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Transformar em sofrimento pessoal o que acontece no mundo

16/11/2015

        Atualmente há uma fecunda discussão filosófica, também entre nós com Muniz Sodré (As estratégias sensíveis, 2006) e F. J. Duarte (O sentido dos sentidos, 2004) no sentido de resgatar a razão sensível como enriquecimento imprescindível da razão intelectual. Esta diligência é necessária, porque é através dela que nos comprometemos afetiva e efetivamente com a salvaguarda da vida no planeta e com a humanização das relações sociais. Curiosamente o Papa Francisco, neste ponto, em sua encíclica sobre o cuidado da Casa Comum (2015) nos trouxe valoriosa contribuição.     

      Ele analisa com espírito científico e crítico “o que está acontecendo com a nossa Casa”(nn.17-61). Logo adverte que, numa perspectiva da ecologia integral que é o tema fundamental de seu texto, estas categorias são insuficientes (n.11). Temos que abrir-nos “à admiração e ao encanto…. e falar a linguagem da fraternidade e da beleza na nossa relação para com o mundo”(n.11. Portanto, não nos podemos restringir à ecologia ambiental, pois ela atende apenas à relação do ser humano com a natureza, esquecendo que ele é parte dela. Essa relação unilateral constitui o vício do antropocentrismo, criticado em seu texto (nn.115-121).

Ocorre que o ser humano possui dimensões sociais, políticas, culturais e espirituais sobre as quais há parca preocupação e isuficiente reflexão, o que dificulta encontrar uma solução consistente à grave crise que assola a Casa Comum.

Considerando a amplitude destas dimensões, devemos ir além de uma análise meramente tecnico-científica. Devemos, sim, utilizar a pesquisa científica imprescindível, mas importa “deixar-nos tocar por ela em profunidade e dar uma base de concretude ao percurso ético e espiritual daí derivado”(n.15). Mais ainda “devemos transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo”(n.19). Isso vale também com referência às vitimas dos atos terroristas acontecidos rcentemente em Paris sem esquecer também das vítimas feitas pelos pesados bombardeios de forças militares ocidentais, com dezenas de vítimas, sobre um hospital de médicos sem fronteiras e de uma escola cheia de crianças. A compaixão não pode ser seletiva. Ricos e pobres carregam a mesma dor que deve se transformar em nosso própria dor.

O Papa Francisco tem clara consciência de que por detrás das estatísticas há um mar de sofrimento humano e muitas feridas no corpo da Mâe Terra. Como somos parte da natureza e tudo está inter-relacionado (tema sempre recorrente na encíclica, nn. 70, 91,117, 120, 138,139 etc) e nós nunca estamos fora da “trama das relações”(n.240) que a todos envolve, participamos das dores da crise ecológica. Chega a advertir que “as previsões catastróficas já não se podem olhar com desprezo e ironia…o estilo de vida atual, por ser insustentável, só pode desembocar em catástrofes, como aliás estão acontecendo periodicamente em várias regiões”(n.161).

Mas o Papa não se deixa intimidar por esse cenário. Dá um voto de confiança no ser humano, em sua criatividade e em sua capacidade de regenerar-se e de regenerar a Terra (n. 205) e muito mais, confia no Deus que, segundo as palavras da tradição judeo-cristã,“ é o soberano amante da vida”(Sab 11, 24 e 26: nn. 77, 89). Ele não permitirá que nos afundemos totalmente (n.163). Ainda faremos “uma conversão ecológica”(n. 217) e introduziremos “a cultura do cuidado que permeará toda a sociedade”(n.231).

Disso nascerá um novo estilo de vida (alternatriva repetida 35 vezes na encíclica), fundado na cooperação, na solidariedade, na simplicidade voluntária e na sobriedade compartida que implicará um novo modo de produzir e de consumir e, por fim, nos dará “a consciência amorosa de não estarmos separados das outras criaturas mas que formamos com os outros seres do universo uma estupenda comunhão universal”(n.220).

Como se depreende, aqui não fala mais somente a inteligência intelectual, tecnico-científica, mas a inteligência emocional e cordial como o tenho detalhado nos meus dois livros Saber Cuidar e O Cuidado Necessário (Vozes). O Papa em suas palavras de afeto e de carinho para com todos, especialmente para com os pobres e os mais vulneráveis dá claro exemplo do exercício deste tipo de inteligência tão urgente e necessária para superarmos a profunda crise que recobre todos os âmbitos da vida.

Em razão desta inteligência emocional, pede que devemos “ouvir tanto o grito da Terra como o grito dos pobres”(49). As agressões sistemáticas, feitas nos últimos dois séculos, “provocam os gemidos da irmã Terra que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo”(n.53). Por isso importa “cuidar da criação… e tratar com desvelo os outros seres vivos”(n. 211), pois todos possuem um valor intrínseco, independente do uso humano (n.69) e, a seu modo, até as ervas silvestres (n.12), louvam o Criador (n.33). Chega dizer que devemos “alimentar uma paixão pelo cuidado” por tudo o que existe e vive.

Enfatiza o fato de que “nós com todos os seres do universo, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, uma comunhão sublime que nos impele a um respeito sagrado, amoroso e humilde”(n. 89).

Somente quem tem desenvolvido em ato grau a inteligência sensível ou cordial poderia escrever: ”tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma de suas criaturas e que nos une também, com terna afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”(n. 92).

Tais sentimentos e atitudes hoje constituem uma demanda geral, para afastar as tragédias ecológico-sociais que já se anunciam no horizonte de nosso tempo e também a violência das guerras no Norte da África e a resposta tresloucada do terrorismo islâmico.

Leonardo Boff é colunista do JB on line, eco-teólogo e escritor

9 Comentários leave one →
  1. MARIANO FERREIRA DA COSTA _ permalink
    16/11/2015 19:21

    O Planeta agradece
    quem o trata com carinho,
    derrama flores em prece
    enfeitando teu caminho,
    oxigênio para a vida
    e cantos de passarinhos.

  2. Antonio Brito permalink
    16/11/2015 20:04

    …”A compaixão não deve ser seletiva…
    Os animais não humanos existem por suas próprias razões (“possuem valor intrínseco, independente do uso humano”)
    Feliz por você ter explicitado essas questões, Boff, tão negligenciadas pela maioria das crenças, em seu utilitarismo hipócrita.
    Acredito que a saída deve, necessariamente, passar pela desconstrução do antropocentrismo.

  3. rubens vieira. permalink
    17/11/2015 15:28

    Gostei muito, pode mandar tudo que edifica nosso conhecimento.

  4. 17/11/2015 19:02

    Republicou isso em luveredas.

  5. 17/11/2015 20:38

    SOLO PODREMOS MODIFICAR EL RUMBO SUICIDA EN EL CAMINO DEL HOMBRE SI LOS QUE TIENEN RESPONSABILIDAD EN SU DIRECCIÓN OPTAN POR EJEMPLOS DE VIDA AUSTERA, COMO LOS DEL PAPA FRANCISCO O LOS DE PEPE MUJICA…

  6. Edgar Rocha permalink
    19/11/2015 2:04

    Acho que o mundo está precisando é de uma nova crença. O Cordeiro já não se manifesta. O tempo da Graça acabou. Quem mais entende a fé cristã integralmente, já que esta se mostra cada vez mais moldável, mais pasteurizável, para o bem e – talvez, sobretudo – para o mal. Fundamentalismos mil descaracterizaram aquilo que já não se mostrava suficiente aos dilemas atuais. A questão ecológica é tão periférica em relação à fé cristã, que a consciência do antropocentrismo por ela gerado só começa a ganhar corpo agora, quando a situação é crítica por demais para ser adiada. Interpretações metafóricas, políticas, ideológicas de todo tipo (muitas vezes datadas e passíveis de reavaliação) não deixaram margem a nenhuma associação entre a fé cristã e a consciência de que somos parte da Criação, ao invés de meros usufrutuários. Toda interpretação mais próxima do Homem-natural, sempre foi vista como romântica, ingênua, infantil. Cristianismo era – pra progressistas e conservadores – cosia muito séria para descer ao nível da percepção afetiva sobre o mundo. Tudo isto que digo é um lamento. Poderia ter sido diferente, afinal de contas, a despeito de qualquer crítica que se faça ao termo paganismo, enquanto religião ultrapassada, este forjou no seio da sociedade cristã infinitas percepções de mundo e culturas capazes de dar ao cristianismo algo um pouco mais sentimental e ligado ao mundo natural. É bom lembrar que pagão não era necessariamente o termo utilizado para definir o dodecateísmo, mas sim, para definir o conjunto de referências religiosas/filosóficas advindas da cultura do pobre, sendo este, aquele que mora no “pagus” (daí o termo). Tais tradições da sociedade de base foram o grande refresco do academicismo cristão, precursor do mundo cartesiano e burguês em que vivemos. Era um conhecimento advindo do contato com a vida que insistia em permanecer a despeito das interpretações de teólogos renomados, de cujo pensamento forjou-se a base institucional e dogmática da fé. Base esta que foi sustentáculo de aberrações como a própria inquisição, bem como das formulações necessárias para inserir no mundo “moderno”, “iluminado” e “científico” que hoje, deu no que deu.
    A verdadeira fé, portanto, aquela fez feita de alma, consciência e sensibilidade afetiva, foi defenestrada, vilipendiada, subestimada, ridicularizada…. Tudo com a mais fina base teórica a serviço da “modernização”.
    Esta modernização, portanto, agora requer uma resposta ante a destruição de todos os níveis possíveis da existência do espírito humano no planeta. Já não necessitamos morrer para estarmos mortos. Nossa ausência do mundo natural/real, nos faz pouco mais que demônios acossadores de tudo que pareça divino ou necessite de alguma percepção mais profunda para ser valorizado. O Cristo, ao contrário do contorcionismo teórico do Papa Francisco, não nos deixou nada convincente enquanto aprendizado sobre a relação do homem com o mundo natural. Não há, acredito, nenhuma frase universal ou atemporal dita por ele neste sentido. Temos que admitir isto, se quisermos ser sinceros com a fé. Sua centralidade estava no homem enquanto ser social e nas relações políticas mais intrínsecas, capazes de nos permitir forjar uma realidade mais próxima de seu ideal de Reino. Ora, isto não é pouco! Precisamos, a partir destes ensinamentos, construir um futuro menos sombrio. Ao cristão, basta saber: Jesus não forjou religião, pregou a solidariedade e o amor, ensinou o perdão e a comunhão, enfrentou injustiças e pregou a verdade e a justiça, estando estas submissas à compaixão. Precisa mais?
    Não há Ecologia Integral, muito menos “Cuidado com a Casa”, nem “Mãe Terra” sugeridos nem de resvalo nos Evangelhos. Não sejamos teleológicos com o cristianismo nem com o Cristo!
    Podemos, sim, buscar uma conduta social mais cristã e esta ser o motor capaz de garantir a paz necessária para sanar os problemas atuais. Neste sentido, ser cristão, independente da inexistência do tema na vida do Cristo, é estar atento ao Novo Chamado. O Cristo nos preparou para este momento. Sejamos verdadeiros em aceitar que nossos problemas, de tão esdrúxulos e aquém do sentido correto de Realidade, não constam em manual nenhum, nem na Bíblia! Uma nova fase do mundo se inicia. É um convite à ruptura.
    Meus respeitos!

  7. 05/12/2015 19:43

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Compartilhado do Leonardo Boff: Atualmente há uma fecunda discussão filosófica, também entre nós com Muniz Sodré (As estratégias sensíveis, 2006) e F. J. Duarte (O sentido dos sentidos, 2004) no sentido de resgatar a razão sensível como enriquecimento imprescindível da razão intelectual. Esta diligência é necessária, porque é através dela que nos comprometemos afetiva e efetivamente com a salvaguarda da vida no planeta e com a humanização das relações sociais. Curiosamente o Papa Francisco, neste ponto, em sua encíclica sobre o cuidado da Casa Comum (2015) nos trouxe valoriosa contribuição.

    Ele analisa com espírito científico e crítico “o que está acontecendo com a nossa Casa”(nn.17-61). Logo adverte que, numa perspectiva da ecologia integral que é o tema fundamental de seu texto, estas categorias são insuficientes (n.11). Temos que abrir-nos “à admiração e ao encanto…. e falar a linguagem da fraternidade e da beleza na nossa relação para com o mundo”(n.11. Portanto, não nos podemos restringir à ecologia ambiental, pois ela atende apenas à relação do ser humano com a natureza, esquecendo que ele é parte dela. Essa relação unilateral constitui o vício do antropocentrismo, criticado em seu texto (nn.115-121).
    [Continua]…

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