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Podem as religiões ajudar a superar a crise ecológica?

24/01/2016

Pela primeira vez depois de anos, os 192 países se puseram de acordo na COP21 de Paris em fins de 2015, de que o aquecimento global é um fato e que todos, de forma diferenciada mas efetiva, devem dar a sua colaboração. Cada saber, cada instituição e especialmente aquelas instâncias que mais movem a humanidade, as religiões, devem oferecer o que podem. Caso contrário, corremos o risco de chegarmos atrasados e de enfrentarmos catástrofes como nos tempos de Noé.

Abstraímos o fato de que cada religião ou igreja possuem suas patologias, seus momentos de fundamentalismo e de radicalização a ponto de haver cruéis guerras religiosas, como houve tantas entre muçulmanos e cristãos. Agora o que se pede, é ver de que forma, a partir de seu capital religioso positivo, estas religiões podem chegar a convergências para além das diferenças e ajudar a enfrentar a nova era do antropoceno (o ser humano como o meteoro rasante ameaçador) e a sexta extinção em massa que está já há muito tempo em curso e se acelera cada vez mais.

Tomemos como referência as três religiões abraâmicas por serem do espaço cultural.

Primeiro, vejamos rapidissimamente a contribuição do judaísmo. A Bíblia hebraica é clara ao entender a Terra como um dom de Deus e que nós fomos colocados aqui para cuidá-la e guardá-la.”A Terra é minha e vós sois hóspedes e agregados”(Lev 25,23). Não podemos como nenhum hóspede normal faria, sujá-la, quebrar seus móveis, danificar seu jardim e matar seus animais domésticos Mas nós o fizemos. Por isso há a tradição do Tikkum Olam, da “regeneração da Terra” como tarefa humana pelas danos que lhe temos provocado. Há também senso de responsabilidade face aos não humanos. Assim antes de comer, cada um deve alimentar seus animais. Não se pode tirar uma ave do ninho que está cuidando dos filhotes. O “dominar a Terra”(Gn 1,28) deve ser entendido à luz de “cuidar e guardar”(Gn 2,15) como quem administra uma herança recebida de Deus.

O Cristianismo herdou os valores do judaísmo. Mas acrescentou-lhe dados próprios: o Espírito Santo fixou morada em Maria e o Filho, em Jesus. Com isso assumiu de alguma forma todos os elementos da Terra e do universo. A Terra é entregue à responsabilidade dos seres humanos mas eles não possuem um direito absoluto sobre ela. São hóspedes e peregrinos e devem cuidar dela. São Francisco de Assis introduziu uma atitude de fraternidade universal e de respeito a cada um dos seres, até das ervas silvestres. Pelo fato de o Deus cristão ser relacional, pois é Trindade de Pessoas, sempre relacionadas entre si, faz com que o próprio universo e a tudo o que existe seja também relacional, como o Papa Francisco tão bem expressou em sua encíclica.

O Islamismo está na esteira do judaísmo e do cristianismo. Também para ele a Terra e a natureza são criação de Deus, entregues à responsabilidade do ser humano. No Alcorão se diz que temos nossa morada aqui por um curto momento e apenas podemos desfrutar de seus bens (Sura, 2,36). O Altíssimo e Misericordioso nos dá pela riqueza e a diversidade da natureza sinais que lembram constantemente de sua misericórdia com a qual dirige o mundo. (Sura 45,3). A entrega confiante a Alá (islam) e a própria jihad (luta pela santidade interior) implicam cuidar de sua criação. Hoje muitos muçulmanos despertaram para o ecológico e de Singapura a Manchester pintaram suas mesquitas todas de verde.

Há uns pontos convergentes nestas três religiões: entender a Terra como dom e herança e não como objeto a ser simplesmente usado a bel-prazer, como o entendeu a modernidade. O ser humano tem responsabilidade face ao que recebeu, cuidando e guardando (faze-la frutificar e conferi-lhe sustentabilidade); ele não é dono mas guardião. A Terra com sua riqueza remete continuamente ao seu Criador.

Estes valores são fundamentais hoje, pois a tradição científico-técnica tem tratado a Terra como mero objeto de exploração, colocando-se fora e acima dela. Somos Terra (Gn 1,28). Por isso há um parentesco com ela, nossa sustentadora.

Ademais todas as religiões desenvolvem atitudes que são imprescindíveis atualmente: o respeito à Terra e a tudo o que nela contem pois as coisas são muito anteriores a nós e possuem um valor em si mesmas; a veneração face ao Mistério do universo. Respeito e  veneração não apenas ao Alcorão ou à hóstia consagrada mas a todos os seres, pois são sacramentos de Deus.

Essas atitudes impõem limites ao poder dominador, hoje colocando o equilíbrio da Terra em risco e ameaçando a nossa subsistência. A tecno-ciência é fundamental para superar a crise ecológica. Mas somente ela é insuficiente, pois precisamos de uma nova forma de relação de sinergia e de respeito para com os ciclos e os ritmos da natureza. Há um tipo de tecno-ciência que chegou a ser  irracional  por ter criado um aparato militar que nos pode liquidar a todos. Como todo saber, ela também deve conhecer limites éticos, impostos pela própria viva que quer continuar a viver e a conviver com os demais seres da Casa Comum. Senão para onde iremos? Seguramente não à montanha das bem-aventuranças mas ao vale de lágrimas.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu A Terra na palma da mão:uma nova visão do planeta e da humanidade,Vozes 2016.

15 Comentários leave one →
  1. vilma pereira permalink
    24/01/2016 1:04

    As religões jamais conseguirão resolver a crise ecológica, pelo simples fato de que são contraditórios os seus argumentos e a preservaçao da ecologia nunca foi de interesse das religões

    • 24/01/2016 10:43

      Isso não é verdade. Os textos que cito dizem o contrário do que vc afirma. Um S.Francisco e um Papa Francisco, homens religiosos, são referências de uma relação feliz para com a natureza a partir da dimensão religiosa. No budismo isso tb é muito claro e em geral as religiões dos povos originários que se sentem parte na natureza e se sentem seus protetores naturais. lboff

    • Edgar Rocha permalink
      25/01/2016 0:45

      Com todo o respeito ao Sr. Leonardo Boff, assim como em outras análises suas, tendo a concordar com o raciocínio da respeitável colega Vilma Pereira. Em dois mil anos de história cristã (somados aos pelo menos cinco mil anos à tradição judaica), a tradição abraâmica não tem deixado margem para se discutir a questão da relação com a criação para além do próprio antropocentrismo. Dentre tantas citações a respeito do poder do Criador e de sua misericórdia expressa na criação, é preciso fazer um verdadeiro garimpo para se pinçar afirmações de cunho verdadeiramente protecionista em relação a nossos irmãos do mundo natural. Além disso, no decorrer da História poucos teóricos além de São Francisco deram a devida importância à dignidade da vida estendida aos demais seres. E mesmo Jesus, convenhamos, centrou-se nas relações humanas, dando sinais claros de que a interpretação mais óbvia sobre a Bíblia é realmente a verdadeira. Em outra ocasião citei algumas passagens que deixariam qualquer ecologista de cabelo em pé. A da figueira infrutífera foi a mais significativa, ao meu ver.
      O curioso é que pouco se fala do cristianismo apócrifo, mestiço das religiões pré-cristãs e sua influência positiva no aspecto das relações com a natureza e com a própria ciência. O marianismo – vertente bastante influente no mundo ibero-americano ainda hoje – ofereceu durante toda a Idade Média, os mais belos exemplos de uma relação afetiva entre Homem e Natureza. Quem quiser apreciar, procure no imenso mosaico teológico popular expresso nas Cantigas de Santa Maria (organizadas em um único livro pelo rei Afonso X, o Sábio). Celtismos, arabismos, influências nórdicas e até africanas colocam a Virgem num lugar privilegiado de Co-redentora do Mundo e detentora do poder sobre tudo que é natural: Maria é a “Sennor das Naturas”, promotora das ciências, das orações, das benzedeiras e seus unguentos, garrafadas e sortilégios. É o que havia de mais próximo da união entre ciência e religião, mediado pelo amor a Deus (Deusa) e às criaturas. Atualmente, por outro lado, ainda temos nos esquecidos pelo mundo nossa tábua de salvação: os povos tradicionais – indígenas, africanos e asiáticos – carregam a sabedoria milenar capaz de unir novamente o Homem à realidade natural como sendo esta a verdadeira e legítima realidade, para além ou aquém da qual, tudo é mentiroso ou sofisticado. Talvez o temor das religiões institucionalizadas seja justamente sua descaracterização. sua conversão forçada para uma direção oposta ao antropocentrismo que, embora criticado e hoje, inadmitido como paradigma religioso, ainda é o sustento ideológico destas instituições falidas, centralizadoras e desmoralizadas.
      Mesmo assim, minha fé cristã ainda me parece imprescindível. Jesus é a redenção do homem. A origem de nosso sisma religioso em relação à natureza não está diretamente ligada ao antropocentrismo, mas ao fato deste não ter sido instrumentalizado para elevar o espírito do homem para além de seus erros para com o próximo, os quais são, de fato, a razão para tanta destruição (falo da desigualdade, da cobiça, do poder, do racismo e outras irracionalidades). O antropocentrismo de Cristo nunca foi mote para tantas mazelas humanas ou naturais. Mas, Ele sabia plenamente que sua presença no mundo daria a referência necessária para que a humanidade tivesse escolha. Infelizmente, a maioria fez a escolha errada nestes dois mil anos (“muitos serão os chamados e poucos os escolhidos”), daí a promessa de seu retorno e enfrentamento aos que o recusaram. Enquanto isto, de minha parte eu espero o surgimento de algo capaz de responder o acúmulo imenso de problemas que causamos com nossa incompreensão. Algo que extrapola o contexto vivido por Jesus e que, portanto, demanda um, digamos, adendo.

  2. José Ribeiro Geny permalink
    24/01/2016 6:49

    Viver significa administrar questões tanto pessoais quanto coletivas.
    Prioriza-se multiforme as questões segundo o escopo ou visão de cada qual.
    Assim faço um escalonamento de questões de forma idiossincrática, podendo, obviamente, incorrer em equívocos. Retratar-me-ia diante duma consciência dos mesmos.
    Nesse sentido creio ser a questão do negro a prioritária em âmbito geral ou pessoal; a segunda questão mais urgente penso ser a nuclear, devendo haver um desarmamento geral e investimento no social e a terceira mais importante questão a meu ver, a ecológica. Outras se seguem. Elas se interagem se me parece.
    Os EUA, como cartada do partido democrático ou de forma puramente aleatória, colocaram um presidente negro, um sinal para o mundo. Nem Stalin, que esteve no poder de 1917 a 1953, esboçou algo em torno duma migração na URSS, para ser um contraponto à migração forçada e injusta de negros para a América. Fato aliás, imputado, erroneamente segundo vários historiadores ao Frei Bartolomeu de Las Casas(1474-1566), o qual foi um incansável defensor dos nativos americanos. Para tal fez 14 viagens à. Europa. Há afirmações, negada e questionada por autores como Cesar Cantu, de que esse grande dominicano, muito referendado por Leonardo Boff no livro 500 Anos de Conquista da América, tenha sugerido a substituição dos indígenas por negros. Um texto na rede diz: curiosamente não se opôs à “escravidão de negros”.
    Fica o exposto de que nem a Coreia, China ou Rússia podem ter o status ou o privilégio de eleger um negro. Lógico que se trata dum tirocínio e a médio ou a longo prazo esses países possam dizer: aqui o comunismo funciona, temos presidente negro, há encontro ou desencontro, como nos EUA, de raças.
    Pelo lado atômico todo país deveria ter o que tem o Brasil, como texto constitucional sui-generis, a proibição do fabrico de armas nucleares, segundo centralizou Lula. Assim a Coreia está na contramão como os EUA, etc.
    No viés ecológico o escritor Mário Palmério, vivendo alguns anos num navio pelos rios da Amazônia, dizia ser a ocupação da Amazônia a maior questão nacional.
    Possivelmente queria evitar uma ocupação desastrada, com o comércio suprimindo a encantada, abençoada e necessária mata.

    Postei como se segue para comentar uma colocação num grupo sobre filosofia e compartilho aqui.

    Há a música Sonho Impossível com mensagem afim.
    Cita-se, outrossim, que o fascinante homem pré-histórico realizou o que aos olhos do homem moderno, com sua aparente e apática ressaca, parece ser algo impossível, i.é, sobreviveu.
    Deixou para nós o mundo sobre o qual devemos reverter o processo de degradação.
    Lógico que havemos de eliminar todo e qualquer arma nuclear.
    O sonho torna-se possível a partir do consenso.
    O tirocínio do pre-histórico pode ser honrado por nossas gerações doravante. O próprio homo de Cro-Magnon, tido 15% mais forte e mais inteligente que nós (cf. Win Wenger in Como Aumentar a Inteligência, Ed. Record), não nos legou artefatos bélico-nucleares.

  3. paulo fernandes dias permalink
    24/01/2016 9:52

    O homem como um resultado de combinações físico-químicas, de inter-relações cósmicas, não pode se arvorar como dono ou como hospedeiro da Terra, mas como um componente igual a tudo que existe neste mundo (advindos do ciclo da natureza) – os animais se matam para saciar suas fomes, é a lei da sobrevivência – assim o homem como animal com emoções. A exacerbação da competição pela riqueza (que já está concentrada) e que exclui o próprio homem demonstra, quiçá, um movimento inerente à própria natureza (matar para comer) repetida de forma inteligente, sem aqui juízos de valor, do mais forte…

  4. 24/01/2016 22:23

    Excelente reflexão. Cuidar da Casa Comum deve ser tarefa para todos os homens e mulheres de boa vontade.

  5. Carlos Renato permalink
    25/01/2016 6:18

    Assim como a célula , menor unidade funcional da vida , é constitiunte de um corpo , e nele habita e dele depende para sua nutrição e subsistência , O ser humano , analogamente , habita a Terra e dela depende. Quando uma célula torna-se egoísta, e passa a achar-se imortal, querendo cada vez mais , passando a querer escravizar todo o ser, temos aquilo que se chama câncer , que nada mais é que a proliferação celular insana , gerando invasão local e metástases e morte. Analogamente, o egoísmo humano gera também o despotismo sobre a Terra e a natureza , levando ao definhar progressivo dos recursos finitos , e à extinção da vida.

  6. 26/01/2016 0:14

    Republicou isso em MUNDO SOCIAL E AMBIENTALe comentado:
    Dizerem importantíssimos que trazem em si preocupações essenciais com o futuro de nossa humanidade, de nosso planeta, de nossa “Casa Comum”. O autor nos remete a inteorizarmo-nos sobre o mundo a nossa vota, o outro e o ambiente que nos cerca, todas a vidas e a nosso mãe, a natureza.
    Vale a pena refletir sobre o artigo do Professor Leonardo Boff!
    Se não fizermos algo para mudar nossa realidade social, natural e ambiental…qual o futuro de nossa existência humana? Qual o futuro de nossas crianças? Qual o futuro de nosso planeta?
    Consumimos, extraímos,cada vez mais recursos naturais. Jogamos lixo, queimamos… Um ciclo que um dia acaba…

  7. 26/01/2016 0:16

    Parabéns Professor pelo seu artigo!

    Excelente!

    Até mesmo rebloquei em meu modesto blog.

    Muita sorte e PAZ!

  8. Ilze Andrade Camargo permalink
    26/01/2016 16:05

    Muito bom!

  9. GABRIEL PEDRO NASCIMENTO permalink
    27/01/2016 0:16

    Caríssimo, particularmente penso que para superar qualquer crise que afete toda a Terra, que nos alimenta, como a mãe amamenta os filhotes, será preciso primeiro que como indivíduo, eu consiga olhar, e ver qualquer outra pessoa, – independente da cor do barro que ela tenha sido feita, – com a mesma dignidade minha, ou seja; que eu não me veja como melhor e com mais direitos que as outra pessoas que habitam nosso planeta. Talvez seja esse o primeiro ponto a ser superado por todos os homens e mulheres. Mas, infelizmente, mesmo aqui em nosso país, ainda não consigo ver isso. Falta-nos, Educação, Educação, Educação e muita, mas muito mesmo meditação . . . Se assim fosse em todo o OCIDENTE, teríamos um diálogo sereno com todo o ORIENTE. E mais, se assim fosse, independente do Rebanho, de qualquer redil que fosse, e, mais ainda, qualquer que fosse o pastor aqui da terra, que as orientassem, ao encontrarem-se dois rebanhos a confraternização seria sempre uma festa.

  10. Anderson Freitas permalink
    29/01/2016 16:10

    Enviado do meu iPhone

    >

  11. 06/02/2016 9:20

    Republicou isso em wilsonmeirablog.

  12. wilsonlords@gmail.com permalink
    12/02/2016 22:34

    Caro teologo Boff, sou grato pela sua reflexao, que traz aa luz a possibilidade que as instituicoes, coletividades teem de fazer diferente, fazer melhor, a partir do sagrado. Sua motivacao nos inspira na caminhada em favor da vida, de todo ser. Ha reflexoes das tradicoes javistas e eloistas sobre a criacao que revelam nossa pertenca ao humus da terra, visao ecologica de grande valor. Somos po que ao po voltara, nossa casa, lugar de nossos pes, espaco sagrado que alimenta nossas almas (vidas). Sou grato por nos lembrar do Deus que se fez homem, corpo e sangue quando se buscava negar valor aa materialidade da vida, influenciados pela cultura grega e impusionados pelo poder do imperio romano: Cremos na ressurreicao do corpo, e nesta crenca, nao preciso de colocar a mao, como Sao Tome, pois o Espirito Santo intercede por toda a criacao, com gemidos inexprimiveis, em favor da vida, em sua plenitude. Abcs

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