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Para onde vamos? Impasses da atual crise brasileira

26/06/2016

A atual crise brasileira, talvez a mais profunda de nossa história, está pondo em xeque o sentido de nossso futuro e o tipo de Brasil queremos construir.

Celso Furtado com frequência afirmava que nunca conseguimos realizar nossa auto-construção, porque forças poderosas internas e externas ou articuladas entre si sempre o tinham e têm impedido.

Efetivamente, aqui se formou um bloco coeso, fortemente solidificado, constituído por um capitalismo que nunca foi civilizado (manteve a sua voracidade manchesteriana das origens), finaneiro e rentista, associado ao empresariado conservador e anti-social e ao latifúndio voraz que não teme avançar sobre as terras do donos originários de nosso país, os indígenas e de acrescimo as dos quilombolas. Estes sempre frustraram qualquer reforma política e agrária, de sorte que hoje 83% da população vive nas cidades (bem dizendo, nas periferias miseráveis), pois esta sentia-se deslocada e expulsa do campo. Estas elites altamente endinheiradas se associaram a poucas famílias que controlam os meios de comunicação ou são donos delas.

Esse bloco histórico será difícil de ser desmontado, uma vez que o tempo das revoluções já passou. As poucas mudanças de orientação popular e social introduzidas pelos governos do PT estão sendo bombarbeadas com os canhões mais poderosos. Os herdeiros da Casa Grande e o grupo do privilégio estão voltando e impondo seu projeto de Brasil.

Para sermos sucintos e irmos logo ao ponto central, trata-se do enfrentamento de duas visões de Brasil.

A primeira: ou nos submetemos à lógica imperial, que nos quer sócios incorporados e subalternos, numa espécie de intencionada recolonização, obrigando-nos a ser apenas fornecedores dos produtos in natura (commodities, grãos, minério, água virtual etc.) que eles pouco possuem e dos quais precisam urgentemente.

A segunda: ou continuamos teimosamente com a vontade de reinventar o Brasil, com um projeto sobre bases novas, sustentado por nossa rica cultura, nossas riquezas naturais (extremamente importantes após a constatação dos limites da Terra e do aquecimento crescente), capaz de aportar elementos importantes para o devenir futuro da humanidade globalizada.

Esta segunda alternativa realizaria o sonho maior dos que pensaram um Brasil verdadeiramente independente, desde Joaquim Nabuco, Florestán Fernandes, Caio Prado Jr e Darcy Ribeiro até Luiz Gonzaga de Souza Lima num livro que até agora não mereceu a devida apreciação e atenção (“A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada”, RiMA, São Carlos, SP 2011) e da maioria dos movimentos sociais de cunho libertário.

Estes sempre projetaram uma nação autônoma e soberana mas aberta ao mundo inteiro.
A primeira alternativa que agora volta triunfante sob o presidente interino Mchel Temer e seu ministro das relações exteriores José Serra, prevê um Brasil que se rende resignadamente ao mais forte, bem dentro da lógica hegeliana do senhor e do servo. Em troca recebe imensas vantagens, beneficiando especialmente os endinheirados (Jessé Souza) e os seus controlados.

Estes nunca se interessaram pelas grandes maiorias de negros e de pobres que eles desprezam, considerando-os peso morto de nossa história. Nunca apoiaram seus movimentos. E quando podem, os rebaixam, difamam suas práticas e com o apoio de fortes setores do parlamentodo  por eles controlado, os criminalizam.

Eles contam com o apoio dos USA, como o nosso maior analista de política internacional Moniz Bandeira, em sucessivas entrevistas, tem chamado atenção, pois não aceitam a emergência de um potência independente  nos trópicos.

Donde nos poderá vir uma saída? De cima não poderá vir nada de verdadeiramente transformador. Estou convencido de que ela só poderá vir de baixo, dos movimentos sociais articulados, de outros movimentos interessados em mudanças estruturais, de setores de partidos vinculados à causa popular. O dia em que as comunidades favelizadas se conscientizarem e projetarem um outro destino para si e para o Brasil, haverá a grande transformaçao, palavra que hoje substitui a de revolução. As cidades estremecerão.

Ai sim poderão os poderosos serem alijado de seus tronos, como dizem as Escrituras, o povo ganhará centralidade e o Brasil terá sua merecida independência.

Leonardo Boff é articulista do Jornal do Brasil e escritor.

19 Comentários leave one →
  1. 26/06/2016 9:39

    Republicou isso em Zefacilitador.

    • Marizia Lippi permalink
      28/06/2016 21:27

      Dom Angélico Sândalo Bernardino, orientou-me da mesma maneira sua sobre …Fátima. Ele referiu-se em outra ocasião à sua pessoa como o “Nosso Leonardo Boff”. A HUMANIDADE conta com Deus como Pai para ajudá-la a fazer a sua parte, cumprindo a Vontade de Deus? Marízia Costa Carmo Lippi, Diocese de Petrópolis-RJ.

  2. 26/06/2016 12:51

    Caro Frei Boff, mantemos a nossa esperança.

  3. Almir Aparecido Cepulveda permalink
    26/06/2016 16:06

    Concordo plenamente. Ainda somos colônia. Não de Portugal, mas do mundo.

  4. 26/06/2016 17:00

    “O dia em que as comunidades favelizadas se conscientizarem e projetarem um outro destino para si e para o Brasil, haverá a grande transformaçao, palavra que hoje substitui a de revolução. As cidades estremecerão”. Contraponho a música de Tom Jobim aos dizeres do magnânimo Leonardo Boff: “É 1, é 2, é 3, é 100. É 1000 a batucar
    O morro não tem vez/Mas se derem vez ao morro/Toda cidade vai cantar”

  5. 26/06/2016 21:18

    Revelado o Terceiro Segredo de Fátima: “A guerra final entre Cristo e Satanás expressará a meta do malígno de destruir o matrimônio e as famílias,guerra que está em curso (aborto,questões de gênero, o ficar entre os casais…); a isto soma-se a ambição, o materialismo, a exploração,o desamor, o ATEISMO… Pobre humanidade originária de TÃO ADMIRÁVEL CRIADOR, em tal decadência…….Marízia Costa Carmo Lippi, Diocese de Petrópolis-RJ.

    • 28/06/2016 1:12

      Mariza, não acredite nestes segredos que o Vaticano desmoralizou por ter sido uma invencionice. Para nós bastam os evangelhos e não essas revelações particulares. lboff

  6. 27/06/2016 12:40

    nem tenho esperança de ver a mudança no Brasil, o povão, q é prejudicado é facilmente manipulado para ficar ao lado dos q tem tudo e contra os movimentos sociais.Tem gente matando cachorro a grito q fala mal dos movimentos sociais.

  7. 27/06/2016 23:36

    Prezado professor, venho refletindo desde sua postagem “Sinceramente, o Brasil tem jeito?” e gostaria de associar as duas questões no comentário que farei aqui.

    Não tenho dúvidas de que há uma crise. Porém, desconfio que o pior dela não é o alardeado aspecto econômico e sim seus componentes políticos, emocionais e éticos. Os que eram novos demais na década e 90 ou nasceram depois, basicamente conhecem desordem em caso da repressão de manifestações estudantis por educação, a desobediência civil de black blocs e associados. Não conhecem situação perigosa que começou a instalar-se com seper-arrastões e frequentes saques a supermercados. O desespero da massa estava além do suportável.

    No campo político, o êxito sucessivo das políticas sociais capitaneadas pelo PT, a existência de adolescentes e jovens sem o conhecimento retroativo daquele caos, trouxe um novo desafio: explicar para a juventude que o único Brasil que eles conhecem não é o Brasil de sempre. Faltou dizer que, o de hoje, foi conquistado com luta, com ideais que movem pessoas e grupos para ampliá-lo, mas que também existem ideais mobilizadores de pessoas e grupos para extinguí-lo. Isso sem esconder falhas do PT, mas sem permitir tendenciosas acepções partidárias.

    Lula e Dilma são apontados, inclusive por parte da esquerda, como subservientes por aceitarem pagar tributo às elites para fazerem seus programas sociais, como fracos em relação a pseudo mídia chapa branca, que de tão parcial e partidária, ganhou a alcunha de Partido da Imprensa Golpista, ou PIG, para os íntimos. O escândalo do mensalão e do petrolão, mas mãos da grande mídia foram a semeadura da retórica do PT como quadrilha. A resistência do governo só começou a ficar visível já a caminho do pleito presidencial de 2014.

    Itamar Franco também foi acusado de ser passivo demais e ter o mesmo tipo de fraqueza para governar. Embora a crise política atual seja anterior a 2014, vamos considerar só a fração da crise que assola o país de outubro de 2014 até hoje, passando pela suspensão de Dilma e como isso nos trouxe rapidamente o temor pela fragilidade de nossa jovem democracia. Então quer dizer que em 1992, quando ela era ainda mais jovem deveríamos ter tido um presidente que governasse pela força? Teria no pós-impeachment de Collor havido o Real, se assim fosse?

    Vamos um pouco mais fundo: 1964. João Goulart – que também não é unanimidade até hoje dentro da esquerda – teve claro sinal de traição em 20/03, quando o Gen. Castelo Branco enviou circular oficial ao exército alertando sobre o risco de comunismo, alimentando tensões que acabaram rompendo na revolta dos marinheiros em 28/03. Os revoltosos foram contidos e liberados sem punição.

    E mais, na madrugada fatídica do golpe, 31 de março, Jango foi alertado por seus chefes militares que tropas golpistas marchavam para depô-lo e avisaram-no insistentemente que precisava ordenar uma contraofensiva imediata. Ele confiou na saída política e sofreu o golpe. Quem poderia ou, mesmo hoje, pode adivinhar qual teria sido o resultado? Ainda que Jango tivesse aceito a guerra civil, com o alto preço – em vidas, dos dois lados – a pagar, ainda que tivesse derrotado os golpistas, seria uma vitória? Um projeto de país alicerçado em sangue teria dado certo?

    Aproveitando o raciocínio sem fazer comparações: Seria realmente correto interpretar Lula e Dilma como fracos? Não resta dúvida que o cenário de 64 é análogo ao atual em seus principais protagonistas: um governo popular acuado pela campanha criminalizatória de uma imprensa mercantilista, que serve, sem nenhum pudor, um coquetel de desinformação composto pela magnificação de erros reais, mais uma multidão de factoides, realizando os sonhos mais ardentes do mercado, numa equação onde sempre ganham: juros altos e governo sitiado.

    Os movimentos sociais que poderiam defender o governo, no fundo, também não se reconheciam nele. A esperança foi dando lugar a desilusão, descrença, repúdio e finalmente ódio que afogou os que ainda estavam delicadamente ligados a social democracia. Penso que isso tipifica a componente emocional que constitui o maior obstáculo à reconciliação deste contingente com o projeto social democrático, alimenta essa onda de ódio e conservadorismo anacrônicos que parecem distorcer a percepção de tempo linear para curvo, repetindo eventos num ciclo interminável.

    Penso que tanto a componente da emoção como a última, da ética, estão diretamente relacionadas por causalidade com a da política. A classe média, silenciosa desde 1964 começa a bater panela e a reunir revoltados. Bolsonaros, Skafs e líderes religiosos reacionários falam de moralidade que, na verdade, serve para encobrir suas preferências ideológicas, ainda que o preço seja o retorno ao retrocesso.

    Professor, não sou ligado a nenhum movimento social, nem afiliado a nenhum partido. Estava sentado no sofá desde o Fora Collor e resolvi voltar às ruas em 31/03 no Ato pela Democracia, aqui no Rio. Encontrei indiferença de pessoas muito próximas, no local de trabalho que se limitavam a responder ao convite para as ruas com individualismos tipo: “É em favor de quê?”, “É de partido político?”, “Se for pró-Dilma/pró-PT, não!”, colocando em segundo plano, bens mais importantes: a democracia e os direitos sociais duramente conquistados durante 13 anos.

    Se a pessoa está empregada, acha que a falta de emprego é problema do desempregado, que após os reacionários consolidarem sua vitória, o chefe de tantos anos, não vai seguir a cartilha do arrocho e que trabalhador esforçado de verdade não fica desempregado. Em último caso, não tem emprego, mas tem trabalho (bico). Ressuscitam algo que não sabem o nome: o mito do “self-made man” (homem que se faz-se por conta própria, autossuficiente), que já encontrou sua contradição e seu desmascaramento na grande depressão de 1929, lá mesmo onde surgiu, nos EUA.

    Assim, primeiro encorajam os piores instintos que temos: medo, ódio, desespero e depois viram isso contra nós. Este grande esquema foi utilizado pelos EUA ara derrubar governos populares desde a Guerra Fria e baseia-se numa teoria também cunhada por eles, chamada Teoria do Dominó, que como o nome já anuncia, consiste em administrar eventos para reações em cadeia, como numa fileira de dominós.

    Estive também no Fora Temer, Lula na Lapa, Ato por Todas Elas e no Todas Elas com Dilma e também no ato contra a LGBTFobia e percebi, no decorrer das manifestações, alguns cartazes, raros, pelas eleições gerais e vi o mesmo discurso na mídia independente que costumo acompanhar. Fiquei confuso, de início,mas depois li nos mesmos canais que trata-se da tese que Dilma seria impotente para governar em conjunto com as câmaras federais de hoje.

    Professor, não tem como deixar de apoiar quem defenda um Brasil inclusivo, mas tenho minhas ressalvas. No primeiro mês a proposta era a legalidad. Bastou outro mês para mudar a direção para as eleições gerais? Até onde eu saiba, a direita não jogou a toalha e muito menos deixou de utilizar a mídia hegemônica em favor de seus objetivos. Ao contrário de nós, tenho a impressão que sabem muito bem o que e como querem, nos deixando em constante desvantagem.

    Apesar disso, rompeu-se o véu do golpe e a maioria, na véspera do impedimento já não acreditava mais ser essa a solução. Porém, apenas isso não vai eliminar a desilusão, desconfiança e o ódio que foram disseminados. Não é o bastante para a nação reconciliar-se. Não vejo pleno apoio da esquerda a Dilma, infelizmente. Tenho a impressão – espero estar errado – que é como um jogo de morde-assopra, onde os interesses partidários individuais – de olho na sucessão – ainda não passaram para o segundo plano, da mesma forma que vi meus colegas no trabalho impondo mil condições para irem pra rua.

    Como leigo em política, não consigo deixar de indagar: Será que as lideranças de esquerda não perceberam ainda que esse ciclo de ruptura e reaglutinação, de política do improviso nos trouxeram a esta situação, em primeiro lugar? Será que precisaremos sonhar com um “Brasil Prometido”, vaguear por 40 anos no deserto da crise até não sobrar mais nada ou quase nada? Há quórum suficiente para preencher todos os gabinetes só com gente boa? Vão fazer o pleito debaixo do mesmo sistema vicioso que também nos trouxe até aqui? Se essas questões não preocupam as lideranças de esquerda, com certeza seus problemas serão o regalo dos fascistas e golpistas.

    Indiferente de partido, entre erros e acertos, entendo que o Brasil deve a si mesmo a oportunidade de aceitar a proposta no discurso da posse de Dilma no segundo mandato, na Praça dos Três Poderes. Cito trechos: “Assumo aqui com vocês, nesta praça, o meu compromisso …vamos fazer sim ajustes na economia mas isso sem revogar direitos conquistados ou trair nossos compromissos sociais …juntos com a dignidade …Mas, para conseguir avançar preciso, mais do que nunca, do apoio e da compreensão de vocês. Quero pedir o apoio de todos, de Leste a Oeste, de Norte a Sul do Brasil … o povo brasileiro tem o direito de dizer, nenhum direito a menos, nenhum passo atrás, só mais direitos e só o caminho à frente”.

    Dilma, na ocasião, não convocou a cúpula do PMDB, principal aliado à época, chamou o povo para construir uma pátria educadora, próspera e justa. Tenho certeza que, como presidenta, não acertou tudo, mas essa crise internacional, em outros tempos, teria sido suficiente, sozinha, para destruir tudo. Precisamos de muitos Leonardos Boff, Chicos Buarques, Wagner Mouras, Darcy Ribeiros, Oscar Niemeyeres, Josés de Abreu, Betes Mendes – anônimos – multiplicando esperança e boa fé. Ainda dá tempo de escolher a construir um Brasil para o povo.

    Por último, peço desculpas pelo texto longo, professor Boff. Em tempo: asistindo um canal chamado TV Afiada, pensei que seria bom para o internauta, seguindo este modelo de crônicas rápidas, porém importantes, assistir vídeos de dois a três minutos que lboff possa postar, para encurtar a distância com o grande público. Fica a sugestão. Abraços.

    • 28/06/2016 1:10

      Charles, suas ponderações são corretas e concordo com elas. Tanto o Lula quanto a Dilma não fizeram nenhuma reforma necessária, quando, com o apoio popular que tinham poderiam ter feito ou tentado: a política, a tributária, a agrária. Fizeram a classica politica da conciliação de classes que eu analisei em vários artigos que vem desde o império. So garantiu a Casa Grande nunca atendeu a senzala. Até hoje. As politicas sociais do PT criaram só consumistas mas não cidadãos que pensam. Assim não se avança. A direita está se aproveitando da crise para voltar triunfante, não mais com os tanques mas com a judicialização da politica num conluio entre politicos, STF, Policia Federal e mídia conservadora. Podemos conhecer esse tipo de golpe branco que permite aos do privilégio voltar e construir um Estado que lhe interessa e sempre de costas ao povo. lboff

    • Edgar Rocha permalink
      28/06/2016 18:56

      Sr. Charles, também faço minhas tuas palavras. Eu também fiz um comentário na postagem “Sinceramente, o Brasil tem Jeito?”. Infelizmente, talvez por problemas na rede ou no meu computador (não tenho dúvidas de que isto é o mais provável) não foi veiculado, mas que seguia a mesma linha de análise tua.
      Minha única ressalva, e o sr. Boff já a conhece, é a de que não podemos mais nos fiar pela esperança. Ou temos a certeza daquilo que pretendemos ou vamos ficar planejando e construindo o “possível”, dando um passo adiante e dois para trás. Minha certeza é de que já não há mais lugar para o humanismo num sistema que se fia pelo consumo e que está referendado tanto pela esquerda como pela direita. A diferença entre a quantidade de pessoas inclusas na lista de benefícios, bem como a qualidade deste benefício, dependendo do projeto de país que se tem (de esquerda ou de direita) acabam por se tornarem pontuais diante da enorme desigualdade da qual este sistema necessita para existir.
      Ainda acho que nossos olhos devem estar voltados a dois exemplos de discurso: o primeiro o do Papa Francisco. Este nos dá a base argumentativa sólida para a ruptura ao sistema. O segundo é o do Presidente Mujica. É ele que, a despeito de sua figura subestimada pela esquerda, nos mostra a solução prática para uma resistência concreta e desarticuladora de tudo que nos aprisiona ao capitalismo ultra-liberal que avança. Afinal de contas, quem precisa de guerra, de hiperconsumismo, de destruição, de manipulação total? O retorno à frugalidade proposto por Mujica me parece possível, concretizável e urgente. E é esta urgência o nosso maior trunfo.
      Fiquei desoladíssimo quando naquele discurso do Lula, logo após sua condução coercitiva, afirmou com todas as letras que a solução para o país é aumentar o consumo e fazer fluir a economia. Também me entristeci quando assisti no documentário sobre sua campanha política ele falar que seu maior sonho era virar “classe média” e que iria fazer de tudo para não descer de novo. Classe média, meu Deus? Soma-se a estas falas reveladoras, aquela em que ele assume ter sido completamente favorável ao corporativismo e que se sentia traído pela PF, justamente por dar à mesma o direito de organizar-se de forma corporativa, algo que no momento se volta contra ele. E ele não dá sinais de revisão de nada atualmente.
      Se quisermos apostar nas organizações sociais e seu fortalecimento, não podemos tentar rearticulá-las a partir de paradigmas que já estão fedendo de tão ultrapassados. É preciso oferecer algo novo, em consonância com os anseios dos que estão sendo atingidos mais diretamente. São aqueles que já estão no fundo do poço faz tempo é que podem aplicar a novidade com a certeza necessária para bancá-la e mantê-la.
      É preciso recristianizar os mais humildes. É a eles que se dirige o Cristo. É com eles que sempre houve o recomeço. É com os que não vivem de esperanças, mas com a certeza de que nunca serão contemplados por este mundo que devemos criar o novo. E ele durará por mais dois mil anos. Isto é certo, como é certo que já ocorreu muitas vezes e é fato experimentado e comprovado. Os esperançosos que venham a reboque.
      Meus respeitos.

      • 02/07/2016 15:59

        Edgar não tenho disto e escrito outra coisa do que vc disse:a centalidade dos pobres, de onde nos pode vir uma possivel solução.Veja a série de artigos meus nesse blog além dos livros. Não é justo dizer que a esquerda não dá valor ao Mujica. Muitas veze vem ao Brasil não a convite dos empresários mas dos movimentos sociais e de grupos de esquerda. Em março tive uma conversa de mais de 1,30 horas em sua chácara pero de Montevideo cujo resumo conste neste meu blog. Temos total sintonia de sonhos e projetos. lboff

  8. Evans M Leoni - advogado permalink
    28/06/2016 10:16

    É isso! Disse tudo! A lógica ilógica de mercado transformará tudo em mercadoria, o homem, a terra e a natureza, consumindo tudo até que não sobre mais nada, isso para beneficiar uns poucos, no fim o télos imperalista se puder anexará mundos em sua voracidade sem fim (H. Arendt).

    Visão lúcida de um homem vivido e sábio, perdoe-me mestre Boff mas não há esperança, estamos em uma época de “no mercy”.

    • Marizia Lippi permalink
      02/07/2016 22:30

      “Alguém orou pedindo a Deus que tudo o que sua mão tocasse, se transformasse em ouro. A oração foi atendida. Quando tocava em um alimento, este se transformava em ouro. Morreu de fome”. Muitos são dignos de pena, pela inversão de valores em que vivem! Jesus deu a Vida para colocar em prática a Misericórdia de Deus para com a criatura rebelada. Pe. César Moreira do Santuário de Aparecida tem comentado que, de 3 pessoas no mundo , só 1 conhece Jesus Cristo. E, infelizmente aquelas que o conhecem, a maioria não o levam a sério. Por curiosidade fiz na Internet uma experiência : coloquei a palavra CRISTIANISMO. Resposta: “A maior tapeação que já existiu!”. Eu me sinto CRISTÃ DE ÚTERO MATERNO.

  9. igor peron permalink
    28/06/2016 12:35

    boa tarde Leonardo Boff, quero aqui expressar que sou um grande admirador de sua pessoa. De ante mão quero indagar que quando Lula assumiu a presidência da república em 2003, os movimentos sociais de certa forma se pairaram mediante a Lula está na presidência e acharem que ele iria resolver todos o problemas, mas para Lula chegar á presidência precisou de apoios políticos e a força dos movimentos sociais, isto foi fato. A questão que pretendo trazer é que este grupo de apoiadores políticos na época de certa entranharam no governo Lula, onde seus interesses tiveram que ser atendidos , mediante a isso podemos destacar aqui á reforma agrária no Brasil. ´´ACREDITO EU QUE PARA DARMOS UM PASSO PARA A VERDADEIRA DEMOCRACIA , É NECESSÁRIO PRIMEIRO Á REFORMA AGRÁRIA NO BRASIL´´, pois sabemos que o congresso está cheio de ruralista, então como podemos esperar que estes possam fazer as mudanças que queremos?
    Sou jovem agricultor agroecológico, estudante do curso de licenciatura em educação do campo (ufv, viçosa-MG) tenho apenas 19 anos, meus anseios políticos sociais democráticos se passeiam na minha curta mais grandiosa escola da vida a dos movimentos sociais. Como diz meu pai ´´A cabeça pensa onde os pés pisam´´ a nossa politica democrata está conturbada, chegou uma nova etapa da história onde os jovens mais uma vez serão protagonista dessa historia, mas dessa vez a historia se faz presente.

    ´´Juventude que ousa lutar, construí o poder popular´´

    Um forte abraço Leonardo Boff.

  10. 04/07/2016 23:02

    Republicou isso em Paulosisinno's Bloge comentado:
    Leonardo Boff​: “Para onde vamos? Impasses da atual crise brasileira”

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