições, não há como fazer uma Teologia da Libertação como um bem da Igreja local e universal que toma a sério a questão dos pobres e da justiça social. Ela subverte a ordem estabelecida das coisas. Seu destino será a deslegitimação e a perseguição. Não será exagero dizer que ela vive e viveu o seu mistério pascal: sempre rejeitada, sempre sepultada e também sempre de novo ressuscitada porque o clamor dos pobres não permite que ela morra.
Mas na Igreja instituição, apesar de suas graves limitações, sempre há pessoas, homens e mulheres, padres, religiosos e religiosas e bispos que se deixam tocar pelos crucificados da história e se abrem ao chamado do Cristo libertador. Não apenas socorrem os pobres mas se colocam do lado deles e com eles caminham buscando formas alternativas de viver e de expressar a fé.
Qual o futuro da Teologia da Libertação? Ecumênica desde seus inícios, ela vicejará naquelas Igrejas que se remetem ao Jesus dos evangelhos, àquele que proclamou benaventurados os pobres e que se encheu de compaixão pelo povo faminto e que, num gesto de libertação, multiplicou os pães e os peixes. Estas Igrejas ou porções delas, ousadamente mantem a opção pelos pobres contra a sua pobreza. Entenderão esta opção como um imperativo evangélico e a forma, talvez a mais convincente, de preservar o legado de Jesus e de atualizá-lo para os nossos tempos.

9.Onde encontrar hoje a Teologia da Libertação

Qual será o futuro da Teologia da Libertação? Está em seu presente. Ela continua viva e cresce, com caráter ecumênico, na leitura popular da Bíblia, nos círculos bíblicos, nas comunidades eclesiais de base, nas pastorais sociais, no movimento fé e política e nos trabalhos pastorais nas periferias das cidades e nos interiores do paises. Neste nivel e por sua natureza ecumênica e popular esta teologia, de certa forma, escapa da vigilância das autoridades doutrinárias.
Ela é a teologia adequada àquelas práticas que visam a transformação social e a gestação de um outro modo de habitar a Terra. Se alguém quiser encontrar a Teologia a Libertação não vá às faculdades e institutos de teologia. Ai encontrará fragmentos e poucos representantes. Mas vá às bases populares. Ai é seu lugar natural e ai viceja vigorosamente. Ela está reforçando o surgimento de um outro modelo de Igreja mais comunitário, evangélico, participativo, simples, dialogante, espiriual e encarnado nas culturas locais que lhe conferem um rosto da cor da população, em nosso caso, indio-negro-latinoamericano.
Alçando a vista numa perspectiva universal, tenho uma como que visão. Vejo a multidão de pobres, de mutilados, aqueles que o Apocalipse chama “de sobreviventes da grande tribulação” (7,14) cujas lágrimas são enxugadas pelo Cordeiro, organizados em pequenos grupos erguendo a bandeira do Evangelho eterno, da vida e da libertação. Seguidores do Servo sofredor e do Profeta perseguido e ressuscitado a eles está confiado o futuro do Cristianismo, disseminado no mundo globalizado em redes de comunidades, enraizado nas distintas culturas locais e com os rostos dos seres humanos concretos. Deixando para trás a pretensão de excepionalidade que tantas separações trouxe, se associarão a outras igrejas, religiões e caminhos espirituais no esforço de manter viva a chama sagrada da espiritualidade presente em cada pessoa humana.
Dentro deste tipo comunional e de mútua aceitação das diferentes igrejas, a Teologia da Libertação terá um lugar natural. Ela recolherá reflexivamente os esforços dos cristãos pelo resgate da dignidade dos pobres e da dignidade e dos direitos da Terra e animará a caminhada da humanidade rumo a um mundo que ainda não conhecemos mas que cremos estar alinhado àquele que Jesus sonhou.
Então, Teologia da Libertação terá cumprido a sua missão. Comprenderá que no binômio Teologia da Libertação, o decisivo não é a Teologia mas a Libertação real e histórica, porque esta e não aquela é um dos bens do Reino de Deus.

Leonardo Boff
Leonardo Boff, 1938, doutorado em teologia e filosofia, foi durante mais de 20 anos professor de teologia sistemática no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis e depois professor de ética, filosofia da religião e de ecologia filosófica na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi professor visitante em várias universidades estrangeiras e galardoado com vários dr.h.c. Escreveu mais de 80 livros nas várias áreas teológicas e humanísticas e sempre se entendeu no âmbito da Teologia da Libertação.

42 Comentários leave one →
  1. Celeste Link Permanente
    09/08/2011 18:29

    Obrigada por este resumo e pela sua grande contribuição ao povo brasileiro. Hoje é um dia importante.

  2. 09/08/2011 20:57

    Sinceramente caro Mestre LB, com um texto deste balancei com minha descrença, anima a acreditar q ainda exista uma chama acessa do verdadeiro exemplo de Cristo, se Ele chegasse agora na face da Terra, jamais entraria no vaticano aquele palácio de ostentação, totalmente o contrário da base do ‘evangelho’… mas procuraria o sr. e os outros idealizadores desta digna teologia… ascende a Fé de qlq um… VIVA A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO!!!

    • 11/10/2011 19:07

      LEONRDO,

      CONCORDO COM SUAS PALAVRAS, DIRECIONADAS Ao Mestre Leonardo Boff. Fico na esperança também que a TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, pudessemos nos libertar das Igrejas (todas) e partíssemos para a TEOPRATICA DA LIBERTAÇÃO, cristã, livre e ecumênica. Ao mesmo tempo jardim para todos.

      CACILDA

      • francisco Link Permanente
        29/10/2011 19:21

        minha irmã pra vc ser livre não precisa de uma teologi da libertação
        e nem taõ pouco deixar a fé catolica a igreja nos liberta com a luz do evangelio com os seus ensinamentos com certeza a igreja tem muito mas im0ortancia da sociedade doq um sumplies analize

  3. 09/08/2011 23:31

    Sou um órfão da Teologia da Libertação. Está cada vez mais difícil achar paróquias que tenham pessoas que partilham dessa opção preferencial pelos pobres.

    • Augusto faria Link Permanente
      18/09/2011 19:51

      Ainda bem que esta abordagens teologica esta sendo desfeita com o passar dos anos, pois ela só causou mal na Igreja.

    • katia soares Link Permanente
      28/10/2011 9:31

      Concordo plenamente! Infelizmente, a Igreja Católica enveredou por caminhos que a afastam cada vez mais daqueles que deveriam ter a atenção maior e prioritária de suas ações. Participei da pastoral da juventude e tínhamos uma formação que nos orientava à inserção na sociedade de forma a atuar pela transformação social. Hoje, também lamento.

  4. Leonardo Quesado Link Permanente
    10/08/2011 2:45

    Dr. Leonardo, boa noite.
    Quando soube que daria uma palestra em Juazeiro do Norte/CE – dia 27 deste mês – logo avisei à minha tia, ela é grande admiradora do seu trabalho e tem vários dos seus livros. Prontamente buscamos nos inscrever. Haverá um local/horário, fora o do evento, em que possa haver um maior contato com o senhor?
    aguardo ansioso por um retorno.
    Saúde, Forte Abraço.

  5. 10/08/2011 10:20

    É algo em que sempre acreditei, porém não encontrava teoria e prática na sociedade que tivesse esse embasamento. Foi quando ouvi falar sobre a teologia da libertação. Me encantei pelos principios, por encontrar nela um par aos meus principios, e ter como certeza que é disso que nossa sociedade tão pobre espiritual e socialmente precisa, em detrimento ao capital.

    Ótimo artigo.

    Acompanho sempre sua literatura!

  6. Rodrigo Link Permanente
    10/08/2011 10:52

    muito bom o artigo!!
    vai me ajudar na monografia

    • eldivar Link Permanente
      09/05/2012 9:04

      Olá Rodrigo!
      Estou escrevendo também sobre a Teologia da Libertacao: uma Analise de Leonardo Boff.

      Como voce já deve ter escrito a sua monografia, talvez poderia me dar algumas dicas!

      Obrigado!

    • 09/05/2012 9:11

      Estou escrevendo também sobre a Teologia da Libertacao: Uma analise de Boff.

      Poderia talvez me ajudas com algumas dicas?

      Obrigado!

      • 09/05/2012 17:26

        Eldivar
        Creio que uma boa introdução à teologia da libertação, seus principais conteudos e seu método seja o livrinho que escrevi junto com meu irmão Frei Clodovis Boff: Como fazer teologia da libertação. Imprescindível é o livro de Gustavo Gutiérrez, Teologia da Libertação e outros como os de João Batista Libanio.
        um abraço e bom proveito

        lboff

  7. Anderson S. Link Permanente
    10/08/2011 19:14

    “Opção preferencial pelos pobres” que acaba transformando-se mais em assistencialismo do que em anúncio do Evangelho. Lamentável o que se tornou, já que na essencia foi boa.

  8. 10/08/2011 22:04

    Cresci num bairro da periferia de São Paulo, e lembro que no inicio da minha adolescência, meados da década de 80, ainda meio sem entender o que acontecia, a homilia trazia exemplos práticos do dia-a-dia, do desemprego, da falta de oportunidades, da desigualdade de renda, da precariedade dos serviços sociais básicos oferecidos pelo governo, como a saúde e a educação. A igreja era um local onde as pessoas se reuniam para traçar estrategias de como ter acesso a seus direitos, onde se organizavam abaixo-assinados e manifestações. Muito disso se perdeu. Mas ao ler este artigo, percebi que presenciei tudo isso, que vivi tudo isso, que faz parte da minha história. E é muito bom saber que tudo contribuiu para o ser humano que sou hoje. Fico feliz, encontrei a explicação para muitas ideias que defendo. Obrigada.

  9. Juninho Link Permanente
    10/08/2011 23:47

    Muito me inspira a existência de “amigos de Deus” como é o seu caso, Leonardo Boff. Destes tenho certeza que Jesus fará questão de sentar ao lado (se já não o faz), olhar bem nos olhos e dizer como profunda satisfação: ” – Sempre fomos amigos!” … Há tempos vi uma fala muito feliz e pertinente de João Batista Libanio quando dizia: “Leonardo Boff? Bom, este ilumina um céu inteiro sozinho…” Sou um grande admirador de sua humanidade tão genuína e capacidade intelectual e reflexiva de causar assombro. Conhecer suas ideias e seus ideais é sempre uma honra e um privilégio! E por isso mesmo comungo deles… Um fraterno abraço a você, quem me sinto na liberdade de chamar de amigo, por experimentar que nossos corações sintonizam na mesma frequência.

  10. 11/08/2011 4:49

    Na verdade, a Teologia da Libertação (TdL) tem mais de 40 anos. Antes de Gutierrez lançar seu “Teología de la Liberación” o brasileiro, à época presbiteriano, Rubem Alves, defendera, e posteriormente publicara, sua tese de doutorado em Teologia no Princeton Theological Seminary nos EUA, entitulada “Towards a Theology of Human Liberation” (algo como “Em direção a uma Teologia da Libertação Humana”). Uma editora aprovou a publicação em forma de livro, mas o editor sugeriu pela retirada da palavra “libertação”. Poucos anos depois surgiu o livro de Gutierrez. E antes ainda, o também presbiteriano Richard Shaull, que fora professor de Alves no Seminário Presbiteriano de Campinas, falava de algo muito parecido com o que viria a ser a TdL. O próprio Alves conta esta história com muitos detalhes em “Sobre deuses e caquis”, o prefácio que escreveu para “Da esperança”, o título que foi dado no Brasil pela Editora Papirus à edição em português de sua tese doutoral, verdadeiramente a semente da TdL. A vertente de TdL de Alves é bem diferente daquela defendida por Gutierrez e outros mais. A gente fala “Teologia” da Libertação no singular por força de hábito, porque o mais correto seria usar o plural, “Teologias” da Libertação. Juan Luis Segundo por exemplo, que a meu ver foi o mais denso e complexo de todos os teólogos da libertação, não era tido pelo tal pelo “mainstream” da TdL. Mas enfim, seja como for, a TdL está aí, com seus erros e acertos cumpriu, cumpre e cumprirá seu papel profético. A maioria dos seus críticos nunca leu nada que seja de fato TdL. E a maioria dos seus adeptos mais ardorosos e fervorosos nunca leu nada que seja de perspectiva diferente. C’est la vie…

    • 11/08/2011 12:03

      Com licença caro Carlos, mas como “adepto ardoroso e fervoroso” venho dizer q a sua generalização na “perspectiva diferente” é infundada, pode ser q muitos não conheçam autores diferentes, mas sempre a msm linha de “libertação” é a chave do modo singular, porem essas “teologias” no plural levam a mais fragmentação, como se tivéssemos q classificar A ou B e até o C… sendo fenômeno singular de expressão dos q lutam contra qlq forma de opressão e exclusão, sem isso é mais uma ideologia, alias teologia… sem necessidades de classificações e comparações a tradições ou instituições… TdL pra mim, q não tem “perspectiva diferente”, é isso, será q há fundamento no seu comentário alem desse significado?

      • 12/08/2011 22:06

        Não é infundada não. Você não tocou no âmago do meu argumento, a saber: a perspectiva do primeiro Rubem Alves é diferente da perspectiva da TdL católica. Se você considerar Juan Luis Segundo como libertacionista, você concordará com meu argumento. Como explicar que Segundo tenha tido um manuscrito rejeitado pelo comitê editorial da série “Libertação e Teologia”, publicada pela Vozes em vários volumes? Para o comitê editorial o que Segundo escrevia não era TdL. Mas é claro que era. So que em perspectiva diferente. Leia Segundo. Ele foi um crítico contundente de Gustavo Gutierrez por exemplo. Criticou os teólogos da libertação como o mexicano José Porfírio Miranda que eram acríticos no uso da ferramenta marxista de análise da sociedade. É por isso que digo que há uma tradição de usar o singular, mas o mais certo seria usar o plural. Eu mesmo uso a forma singular. Mas com a ressalva já citada.

    • Carlos Eduardo Link Permanente
      11/08/2011 12:39

      Bem, não se suas informações procedem, mas uma coisa sei com certeza, pois li do próprio Rubens Alves: ele foi expulso da Igreja Presbiteriana e entregue por ela aos milicos.

      • 12/08/2011 22:08

        Minhas informações procedem sim. Citei a fonte, do próprio Rubem Alves. Agora, você poderia dizer em que texto ele afirma ter sido expulso da Igreja Presbiteriana e, como você disse, “entregue por ela aos milicos”?

  11. 11/08/2011 11:58

    Obrigado, Frei Leonardo Boff.
    Renovei minha esperança. E, por outro lado, me envergonho de nada fazer.
    Não consigo visualizar como eu poderia ser mais um ator dessa transformação.

    Não sei onde a TL está materializada e atuando na minha cidade, Recife-PE.

    Abraço.

  12. Luciane Link Permanente
    12/08/2011 21:30

    Dr. Leonardo, lamentável que a revista Veja continue apresentando conteúdo “raso” como a entrevista de Luis Felipe Ponde. Filosofia apropriada ao editorial. O filosofo deveria se limitar à analise sobre jantares sociais hipócritas. Parabéns pelo texto emocionante e motivador na contínua opção pelos mais fragilizados, como ensinaram Jesus e Francisco de Assis.

    O conteúdo da entrevista: http://sergyovitro.blogspot.com/2011/07/entrevista-luiz-felipe-ponde-santos.html

  13. Carlos Eduardo Link Permanente
    12/08/2011 21:49

    Prezado Leonardo Boff, qualquer comentário seria chover no molhado, pois tenho muito pouco a acrescentar, mas gostaria de expor um sofrimento pessoal.

    Quando você diz que a “participação equânime de todos e a hierarquia funcional de serviços e não a hiierarquia ontológica de poderes. Isso é fantástico. Tão lógico, tão racional. O próprio Jesus Cristo falou isso com outras palavras. Pois é, neste ponto, ainda tenho, dentro de mim, certa intolerância aos modelos de igrejas hierarquizadas. Centradas no personalismo, na vaidades e etc.

    Rezo muito para expurgar de mim essa intolerância, mas ainda não consegui. Até no convívio com meu próximo, quando estes tentam impor uma superioridade espiritual em função das suas igrejas, religiões, denominações e etc, sinto repulsa, evitando essas pessoas.

    Enfim, é doloroso ter no coração alguma rejeição ao meu próximo, mas é muito difícil conviver com quem tenta lhe inferiorizar. Às vezes sinto que algumas pessoas trabalham por uma espécia de eugenia espiritual, tendendo a materializar quase um apartheid.

  14. José Paterno da Silva, Pe Link Permanente
    13/08/2011 1:07

    Gostei, da matéria. A teologia da libertação é fato marcante na história da Igreja, pena não muita aceita por que leva a olhar a vida real de Jesus na vida dos pobres, infelizmente não colocada em prática, ou seja, ela questiona a vida de quem quer ter um Jesus alienado da vida do povo.

  15. André Lacerda Link Permanente
    16/08/2011 13:14

    “Transportar-se à realidade do outro e sentir sua paixão” é, sem dúvida, uma síntese poderosa que extrapola a sua beleza estética e, em seu sentido pleno, alcança o clímax da existência: “Amai ao próximo como a si mesmo”. Esse é, no mundo de hoje, para mim, o princípio cristão que mais necessitamos, pois, além de ser o norte fundamental de todas as pessoas que querem um mundo melhor, aponta para o nosso potencial superior ao mesmo tempo em que revela a nossa fraqueza interior. E quando penso em Teologia da Libertação, a primeira coisa que me vem à cabeça é essa chama viva, conservada, inabalável, de amor ao próximo. Agradecido Frei Leonardo Boff, Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns.

  16. 17/08/2011 22:41

    Gozado, me lembro que quando eu era adolescente fui coroinha em uma paroquia em Itaquera-SP, a partir dai fui cada vez mais me envolvendo com a igreja, com o tempo fui tomando consciencia segundo os ensinamentos da igreja que devemos ter amor pelo proximo, que temos que dar prioridade aos mais necessitados, e que ninguem tem maior amor do que aquele que da a vida pelo irmao; diante de um mundo tao cheio de injustiças, proibiçoes e corrupçoes de todo tipo, muitas vezes me vi incapacitado de agir conforme nos ensina o evangelho, vi e vivi a luz da teologia da libertaçao e em tao pouco tempo esta teologia foi perseguida e sei la, ate proibida talvez,as vezes fico pensando: sera que viver so de oraçoes e boas intençoes vai me levar a salvaçao?

  17. Jose Darci Link Permanente
    17/08/2011 23:00

    Interessante,quando eu era adolescente, eu fui coroinha em uma paroquia de Itaquera-SP, a partir dai eu fui me envolvendo com a igreja, e com a igreja eu fui aprendendo que devemos ter amor pelo proximo, que devemos dar prioridade aos mais necessitados (material e espiritualmente), e que maior amor tem aquele que da a vida pelo irmao,no entanto num mundo com tantas injustiças, mentiras e corrupçoes de todo tipo, as vezes me vi impossibilitado e ate desanimado de agir como nos manda o evangelho,vi e vivi a luz da teologia da libertaçao, mantive nela a esperança de que seria possivel uma verdadeira mudança neste mundo tao sofrido,no entanto, em tao pouco tempo vi a pratica da TL ser perseguida, e sei la, ate proibida talves, fico pensando:sera que viver so de oraçoes e boas intençoes vai me levar a salvaçao?

  18. 19/08/2011 10:38

    Gracias Maestro…como siempre

  19. Pe.Geraldo Lima Link Permanente
    23/08/2011 17:07

    Nova Iguaçu, 23 de agosto de 2011.

    Meu querido Mestre e amigo Leonardo Boff,

    Eu sou Padre João Geraldo Lima há 47 anos, sou da Diocese de Petrópolis, mas há quase 40 anos trabalho na Diocese de Nova Iguaçu. Aqui com Dom Adriano Hipólito a providência Divina quis que eu vivesse e tentasse experimentar as encarnações da Teologia da Libertação na realidade sofrida e difícil do povo da Baixada Fluminense.
    Você pode não se lembrar de mim, sou irmão de sangue de Frei Barnabé, padeiro de Agudos que morreu de câncer santamente em 1982.
    Sou amigo do Pe. Antônio Alvorada que deixou o ministério e que me fez conhecê-lo e apreciá-lo num colóquio de padres novos num Sítio da Posse pelos anos 1965. Lá eu lhe perguntei: se o exercício do ministério sacerdotal inclui arriscar-se quando dois estão brigando para fazer acontecer a conciliação?
    A sua resposta foi positiva, eu gostei e tenho que lhe dizer que nestes quase 50 anos tenho me esforçado por ser ministro de reconciliação no meio dos pobres.
    Mas porque estou lhe escrevendo! Acabei de ler seu artigo “Quarenta anos de Teologia da Libertação”, gostei muito, me fez um bem imenso e também uma provocação. Eu gostaria que houvesse um colóquio entre Você, o psiquiatra escritor Augusto Curi , (que escreveu cinco livros sobre a psicologia de Jesus) o meu amigo e professor de Homeopatia, Radiestasia Dion Pedeira Schuencvk.
    Aqui na Diocese eu trabalho na Pastoral da Terra e na Pastoral da Saúde. Por isso conhecendo a sabedoria e coragem que Dion tem para ser profeta e denunciar o estrago para a humanidade, que as multinacionais fazem, impondo-nos o mercado da doença e da morte, eu resolvi sonhar ver Vocês três numa mesa conversando sobre suas caminhadas.
    Todos defendemos os pobres, a vida na terra e a natureza. Todos convocando as pessoas de bem e as religiões na elaboração de um projeto de vida digna para todos mas sobretudo para os vitimado do mercado do capital.
    Todos crendo que apesar de tão difícil, o mundo ainda tem jeito, porque em todas as partes e nos mais diferentes setores a experiência e anseio de Cristo de vida para todos você se tornando realidade. É isto, leia, pensa e me dê seu parecer.
    Abraço seu amigo e admirador,

    Pe. Gerado Lima,
    Rua Tangaré, 431 – Jd.Alzira, Queimados – RJ
    (21) 2639.7330 – celular (21) 99749665
    e-mail:geraldojoaolima@ig.com.br

    • katia soares Link Permanente
      28/10/2011 9:37

      Pe. Geraldo, que bom ler seu comentário. Sua proposta é muito boa sim.
      Espero que esse encontro se realize pois, a proposta é bastante interessante. Leonardo, pensa com carinho.
      Abraços.

  20. Maria Olivia Link Permanente
    12/09/2011 12:17

    Para o veneno maligno da “teologia” da libertação, temos um bom antídoto:
    As pregações do Padre Paulo Ricardo de Azevedo Junior.
    Esta, considero o “carro-chefe”:

    http://padrepauloricardo.org/audio/cardeal-ratzinger-e-a-teologia-da-libertacao/

    Abraços!

  21. 12/09/2011 19:45

    A TL fazer parte da profecia de Simeão!
    A profecia de Simeão refere-se a Cristo, Como sempre a Tl diminuindo valor do sagrado em prol a sua causa Marxicista e Anti-Papal!

  22. 15/09/2011 16:11

    Excelente texto. Obrigada.
    VIVA A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO !

  23. 23/09/2011 23:04

    Rômulo Melillo
    Frei Leonardo Boff, agradeço a Deus por sua existência entre nós. Aprendi com Prof Libânio um pouco, mas sempre quando te ouço ou leio aprendo mais a me colocar ao lado dos oprimidos.

  24. 29/10/2011 22:26

    muito interesante o texto essa teologia min fez lembrar o q é ser catolico
    min fez lembrar a importancia das pastorais a vida dos marteres
    principalmente dos franciscano ser catolico é bem mas q uma teologia mas sim anunciar a salvação de Jesus o sabgue dele derramado em um cauvario por meus pecados
    acredito q a igreja vem cuidando dos mas necesitados q Deus nos ajude a interpretar as intencoes desse texto com sabedoria

  25. Maria da Graça Gondim Link Permanente
    22/11/2011 20:57

    Hoje tive a graça de receber este resumo sobre a IGREJA VIVA, na qual participei um pouco capenga do seu movimento libertador… Teologia da Libertação uma igreja que eu amei e como falei ali adiante participei do seu gingado no momento crucial onde vi amigos religiosos serem levados aos tribunais, bispo meu Bispo sofre fortes criticas, mas não baixava a cabaça nem seu sorriso amigo, D.José Maria Pires, negro forte … A gente estava ali junto se não tinha muita coragem ficava perto de mãos dadas na luta contra a opressão … Tenho orgulho e também saudade deste tempo, hoje na com 63 anos e sem formação universitária, não sei o que oferecer para este trabalho reflorecer aqui na minha Paroquia antes tão atuante… Como comtribuir não sei o que sei é que FOI NESTE IGREJA VIVA E PARTICIPEI E SINTO SAUDADE MAS AGORA EU SEI QUE ELA AINDA EXISTE E QUE VAI BROTAR NOVAMENTE DE FORMA FORTE COMO A ESTRELA CADENTE QUE NASCEU SURGIU LÁ EM BELÉM.
    NÃO DEIXEM POVO DE DEUS A TEOLOGIA MORRER TEMOS MUITO QUE NOS LIBERTAR PARA LIBERTAR O OUTRO.
    PARABENS! LEVANTAR A POEIRA E DA AVOLTA POR CIMA ISSO SE PRECISA FAZER… GRAÇA GONDIM

  26. Pr. Josenildo Miranda Link Permanente
    10/03/2012 19:27

    Obrigado Senhor por ter nos feito entender o valor de sermos pobres através da Teologia da Libertação. Obrigado por ter formado em nós uma consciência que cria e constroe uma história nova e libertadora. Obrigado pelo legado iluminador que teu servo Leonardo nos deixa nestes 40 anos de lida da Teologia da Libertação.

  27. Suely Oliveira Cardoso Link Permanente
    03/04/2012 16:27

    viva mesmo! sou uma remanescente da Pastoral da Juventude, das comunidades eclesiais de base, vivi uma certa e transformadora epoca de TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO. Hoje vivo apenas com um desejo forte de que a qualquer momento o povo se organize novamente, beba novamente da fonte do evangelho, partilhem suas experiencias em grupo, que sejam mais cristãs, menos individualistas.
    O capitalismo trasnformou as pessoas em coisas, objetos de consumo.Que pena, os opositores se recolheram, alguns deles se aliaram a essa nova e triste realidade.
    Mas Jesus Cristo continua firme e forte no meio do povo sofrido, se marginalizados, que vivem somente por que existe uma força maior que a do consumismo ,A FORÇA DA FÉ!

  28. 27/04/2012 0:49

    Caríssimo Dr.Leonardo Boff,

    é grandioso o texto sobre a Teologia da Libertação. Creio que hoje, mais do que nunca, a Igreja precisa praticar a Teologia da Libertação além das bases eclesiais, ou seja, “deve se deixar mover pelo grito dos oprimidos que sobe das entranhas da Terra”(faço minhas as suas palavras), os quais não encontram espaço nem oportunidades para expressarem sobre o que os aflige nos momentos formais de cultos e/ou missas, reuniões e celebrações.
    Faz-se necessário, inovação e revolução na prática da Teologia da Libertação. Pregar o Cristo que Liberta é muito fácil. Apresentar o Cristo Libertador na prática é que é o desafio.
    A graça e a paz do Senhor Jesus,

    • adovaneudo Link Permanente
      29/04/2012 14:02

      acredito q se a teologia da libertação tivesse a aceitação da igreja seria mas facil por em pratica a reforma aconteceria como diz a palavra de deus examinai tudo e ficai como o q é bom graças e paz

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