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Reinventando a Educação

24/05/2012

 

Muniz Sodré, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é alguém que sabe muito. Mas o singular nele é que, como poucos, pensa sobre o que sabe. Fruto de seu pensar é um livro notável que acaba de sair: Reinventando a educação: diversidade, descolonização  e redes  (Vozes 2012).

Nesse livro procura enfrentar os desafios colocados à pedagogia e à educação que se derivam dos vários tipos de saberes, das novas tecnologias e das transformações processadas pelo capitalismo. Tudo isso a partir de nosso lugar social que é o Hemisfério Sul, um dia colonizado e que está passando por um instigante processo de neodescolonização e de um  enfrentamento com o debilitado neoeurocentrismo hoje devastado pela crise do Euro.

Muniz Sodré analisa as várias correntes da pedagogia e da educação desde a paideia  grega até o mercado mundial da educação que  representa uma crassa concepção da educação utilitarista, ao transformar  a escola numa empresa e numa  praça de mercado a serviço da dominação mundial.

Desmascara os mecanismos de poder econômico e político que se escondem atrás de expressões que estão na boca de todos como “sociedade do conhecimento ou da informação”. Melhor dito, o capitalismo-informacional-cognitivo constitui a nova base da acumulação do capital. Tudo virou capital: capital natural, capital humano, capital cultural, capital intelectual, capital social, capital simbólico, capital religioso…capital e mais capital. Por detrás se oculta uma monocultura do saber, aquele maquínico, expressso pela  “economia do conhecimento”  a serviço do mercado.

Hoje projetou-se um tipo de educação que visa a formação de quadros que prestam “serviços simbólico-analíticos”, quadros dotados de alta capacidade de inventar, identificar problemas e de resolvê-los. Essa educação “distribui conhecimentos da mesma forma que uma fábrica instala componentes na linha de montagem”.

A educação perde destarte seu caráter de formação. Ela cái sob a crítica de Hannah Arendt que dizia: “pode-se continuar a aprender até  o fim da vida sem, no entanto, jamais se educar”. Educar implica aprender sim a conhecer e a fazer, mas sobretudo aprender a ser, a conviver e a cuidar. Comporta construir sentidos de vida, saber lidar com a complexa condition humaine e definir-se face aos rumos da história.

O que agrava todo o processo educativo é a predominância do pensamento único. Os americanos vivem de um mito o do“destino manifesto”. Imaginam que Deus lhes reservou um destino, o de ser  o “novo povo escolhido” para levar ao mundo seu estilo de vida, seu modo de produzir e de consumir ilimitadamente, seu tipo de democracia e seus valores de livre mercado. Em nome desta excepcionalidade, intervem  pelo mundo afora, até com guerras, para garantir sua hegemonia imperial sobre todo o mundo.

A Europa não renunciou ainda a sua arrogância.  A Declaração de Bolonha de 1999 que reuniu 29 ministros da Educação de toda a Europa, afirmava que só ela poderia produzir um conhecimento universal, “capaz de oferecer aos cidadãos as competências necessárias para responder aos desafios do novo milênio”. Antes a imaginada universalidade se fundava nos direitos humanos e no próprio Cristianismo  com sua pretensão de ser a única religião verdadeira. Agora a visão é mais rasteira: só a Europa garante eficácia empresarial, competências, habilidades e destrezas que realizarão a globalização dos negócios. A crise econômico-finaneceira atual está tornando ridícula esta pretensão. A maioria dos países não sabem como sair da crise que criaram. Preferem lançar inteiras sociedades no desemprego e na miséria para salvar o sistema financeiro especulativo, cruel e sem piedade.

Muniz Sodré em seu livro traz para a realidade brasileira estas questões para mostrar com que desafios nossa educação deve se confrontar nos próximos anos. Chegou o momento de  construirmo-nos como povo livre e criativo e não mero eco da voz dos outros. Resgata os nomes de educadores que pensaram uma educação  adequada às nossas virtualidades, como  Joaquim Nabuco, Anísio Teixeira e particularmente Paulo Freire. Darcy Ribeiro falava com entusiasmo da “reinvenção do Brasil” a partir da riqueza da mestiçagem entre todos representantes dos 60 povos que vieram ao nosso pais.

A educação reinventada nos deve ajudar na descolonização e na superação do pensamento único, aprendendo com as diversidades culturais e tirando proveito das redes sociais. Deste esforço poderão nascer entre nós os primeiros brotos de um outro paradigma de civilização que terá como centralidade a vida, a Humanidade e a Terra que alguns também chamam de civilização biocentrada.

 

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15 Comentários leave one →
  1. 24/05/2012 19:20

    En estos ultimos meses hemos sido testigos de luchas importantes a favor de la educacion publica como bien publico que no puede someterse a los dictamenes del gran capital. Los estudiantes en Chile, en Colombia y en este momento en Quebec (Canada) libran esa batalla que debe despertar el apoyo de todos. El conocimiento y sus aplicaciones tecnologicas siguen siendo bienes colectivos. La reinvencion consiste en superar el dogma capitalista segun el cual todo bien debe ser explotado para el beneficio de los inversionistas economicos, pero esa falacia no se puede seguir manteniendo.

    • 25/05/2012 11:29

      Alvin,
      Creo que el legado de la actual crisis en el centro del sistema capitalista nos esta indicando que ya no se pude seguir por este camino. El puede llevarnos a un abismo. Tenemos que cambiar o vamos el encuentro de la oscuridad como vive diciendo Eric Hobsbawn. Y todo empieza en el hogar, es decir, en la educacion que nos permite reinventar el ser humano mas ecoamigable y mas conciente de su mision de ser el cuidador y guardián de la herencia sagrada que recibimos del Universo o de Dios.Lo tragico es que nos hemos mostrado mas bien como el Satan de la Tierra que como su Angel bueno. De todos los modos espero que no estamos de cara a una tragedia anunciada sino en el medio de un inmensa crisis de civilizacion. Al superarla, y hay posibilidades y fuerzas para eso, vamos seguir adelante pero ya trasformados en seres más justos para con la natureza y para los demás seres humanos mas fraternos y mas espirituales.
      Vale siempre creer y esperar.
      lboff

  2. 24/05/2012 19:49

    Meu querido Leonardo Boff, sem dúvida esse é o grande desafio dos nossos tempos e, talvez, a derradeira esperança do grande salto para a transformação do homem.
    Também o Dr. Cláudio Naranjo, chileno de Valparaiso, vem pregando a possibilidade de transformação do mundo a partir da educação. Em “Mudar a educação para mudar o mundo”, aponta caminhos na direção de uma nova paidéia que nos torne mais sábios, mais humanos e mais capazes de amar.
    Um grande abraço.
    Reginaldo

  3. 25/05/2012 7:23

    Parabéns! e obrigada a vocês dois, Prof. Leonardo Boff e Prof. Muniz Sodré.

  4. celia maria sampaio permalink
    26/05/2012 10:50

    Já assisti algumaspalestras de Leonardo Boff, realmente ele pensa no “más allá”!

  5. Maria Silva permalink
    27/05/2012 0:02

    Os índios estão certos. Não apenas porque sou neta de índia brasileira.
    Esta é minha primeira conclusão quando falamos de educação.
    Um certo índio que saiu da sua tribo e foi buscar estudo ‘acadêmico’ ( sistematizado tb se faz nas tibos e muito bem ); – pensando em buscar algo melhor e superior aos seus conhecimentos ‘primitivos’ para sua comunidade – depois de ( ‘sofrer inúmeras coisas’ ) formar em direito volta para sua tribo, responde, quando entrevistado, pq voltou para a tribo, que o ‘homem’ branco e ‘civilizado’ só quer destruir; q ele ( o então cacique ) não concorda com o pensamento do ‘homem’ branco. Q essa destruição está diretamente ligada ao fato do ‘homem branco’ só querer DINHEIRO, ENRIQUECER sem pensar em mais nada e em mais ninguém além de si mesmo.
    O que penso do aproveitamento da tecnologia p reinventar a educação? Talvez retomar a base filosófica, a que deu origem a pedagogia, mais do que reinventá-la; sabe-se qual a natureza da ” Educação”.
    A convocação p utilização das ‘redes sociais cibernéticas’ podem servir para afirmar e confirmar o resgate dos valores éticos e morais que os filósofos sabiamente indicavam como sendo o caminho mais seguro para harmonia social: respeito, solidariedade, honestidade, …etc..
    ( …) Cuidemos de observar atentamente, detalhadamente onde estas ‘ondas culturais cibernéticas’ podem nos levar…quem são esses que nos convida? … são mesmo quem dizem que são??? …em que terras iremos desembarcar???
    (…) Qual o seu maior ‘capital’?
    ” Onde seu coração estiver lá estará o seu tesouro” (JCN).

  6. Maria Silva permalink
    27/05/2012 0:08

    Permita-me à provocação filosófica neste instante: (…) ‘Pedra filosofal da Educação’

    ” Conhecimento Prático Filosofia – Há muito tempo, a escola deixou de lado sua função primeira de educar para assumir também o papel social. Dentro do contexto filosófico, qual o peso de cada instituição nessa formação?
    Mario Sergio Cortella – Outro dia, um pai de aluno me perguntou: “qual o senhor acha que deve ser o papel da família para colaborar com a educação dos nossos filhos na escola?”. Eu disse a ele, com todo o respeito, que havia um equívoco na formulação da questão, porque não cabe à família colaborar com a escola na educação, mas exatamente o contrário, é a escola que colabora, a família é responsável. A escola assumiu muitas tarefas nos últimos 20 anos, especialmente a escola pública, porque ela é parte da rede de proteção social e, por isso, desempenha tarefas do Estado, entre elas a proteção à vida, segurança e liberdade dos indivíduos. Por isso, cabe sim à escola oferecer educação para o trânsito, ecológica, sexual e até alimentar. Mas não cabe ao Estado, via escola pública, substituir a responsabilidade que a família tem, a menos que ela esteja em situação de descuido total. Cabe à instituição promover a autonomia, a solidariedade e a formação crítica, mas a responsabilidade principal continua sendo da família e ela não pode se eximir disso.” Mario Sergoi Cortella, Filósofo. Professor.

    • 29/05/2012 3:14

      Valério
      Respeitável filósofo Mario Sergio Cortella, sou pesquisador da física teórica e acompanho suas entrevistas e seus pronunciamentos e confesso que o admiro muito. Em relação a educação a família deve sim, ser a principal responsável. Sabemos que o primeiro filósofo Tales de Mileto, se propos a buscar a substância primordial da qual tudo provém. Segundo Demócrito de Abdera o átomo indivisível seria a substância primordial, com o qual eu concordo plenamente. A ciência moderna descartou o átomo democritiano e equivocadamente aceitou o modelo padrão do átomo divisível. Construiu-se o LHC maior acelerador de partículas do mundo para tentar dividir o indivisível. O boson de Higgs não foi encontrado e se o fosse não teria nenhuma função prática. A consequência disto é que sem um sistema fixo e universal em relação ao qual seja possível medir o movimento não teremos nenhum conhecimento absoluto e nenhuma certeza definitiva (Relativismo) e a ciência não poderá ser inaugurada.Reconhecemos que a nuvem de bytes da informática mudou o mundo mas o homem permanece o mesmo. Evoluímos muito nas tecnologias facilitadoras que ampliam os cinco sentidos, mas permanecemos na estagnaçao da ciência que poderia promover a dinâmica da ética humana.
      O que devemos ensinar para educar nossos discentes, se ainda não temos a resposta ás perguntas elementares: Quem somos? Do que somos feitos? De onde viemos? Qual nosso propósito? Para onde vamos?
      Gostaria muito de poder apresentar pessoalmente os resultados de nossa pesquisa para sua apreciação.
      Abraço.
      Valério

  7. 27/05/2012 21:11

    Querido Maestro Leonardo Boff, reciba un abrazo desde Valdivia, sur austral de Chile sus profundas reflexiones, me generan las fuerzas y energias para continuar por la senda de ser una facilitadora del conocimiento y compartirlo con los estudiantes.
    Con afecto y gratitud por todo lo que nos enseña
    Marta

  8. 03/06/2012 12:57

    La sociedad percibe la educacion basica y media como una preparacion , exclusivamente, para una universidad orientada hacia lo tecnologico como medio de perpetuar un sistema social en crisis. Creo que es a estos niveles preuniversitarios adonde con mayor fuerza ha de librarse la lucha en favor de una educacion integral, cuyo objetivo sea la formacion de un individuo completo, dando la debida importancia a las ciencias, las artes, las humanidades, y como factores fundamentales de plenitud humana, a la etica y la espiritualidad. Gracias, Leonardo Boff, He leido todos los libros tuyos que he podido conseguir, y te sigo todas las semanas. Ojala pudieras venir a Republica Dominicana.

  9. 14/06/2012 15:20

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