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Em nós estão todas as memórias do universo

15/08/2014

O ser humano é o último ser de grande porte a entrar no processo da evolução por nós conhecido. Como não existe somente matéria e energia, mas também informação, esta vem estocada em forma de memória, em todos os seres e em nós ao longo de todas as fases do processo cosmogênico. Em nossa memória, reboam as últimas reminiscências do big bang que deu origem ao nosso cosmos.

Nos arquivos de nossa memória são guardadas as vibrações energéticas oriundas das inimagináveis explosões das grandes estrelas vermelhas das quais vieram as supernovas e os conglomerados de galáxias, cada qual com suas bilhões de estrelas e planetas e asteroides. Nela se encontram ainda ressonâncias do calor gerado pela destruição de galáxias umas devorando outras, do fogo originário das estrelas e dos planetas ao seu redor, da incandescência da Terra, do fragor dos líquidos que caíram por 100 milhões de anos por sobre o nosso planeta até resfriá-lo (era hadeana), da exuberância das florestas ancestrais, reminiscências da voracidade dos dinossauros que reinaram, soberanos, por 135 milhões de anos, da agressividade dos nossos ancestrais no afã de sobreviver, do entusiasmo pelo fogo que ilumina e cozinha, da alegria pelo primeiro símbolo criado e pela primeira palavra pronunciada, reminiscências da suavidade das brisas leves, das manhãs diáfanas, do alcantilado das montanhas cobertas de neve, por fim, lembranças da interdependências entre todos os seres, criando a comunidade dos viventes, do encontro com o outro, capaz de ternura, entrega e amor e finalmente, do êxtase da descoberta do mistério do mundo que todos chamam por mil nomes e nós por Deus.

Tudo isso está sepultado em algum canto de nossa psiqué e no código genético de cada célula de nosso corpo, porque somos tão ancestrais quanto o universo.

Nós não vivemos neste universo nem sobre a nossa Terra como seres erráticos. Nós viemos do útero comum donde vieram todas as coisas, da Energia de Fundo ou do Abismo Alimentador de todos os seres, do hádrion primordial, do top-quark up, um dos tijolinhos mais ancestrais do edifício cósmico até o computador atual. E somos filhos e filhas da Terra. Mais. Somos aquela parte da Terra que anda e dança, que freme de emoção e pensa, que quer e ama, que se extasia e venera o Mistério. Todas estas coisas estiveram virtualmente no universo, se condensaram em nosso sistema solar e só depois irromperam concretas na nossa Terra. Porque tudo isso estava virtualmente lá, pode estar agora aqui em nossas vidas.

O princípio cosmogênico, vale dizer, aquelas energias diretoras que comandam, cheias de propósito, todo o processo evolucionário obedecem a seguinte lógica tão bem e exposta por E. Morin, ordem, desordem, interação, nova ordem, nova desordem, novamente interação e assim sempre. Com essa lógica criam-se sempre mais complexidades e diferenciações; e na mesma proporção vão se criando interioridade e subjetividade até a sua expressão lúcida e consciente que é a mente humana. E simultaneamente e também na mesma proporção vai se gestando a capacidade de reciprocidade de todos com todos, em todos os momentos e em todas as situações. Diferenciação /interioridade/ comunhão: eis a trindade cósmica que preside o organismo do universo.

Tudo vai acontecendo processualmente e evolutivamente submetido ao não-equilíbrio dinâmico(caos) que busca sempre um novo equilíbrio, através de adaptações e interdependências.

A existência humana não está fora desta dinâmica. Tem dentro de si estas constantes cósmicas de caos e de cosmos, de não-equilíbro em busca de um novo equilíbrio. Enquanto estivermos vivos nos encontramos sempre enredados nesta condição. Quanto mais próximos do equilíbrio total, mais próximos da morte. A morte é a fixação do equilíbrio e do processo cosmogênico. Ou a sua passagem para um nível que demanda outra forma de acesso e de conhecimento.

Como esta estrutura concretamente se dá em nós? Antes de mais nada, pelo cotidiano. Cada qual vive o seu cotidiano que começa com a toillete pessoal, o jeito como mora, o que come, o trabalho, as relações familiares, os amigos, o amor. O cotidiano é prosaico e, não raro, carregado de desencanto. A maioria da humanidade vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve. É o lado da ordem universal que emerge na vida das pessoas.

Mas os seres humanos são também habitados pela imaginação. Ela rompe as barreiras do cotidiano e busca o novo. A imaginação é, por essência, fecunda; é o reino do poético, das probabilidades de si infinitas (de natureza quântica). Imaginamos nova vida, nova casa, novo trabalho, novos prazeres, novos relacionamentos, novo amor. A imaginação produz a crise existencial e o caos na ordem cotidiana.

É da sabedoria de cada um articular o cotidiano com o imaginário, o prosaico com o poético e retrabalhar a desordem e a ordem. Se alguém se entrega só ao imaginário, pode estar fazendo uma viagem, voa pelas nuvens esquecido da Terra e pode acabar numa clínica psiquiátrica. Pode também negar a força sedutora do imaginário, sacralizar o cotidiano e sepultar-se, vivo, dentro dele. Então se mostra pesado, desinteressante e frustrado. Rompe com a lógica do movimento universal.

Quando alguém, entretanto, assume seu cotidiano e o vivifica com injeções de criação então começa a irradiar uma rara energia interior percebida pelos que com ele convivem.

Leonardo Boff junto com Mark Hathaway escreveu O Tao da Libertação Nova Ciência e Cosmologia, Vozes 2012.

19 Comentários leave one →
  1. Clélio Muniz Pires permalink
    15/08/2014 1:39

    O equilíbrio e o desequilíbrio – o bem e o mal. A fragmentação em todos os níveis sociais – o neoliberalismo. Precisamos olhar com desconfiança a competitividade que nos impõe o capital nesta era da informação interativa do “O grande irmão” (George Orwell).

  2. Zuleika de Madras permalink
    15/08/2014 1:55

    É em tudo isso que você escreveu, que a humanidade tem que ler e conscientizar-se. Obrigada e parabéns! Precisamos de mais conhecimentos para colocar a mente a funcionar. Muito importante o conhecimento de que viver no cotidiano, há o atrofiamento da mente e do raciocínio e, consequentemente, a estagnação da evolução humana. É um assunto apaixonante!!!

  3. 15/08/2014 2:26

    Prezado Leonardo,

    esse texto reflete bem o que realmente somos: seres remanescentes da transformação dos eventos cosmológicos que precedem a vida e a tornam possível. Ao adquirirmos uma consciência originária da evolução que atua em nós constantemente, pudemos conceber este mundo e atribuir uma razão existencial a tudo o que conhecemos. No início (primórdio da civilização) inventamos um “Deus” para jogar sobre ele toda a responsabilidade sobre nossa existência; mas, depois descobrimos que fomos nós mesmos que o criamos como uma desculpa moral para não assumirmos os nossos erros.

    A morte nada mais é do que um evento como todos os outros, desprovido de qualquer propósito, por isso, é importante viver bem esta vida que é única. Esse pensamento causa uma inquietação em muitas pessoas, mas este é um momento para refletirmos sobre nossa própria vida que depende inteiramente de nós mesmos.

    Os religiosos dizem para as pessoas que existe uma esperança na morte, essa é a maior ilusão que um ser pensante pode ter, é melhor morrer consciente da vida, do que na ilusão da morte!

    Cada respiro, cada suspiro é uma oportunidade única para nos encontrarmos conosco mesmo e sabermos que estamos embarcados em uma nave mãe que chamamos de terra, nosso lar. Também é preciso informar a todos que se não cuidarmos bem da terra, ela nos chutará para fora (o extermínio), tão rápido que não haverá tempo para resgatar a nossa própria humanidade! Abs.

  4. Karlo Quadros permalink
    15/08/2014 7:21

    O cotidiano e o imaginário…
    Belíssima e necessária reflexão!…
    Obrigado!

  5. Sebastião CTFreitas permalink
    15/08/2014 8:53

    É, para mim, um texto de rara poesia e muito saber. Vou compartilhar. Obrigado.

  6. Thiago Samuel S. Alves permalink
    15/08/2014 10:03

    Espinoza!

  7. António permalink
    15/08/2014 11:51

    Somos tão velhos quanto o Universo o é.
    Tudo quanto existe procede do ponto primordial, onde o tempo é zero e as dimensões não existem, apenas a Majestade do Indizível e a Sua Vontade criadora de onde tudo, absolutamente tudo, dimana. S. Francisco, esse Santo universal, teve essa visão e só assim se entende bem a razão porque a tudo e a todos tratava como irmão. A Face e o Nome do Indizível é nos dado pela Encarnação: Jesus. Como explicar que Isso assim é? Pela infinita Majestade de Onde brota a infinita Humildade e a Compaixão pelos que foram criados. Não há outro jeito de o fazer, porque a Deus e à Criação, as leis da Física não têm aplicação, não há possibilidade o fazer. Será uma forma de arrogância? Julgo que sim! E isso repousa, não no fruto da Árvore da Vida que Adão comeu, mas na intenção que esteve na origem desse acto, como poeticamente nos relatam os textos sagrados.

  8. 15/08/2014 20:40

    Parabéns emérito professor pelo artigo. Lembrei das conversas de Jiddu Krishnamurti e David Bohm a respeito da consciência do homem e o entrelaçamento quântico,Carl Gustav Jung e Wolgang Pauli e a sincronicidade,Dana Zohar e a inteligência espiritual,Amit Goswami e seu ativismo quântico,paul Dirac e o comportamento da informação.

  9. Maria do Rocio Macedo permalink
    17/08/2014 13:53

    Por tudo isso é que “captei” as informações lançadas nos livros EgoCiência e SerCiência -Ensaios; EgoCiência e SerCiência – Em busca de Conexões Quânticas e EgoCiência e SerCiência vs. Algumas questões humanas.

    Parabéns por mais esse Excelente texto!

  10. Luciano Leão Bernardino da Costa permalink
    18/08/2014 9:09

    A mim me preocupa, dentre tantas, uma questão em relãção ao ótimo texto: o universo evolui para o bem, para o positivo,para o aprimoramento, para as coisas boas. Nós, como humanidade, estamos na contra-mão e não acompanhamos nosso lar universal em nossas caminhadas. Isso me deixa por entender o por quê de nossa insanidade de querer puxar as coisas para trás, de não acompanhar o curso maravilhoso da existência do universo.O homem é destruição, conforme se nos apresenta em nosso dia-a-dia.As causas estão à nossa vista, mas as soluções, deliberadamente, as colocamos embaixo do tapete. Parabéns por mais um momento de tanta informação e conteúdo em um espaço condensado. Luciano Leão.

    • 18/08/2014 10:15

      Luciano
      Talvez não tenha enfatizado o fato de o universo como todas as coisas carregam junto a dimensão de caos com aquela de cosmos (harmonia e beleza). É um eterno jogo entre ambos, dando origem a ordens diferentes e mais altas. A esperança nossa é que o cosmos sobrepuge o caos. Isso não é um defeito mas uma marca da realidade universal e tb humana.. O problema é que nós não sabemos tirar proveito do caos, antes o incentivamos e assim nos mostramos destrutivos. O desafo é equilibrar a ambos fazendo que cresçamos com as crises e as situações caóticas. Esse é um problema mais que antropologico e filosófico. Tem a ver com a teologia e a relação rompida que temos para com a criação e o seu Criador.
      abraço fraterno
      lboff

      • 19/08/2014 6:43

        Caro Leonardo,
        aprendi lendo Ilya Prigogine que o Caos – leia este livro: As Leis do Caos – Ilya Prigogine http://www37.zippyshare.com/v/25608336/file.html – é uma condição de irreversibilidade para um estado físico que foge do equilíbrio, formando os atratores, redemoinhos nos fluídos e singularidades. As singularidades são os estados mais extremos e incompreensíveis, e não tínhamos ferramentas para tratar essas singularidades para 3 dimensões até que surgiu o matemático Perelman e resolveu de uma vez o problema proposto inicialmente por Henri Poincaré para uma superfície em 3 dimensões de uma esfera, afirmando que é o único espaço fechado de dimensão 3 no qual todos os contornos ou caminhos podem ser encolhidos até chegarem a um simples ponto! Matematicamente já é possível realizar cirurgias em singularidades, leia esta matéria em meu blog: http://rcristo.com.br/2014/01/01/fluxo-de-ricci-e-a-conjecture-de-poincare-by-john-morgan-gang-tian/
        Essa matemática complexa aproxima o nosso pensamento de uma concepção do ponto matemático que deu origem ao universo. Sugiro ler também “The universe from Nothing de Lawrence Krauss: http://rcristo.com.br/2014/04/02/o-universo-a-partir-do-nada-a-universe-from-nothing-lawrence-krauss/
        O que não parece evidente é a existência de um “autor ou criador” em tudo isso, esse autor não figura em nenhuma etapa do nosso direcionamento consciente em tentar compreender a física dos cosmos – é inexistente. Os cálculos em espaços topológicos mostram claramente que podem existir os chamados “Nadas” entre duas singularidades, então a nossa compreensão até o presente momento é ter de admitir um “nada” para poder continuar os cálculos!? Abs.

      • 19/08/2014 22:39

        Cristo,
        Respondo com Fernando Pessoa: sou fisico só quando trabalho a física. Fora disso posso ser outra coisa. Não é possivel matematizar toda a realidade, especialmente as mais preciosas como o amor, a ternura,o gesto que levanta alguem caido.
        lboff

  11. 18/08/2014 22:32

    Republicou isso em Espelho de Alice 4.0e comentado:
    Lindo, Grande Boff.

    • 19/08/2014 22:58

      Caro Leonardo,
      não há limites para nossas paixões humanas, seja ao som do violino ou ao canto de um pássaro, com nosso intelecto construímos nossas naves e com a nossa imaginação navegamos no imenso cosmos que é a vida com toda a sua complexidade. Abs.

  12. Mariannah permalink
    20/08/2014 17:59

    Leonardo Boff aplausos…que mais posso dizer! Mais forte que a inteligência é a sabedoria com que escreve e responde, inspiração algo relacionado ao divino que justamente fala deste equilíbrio que descreve no seu texto! Não somos só massa também somos luz…

  13. Luiz permalink
    31/08/2014 16:04

    Imaginar que somos feitos da mesma matéria que o Universo é de uma grandeza enorme, fico só a imaginar.

  14. 23/02/2016 21:32

    Republicou isso em Lado B .

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  1. Em nós estão todas as memórias do universo. Leonardo Boff | NUEVO AMANECER

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